Nilton Marlúcio de Arruda: “Aproximar a beleza poética dos fados das histórias fictícias”

Brasileiro a viver em Portugal desde 2016, rapidamente se apaixonou pelo nosso fado. Neste processo de aproximação às pessoas, à cidade do Porto e às sua vivências,  escrever estas oito histórias foi o passo seguinte. O fado foi a inspiração e as histórias são bem portuguesas com um sotaque saboroso do Brasil. E já existem mais projectos para um futuro breve.
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P-O que representa no contexto da sua obra literária o livro “Contos de Fado”?
R-Um passo a mais na minha pretensiosa carreira de escritor. Penso que é um trabalho que resulta do aumento da minha maturidade nesse universo de escrever, submeter a uma editora e publicar. A obra também me aproxima do leitor português e do mercado editorial de Portugal. Vivo no Porto desde 2016 e, aos poucos, vou conhecendo melhor a cultura literária portuguesa. Escrever contos inspirados na essência do fado é um pedido de licença para apresentar as minhas letras de ficção.

P-Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- Aproximar a beleza poética dos fados das histórias fictícias. Personagens, enredos e reviravoltas, tão presentes nas canções imortais, são argumentos perfeitos para os oito contos que compõem o livro. Não é uma obra cantada, mas a melodia e os lamentos fadistas estão bem presentes nas aventuras. Do drama das carquejeiras do Porto à carência material da Dona Aurora da abóbora boreal, as histórias são movidas por um sentimento de resistência, esperança e humanismo em cada um dos personagens.

P-Sendo brasileiro, como entrou o fado português na sua vida?
R- Gosto muito de música. Principalmente, das letras das canções. Tal qual adoro a literatura. O meu envolvimento com estas áreas por força do trabalho de comunicador – jornalismo, docência, produção de conteúdos, programas de rádio e TV, etc. – sempre me chamou a atenção. A vinda para Portugal trouxe a música local para mais perto de mim. Para além do prazer de ouvir os fados, fui motivado a pesquisar um pouco mais sobre a cultura fadista. Também devido à investigação de doutoramento no Porto – “Jornalismo e Estudos Mediáticos” – onde tentei perceber melhor todas as formas de expressão da gente de cá.

P-E como chegou à sua escrita?
R- A escrita é que chegou a mim. Diria que desde o berço. Na infância, faltavam folhas de papel, canetas e livros, mas sobravam ideias e imaginações. Aproveitava as fotografias dos jornais e reescrevia os textos em papel de pão para o meu “semanário” particular. Ninguém lia. Tinha vergonha de mostrar às pessoas. Rabiscava as minhas “novelas” e os meus “romances”, quer dizer, anotava os argumentos para um dia, quem sabe, desenvolver as histórias. Após os 60 anos, esse dia chegou. E passei a arriscar nos contos e romances. Os poemas, por sua vez, sempre existiram e ficaram guardados nos cadernos da vida toda. Assim, chegaram às livrarias: “Memória pós-cera de Abílio Abelha” (2021), “Voz e Contexto” em poesia falada (2023), “Sem tempo para a poesia” (2024), “Ao norte, todos os gajos são parvos” (2025) e “Contos de fado” (2026).

P-Pensando no futuro: o fado (ou algum outro tema bem português) continuará presente ou o que está a escrever neste momento são já outros caminhos?
R- Sim. Graças a Deus. Já está em análise pela editora a continuação dos “Contos de Fado”. A obra chama-se “Contos de Santiago: relatos de quem (não) fez o Caminho”. São 24 histórias de ficção ambientadas no trajeto português de Compostela. Dramas, milagres, (des)encontros e muitas metáforas nos trajetos de fé. Os contos estão organizados em quatro estações: religião, família, trabalho e paixão.
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Nilton Marlúcio de Arruda
Contos de Fado
Urutau  14€

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