Javier Cercas: “Sou escritor porque perdi a fé”
CRÓNICA
| agostinho sousa
Eis um livro que estava na lista de compras quando, mão amiga e colega de trabalho mo ofereceu no Natal passado, sabendo da minha postura de ateu convicto e timidamente anticlerical.
É um livro sobejamente apresentado nas críticas literárias deste conhecido autor, pelo que me vou remeter a uma abordagem do prazer que me deu na sua leitura.
De Javier Cercas, li 4 dos seus livros de que tenho o privilégio de mos ter autografado quando esteve presente no Porto, em 15/10/2023. Privilégio não só pelo carinho das dedicatórias como pelo tempo que o autor dispensou comigo numa conversa bastante agradável e sem pressas.
Este livro é um daqueles acontecimentos insólitos que tinha todas as condições para que não fosse escrito por este autor, cujo convite partiu de representantes de uma religião em que ele não acredita de todo, motivado a acompanhar o papa a uma visita à Mongólia.
Porém, depois da surpresa de Javier Cercas, perante o primeiro impacto do convite para o escrever (naturalmente) com plena liberdade, aceitou o repto com uma pergunta que o irá perseguir até ao fim da sua escrita. Para isso, explicita o mote de tal anuência nas palavras iniciais do livro:
«Sou ateu. Sou anti-clerical. Sou um laicista militante, um racionalista obstinado, um ímpio inveterado. Mas aqui estou viajando em direção à Mongólia com o velho vigário de Cristo na terra, disposto a interroga-lo acerca da ressurreição da carne e da vida eterna. Foi para isso que embarquei neste avião: para perguntar ao papa Francisco se a minha mãe verá o meu pai depois da morte e para lhe levar a sua resposta. Eis um louco de Deus perseguindo o louco de Deus até ao fim do mundo.»
Curiosamente, mais à frente, menciona «uma confissão obrigatória: sou escritor porque perdi a fé.»
Depois há um relato muito vivo dos acontecimentos, numa escrita sucinta, mas que congrega muitos elementos: desde a partida para Roma, os encontros com os padres que o convidaram, a comitiva que irá encontrando, os insólitos e as coincidências que temperam as relações humanas; e uma vontade, expressa desde o primeiro momento aos promotores de tal missiva, de tentar fazer a dita pergunta, olhos nos olhos, ao papa.
O relato é articulado com particulares encontros com diversas individualidades (entre as quais o cardeal e poeta Tolentino Mendonça), reflexões históricas sobre a religião, misturando leituras e pensadores; em síntese, sobre o papel do papa enquanto representante máximo de uma religião e uma instituição, com as suas características e tomadas de posição, neste conturbado mundo em que vivemos. E sempre com uma ironia muito fina, que enriquece e tempera o seu propósito.
Para além da agradável leitura deste livro que, apesar das quase 450 páginas, se lê de uma penada, fico mais descansado pois poderei dizer, de forma mais convicta e amparada que sou anticlerical; pois o papa, representante máximo da igreja católica, também o é: entendendo o clericalismo como uma postura elitista e sobranceira de alguns dos representantes do clero.
Não resisto a transcrever aquilo que o autor escreveu quando chegou à Capela Sistina, num encontro reservado a algumas individualidades que acompanharão o papa à dita viagem:
«(…) enquanto ouvia aquela música sobrenatural sob os frescos temerários de Miguel Ângelo e a sua interpretação do relato alucinante do Génesis, quase a reviver a minha experiência mística com Bach no metro de Barcelona, lembrei.me de uma frase de Emil Cioran («Deus não faz ideia de quantos crentes deve a Bach») e disse para comigo que, se não me convertesse ao catolicismo naquele momento, era porque estava imunizado contra ele.»
Por fim, como se propôs Javier Cercas, «ao escrever este livro. Para poder perguntar isso ao papa, a sós. Para ouvir a sua resposta. E para, mais tarde, a transmitir à minha mãe», obterá a dita resposta à sua pergunta primordial, junto do papa, transmitindo-a à sua mãe, católica convicta e praticante, apesar do seu debilitado estado de saúde e com alzheimer. Missão cumprida!
Espinho, 11/08/2026
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Javier Cercas
O Louco de Deus no Fim do Mundo
Porto Editora 22€


