Pandemia: interrogar e compreender

Crónica
| J. A. Nunes Carneiro

O ano de 2020 será, na histórias das nossas vidas, um tempo que não iremos esquecer tão cedo. De um problema aparentemente localizado e distante, tornou-se rapidamente numa tragédia à escala global, com efeitos reais e devastadores para as pessoas, para as economias e para os modos de vida que se alteraram de forma inusitada. Talvez pela dimensão e pela profundidade desta pandemia, vários foram os autores que reflectiram sobre a sua origem, os seus impactos e também sobre o futuro. Em escassos meses, chegaram às livrarias diversos livros em que filósofos, historiadores, economistas, cientistas e outros pensadores tentaram interpretar e compreender a pandemia e de que forma poderá mudar o mundo. Felizmente, mesmo num momento de grande dificuldade, as editoras portuguesas contribuíram para que essas obras chegassem aos leitores portugueses com uma grande rapidez.

Permitam-me que, por agora, referenciemos as que considerámos mais 10 importantes:6y6wfutura destes fenómenos que podem mesmo por em causa a nossa sobrevivência. Um livro que nos traz a visão da ciência mas que, mais do que tudo, é um alerta sobre o que tem de mudar.

-Paolo Giordano, Frente ao Contágio  (Relógio d’Água, 10€): conhecemos o autor muito provavelmente como romancista (A Solidão dos Números Primos, por exemplo) mas ele é doutorado em Física. E, neste conjunto de breves ensaios, é um misto de cientista e de pensador que nos interroga sobre os nossos medos e sobre a ignorância. Sobre a vida não de uma cidade ou de uma casa, mas sim sobre a vida de todos os seres humanos e todas as relações que existem mesmo que nem sempre sejam claras. A visão e os factos que Giordano apresenta aparentemente simples são interrogações urgentes.

-Adam Kucharski, As Leis do Contágio  (Ideias de Ler, 17,70€): Kucharski reflecte sobre a pandemia e sobre previsões. Como surgem, se desenvolvem e desaparecem os “fenómenos virais”. Mas, a sua visão centra-se no enquadramento destes fenómenos no comportamento humano. E, por extensão, nas decisões que tomamos a nível pessoal, nas informações (e sua fiabilidade) que estão na origem de decisões colectivas. Um importante contributo para nos interrogarmos sobre o que realmente se passa. Sem falsas expectativas e procurando sempre os factos que muitas vezes determinam a nossa vida.

-Jaime Nogueira Pinto, Contágios. 2500 Anos de Pestes  (D. Quixote, 18,90€): uma obra com uma clara visão de um historiador que percorre e nos faz companhia ao longo dos últimos 2500 anos. Como têm sido os contágios e as pandemias: peste negra, gripe espanhola ou a actual. Importante ter esta visão de longo prazo que só a História permite. Com o autor, verificamos o que persiste há muitos e muitos anos e, ao mesmo tempo, as mudanças que ocorreram (ocorrem) e de que forma por vezes somos surpreendidos sem razão. Muito bem escrito e documentado. Interligando as múltiplas dimensões que estão em causa e das suas expressões nos comportamentos, na literatura ou no pensamento de cada época.

-Frank M. Snowden, Epidemias e Sociedade-Da Peste Negra ao Presente  (Edições 70, 35,90€): uma extensa e profunda história das epidemias e dos seus reflexos nas sociedades. Um livro que teve origem num conjunto de lições na Universidade de Yale onde o autor teve como objectivo explicar os fenómenos virais aos estudantes, a partir de uma perspectiva muito ampla e interdisciplinar, “as formas pelas quais as doenças infecciosas desempenharam um papel substancial na modelação das sociedades humanas e continuam a representar uma ameaça sua sobrevivência. Um objectivo plenamente alcançado desde a peste negra aos nossos dias, passando pela “gripe espanhola, pela SIDA, pela gripe das aves e outras epidemias. Uma vez mais, uma obra onde a dimensão da espessura do tempo e da História é essencial.

-Bernard-Henri Lévy, Este Vírus que nos Enlouquece  (Guerra e Paz, 12€): o conhecido filósofo francês num breve ensaio defende que, após a pandemia, devemos regressar ao uso modo de vida. Ao mesmo tempo contesta a ideia de que, a partir de agora, nada será como dantes. O autor tenta, em primeiro lugar, contextualizar a actual pandemia: não é a primeira, não é a mais forte em efeitos e, provavelmente, não será a última. O que o desespera é a tirania que se está a viver tendo por aliada a urgência sanitária e o “delírio higienista”. Tudo conciliado para, em primeiro lugar, condicionar a liberdade dos cidadãos a nível global. E depois para reforçar os poderes que desejam a obediência cega e o conformismo.

-Donatella Di Cesare, Vírus Soberano? A Asfixia Capitalista  (Edições 70, 11,90€): a professora da Universidade de Roma coloca o centro da sua atenção nos efeitos da pandemia e nos consequentes perigos que antecipa em termos de crescimento das desigualdades e no risco de ameaças às liberdades com reforço dos autoritarismos. O corona vírus é um “vírus soberano” que, pela sua presença e disseminação, evidenciará ainda mais a “crueldade do capitalismo” pois é gerador de grandes disparidades sociais: uns poucos a serem protegidos, a maioria de desamparados e excluídos (no emprego, na saúde, na vida). Interrogação final: conseguiremos aproveitar a crise para dar um salto e criar uma alternativa transformadora?

-Ivan Krastev, O Futuro por Contar. Como a Pandemia via Mudar o Nosso Mundo  (Objectiva, 12,90€): como analista político, Krastev tem um ponto de vista que pretende ser global interpretando o todo da humanidade e as transformações e paradoxos qe estamos a vivenciar. Será possível continuar com a globalização (económica, social, cultural)? Assistiremos a uma alteração na hegemonia mundial com reforço da China e recuo da Europa? A própria Europa como poderá sair de toda esta situação (além das questões globais como resolverá os seus problemas internos)?

-José Gil, O Tempo Indomado  (Relógio d’Água, 18€): o conhecido filósofo português já nos habituou ao seu olhar ao mesmo tempo próximo e distante na interpretação dos nossos dias e do nosso país. Agora, tendo por pano de fundo a pandemia, José Gil continua a sua reflexão sobre Portugal e os portugueses neste ano complicado, nesta crise que atravessa as nossas vidas e nesta incerteza que domina os nossos pensamentos. Um livro com ideias acutilantes: “Ninguém esta preparado para viver esta situação, um presente em sobressalto, com um passado inútil, subitamente tornado inconsistente, e um futuro ausente, desfeito em mil pedaços“. Por isso, conclui: “Todo o problema está em determinar 0 “momento” em que a crise nos obrigará a agir colectivamente, saindo da passividade e da inércia ancestrais“. Nem mais.

-Slavoj Zizek, A Pandemia que Abalou o Mundo  (Relógio d’Água, 16€): Zizek coloca uma questão essencial neste que foi o primeiro livro a surgir de reflexão sobre a pandemia e seus efeitos: “o que está errado no nosso sistema para termos sido apanhados desprevenidos por esta catástrofe, apesar de os cientistas estarem há anos a alertarmos para a sua possibilidade?“. E, tentando responder, avança que não haverá regresso à normalidade. O “novo normal” será “construído a partir das ruínas das nossas vidas antigas” ou, pelo contrário, entraremos “numa nova barbárie cujos indícios já são nitidamente visíveis“?

Esta não pretende ser uma lista exaustiva de tudo o que há para ler. É, certamente, uma escolha pessoal. Mas, agora que já todos começamos a perceber o que nos está a acontecer, é importante pensar e contribuir de forma informada para as soluções. Seja a nível social, seja a um nível mais simples (mas decisivo) das nossas micro-escolhas pessoais. Tudo conta. Estamos todos interligados ao nível do planeta. Todas as vontades contam.