Byung-Chul Han: cuidar da Terra e agradecer

CRÓNICA
| Célia Gomes
Ler o jardim do Louvor da Terra que Byung-Chul Han plantou com palavras de amor e regou com poesia é como contar pétalas de flor em alto mar. É um milagre raro, colorido e emotivo. Ao contrário de outros livros de ensaios que já li deste autor, com conteúdo filosófico brilhante, denso e intenso, este é luminoso como um sol dourado, que brilha pelo facto apenas de existir e irradia luz por onde passa, o mesmo dizer, por quem tem a sorte de o ler. Estes textos poéticos e filosóficos nasceram não na mente deste escritor, mas sim na sua alma, na vontade nostálgica de comungar com a terra e conhecer os seus segredos. E por isso e para isso começou a fazer crescer um jardim, no qual trabalhou durante três anos e ao qual deu o nome de jardim secreto e no qual germinaram as sementes destes ensaios que ouso chamar de diário fragrante de um poeta. «O trabalho de jardinagem foi uma meditação silenciosa, um demorar no silêncio. Tenho desde então a convicção profunda que a terra é uma criação divina». E ao longo das suas meditações ensaio, às quais dá o nome de flores, como «Acónito de Inverno», «Flor de Salgueiro», «Anémonas»,«Hostas»,e onde não só descreve estes delicados seres da flora mas sobretudo faz divagações existenciais, sobre o Homem e sobre o mundo. Nomeadamente, no seu ensaio denominado hostas , espécie vegetal que dorme à sombra das dedaleiras (outra espécie botânica) ingressa no digital, por o nome latino dessa planta ser «digitalis», que se refere ao dedo, que por sua vez na sua etimologia latina, se emprega para contar. Assim, segundo o autor, a cultura digital baseia-se apenas nos números, enquanto a história é uma narrativa que se conta, que se descreve, que emociona. E chega a conclusões que nos acordam a mente e a alma, «o que se faz no Facebook com os amigos é numerá-los. Mas a amizade é uma narrativa. A época digital numera o numerável. Até mesmo os afetos são contados sob «likes». Mas para além destas digressões polémicas, fala de aromas, de paladares, de cores! Das cores das flores em todas as estações. Porque a vida , a nossa vida não deixa de ser um conjunto estruturado de estações temporais. E recorre a Cézanne e a Goethe para o ajudarem nesta missão «na teoria das cores de Goethe, o azul, ao contrário do amarelo, tem algo de obscuro. É sobretudo uma cor do longínquo. O azul é a cor da sedução, do anseio e da nostalgia. O Amarelo é demasiado brilhante e despreocupado». Se calhar é mesmo! E também evoca Schubert e canta o «Amor de poeta» de Shumann trazendo música para a sua escrita. E visita muitos outros como Nietzsche (um dos meus filósofos prediletos!) e Arendt e Kant. E afirma «que o conhecimento é amor. O olhar amoroso, o conhecimento guiado pelo amor redime a flor da sua carência ontológica. O jardim é um lugar de redenção.»Os jardins transformam-se nas mãos de Byung em templos , em lugares sagrados de oração. Não posso deixar recordar o meu pai quando ele, no meio do que parecia um nada, rodeado de urze, abelhas e vento murmurava «Ó natureza, a verdadeira bíblia és tu». Texto bíblico é também o intitulado «sobre a felicidade», principalmente »a terra é uma fonte de felicidade. No jardim descanso das fadigas da vida». O «Victoria Amazonica» também mereceu aminha vénia e ainda hoje refleto no seguinte «Eu medito sobre a mão do jardineiro. Que toca ela? É uma mão amorosa, que espera paciente. Toca o que ainda não existe. Cuida da distância». Ao que se segue uma digressão na diferença entre o tocar e o manusear, sublimando o toque ao manuseamento. Rendida fiquei também com descrições do livro que me provocaram alucinações visuais no meio do mar onde li a obra, e «vi claramente visto»»as minhas flores preferidas: girassóis, camélias , miosótis e papoilas a crescerem e germinarem ao meu redor. O louvor da Terra fez-me também pairar noutras obras que me são queridas, desde o «Principezinho» e a sua devoção pela rosa que cuidava, até ao Rapaz de Bronze Sophia de Mello Breyner. Tantas páginas bonitas, tanta subtileza escondida na ramagem das palavras. Palavras sem espinhos, palavras raiz evocativas do fundamental, o louvor à terra. Palavras e desenhos, pois aparecem plantadas ao longo da obra, ilustrações das plantas que Byung cuidava no seu jardim. É de cuidar que se trata. Cuidar da terra e agradecer. E a título de agradecimento pessoal à terra, finalizo este já longo comentário com uns versos do poema «Il y avait un jardin», de Moustaki, com que Chul Han inicia o seu «diário do jardineiro»:
«Havia um jardim que se chamava terra.
Tão grande que milhares de crianças podiam habitá-lo.
E que os nossos avós tinham habitado na sua época.
(…) Onde está esse jardim onde poderíamos nascer
Onde poderíamos viver despreocupados e nus?
Onde está essa casa com todas as portas abertas
Que procuro ainda e que já não descubro?»
Onde estará, quem a escondeu ou destruiu? Pus a mão na minha face e tal como a Adorno (quando se refere à música de Schubert) «as lágrimas correram dos olhos sem perguntarem primeiro à alma».
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Byung-Chul Han
Louvor da Terra
Relógio d’Água 17,50€

