César Aira numa espécie de desalinhavo da realidade

CRÓNICA
| Rui Miguel Rocha
Comprei o livro pelo título à espera de uma versão sul-americana de “O Prémio” de Irving Wallace. É claro que não encontrei nada disso, nem semelhante, antes uma espécie de desalinhavo da realidade.
Livro desconcertante, por vezes onírico, um quadro de Dali, um filme de Buñuel, um sonho marado. Bem escrito mas não o teria acabado se durasse mais. Ainda assim tirei muitas notas. Não conhecia César Aira e duvido que alguém o conheça verdadeiramente.
Começa numa viagem à Venezuela, onde o narrador descobre o segredo do “Fio de Macuto”, deixado ali por piratas ancestrais com um tesouro escondido numa espécie de dispositivo mecânico por desvendar. É assim que enriquece para poder dedicar-se a outras aventuras, como um congresso de escritores onde o narrador, também escritor e cientista louco, pretende clonar nada menos do que Carlos Fuentes. Aira é considerado um escritor contemporâneo, mas a sua escrita desenfreada ou, como o próprio diz em entrevistas, em vez de editar o que escreve, escreve sem editar fugindo para a frente “fuga hacia adelante”, levando-o, por vezes, ao extremo do surrealismo do passado, como no caso das lagartas verdes gigantes ou bichos da seda que saíram da gravata do escritor a clonar. Confusos? Eu também, confesso que pelo menos um pouco ou bastante.
Mas depois temos também a procura da personalidade na mente humana ou a forma como as coisas se organizam cá dentro “cada homem é dono de uma mente com poderes que podem ser grandes ou pequenos, mas que são sempre únicos, seus.” Individualidade, portanto. Mesmo na clonagem? “Clonar um génio! Era o passo decisivo. A partir daí, o caminho para o domínio do planeta estava livre.” Uma espécie de doutor Doofenshmirtz ou de vilão fleminguiano a precisar de internamento psiquiátrico prolongado. Até porque “por mais projectos de mudança que façamos, nunca mudamos voluntariamente o nosso fundo”, mesmo que ele esteja um pouco superficial.
Há sempre ânsia de mudança nos génios do mal (talvez também nos do bem, embora com menor pressa e intensidade), isso faz com que queiram uma revolução, mesmo se essa revolução leve a um conservadorismo bacoco e, por vezes até, a um regresso ao passado onde tudo parece doce, mas talvez não o seja. Daí a questão “como atravessar com o olhar os muros do presente?”, tanto para a frente como para trás, entenda-se. Aura talvez se encontre na tradição argentina fantástica de Bioy Casares, mas não se aproxima da genialidade do autor de “La Invención de Morel”. Até porque lhe falta um amigo da dimensão de Borges. Mas o que fazer? “Há sempre alguma coisa de real no que acontece, é inevitável.”
Neste caso é difícil lá chegar.
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César Aira
O Congresso de Literatura
Cavalo de Ferro 15,15€

