João Reis Alves: “As eleições de 1986 foram um marco para a democracia portuguesa”

1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu livro “A Segunda Volta. 1986: As Eleições que Mudaram o País”?
R-A segunda volta foi marcante. Foram manifestações de apoio para Mário Soares e Freitas do Amaral únicas e pouco usuais num país que se habituou a ter uma relação fria com os seus governantes. Mas estava algo hibernada no dia-a-dia dos portugueses. Com o aproximar de umas eleições que, cada vez mais, se tornou iminente chegarem à segunda volta, surgiu a ideia: recordar em livro o que se passou em 1986. Daí começou o trabalho de pesquisa, recolha de documentos e marcação de entrevistas e, depois de muitos rascunhos, saiu a estrutura deste livro.

2-Como podemos interpretar esta sua expressão: “as eleições que mudaram o país”?
R-As eleições de 1986 foram um marco para a democracia portuguesa. Primeiro, pela eleição de um presidente civil pela primeira vez desde a Primeira República, fechando em definitivo um ciclo de mais de 50 anos de chefes de Estado militares. Mas também pela definição daquilo que foram as décadas seguintes de Portugal. O afastar definitivo do PCP de uma qualquer tentativa de direcionar os destinos do país, o começo do fim prematuro do PRD e da intervenção de Ramalho Eanes, um equilíbrio de poder entre Belém e São Bento que deu lugar a uma das eras de maior estabilidade e desenvolvimento do país. A própria integração na comunidade europeia arrancou meses antes desta eleição e foi consolidada com Soares na Presidência da República e Cavaco Silva na chefia do governo. Assim arrancou um novo ciclo na história do país, com os fantasmas da ditadura e do PREC a ficarem para trás.

3-Agora, 40 anos depois, estamos na iminência de voltar a ter uma segunda volta numas eleições presidenciais: existem pontos de contacto e semelhanças entre ambas (1986 e 2026)?
R-A primeira volta de 2026 será muito diferente. Há três vezes mais candidatos, o eleitorado está muito mais dividido, enquanto em 1986 estava polarizado entre esquerda e direita. Regressam os militares à luta pela Presidência, que já não acontecia de forma realista desde Soares Carneiro (1980). Porém, a segunda volta poderá ter semelhanças dependendo dos candidatos que chegarem à nova eleição. Um cenário António José Seguro-Marques Mendes pode gerar uma manifestação de apoio de relevo, até porque são os candidatos que conseguem ter maior mobilização nas ruas. É difícil fazer futurologia, mas há uma certeza que podemos ter. 1986 foi histórico e 2026, para o bem o para o mal, também o poderá ser. Depende de quem chegar à segunda volta e que for eleito como sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa.
__________
João Reis Alves
A Segunda Volta. 1986: As Eleições que Mudaram o País
Contraponto  17,70€

COMPRAR O LIVRO