Gonçalo M. Tavares e o fim dos Estados Unidos da América

CRÓNICA
| Rui Miguel Rocha
Depois de Gilgamesh, da Ilíada e Odisseia, da Eneida, dos Lusíadas e da Divina Comédia, chega-nos a nova epopeia, uma epopeia on the road, como não podia deixar de ser nos Estados Unidos ou desunidos da América. Gonçalo M. Tavares (GMT) tinha já ensaiado isto no livro “Uma Viagem à Índia” em versão portuguesa sem arabescos do clássico de Luís Vaz. Mas agora é que partiu a loiça toda, e partiu de tal maneira que parece um adivinho celeste, uma espécie de oráculo, não de Delfos, mas cá da terrinha. E devo dizer que não corro o risco de revelar informações essenciais neste texto, uma vez que a realidade já tratou de o fazer imitando a arte e até, em certos aspectos, sendo mais distópica que a imaginação delirante e genial de GMT. Novecentas páginas lidas na mesma altura em que vi o filme “Batalha atrás de Batalha” e em que as notícias parecem desafiar o que se lê nos livros e se vê nos filmes. Um mito grego de mote para a perdição e para a salvação de um país em colapso, nada menos que Édipo Bloom, a personagem principal desta epopeia, o salvador da cidade, do estado, do país. Jocasta e Laio, esquerda e direita, como é que, com esses nomes, não desconfiaram? Mas, enfim “Na ficção tudo é possível, até o falso.” A peste que mata pobres, a direita que os afasta e a esquerda que os quer salvar retirando-os da pobreza. Mas mais do que esquerda e direita, a culpa da divisão ou do estado a que chegaram as coisas deve-se a um materialismo exacerbado que terá começado no ser mais demonizado deste livro: Darwin. O darwinismo levou à ditadura do mérito que por sua vez levou ao egoísmo e à ganância, assim como ao individualismo e ao quero lá saber. A peste só despoletou o que já estava armadilhado para se tornar numa nova Idade Média pior que a velha Idade Média pois esta nova é negação de factos comprováveis e a outra de factos adivinháveis. Os EUA como país sem dúvidas, quem tem dúvidas fica de fora, linhas de pensamento único, a peste, o medo, polícia contra a população “a polícia funciona como uma exaltação sem causa; e certos movimentos passivos em tempo de peste podem ser interpretados como ameaças; nada é neutro”, justificações científicas estapafúrdias, novos cultos, várias fés, quase tantas como as teorias da conspiração, sobretudo verdades inventadas “Boato e alavanca são no mundo moderno semelhantes na força. Deem-me um boato e eu mudo de sítio o mundo”, e hospitais rodeados de arame farpado. Enfim, nada de novo, mas contado magistralmente. GMT inventa personagens eternas que parecem ter existido sempre, Left Wing, Bloom, Jocasta, Ted Trash, Creonte, La Rosa, Laio, Tai-Chi e tantos outros, vidas que se cruzam e distorcem, mistura de nada e de tudo, Kerouac, Platão, Dante, Camões, Pessoa (pelo menos uma vez), Rimbaud. Artistas plásticos “Sempre que põe gasolina sente-se num quadro de Hopper”, Rothko, azul Yves Klein, acho que vi lá o Vhils, mas posso estar enganado. Músicos “Johnny Cash, sim, mas também Blur, The Animals, uma antiga música dos The Cure, Dylan e Cohen, The Doors, Janis Joplin, Patti Smith, etc”, Bruce Springsteen quase a acabar, Nirvana depois. Do big bang aos nómadas e da idade da pedra até ao apocalipse americano “a maluquice na América está dez pontos acima da máxima maluquice do mundo”. Estamos portanto numa epopeia com nove cantos e muita brutalidade pois “só entra o argumento onde a arma ainda não entrou”, alguém tem de resistir, só o bem vence o mal, isto quando não é o mal a vencer o mal, mas aí continua a espera pelo bem “Um minuto de bondade não é muito, mas evita um minuto de maldade.”
E de minuto em minuto conspurquemos de bondade o teimoso mundo.
Colossal.
__________
GonçaloM.Tavares
O Fim dos Estados Unidos da América
Relógio d´Água 28€
Gonçalo M. Tavares na Novos Livros Ler

