Joel Dicker e o seu animal selvagem

CRÓNICA
| Célia Gomes
Um livro é sempre um animal selvagem, pois nenhum leitor consegue domar, prender, nem muito menos acompanhar o génio criativo do autor que o concebeu e cuja escrita sai como grito lascivo da faminta imaginação lançando-se ao mundo de quem o queira ler.
Comprei este livro em consequência de uma brincadeira cúmplice com um amigo por causa do título “animal selvagem”. Título que me prendeu, numa semana estranha em que uma noite me apareceu uma raposa na estrada; outra, um gato na varanda de casa e inúmeros animais (com e sem pelo) na confusão dos sonhos. Coincidências? Não existem. Prefiro pensar em sinais. Uma compra por impulso, pois não gosto particularmente de thrillers, nem de policiais, nem de grandes mistérios. Para grande mistério basta-me a vida (ou melhor … bastava-me!) e quando folheei as 522 páginas deste «Animal Selvagem» pensei que me ia perder numa selva densa, sombria e cansativa de enredos e de tenso suspense. Total engano. Dicker inicia a narrativa pelo miocárdio da história – o dia do assalto à ourivesaria e ao longo dos vinte e um capítulos da obra vai irrigando este músculo pelas coronárias dos capítulos, viajando ao passado das personagens. Passado próximo (os dias que antecedem o crime) e ao remoto, num percurso em que apresenta e despe os vilões e os heróis da história (se é que os há!). À semelhança das feras que assaltam a sua presa sem contemplação, nem perdão, também Dicker assalta o leitor e o prende na sua alucinante, pegajosa e viciante escrita. Um suspense que é alimentado por reticências e frases que dizem tudo, nada dizendo: “Mas as circunstâncias estão muitas vezes envoltas em aparências. E é preciso desconfiar sempre das aparências”.
Segui a rebelde relação da «fera» e da «pantera» com um instinto animal, tentando farejar toda sedução e segredo envolvidos. Um mistério e uma história digamos de amor, poderosa embrulhada em charme e elegância – não fosse a história passada em Genebra, capital da sofisticação . “No expositor da Cartier, viu um anel em forma de cabeça de pantera esculpida em ouro e cravejada de diamantes, cujos olhos eram duas pequenas esmeraldas. A pantera era ela.”
Mas para além da elegância dos ambientes, das roupas (“Sophie trazia um vestido preto divino, curto, muito sensual, que lhe esculpia o peito firme”) do champanhe (verões em Saint- Tropez), também predominam a volúpia, o erotismo, a paixão e contraditórios sentimentos. Erotismo patente, desde logo, nas primeiras páginas, aquando Greg junto à casa envidraçada de Sophie pega em uns binóculos para a espiar: “O homem escondido no mato, observava agora Sophie com uns pequenos binóculos militares. Apreciava o seu corpo esguio, a revelar-se sob o roupão curto, e deteve-se na parte superior da coxa, onde aparecia uma tatuagem em forma de pantera”. E foi essa pantera que fui seguindo ao longo das páginas. O seu rugido imponente: “Ela é a pantera de Viscontini. Nenhuma jaula a impedirá de ser o que é. Tens de respeitar a sua natureza. Será a mais bela forma de a amares”, mas também o seu grunhir. Grunhir para assegurar o território e liberdade “ela queria ser livre. Ela queria ser selvagem. Já não queria mais ser Sophie Braun” a sua determinação (“detesto os arrependimentos, são uma traição que fazemos a nós mesmas”), os seus segredos, “estou a destruir a minha família (…) um antigo amante, que reapareceu há uns dias. Ele é como uma droga” (não serão os amantes sempre uma alucinogénia droga??) Este livro assalta-nos emocionalmente e causa danos na alma com arma que sangra o íntimo das personagens. Um íntimo pantanoso onde escorregam as emoções. “E o que podemos nós contra os sentimentos? A nossa única liberdade está nos sentimentos.” Quiçá… pois são estes que nos salvam mas também nos condenam, funcionando como uma espécie de direitos fundamentais em colisão, sem possibilidade de conciliação: “Ele tinha de desaparecer para que Sophie pudesse usufruir da sua liberdade. Se ele a amava verdadeiramente, teria de renunciar a ela”. Não posso deixar de recordar os versos de Alexandre O´Neill “Com as duas mãos apodero-me de ti, retomo o teu corpo e com ele me entendo”. Mas viagem de Dicker continua espiando as relações conjugais das famílias aparentemente perfeitas. A aparência, a comparação. Como canta Miguel Araújo «os maridos das outras são o arquétipo da perfeição». Não há casais perfeitos, não há vidas perfeitas, não há filhos perfeitos e pais também não. Talvez perfeitos sejam apenas assaltos a diamantes (como o descrito na obra) e talvez panteras imperfeitamente perfeitas. Talvez todas as mulheres sejam panteras , ou pelo menos o almejem ser e desejem ter tatuada na coxa uma pantera ou pelo menos na alma. Uma pantera que ruja apaixonada, bufe, rosne, mas também ronrone. Eu desejo.
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Joel Dicker
Um animal selvagem
Alfaguara 15,95€

