Rafaela Ferraz: guia sobre as mortes de norte a sul

CRÓNICA
| Rui Miguel Rocha
Gostei da capa e gostei do título. Não o abri, não sabia sobre o que era (morte?), peguei nele, paguei-o e veio comigo para casa.
A Rafaela Ferraz é licenciada em Criminologia e mestre em Medicina Legal. Isto promete. E começa assim: “Em outubro de 1867, Teresa de Jesus foi a enterrar no Cemitério do Prado do Repouso. Em dezembro de 1868, foi a enterrar no Cemitério do Prado do Repouso. Outra vez.” Eu disse que prometia. E daqui se parte para histórias de enterros e exumações e como os ricos continuam a ser ricos e os pobres continuam a ser pobres. Ou seja, mesmo depois de mortos, apesar de estarem no mesmo estado de além-túmulo, os túmulos são, como seria de prever, diferentes. Histórias de necrópoles medievais com os corpos espalhados no cimento à volta das igrejas até à chegada do romantismo no século XIX e com ele os cemitérios. Como o “ultrarromântico” Cemitério da Lapa, fundado pelo barão de Ancede que quis ficar perto do coração de D. Pedro IV, “emparedado no interior da Igreja da Lapa desde 1837”. E o que dizer das plantas e das flores que “entram no cemitério como um escudo sensorial contra o temível cheiro da decomposição”, e daí vem o significado das flores de pedra dos jazigos e o machismo que também impera nestas cidades dos mortos como nas cidades dos vivos.
A seguir uma visita às capelas dos ossos, “forradas” com restos mortais onde se tiram selfies e se lê (na de Évora): “nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos.”Memento mori, claro está.
Daqui partimos à procura de corpos de santos, alguns mumificados sem a mão humana viva, como Maria Adelaide que “nunca casou, mas tem seis mil vestidos de noiva em sua posse”. Na verdade “Adelaide não é uma verdadeira santa. Nunca foi canonizada.” Com tanto santo por aí, coitada da pobre. Há uma lenda no Porto que numa igreja da cidade estão sepultados três papas que na verdade são mártires dos primeiros tempos do cristianismo encontrados nas catacumbas de Roma e distribuídos cristãmente por esse mundo fora em combate à Reforma. Nem na morte tiveram descanso. Pelos vistos chegaram mais de cinquenta a Portugal nos séculos XVIII e XIX.
E é claro que se tem de passar pelos museus de anatomia e pelos teatros anatómicos para onde iam os condenados à morte e os corpos não reclamados, para gáudio de anatomistas e estudantes, depois de retiradas as tatuagens pelo perigo de identificação do já não vivo ser. Mas também ataúdes egípcios, e entre eles “uma múmia lisboeta diagnosticada com cancro da próstata…era Sukhetsahor.”
Também uma passagem pelo Estado Novo e as suas horrorosas experiências de uma suposta antropologia colonial. Para quando a descolonização dos museus?
Muito interessante e bem documentado, por vezes até divertido. Não nos devemos levar muito a sério porque afinal, como escreve Rafaela, todos nós carregamos o nosso futuro cadáver.
Descansem em paz.
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Rafaela Ferraz
Portugal de Morte a Sul – Um Guia de Últimas Viagens
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