Miguel Monjardino: “O meu objectivo é deixar um registo pessoal de uma década”

1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu novo livro “A Grande Ruptura”?
R-Sobretudo a percepção de que uma época histórica estava a terminar e uma nova começar. Foi isso que me levou a decidir registar diariamente nos meus cadernos Moleskine o que parecia ser mais relevante na política internacional. Este é um projecto que durará até 2030. O meu objectivo é deixar um registo pessoal de uma década que deverá ser bastante importante do ponto de vista histórico. Uma coisa é olharmos para trás, com o benefício da distância, a avaliarmos os acontecimentos. Outra, bastante diferente, é estar presente no momento em que os factos ocorrem. O que vemos? O que sentimos? O que escrevemos? Isto foi algo que sempre me intrigou.

2-Passaram 5 anos: o mundo e a cena internacional estão muito diferentes: os sinais já lá estavam ou os acontecimentos foram mais rápidos e muito mais fortes do que seria imaginável?
R-O meu argumento no livro é que em 2020 muitos dos sinais já apontavam para uma trajectória semelhante á que ocorreu. A pandemia, que foi uma enorme surpresa, acelerou a transição para a nova época que vivermos. A Covid-19 também provou que os governos e as sociedades têm muita dificuldade em compreender o conceito da exponencialidade. Esta continua a ser uma das nossas grandes limitações como seres humanos. Vale a pena ter isto em conta agora.

3-Tendemos, talvez de uma forma um pouco simplista, a pensar que tudo está ligado com o segundo mandato de Donald Trump. Qual a sua opinião?
R-Em parte sim. Após a Segunda Guerra Mundial, os EUA foram os principais agentes da criação de uma nova ordem internacional. Donald Trump e uma parte significativa da sociedade norte-americana entendem que esta ordem é prejudicial aos interesses e modo de vida do país. Até 2022, preocupámo-nos na Europa com o revisionismo da Rússia e da China. Hoje, todavia, os EUA são a superpotência revisionista. Este facto ajuda a explicar a transição que vivemos da Ordem para a Desordem. Todavia, os interesses e decisões de outros líderes políticos fora dos EUA também ajudam a explicar o rumo dos acontecimentos desde 2020. O resultado está a ser o que chamo “A Grande Ruptura”. A partir daqui, há várias trajectórias possíveis. Todas elas envolvem riscos consideráveis. Escrevi para chamar a atenção das pessoas sobre tudo isto. Mas também escrevi para tentar mostrar o que é a vida e o trabalho de um analista profissional de política internacional no triângulo Universidade Católica Portuguesa-Expresso-SIC-Notícias. O facto de viver em Angra do Heroísmo, no coração do Atlântico, talvez me tenha ajudado a ter o distanciamento para escrever um livro como este.
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Miguel Monjardino
A Grande Ruptura
Clube do Autor  19€

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