Ernesto Rodrigues: “Centra-se num quadro sociológico e político que também ameaça a nossa liberdade”

1-O que representa no contexto da sua obra literária o livro “Golpe de Estado”?
R-Reflicto, desde a estreia em livro (1973), sobre as questões do Poder, mais evidentes no “Teatro” (2021) e na dezena de romances editados. Fiz, em “A Serpente de Bronze” (1989), uma analogia entre o desastre de Alcácer Quibir (1578) e a falhada revolução húngara de 1956, propondo uma União Europeia do Tejo aos confins europeus, concretizada em 2004. A presença turca na Europa do século XVI serviu a um nicho de resistentes na Eslovénia, entre os quais o nosso primeiro gramático, Fernão de Oliveira, em “O Romance do Gramático” (2011). “Passos Perdidos” (2014) denuncia comportamentos da Assembleia da República, a completar com a séria distopia de “O Bom Governo” (2024). A presença ocidental no Afeganistão e a saga dos refugiados estruturam “Uma Bondade Perfeita” (2016), cuja violência se revê no Moçambique de “Um Passado Imprevsível” (2018). As lutas liberais e seus efeitos na abolição da pena de morte, em Portugal, e da escravatura, no Brasil, alicerçam “A Terceira Margem” (2021). Enfim, a invasão da Ucrânia serviu, em “Liliputine” (2023), para um olhar de conhecedor sobre as vicissitudes centro-europeias desde a morte de Estaline (1953). “Golpe de Estado” centra-se num quadro sociológico e político que também ameaça a nossa liberdade.

2-Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R-Florescem grupos e forças políticas revanchistas para os quais a democracia é um estorvo, o pensamento é um luxo inútil, a intimidade exige controlo alheio e a linguagem tem de ser policiada. A mentira, também sob forma de desinformação, recobre essa aliança dos que se dizem ‘bons patriotas’, mas ignoram a História, e, entre vários bodes expiatórios, apontam às mulheres, que visam prender em casa, e às minorias, que sonham pisar, sobretudo se diferentes no género e imigrantes. É a masculinidade tóxica, o supremacismo de aviário, violento, preconceituoso e fanático, dito purificador, cuja hipocrisia é denunciada diariamente. Assento de reconvertidos iliberais, estes envenenam o Parlamento, defendem grupúsculos nacionalistas de coloração neonazi, invadem alegremente as redes digitais e analógicas. Em “Golpe de Estado”, golpe que um oligarca promove – depois de ter chantageado Executivo –, a manipulação contra a Esquerda serve-se de vidas humanas para maior credibilidade, quando o grupo 1128 já explorara a imigração ilegal e o partido Alto! defendera causas medievais. Trata-se de um romance na ordem do dia, que augura o pior, mas acredita na liberdade em segurança.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R-Quando perfaço 55 anos de capelas imperfeitas (com diarística e poesia desde 1971), redijo um longo poema-testamento, variado na estrutura, decassilábico, à volta de conceitos – Diferença, Igualdade, por exemplo – que desaguem no que importa: uma vida digna.
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Ernesto Rodrigues
Golpe de Estado
Gradiva  15€

Ernesto Rodrigues na “Novos Livros” | Entrevistas

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