O Lado Oculto de Mark Twain: Uma Incursão Inesperada à Anatomia do Ego Humano

O que é o Homem? de Mark Twain

CRÓNICA 
| José Paulo Santos

Para a grande maioria de nós (que ultrapassámos os 50 anos!), o nome de Mark Twain acende instantaneamente uma nostalgia calorosa, porque nos remete para a infância, para as manhãs animadas da televisão dos anos 80 e para a rebeldia audaz de Tom Sawyer e Huckleberry Finn nas margens do majestoso Rio Mississipi. Guardámos de Twain a imagem do eterno contador de histórias americano, genial, mordaz e dotado de uma ternura sem filtro pela liberdade humana. No entanto, o tempo e a vida encarregaram-se de esculpir no autor uma faceta muito mais sombria, secreta e profundamente fascinante.

Nos seus últimos anos de vida, fustigado por sucessivas falências financeiras e por tragédias familiares avassaladoras, incluindo a perda prematura da sua esposa e de duas das suas filhas, Mark Twain desnudou-se do otimismo luminoso do passado. Foi nesse crepúsculo existencial que concebeu O Que É o Homem?, um texto tão desconcertante, direto e provocador que o próprio autor optou por publicá-lo anonimamente em 1906, temendo a reação de um público acostumado ao seu humor leve.

Agora publicado em Portugal pela editora Alma dos Livros, o meu caro leitor encontra nesta obra não o calor das aventuras infanto-juvenis, mas o brilho cortante de uma mente em duelo direto com a vaidade humana. Estruturado sob a forma de um diálogo socrático entre um Homem Velho, desiludido e sereno, e um Homem Novo, transbordante de idealismo, Twain lança uma provocação inquietante: e se a nossa tão aclamada liberdade e o nosso livre-arbítrio não passassem de uma grande ilusão? E se o ser humano fosse, em última análise, apenas uma máquina sofisticada, cujas ações, virtudes e pensamentos são estritamente movidos pela hereditariedade e pelas influências externas?

A essência desta obra sintetiza-se no confronto direto entre a ingenuidade do homem moderno e o ceticismo implacável do autor:

Homem Novo: Acredita realmente que o homem é uma mera máquina?
Homem Velho: Acredito. Para mim, o Homem é uma máquina feita de múltiplos mecanismos. A sua mente trabalha de forma automática e independente do seu controlo. O homem não origina nada, não cria nada. O homem recebe impressões do exterior, e a sua mente-máquina limita-se a combiná-las. Toda a sua vida, todos os seus pensamentos, toda a sua conduta são determinados pela sua herança e pelo seu meio.

Com uma lógica afiada e uma ironia desarmante, Twain desconstrói a noção de altruísmo puro, demonstrando que até os nossos gestos mais nobres e heróicos nascem da necessidade imperiosa de apaziguar a nossa própria consciência. Contudo, desengane-se quem espera um texto amargo ou niilista. Por baixo da cinza do ceticismo, descobre-se uma forma profunda e inesperada de compaixão. Ao retirar o homem do pedestal do orgulho, a obra liberta-nos do julgamento cego e convida-nos a olhar para as fragilidades alheias com uma empatia renovada.

O Que É o Homem? é uma daquelas leituras raras e marcantes, de apenas 130 páginas, que agitam as águas da mente e recusam deixar quem lê indiferente. É um convite irresistível para reencontrar um dos maiores vultos da literatura mundial sob uma luz inteiramente nova, mais madura, inquietante e surpreendentemente atual. Para mim, é um livro breve nas páginas, mas infinito nas inquietações que semeia.
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Mark Twain
O Que é O Homem?
Alma dos Livros  12,50€

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José Paulo Santos

Professor. Escritor. Mediador Linguístico e Cultural