Manuel Afonso: “A Esquerda vai a tempo de se renovar”

Manuel Afonso escreve e coloca o dedo em várias feridas da Esquerda actual. Quase como se fosse um livro de auto-ajuda mas sendo muito mais do que isso: com este livro, o autor é dos poucos que pensam “a esquerda cada vez mais distante, perdida e fechada na sua “bolha”, o que leva à desilusão, frustração e até irritação com este lado da política”. A sua intenção é clara: “O meu livro foi uma tentativa de contribuir para um debate” em que “aponto no sentido de mudanças políticas na esquerda, mas, sobretudo, de uma “revolução cultural” interna a este lado da política, que é aquele em que me incluo e revejo”. Uma obra importante para reflectir e, sobretudo, para encontrar novas vias de renovação que a Esquerda tem de construir sob pena de se dissolver.
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P-Qual a ideia que esteve na origem do livro “Rebenta a Bolha-Autoajuda para uma Esquerda Deprimida”?
R-À minha volta tenho, por um lado, muitas pessoas de esquerda e, por outro, gente que não o é e que não pensa necessariamente a política em termos de esquerda versus direita, embora partilhe de muitos valores que poderíamos, com uma certa arrogância e ingenuidade, considerar como sendo “de esquerda”. E com as profundas transformações da sociedade portuguesa, mas do mundo ocidental em geral, nos últimos anos, sentido que se aprofundou o fosso entre estes dois “lados” do povo. E que foi também (mas não só) por esse fosso aberto que entrou a extrema-direita com tanta força. Tudo isto deixou um dos lados, “a esquerda”, atarantado, sem perspectivas e, como digo no livro, deprimido. Porque a depressão da esquerda não nasce de estar numa situação difícil, mas sim de não ver como sair dela. Esse estado depressivo da esquerda leva a uma sucessão ainda maior de erros e de fechamento, o que aprofunda o problema. O outro lado, em consequência, vê a esquerda cada vez mais distante, perdida e fechada na sua “bolha”, o que leva à desilusão, frustração e até irritação com este lado da política. O meu livro foi uma tentativa de contribuir para um debate, que eu previa que se iria abrir, sobre como superar este fosso. Aponto no sentido de mudanças políticas na esquerda, mas, sobretudo, de uma “revolução cultural” interna a este lado da política, que é aquele em que me incluo e revejo.
P-Em Portugal faz sentido falar da Esquerda ou será melhor falar de Esquerdas?
R-Sem dúvida que a Esquerda é plural, ou seja, é correto falar de “esquerdas”. Em Portugal e não só. No livro falo sobre essa inevitável pluralidade e sobre por que motivo ela existe. Mas uso o termo “Esquerda”, com maiúscula, para designar essa “família” ampla feita de várias “esquerdas”. Não é por acaso: reconheço a diversidade, e até a fratura, nas esquerdas, mas quero encontrar fatores de unidade dentro dessa pluralidade. Claro, sem ilusões excessivas: as diferenças entre as “esquerdas” não são poucas e haverá sempre tensões. Sobretudo, entre uma esquerda que tem optado pela mera gestão de um capitalismo selvagem com poucas perspetivas de mudança e outras que se propõem a ser mais transformadoras. Mas isso não deve impedir a construção de uma cultura em que, pelo menos, as esquerdas consigam falar entre si. Por isso, falo da “Esquerda”.
P-Como chegámos à significativa crise em que se encontra a Esquerda em Portugal: o mundo mudou muito e a Esquerda (ou as esquerdas) estava(m) distraída(s)?
R-Creio que há vários fatores e, em parte, na resposta à primeira questão já toquei ao de leve alguns deles. Aprofundando: acho que, ironicamente, a Esquerda que passou décadas a anunciar como o capitalismo em crise iria levar a um enorme abalo no contrato social vigente no pós-guerra e nas democracias liberais nele assentes, não está a saber reagir a essa realidade agora que ela se está a dar. Creio que a Esquerda em Portugal não se apercebeu das enormes e profundas mudanças no país, na sua economia, na sua agricultura e na organização do território, na forma como se vive e trabalha, nos últimos dez, doze anos. Ironicamente fomos os maiores críticos da Troika e das suas políticas, mas não entendemos ainda o que aconteceu em consequência delas. Talvez porque, de forma direta ou indireta, estávamos no poder, com a Geringonça, quando essas mudanças aconteceram – elas surgem da política da direita e da Troika (avalizada pelo PS de Seguro na altura), mas começaram a fazer-se sentir nos anos seguintes. Com tudo isto, quebraram-se modos de vida, expetativas e aspirações que tinham marcado os trinta ou quarenta anos anteriores, anos esses em que a esquerda atual se formou. O Estado falhou e esta democracia está a falhar (não “a Democracia” em geral, mas a realmente existente, manietada e esvaziada pelo poder do mercado). E a Esquerda continua a fazer política para um Portugal que já não existe, para expetativas e valores que estão a ser ultrapassados. Tornámo-nos conservadores, avessos à mudança e defensores de uma forma de fazer política que está a falhar. Num país cheio de problemas, a Direita aparece commo força de mudança e a Esquerda como quem quer manter a realidade atual, tão insatisfatória para a maioria do povo. O conservadorismo está a matar a Esquerda. Isso nota-se em particular na relação com a “Geração Z”, que olha para grande parte da esquerda como um fóssil político. Em parte, com razão.
P-A Esquerda ainda vai a tempo de usar algumas das suas armas de auto-ajuda para inverter a situação actual?
R-A Esquerda vai a tempo de se renovar, de se transformar radicalmente e tornar-se uma força política que disputa o poder. Porque é isso que interessa. Inclusive a esquerda radical. Aliás, diria que só uma esquerda mais radical o pode fazer. Vemos isso mundo afora: em França, no Reino Unido, na Bélgica, na América Latina ou com o famoso caso de Nova Iorque. Digo mais: essa renovação é inevitável. Mas a questão do timming é importante. Se deixarmos passar demasiado tempo, a direita radical e até mesmo neofascista terá tempo de cilindrar o povo e, com ele, a Esquerda. O plano deles é transformar aquilo que eu chamo, no livro, a “Ditadura de Mercado”, que é um regime que adultera a democracia formal através das forças da economia, numa ditadura de facto, ou pelo menos, num regime político autoritário. Mesmo que isso aconteça, não será o fim da História. A resistência existirá e eles serão derrotados, por uma nova esquerda e pelo descontentamento popular. Mas será duríssimo. Não acredito no “quanto pior, melhor”. Isso é uma forma de derrotismo, mesmo que por vezes se mascare de heroísmo. Devemos meter o pé no acelerador e mudar hoje para evitar esse cenário.
P-Serão precisos novos protagonistas (líderes e/ou organizações) para tornar a mudança possível?
R-O que é determinante é a política. É precisa uma nova política de esquerda. Não só “novas políticas”. Digo no livro que devemos ousar mudar a Política, não apenas as políticas. Ou seja, novos programas, novos valores, novas linguagens. Falo de um projeto de confronto direto com a ditadura do mercado – com o domínio do capital sobre os bens comuns, as vidas individuais, a democracia e a soberania. Implica a provisão maciça de bens públicos, o fim da concorrência desigual promovida pelas regras europeias em que monopólios esmagam a economia; a recuperação pública de empresas estratégicas e a criação de novas (no setor digital e farmacêutico, por exemplo); a proteção face à competição internacional selvagem da agricultura de proximidade e de outros setores de pequena produção; a imposição de barreiras a fluxos financeiros extrativistas na habitação, no acesso a recursos naturais e à paisagem, no turismo. Mas, sem fugir à questão, isso implica certamente novos protagonistas, novas lideranças vindas de fora da bolha que dirigiu a Esquerda nos anos recentes. Já novas organizações, não podendo negar à partida que possa vir a ser o caminho, acho mais improvável, para já. Ao contrário do que se pensa, é mais fácil e eficaz uma nova liderança com uma nova política relançar uma organização aparentemente gasta do que formar uma de raiz e ter sucesso. Ainda que se não acontecer uma coisa, acontecerá a outra…
P-Pensando no futuro: o que é ser de esquerda hoje em Portugal?
R-Boa pergunta! Eu evito entrar demasiado na definição do “o que é a Esquerda” ou o que é “ser de Esquerda”. Porque não sei se é um debate útil. A resposta tem de ser dada na prática. Aliás, a Esquerda não deve negar que o é, mas não deve estar demasiadamente importada em vincar o seu espaço de maneira ideológica como esquerda. Ou em falar para um suposto “povo de esquerda” ou para nichos do género. Agora, se queremos escolher um caminho definidor para a Esquerda em Portugal é uma opção de classe: a Esquerda tem de ser o povo trabalhador em forma de política. Não uma velha e idealizada “classe operária” que ninguém sabe o que é. Não se trata de idolatrar de forma paternalista “o proletariado”. Falo, sim, de fazer política a partir da vida real, dos territórios e das aspirações da maioria das pessoas, e não a partir do brilhantismo técnico ou parlamentar ou das frases feitas à medida da comunicação social. E de organizar essas pessoas e dar-lhes ferramentas para, na medida do possível, se representarem a elas mesmas. Não falo de um basismo “apolítico”, falo de construir a partir daí uma força política que vai ser vencedora em todos os terrenos, da tasca até São Bento.
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Manuel Afonso
Rebenta a Bolha-Autoajuda para uma Esquerda Deprimida
Zigurate  19,90€

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