Salman Rushdie contra as linhas do pensamento único

CRÓNICA
| Rui Miguel Rocha
Salman quase morreu num ataque insano com uma faca quando já ninguém esperava que acontecesse. Relata aqui esses dias do demónio e a consequente e dolorosa recuperação. Gostei do livro, eu que não sou fã incondicional do autor.
Temos tendência para esquecer quase tudo, até o que terá sido importante, o nosso primeiro beijo, quem se lembra? Mas não esquecemos as ignomínias sofridas “Há coisas que se perderam no passado onde todos vamos parar, a maioria de nós esquecidos.”
Não dominamos o porvir, apesar de constantemente o pensarmos ou o desejarmos. É por isso que os desastres acontecem, embora nada nos garanta que, mesmo sabendo, os conseguíssemos impedir. Seria bom avisar Aureliano Buendia.
Depois do ataque, o autor descreve a perda de autonomia e privacidade nos múltiplos internamentos com tratamentos invasivos e uma recuperação dolorosa “Permitimo-lo porque não temos alternativa. Cedemos o comando do nosso navio para que ele não naufrague.” Foi nessa altura que Salman foi novamente assaltado pela frase inicial dos “Versículos Satânicos”: “‘Para se nascer de novo’, entoou Gibreel Farishta, caindo dos céus, ‘é preciso primeiro morrer.’”
O passado há-de sempre persegui-lo, apesar de não ter sido ele a pedi-lo, mas o que nos trouxe até aqui, mesmo o que está recôndito dentro de nós, é o que nos define “não seríamos quem somos hoje sem as calamidades dos nossos ontens.”
Durante o processo de escrita deste livro morreram três autores amigos de Rushdie: Martin Amis, Paul Auster e Milan Mundera. Ora a vítima de um atentado quase mortífero tinha sido ele, e ele não morrera. O destino é irónico e zombeteiro.
Gostei muito da entrevista inventada, portanto que nunca chegou a existir a não ser na sua cabeça, que Salman faz ao seu agressor. Podem-se tirar muitas conclusões sobre o agredido e nenhuma sobre o agressor, mas põe-nos a pensar e chega a ser divertida.
É também um livro contra as linhas de pensamento único, contra os déspotas e os oportunistas, os autocráticos e os radicais, religiosos ou não. “Devemos trabalhar para derrotar as falsas narrativas dos tiranos populistas e loucos contando histórias melhores, histórias dentro das quais as pessoas querem viver.”
Nem toda a gente vive a lotaria de voltar ao mundo dos vivos depois de uma doença, um acidente ou um violento ultraje, mas a quem isso acontece tem de se colocar a questão: “quando nos é dada uma segunda oportunidade, o que fazemos com ela?”
O que fazer com esta sentença a que chamamos vida?
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Salman Rushdie
Faca-Meditações na Sequência de uma Tentativa de Homicídio
D. Quixote 18,80€

