Salvador Furtado: “O livro foi ganhando corpo à medida que cada capítulo era escrito”

1-“Entre a loucura e a graça” é o seu romance de estreia: como espera poder olhar para ele daqui a 20 anos?
R-É uma boa pergunta, porque tem dois lados.Por um lado, tenho algum receio. Apesar de ser uma pessoa confiante, tenho sempre essa dúvida sobre aquilo que faço. Já me aconteceu muitas vezes escrever, ler ou dizer coisas e, passado algum tempo, olhar para trás e pensar: “como é que escrevi isto?” ou “como é que me expus desta forma?”. Acho que isso é inevitável. Comecei a escrever artigos de opinião há cerca de dez anos, com 20 anos, e hoje, quando olho para eles, vejo claramente que eram mais fracos e, muitas vezes, pobres — na escrita, no pensamento. Mas, na altura, faziam sentido. Por isso, daqui a 20 anos, espero ter essa capacidade de separar as coisas. De perceber que o Salvador de hoje é o Salvador de hoje, e que terei de o aceitar como tal. Por outro lado, gostava de conseguir olhar para este livro como o início de alguma coisa. Esta parece-me mais simples, mas há esta mania de as coisas terem sempre dois lados.
2-Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R-A origem do livro foi uma pressão constante de um amigo que insistia para que escrevesse. Mas a ideia do livro, propriamente dita, é outra coisa. Na altura, estava muito influenciado por autores que escreviam na primeira pessoa. Autores que, de alguma forma, partilhavam aquilo que pensavam, o que sentiam, as suas emoções. E pensei que, se fosse escrever, teria de ser assim: a partir de uma voz que tivesse alguma coisa para contar. Sentia que havia qualquer coisa na minha vida, ou numa parte da minha vida, que talvez ainda não tivesse sido dita dessa forma. Mas é difícil explicar com precisão. O livro foi ganhando corpo à medida que cada capítulo era escrito. Não havia um fio condutor totalmente definido. Eu não sabia o fim, não sabia o meio, não sabia sequer que personagens iam aparecer no início de cada capítulo. Foi um processo completamente orgânico.
3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R-O que estou a escrever? Até agora, respostas a entrevistas e a tese — se isso contar. Mais a sério, neste momento não estou a escrever nada. Sei que pode soar estranho para alguém que acaba de lançar um romance, mas é a verdade. Ainda assim, já tenho uma ideia. E acho que é uma ideia interessante, um pouco diferente daquela que apresento em Entre a Loucura e a Graça. Espero poder começar a trabalhá-la em breve.
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Salvador Furtado
Entre a Loucura e a Graça
Guerra & Paz 18€
Salvador Furtado na “Novos Livros” | Entrevistas

