Lira e a felicidade que foi dar vida aos seus sonhos

CRÓNICA
| Sofia Melo
Numa breve história de Gianni Rodari (Omegna,1920|Roma,1980), há um professor, de seu nome Grammaticus, que decide revolucionar os preceitos gramaticais que regem a língua de todos os dias e, por isso, a forma de ver o mundo por todos os que os seguem, quando não querem errar nas suas trocas linguísticas. Pois bem, este professor, um pouco saturado das complicações e exigências gramaticais, entende, por exemplo, que os adjetivos só merecem ser distinguidos em apenas duas categorias: os adjetivos “simpáticos” e os “antipáticos”. Assim, no primeiro grupo, estariam palavras como: bom, alegre, generoso, sincero, corajoso…No segundo grupo, avarento, prepotente, mentiroso, desleal, etc…. Quanto à classe dos verbos, propunha duas conjugações, em vez das três que os arrumam direitinhos em paradigmas de flexão. Essas duas conjugações seriam as dos verbos para conjugar e aquela que reunia os que se deveriam deixar estar na sua eternidade de infinitivo, sem sujeito nem tempo de realização, como mentir, roubar, matar, enriquecer à custa das outras pessoas. Aos olhos deste gramático, tudo seria simplificado se todos os falantes aceitassem e seguissem estas novas regras. No entanto, não se trata apenas de organizar as palavras e de facilitar a comunicação entre falantes. Esta história para crianças acentua o poder da recriação a partir do que existe e celebra a imaginação, a criatividade como motores da mudança, da invenção. E com essa nova gramática, o mundo seria, com toda a certeza, melhor, porque a própria linguagem humana serviria as necessidades de um melhor ser humano.
Lembrei-me desta breve narrativa quando cheguei ao fim da leitura de “A Lira Sonhadora e o Arco-Íris Eterno”, de José Paulo Santos. Não da primeira leitura, uma vez que pude acompanhar o processo de escrita do texto enquanto revisora, mas da primeira na versão física da narrativa e das ilustrações. Uma leitura dupla – do texto e das imagens que o acompanham. Corrijo: das imagens que o complementam, enriquecem e com as quais as palavras estabelecem uma ligação mágica e transformadora. Como se criassem, em conjunto, uma nova gramática, uma nova semântica. É o que acontece com as excelentes histórias para crianças, com a aliança da palavra e da ilustração. E bastava esta união feliz e do que ela provoca em quem lê e vê a história, para justificar a minha evocação do professor Grammaticus. Porém, há algo mais nesta narrativa que leva mais longe a ideia do professor de Rodari – a protagonista, Lira. Com o seu pincel carregado de cores, vontade de dar novas formas ao mundo conhecido e repleto de memórias da sua avó Açucena, propõe ao leitor a reinvenção da realidade. Para melhor.
Deste modo, as ruas da sua cidade de Nova Aurélia cintilam de cores e brilhos redescobertos, as escolas transformam-se em palcos e antecâmaras de novos dias, de sonhos ilimitados, de alunos artistas com a certeza de que o que imaginaram vai ter formas de realidade. O pincel será, para cada um, como o lápis dos novos adjetivos de um mundo por reinventar, dos verbos que vale a pena conjugar no presente e no futuro.
Lira foi a primeira a contrariar o pouco que via, o pouco que sentia e experimentava. Não se conformou, mesmo quando lhe diziam que os caminhos eram outros, que a gramática da vida já estava escrita, consolidada e era ela deveria reproduzir seguindo as regras restritas. Lira ousou questionar e reinventar a partir do que conhecia. Não sem antes fazer uma viagem até Elysium , o Reino dos Sonhos Encantados, onde percebeu que as possibilidades de realidade eram outras, muito diferentes das que conhecia. Viu um robô a dançar com um dinossauro, uma escola em que a aprendizagem se confundia com chuva doce de gomas, um jardim onde as ideias plantadas podiam florescer em sons de ópera! Lira deixou-se encantar e com mais convicção acreditou na realidade que sonhava no seu quarto. Mesmo quando Elysium se viu ameaçado, foi a força da imaginação que venceu a escuridão da monotonia, das rotinas sempre iguais, sem espaço para o novo, o belo e o que ainda não existe, mas vive na imaginação das crianças.
Quando regressou desta viagem e se viu na sua cidade, Lira não esqueceu a felicidade que foi dar vida aos seus sonhos e, por isso, contagiou os que se afundavam no sempre igual a emergirem e a olharem para dentro de si, pois só deste modo poderiam contribuir para um mundo novo, somatório dos sonhos de cada um. Personagens como Sara, Daniel, Orquídea, Teresa e Rodrigo não resistiram e viram os seus sonhos concretizados…
E é aqui que o professor de Gianni Rodari e a Lira de José Paulo Santos parecem habitar o mesmo território – aquele que pretende homenagear o poder da imaginação, celebrar o ato criativo como subversão da realidade e como motor de mudança; mas, ao lermos sobre o sonho de uma nova gramática do professor, não ficamos a saber se os falantes vindouros adotaram essas novas regras, das quais só conhecemos duas (a dos adjetivos e a das conjugações verbais); todavia, ao lermos a história de Lira, ficamos com vontade de dar linhas e cores novas ao mundo que nos é próximo e assim melhorarmos o nosso quotidiano. Em ambas as histórias há uma crença genuína no poder transformador da arte e ambos os autores propõem a tenros leitores um questionamento do que existe, estimulando questões como:
. por que razão é o que é como é?
. e se fosse de outro modo?
. como posso colaborar para construir um mundo melhor?
. qual a minha habilidade mais poderosa para tornar os dias mais felizes?
No livro de Rodari, as magníficas ilustrações têm a assinatura de Bruno Munari. No livro de José Paulo Santos, as imagens de personagens, objetos,espaços, cenas têm as linhas e as cores vibrantes de Camilo Pineda. Trata-se de um edição bilingue, em português e espanhol, dois idiomas casa para acolherem leitores de muitas geografias (a tradução para o espanhol é de Maria de Lurdes Brito). Poderia acrescentar ainda à ficha técnica de “A Lira Sonhadora e o Arco-Íris Eterno” mais nomes no espaço reservado aos ilustradores. Tantos quantos os leitores do livro, já que se trata de uma obra que propõe ao leitor um ato de criação – há páginas com espaço para que cada criança encarne a mensagem de Lira e tome ela o pincel, o guache, a caneta, o marcador e dê as formas e as cores a personagens…Por exemplo, como será o Rodrigo, músico e cantor, que criou “um Violoncelo-Arquiteto” e que, com ele, “espalharia casas com paredes e janelas musicais pela população sem abrigo”?; ou como seria o mundo e como seriam as crianças que tivessem a companhia de Daniel, “que construía aviões de papel” e que “criou uma companhia aérea com mil aviões para levar todas as crianças em viagem à volta do mundo”?; e o universo, como o desenharia o leitor, conhecendo a Matilde, ”amante vigilante e humilde da Natureza, apaixonada pelo Universo” e que construiu “o maior telescópio de sempre, que projetava planetas de flores, frutos e legumes viçosos”?
Um livro que é também um convite, um livro que questiona a realidade tal como a conhecemos e que desafia o leitor à invenção de uma nova gramática, onde a regra estrutural assenta na imaginação e criatividade – o que dá forma ao novo, ao belo e ao que habita os sonhos.
O título deste texto não foi um acaso, pois evoca um outro livro de Rodari, “Gramática da Fantasia. Introdução à arte de inventar histórias”. Numa espécie de prefácio, em que o autor explicita as motivações, circunstâncias e o assunto do livro, as suas últimas linhas dizem: «Espero que o livrinho possa ser igualmente útil a quem acreditar na necessidade de a imaginação ter o seu lugar na educação; a quem tiver confiança na criatividade infantil; a quem souber qual o valor da libertação que pode ter a palavra. “Todos os usos da palavra a todos” parece-me um bom lema, de belo som democrático. Não para que todos sejam artistas, mas para que ninguém seja escravo.». (p.17) “A Lira Sonhadora e o Arco-Íris Eterno” é o primeiro livro infantil de José Paulo Santos. Acredito que cumpre de uma forma belíssima a mensagem destas linhas de Gianni Rodari, aliando o poder da palavra ao poder do desenho. E celebrando a arte da escrita e da ilustração como espaços de exercício de liberdade.
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José Paulo Santos (Ilustrações: Camilo Pineda)
A Lira Sonhadora e o Arco-Íris Eterno
Grupo Editorial Divergência 14,90€

