Ana Cristina Pereira: “O livro conta a história dos portugueses ciganos, que ainda não se ensina nas escolas”

1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu novo livro “Portugueses Ciganos – Cinco Séculos de Resistência”?
R-Logo no início da minha carreira jornalística, deparei-me com a extrema pobreza de algumas comunidades ciganas, a sua resiliência e a indiferença ou mesmo a aversão de quem vivia em redor. Quis perceber porquê.
O livro recupera o caminho que fiz para compreender esta parte da população portuguesa na interação com a sociedade como um todo. Começa rente ao estereótipo, questiona-o, resgata a longa história do anticiganismo; mostra a participação dos portugueses ciganos em momentos importantes da vida colectiva, como a Guerra Colonial ou o 25 de Abril; narra a história do associativismo cigano; evidencia a importância das políticas públicas no processo de inclusão e, através de vários percursos de vida, expõe a pluralidade da população portuguesa cigana.
Em suma, o livro conta a história dos portugueses ciganos, que ainda não se ensina nas escolas, mas que está finalmente a entrar nas aprendizagens essenciais – se não conhecermos esta história, podemos tomar por questões culturais o que são problemas sociais com raízes muito profundas.  E contraria a ideia de homogeneidade dos portugueses ciganos, tantas vezes usada para justificar atitudes e comportamentos discriminatórios – há que reconhecer que há diversidade de percursos de vida, pessoas a trabalhar em várias áreas, por vezes escondendo a sua etnia.

2-Mais recentemente, a etnia cigana tem sido notícia muito à custa dos ataques da extrema-direita. Mas estes ataques não são novos. Que explicações encontra para esta situação?
R- A extrema-direita portuguesa, como a de outras partes do mundo, não tem pejo em simplificar problemas complexos, canalizar frustração social, apontar bodes expiatórios, mas não inventou o anticiganismo.
O ataque à população portuguesa cigana só funciona porque há um anticiganismo com uma raiz histórica tão profunda que nem é percebido como tal. As leis repressivas sucederam-se desde 1509 até 1820, sendo que até 1985 vigorou um regulamento da GNR que previa “severa vigilância” aos ciganos.
Sair de uma situação de exclusão tão extrema leva o seu tempo. As políticas de inclusão são recentes. Podemos dizer que tiveram início na década de 1990, com o plano especial de realojamento, o rendimento mínimo garantido, hoje rendimento social de inserção, as escolas TEIP, o programa Escolhas.
Continua a haver nomadismo forçado, segregação em acampamentos e bairros sociais e discriminação, por exemplo, no acesso ao mercado de habitação ou ao mercado de emprego. Isso torna muito mais difícil sair da pobreza.
Com uma taxa de pobreza elevadíssima, claro, há famílias a recorrer a prestações sociais. E, sim, algumas entram no mundo do crime. Não se pode é generalizar comportamentos individuais a todo um grupo minoritário. Fazer isso é abusivo. E perigoso.
Os velhos preconceitos estão bem vivos. Facilmente são reactivados num conflito entre vizinhos. Amiúde, casos individuais são mediatizados, reforçando os estereótipos. As redes sociais amplificam tudo o que é negativo. O Chega aproveita, o que torna a vida das pessoas ciganas ainda mais difícil.
No livro, falo das milícias populares que se formaram nos anos 90 e de um político condenado por dois crimes de discriminação racial. Foi o início do activismo cigano, como o conhecemos hoje. Agora, o Chega legitima o anticiganismo no discurso político. E há um movimento associativo que aprendeu a responder às provocações recorrendo aos tribunais.

3-Na pesquisa que envolveu a escrita deste livro, que novos sinais identificou que podem contribuir para uma melhor integração das pessoas ciganas na sociedade portuguesa?
R- O maior sinal é o aumento da escolarização da população cigana. Embora ainda exista um grave problema de abandono escolar precoce, há uma mudança a acontecer: em 1997/1998 havia 5300 crianças ciganas matriculadas na escola pública; em 2018/2019, eram 25126. É um salto que importa valorizar. É preciso haver continuidade.
Na última década, Portugal tomou várias medidas específicas. Uma parte parou, porque o Governo tem a nova Estratégia Nacional de Integração das Comunidades Ciganas na gaveta.
Não está tudo perdido. Há medidas que se tinham autonomizado como políticas públicas, como o programa de bolsas a alunos do 3º ciclo do ensino básico e secundário Roma Educa e o programa de bolsas a alunos do ensino superior OPRE. E há câmaras que estão a desenvolver planos locais.
Entre os sinais positivos também está uma mediação cultural mais profissionalizada, um activismo mais experiente, uma maior visibilidade de percursos de vida positivos, o que ajuda a quebrar estereótipos e serve de referências para outras pessoas ciganas.
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Ana Cristina Pereira
Portugueses Ciganos-Cinco Séculos de Resistência
FFMS  5€

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