Barnes: uma parábola muito divertida e bem escrita de amor e separação

CRÓNICA
| Rui Miguel Rocha
Não quero acreditar que este seja o último texto de Barnes. Fico muito triste se for verdade. Espero que seja mais uma das ficções do quotidiano que fizeram dele um grande escritor. O livro começa muito bem com os recortes do British Medical Journal e o que uma pessoa não faz para fumar um cigarro, mas logo a seguir perde o fôlego com a descrição da doença que lhe foi diagnosticada antes do confinamento (o que é de compreender), além de uma tentativa de comparar memória mental com memórias escritas o que, a meu ver, não trouxe grande novidade à narrativa. Depois disso muito Proust que nem eu nem o autor apreciamos, tudo por causa do Incidente da Madalena, essa espécie de pão ou de bolo que, depois de mergulhada numa chávena de chá e deglutida assim ensopada, traz memórias atrás de memórias no que parece ser um dos temas centrais desta “Partida”.
Segue-se uma parábola muito divertida e bem escrita de amor e separação e amor e separação. Algo me diz que o casal de amigos a quem Barnes prometeu não escrever sobre eles nunca existiu, o que só torna as coisas melhores. Histórias separadas por anos, as mesmas pessoas e os muitos anos, o mesmo rio? Claro que não, nunca se é igual a ontem e muito menos ao amanhã. Não posso ter isso como certo, como aliás não tenho nada “a pressa em direção à certeza pode desviar-nos do nossos caminho.”
Barnes nunca se assume como “instrumento do destino”, até porque não se considera “um crente na pomposidade.” Mas é um mágico da efabulação “É possível que ela não estivesse a pensar em nada disto, ou nem sequer numa parte apenas, mas o que contava era aquilo que eu pensava que ela estava a pensar.”
Ainda há tempo para uma reflexão sobre a velhice e o sofrimento com uma lista de desejos pouco ambiciosa mas apetecível e cobiçável. Também exemplos de como a vida não é justa e por vezes não tem sentido. Por vezes? Talvez mais vezes do que as desejáveis. E que sentido devia ter? Será que a lamúria tem lugar em tudo isto? “A autocomiseração é pouco relevante quando se vê como o sofrimento atinge outras pessoas e como muitas delas estão tão mal preparadas para lidar com ele.”
A velhice e a indignidade, de como andam tantas vezes de mão dada, a perda da memória e da personalidade, os cuidados paliativos e a tristeza da solidão. Como podemos lidar com tudo isto?
Barnes tem uma frase chave para se salvar: “É apenas o universo a fazer o seu trabalho.”
Será?
__________
Julian Barnes
Partida
Quetzal 17,70€

