Carlos Fiolhais: “A fé dos cientistas depende mais do ambiente cultural em que cresceram”

1-Qual a ideia que esteve na origem deste livro “Deus e a Ciência: Diálogos para a Salvação do Mundo”?
R-Muitas vezes tenho sido interpelado a respeito das relações entre ciência e religião. Por exemplo, em encontros de comunidades de crentes têm-me perguntado sobre o que havia antes do Big Bang. Ou: qual foi a causa do Big Bang? Ou ainda: porque se chama ao bosão de Higgs «partícula de Deus». De outras vezes, tive diálogos, mais formais ou mais informais, com figuras da igreja, incluindo alguns bispos, sobre questões que envolvem ciência e a religião, ou pediram-me textos para livros sobre crença ou descrença. Tudo isso proporcionou que alinhasse ideias na minha cabeça sobre o assunto. As minhas reflexões, que só em parte tinham sido partilhadas, estão agora neste livro da Dom Quixote, da qual já há uma 2.ª edição.
2-Uma pergunta essencial do seu livro: serão a Religião e a Ciência opostas?
R-A resposta é claramente negativa. Mostra-o o facto de haver crentes e mesmo ministros de várias religiões que fazem investigação científica e têm proporcionado avanços à ciência. A fé é um mistério e, na maior parte dos casos, não parece colidir com a ciência. Aliás, a ciência moderna nasceu no seio da civilização europeia e cristã. A fé dos cientistas depende mais do ambiente cultural em que cresceram do que propriamente da sua actividade científica. Outra resposta muito clara do meu livro é que a ciência não visa encontrar Deus. Não se atinge pelo método científico, o qual, sendo bastante poderoso, não tem esse poder. Deus não está num microscópio, num telescópio ou num acelerador de partículas. Ele está antes no interior dos crentes e, por isso, para essas pessoas estará também em todo o lado do Universo. Sei e conto isso no meu livro – que ao longo da história tem havido alguns desencontros entre fé e razão: por exemplo, com o caso Galileu, com a discussão sobre a teoria da evolução de Darwin e, nos nossos dias, com a procura da explicação da consciência pelas neurociências. Tentei no livro explicar os equívocos por detrás desses desencontros. Trata-se de dois magistérios distintos, que não se devem sobrepor. Sobre as questões do bem e do mal, que são muito humanas, a ciência nada tem a dizer, ao passo que a religião tem. Para aplicar a ciência, é preciso ter essa noção e, não sendo a religião a única fonte de ética, os contributos das igrejas podem ser relevantes. Vejam-se, por exemplo, as encíclicas do papa Francisco e do papa Leão XIV sobre alterações climáticas e sobre inteligência artificial, respectivamente.
3-Pensando no futuro: como cientista, como pensa que vai evoluir a relação entre fé e razão?
R-Francamente, não sei. O futuro é um assunto que me interessa, mas ele é insondável. Tenho, porém, alguns desejos, que estão reflectidos no subtítulo «Diálogos para a salvação do mundo». Por «salvação» não entendo o conceito teológico de vida eterna, mas antes o conceito, mais comezinho, de vida melhor no mundo. Hoje temos grandes desafios para resolver, como as alterações climáticas e a inteligência artificial. A ciência, sendo essencial, não é tudo para termos melhor futuro. A ciência sozinha não nos salva. O diálogo com a religião pode ser muito útil para nos orientarmos no caminho que, juntos, queremos percorrer.
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Carlos Fiolhais
Deus e a Ciência: Diálogos para a Salvação do Mundo
Dom Quixote 20,90€

