Felícia Cabrita: “Carolina Loff não merecia ficar na obscuridade”

1-Qual a ideia que esteve na origem do livro “A Comunista e o PIDE”?
R-A história não pode ser feita de verdades parcelares e o passado de Carolina Loff não merecia ficar na obscuridade a que o próprio partido a quem dedicara toda a sua vida a votara por o ter traído. A história oficial do partido encostava-a à parede numa curtíssima frase que Álvaro Cunhal, que não tolerava quebras humanas, no seu manual – Se Fores Preso, Camarada – sobre o comportamento que os militantes deveriam assumir nas prisões, lhe dedicara: «Lembra‑te com horror daquelas miseráveis – Helena Faria e Carolina Loff – que, aceitando tais amabilidades, acabaram por trair o Partido e se tornaram amantes de polícias de informação, sendo hoje seres desprezíveis.» Ora, a história extraordinária desta mulher é muitíssimo mais do que isso e só podia ser explicada sem a lupa de qualquer moralismo.

2-Como descobriu e se interessou por esta história tão improvável e praticamente desconhecida?
R-A primeira referência sobre Carolina Loff surgiu-me, exatamente, no livro de Cunhal (Se Fores Preso, Camarada). Mas na década de noventa, no âmbito de um trabalho jornalístico, conheci Edmundo Pedro, também ele uma figura pouco ortodoxa, que me falou dela. Tinham sido contemporâneos na Federação das Juventudes Comunistas no início dos anos trinta. Fiquei imediatamente interessada na figura de Carolina Loff e fomos apresentadas. Ela estaria com uns oitenta anos e ainda era uma mulher lindíssima. Tentei conquistá-la, sem êxito, para uma entrevista. Não desisti. Na altura, consultei os arquivos da Torre do Tombo, mas apenas havia a sua ficha na PIDE e eu não fazia a mínima ideia quem seria o pide por quem se apaixonara. Esta história andou, como grilhetas, aos meus pés, durante duas décadas. Só em 2025, numa pesquisa no Arquivo Histórico Militar, enquanto fazia um trabalho sobre a morte de Catarina Eufémia, o diretor do arquivo me fala de um processo em que era arguido Álvaro Cunhal, que para ele seria inédito. Decidi consultá-lo e, para meu espanto, era o processo em que Cunhal era coarguido com Carolina Loff. O processo da traição. Como sabia que Carolina se apaixonara por um dos pides que a interrogara, num dos autos, cheguei ao nome do homem. Era o fim de uma longa perseguição histórica e os primeiros passos para este livro.

3-Quem foi e que papel desempenhou Carolina Loff no contexto da oposição comunista ao Estado Novo?
R-Foi uma agitadora nata, entrou na órbita do PCP aos 17 anos. Enfrentou cargas policiais, conheceu as cadeias do regime, foi torturada e resistiu. Dez anos depois, foi a primeira mulher a integrar o Secretariado do Comité Central do Partido. Mas o seu papel não se restringe ao cenário português. Pavel chama-a a Moscovo para completar a formação teórica onde estreita relações com importantes internacionalistas e comunistas dos quatro cantos do planeta, sobretudo com espanhóis, como a lendária dirigente do PCE Dolores Ibárruri, que ficará conhecida como La Pasionaria. Pouco depois, parte para Espanha onde já se antevê o desfecho do sonho republicano, acabando presa nas cadeias franquistas. Regressa a Portugal, é de novo presa e apaixona-se pelo agente da PIDE que a torturou. A sua luta a partir daí tem uma única missão nas mãos: recuperar a filha pequena que deixara aos cuidados do PC Soviético.
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Felícia Cabrita
A Comunista e o PIDE
Guerra & Paz  16€

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