Gonçalo M. Tavares e os artistas

CRÓNICA
| Rui Miguel Rocha
Grande GMT! De onde vem o M.? Master dealer, senhor das saídas, filósofo e louco, o domínio total. Artistas como desculpa para esculturas com matéria orgânica, letras e outros materiais pouco moldáveis. Textos que nada têm a ver com as obras ou que tudo dizem sobre essa arte que parece fugir mesmo quando parada, ou ainda mais assim. Na maior parte das vezes a arrumação antecede a desgraça, por isso há que ser criança e deixar tudo fora do sítio.
Como chegar à impossível ou difícil tristeza dos outros, sempre inexpugnável porque não nossa, mas quando tudo passa a ser próprio e interior, estaremos preparados para que nos interrompam? E se for a morte?
A inteligência como “máquina de inquietação” e nunca como a representação dessa inteligência já em diferido como acontece com a televisão. “A verdade não é partilhável.”
A nota de zero dólares do artista Cildo Meireles, tantos artistas neste livro, Bill Viola, Charles Ray, Christo, Francis Bacon, Basquiat, Koons, Lucian Freud, Sarah Lucas ou Daniele Buetti donde se diz que “a realidade está encadeada como se fosse o efeito único da acção de um louco.”
Voltando ao Bacon onde se vê que “a vida está doente…atingida em cheio pela maldade”. Quero saber como meter tudo isto na ordem ou talvez não. A arte serve para mostrar e ocultar, armar e destruir e assustar, elevar a beleza e baixar o ruído, elevar o ruído e baixar a leveza.
Mas “a realidade já existia antes…do substantivo”, era antes de ser nomeada, isso é certo, “sem a ideia de Deus ficamos sem ligações inexplicáveis”, mesmo quando esticamos o pescoço para lá chegar e o corpo, esse, é ditado pela arte que toca e pergunta e dá tímidas respostas, por vezes bastante esotéricas ou até, o mais das vezes, acertando em cheio.
“Aprende o desespero e o espanto”. Sê simples como uma pergunta de criança ou um búzio à beira-mar. “Por vezes, apesar de tudo, o presente é mesmo o melhor que existe.” Daí a arte e o artista se cruzarem num determinado ponto que não pode ir para lado nenhum sem passar primeiro pela obra, pelo que sobra desse encontro, ou aí explode. Por isso “tudo o que já aconteceu não é perigoso, só o presente te pode assustar.” Ou surpreender e elevar e até intervir com uma certa dose de carinho ou mortalidade ou ternura e até amor.
Tal é a arte “uma presença física num espaço que não o da existência”, está ali e não está porque é consequência e depois fica como uma espécie de testemunho do invisível que lhe deu forma e cansaço.
E no fim, novamente a fugir à ordem, “o mundo é uma coisa caótica que desobedece”, ainda bem, ou não haveria arte nem sedução, porque “um poema estraga a máquina por dentro”, é fatal e nada fútil pois torna as coisas “abertas como um vírus doente”, aquele sem envelope ou sobrescrito onde vai endereçada a doença e o mal.
Aqui estão os artistas, enfiando poemas nos vírus. [Fotografia: Jaime Serôdio/SPA]
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Gonçalo M. Tavares
Dicionário de Artistas
Relógio d’Água 17€

