João Pedro Mésseder: “O humor negro, o frequente absurdo da existência humana”

1-O que representa no contexto da sua obra literária o livro “Contos do Quarto Minguante”?
R-Há três poemas, lidos há muitas décadas, que me acompanham e, creio eu, me acompanharão sempre. Os poemas “Sobre lado esquerdo” e “Posto de gasolina”, de Carlos de Oliveira; e ainda o poema de abertura do livro “Vocação Animal”, de Herberto Helder (refiro-me à edição dos Cadernos de Poesia na Dom Quixote). Sendo poemas em prosa, são simultaneamente microcontos (no caso de Carlos de Oliveira) e conto breve (no caso de Herberto). Porque estudei o assunto, sei que é por vezes ténue a fronteira entre o poema em prosa e o conto breve ou brevíssimo. Confirmei-o mais tarde em Baudelaire, e no grande Tonino Guerra (o argumentista de Michelangelo Antonioni) e nas suas belíssimas histórias e poemas. E sucede que vários dos textos de “Contos do Quarto Minguante” (um título desde logo indiciador, quer de sentidos quer de género) se enquadram nessa categoria – por exemplo os textos que referem Elizabeth Taylor, Gaudí ou a «Plantófaga».
Mais tarde, nas minhas leituras, cheguei ao hondurenho e guatemalteco Augusto Monterroso, exímio microcontista, e a algumas narrativas breves de Borges, García Márquez, Eduardo Galeano, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, Mário Henrique-Leiria e Augusto Baptista, escritores que admiro muitíssimo. É difícil ficar indiferente ao magistério destes mestres.
Os meus “Contos do Quarto Minguante” são, portanto, exemplos de contos breves e de microcontos (desde logo os “Casos de vida e morte” que abrem o livro e que parecem ser particularmente apreciados pelos leitores, por causa do humor negro). O humor negro, o frequente absurdo da existência humana, o nonsense e os episódios surrealizantes – são alguns dos traços desta obra. Há, portanto, uma ou outra incursão no fantástico – e no hiperbólico. Mas lê-se também a crítica a comportamentos sociais e sociopolíticos. Uma nota para a sugestiva imagem de Tangram de Augusto Baptista que ilustra a bela capa concebida pelas Edições Húmus (acho o livro muito bonito graficamente e sem mácula na sua paginação). O gato de Baptista encontra confirmação em textos em que este felino comparece.
Em todo o caso, e para responder mais directamente à pergunta, há vários exemplos de poemas em prosa que são, em simultâneo, microcontos, quer nos meus livros de poesia ditos para adultos, quer nos de poesia para a infância e a juventude. Portanto ter escrito os “Contos do Quarto Minguante” constitui a sequência natural de algumas experiências anteriores.
2-Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R-Por um lado, uma ideia de género (o conto breve e o microconto) que há muitos anos me seduz e que me tem proporcionado belas experiências, no plano da leitura e da escrita. Por outro lado, o poder de sugestão e a condensação de sentidos, que são próprios destes textos curtos, favorece a expressão do humor e da crítica, duas coisas que na escrita me interessam.
3-Pensando no futuro: existem mais projectos de ficção no seu horizonte?
R-Sim. Faço tenção de publicar, não sei é quando, um pequeno livro de contos, alguns deles mais encorpados. Já tenho algum material terminado. E pretendo também trabalhar em mais histórias para os mais novos, uma delas, de fundo vagamente portuense, concluída também. Tenho, aliás, entregue há muito para publicação uns “Contos de Dias Felizes”, igualmente para a infância.
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João Pedro Mésseder
Contos do Quarto Minguante
Húmus 8,50

