Miguel Araújo Oliveira: “Quis criar uma obra dramática com uma dimensão educativa”

1-O que representa no contexto da sua obra literária o livro “Os Pássaros da Morte de Salazar-Uma Tragédia em duas Farsas”?
R-Trata-se da primeira peça de teatro que escrevi. Até então as minhas publicações centravam-se em poesia, contos, novelas e obras académicas. Além do mais Os Pássaros da Morte de Salazar é uma obra mais explicitamente política. Ela pretende ser memorialista, centrada na violência do Estado Novo e nas suas consequências des/(h)umanas. Vista no conjunto da minha obra até então publicada, julgo que este livro representa talvez um certo amadurecimento da minha escrita, na qual tentei combinar teatro, memória histórica e reflexão ética para revisitar e preservar a experiência da ditadura portuguesa.

2-Qual a ideia que esteve na origem desta peça de teatro?
R-A ideia surgiu mais ou menos em 2008, numa altura em que a extrema-direita já começava a ganhar terreno em vários países da Europa, como, por exemplo, na Áustria, onde eu vivia na altura. Com uma peça de teatro “interventiva”, se assim a posso chamar, quis criar uma obra dramática com uma dimensão educativa. Nutri a esperança de poder fazer refletir os meus leitores e fazê-los perceber que o fascismo não foi a solução dos problemas sociais de então e dificilmente poderia sê-lo hoje. Contudo não quis impor a minha opinião ao leitor e, por isso, concebi uma peça onde duas posições opostas se confrontam. Na obra temos, por um lado, um grupo de dissidentes antifascistas que expressam o seu juízo negativo sobre o regime de Salazar e de Caetano e, por outro, um defensor deste regime. Pretendi deixar ao critério do leitor a decisão de escolher o lado, isto é, a argumentação com a qual mais se identifica. É aqui que a obra deixa de ser meramente histórica e adquire plena atualidade. Embora o original tenha sido escrito em português, rapidamente foi-me solicitada uma versão em alemão. Não porque a obra fosse literariamente relevante, mas porque, na Alemanha e na Áustria, pouco se sabia sobre a ditadura portuguesa. Muito se falava de Hitler, Mussolini, bem como de Franco, mas Salazar era pouco conhecido. Divulgar um período marcante da história de Portugal acabou, então, por ser um objetivo complementar. Em 2024, no ano do cinquentenário da Revolução dos Cravos, surgiu ainda uma tradução inglesa com o mesmo propósito. Tanto na versão alemã como na inglesa foram inseridas notas de rodapé explicativas e contextualizadoras que a versão portuguesa dispensava.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R-Neste momento estou a preparar uma análise (solicitada por alunos e pela sua docente) que questiona como os dramaturgos alemães Bertolt Brecht (fundador do teatro épico) e Peter Weiss (fundador do teatro documental), bem como o romancista inglês George Orwell (um dos autores mais conhecidos do género distópico) influenciaram Os Pássaros da Morte de Salazar. Para além deste trabalho mais pequeno, estou a estudar, num novo livro, a censura imposta a escritores de expressão alemã durante o período do Estado Novo.
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Miguel Oliveira
Os Pássaros da Morte de Salazar-Uma Tragédia em duas Farsas
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