João Sevilhano: “Resistir quando se pode, navegar quando é preciso. Mais não sei.”

1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu livro “A Era da Pós-Profundidade: Ensaios sobre a Plastificação das Ideias”?
R-A ideia de escrever um livro acompanha-me há pelo menos dez anos. Faltava-me um conceito que ligasse as várias pontas que, no meu pensamento, não estavam soltas, mas que para outros podiam parecer meros devaneios.

A ideia da pós-profundidade surgiu-me em 2025, numa conferência de negócios em que também tive uma participação secundária como orador. No meu papel principal de participante, e no de observador, reparei que os aplausos aos colegas que foram ocupando o palco ao longo dos três dias eram persistentes e indiscriminados. A diversidade de proveniências, de estilos e de legitimidade intelectual dos oradores levou-me a suspeitar da capacidade da audiência para discernir o que era interessante, sustentado e revelador de um pensamento de qualidade (para não abusar de «profundidade»). Não me pareceu que a flexibilidade ou o eclectismo fossem a explicação.

Daí a ideia de pós-profundidade, provavelmente por ter lido sobre pós-verdade e pós-modernismo, mas também porque naquela conferência se falou muito de pós-humanismo. Pesquisei o termo e nada encontrei. Fiquei assim com um conceito-cola, que deu o título ao livro e que contém, em simultâneo, seriedade e sátira.

2-Entre vários outros, um tópico inquietante do seu livro é o do crescente consumo de fast food mental. Além de ideias de plástico estamos a criar gerações de consumo rápido sem sabedoria, sem densidade e sem profundidade: o que poderemos ainda fazer?
R-«Não sei» seria a resposta mais honesta. Resisto a duas partes da pergunta. A primeira é «gerações», conceito que me desperta dúvidas, mas isso levaria muito a explicar: o fast food mental não é uma invenção dos mais novos nem para os mais novos, é a dieta que todos estamos a produzir e a consumir. Os mais novos, como sempre fizeram, imitam os adultos que os rodeiam, incluindo os que escrevem livros sobre a pós-profundidade. A segunda resistência tem que ver com «o que poderemos fazer»: o livro foi escrito também contra a tentação de responder de forma imediata e «solucionista» a perguntas complexas e importantes como esta.

Dito isto, não estou de braços cruzados, até porque também procuro respostas para mim. Este livro não foi escrito de fora, de uma posição de mera observação; foi escrito de dentro, a sofrer com os males que critico e a procurar reconhecer o meu contributo.

O caminho que tenho encontrado é o de um activismo pequeno e pouco sonoro: actos de resistência individuais, muitas vezes invisíveis a terceiros. Entediar-se, ler, pensar, reservar tempo não estruturado e sem finalidade produtiva, conversar sem intenção utilitária, desconfiar da linguagem que nos faz sentir inteligentes sem esforço, a começar pela nossa.

Nada disto se consegue em grande escala, e é por isso que funciona. A sabedoria nunca foi rápida nem se distribuiu em massa; a era da pós-profundidade promete exactamente isso. Resistir quando se pode, navegar quando é preciso. Mais não sei.

3-Na sua perspectiva, que papel pode desempenhar a Inteligência Artificial (IA) nesta transformação a que estamos a assistir nas nossas vidas (no emprego, nos comportamentos, na educação, em processos de aprendizagem, na saúde, na influência na acção política, na subversão do trabalho jornalístico, etc.)?
R-A pergunta tem oito domínios e só tenho opinião fundamentada sobre dois ou três; sobre os outros tenho meras suspeitas. Para que não me acusem de ludismo: uso estes sistemas para algumas tarefas, e o que produzem é muitas vezes interessante. O problema, parece-me, começa no nosso deslumbramento. No livro conto a história de um professor universitário que, depois de testar um chatbot, concluiu, encantado: «a ferramenta conhece-me mesmo bem». Não conhece. Calcula. Quando confundimos as duas coisas, entregamos-lhe precisamente o que não tem: o juízo e a dúvida. São capacidades que não devemos delegar, sob pena de perdermos espaço de treino e, com ele, a possibilidade de as desenvolver.

Na educação fica muito visível a tendência para se obterem respostas rápidas e convincentes, o que não é o mesmo que correctas e pensadas. Esta burocratização do pensamento dá resultados imediatos, por vezes satisfatórios (e mesmo isso é discutível), à custa do que só se ganha quando se tolera, ou se escolhe, um caminho mais custoso e de proveito mais lento.

No jornalismo e na política o mecanismo é o mesmo e o intuito é mais fácil de ver: captar atenção. A inteligência artificial é uma fábrica de tretas a custo quase nulo, fluente e indiferente à verdade, ligada a uma economia que já vivia disso. É um acelerador. Continuo a defender uma hipótese: o maior feito destas tecnologias foi terem-nos posto a acreditar que são parecidas connosco ou, pior, com uma divindade.

E, no entanto, não acredito que o papel da IA esteja decidido, por mais que haja quem se esforce por nos convencer de certas profecias. Uma máquina que simula compreensão obriga-nos a perguntar o que é compreender; uma que escreve por nós obriga-nos a perguntar porque escrevíamos. Saibamos sustentar as perguntas.
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João Sevilhano
A Era da Pós-Profundidade: Ensaios sobre a Plastificação das Ideias
Edições 70  15,90€

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