Luís Bento: “Olhar para a profissão bancária como um retrato social de várias gerações de trabalhadores”

1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu novo livro “Bancários (Retratos com Data-Valor)”?
R-A ideia nasceu da vontade de perceber como se constrói uma classe profissional com prestígio, identidade própria e força coletiva, e como essa realidade se afirmou antes e depois do 25 de Abril. O livro procura olhar para os bancários como um grupo que teve peso social, capacidade de organização e reconhecimento, e acompanhar também o processo de erosão dessa força ao longo do tempo, à medida que a banca se foi transformando, privilegiando uma cultura de performance em detrimento de uma cultura de equipa, tornando-se mais impessoal e perdendo grande parte desse papel coletivo. A ideia nasceu, também, da vontade de olhar para a profissão bancária não apenas como uma função técnica, mas como um retrato social de várias gerações de trabalhadores e de um setor que mudou profundamente ao longo das últimas décadas. O livro procura dar voz a essas experiências, mostrar o que foi a banca enquanto espaço de prestígio, de proximidade e de identidade profissional, e perceber como essa realidade foi sendo alterada pela modernização do setor.
2-Como explica este paradoxo entre insatisfação dos clientes e lucros elevados?
R-Esse paradoxo resulta, em grande medida, de uma transformação estrutural da banca. A redução da rede física, a digitalização dos serviços, a automatização de processos e a forte pressão comercial permitiram às instituições reduzir custos e aumentar eficiência, mas também afastaram muitos clientes do modelo de atendimento de proximidade que existia antes. Ao mesmo tempo, os bancos subiram comissões no tempo das taxas muito baixas e mantiveram essas comissões elevadas quando as taxas começaram a subir, ganhando em dois “tabuleiros”, além de passarem a operar com equipas mais reduzidas e com metas mais agressivas, o que ajuda a explicar como conseguem lucros elevados mesmo num contexto de maior insatisfação por parte dos clientes.
3-A Inteligência Artificial vai extinguir a profissão bancária?
R-Não diria que a profissão vai desaparecer a curto prazo, mas vai continuar a encolher e a transformar-se profundamente. A Inteligência Artificial tende a substituir tarefas rotineiras e administrativas, o que reduzirá ainda mais as funções tradicionais, a nível de operativa de balcão, por exemplo, substituindo-as por funções de maior especialização, tecnologia e supervisão; quem se adaptar terá espaço, quem ficar preso ao modelo antigo terá muita dificuldade em acompanhar.
__________
Luís Bento
Bancários (Retratos com Data-Valor)
Fundação Francisco Manuel dos Santos 5€

