Oliver Tearle porque estamos longe de saber tudo

CRÓNICA
| Rui Miguel Rocha
O que pensamos saber dos livros não está incorrecto, mas estamos longe de saber tudo, das entrelinhas, dos que ficaram para trás no tempo, daqueles que permitiram as grandes obras que os seguiram ou que, com alguma actividade mística e desorientadora os antecederam. Apesar de existirem por aí, muitos destes livros ficaram esquecidos, foram ignorados ou votaram-se a códigos secretos não alcançáveis pelo comum dos mortais. Livros de ficção, mas também livros técnicos, científicos, religiosos e até de receitas. Aqui debatem-se temas proibidos como o sexo, o diabo, os direitos das mulheres (os homens inseguros e ignorantes colocam-nos quase sempre no mesmo saco), assim como outros assuntos ou matérias ou histórias bem escondidos dentro de livros bem conhecidos e até exaltados pela crítica da História.
Dividido pelo tempo em Mundo Clássico, Idade Média, Renascimento, Iluminismo, Romantismo, Vitoriano, Americanos, o Continente e o Mundo Moderno, este livro foca-se no Ocidente com ocasionais piscadelas de olho ao Oriente.
A Eneida incrustada na libra inglesa pela expressão latina decus et tutanem (ornamento e salvaguarda), Safo, a grande poeta grega e a ilha de Lesbos e de como foi Aldous Huxley o primeiro a registar a palavra lésbica. Pitágoras proibindo urinar na direcção do sol e o seu teorema que só lhe foi atribuído quinhentos anos depois de morrer, como se fosse um evangelista. A morte poética de Petrónio e a morte às mãos do Vesúvio de Plínio, o Velho, que assegurava o crescimento de cabelo a um careca que esfregasse excrementos de rato na calva cabeça.
Da época medieval destaca-se uma mulher que deu o mote às palavras menos extraordinárias da era COVID, Julian of Norwich que escreveu as suas visões e nelas a expressão “tudo ficará bem”, quando é bem sabido que não ficará.
Do Renascimento, uma personagem quase desconhecida, Thomas Coryat, que bebeu na Mermaid Tavern com Shakespeare e Ben Johnson e foi bobo na corte do rei, trouxe a moda italiana do garfo e da faca para a corte, assim como o primeiro guarda-chuva e a lenda de Guilherme Tell, tudo registado no seu livro de viagens a Itália publicado em 1611.
Passada a era dos dicionários que foi o Iluminismo, chegamos ao Romantismo, tempo do nascimento dos cemitérios modernos e de mulheres extraordinárias, como Mary Wollstonecraft, mãe de Mary Shelley (sim, a do Frankenstein) e autora do livro com que dei de caras numa livraria no dia a seguir a conhecer a sua existência “Uma Defesa dos Direitos da Mulher”. Tempos de Jane Austen e da ascensão do gótico, Walpole e Mathew Lewis, mas também da criação de um novo léxico inglês, novas palavras, outros significados.
Seguem-se os Vitorianos com Dickens à cabeça redefinindo o Natal inglês, logo seguido por Lewis Carroll, pelos primeiros romances policiais e, é claro, por Conan Doyle que escreveu “Um Estudo em Vermelho” em três semanas, enquanto geria um consultório médico em Portsmouth. Depois Bram Stoker e o seu Drácula, que tinha o nome original de Conde Wampir.
Seguem-se os Americanos com Edgar Allan Põe à cabeça e o seu desconhecido livro sobre moluscos com conchas, que, no entanto, foi o que mais vendeu em vida. Outro desgraçado, Melville, não chegou a ver a sua famosa baleia a ser idolatrada, tendo vendido em média, vinte e três exemplares de Moby Dick por ano. Mark Twain, o homem que escreveu pela primeira vez um romance à máquina, pelo menos que se saiba, numa Remington, grande fabricante de espingardas. O epitáfio de Emily Dickinson “chamada de volta”. E Lew Wallace, que escreveu o Ben-Hur e tentou indultar o famoso fora-da-lei do velho Oeste, Billy The Kid.
Chegados ao Velho Continente, aparecem ensaios sobre o onanismo e também outros sobre “As Doenças que Acometem Pessoas Literárias e Sedentárias”. Ainda tempo para Victor Hugo que viu “Os Miseráveis” serem arrasados pela crítica e para o avô de Jules Verne que também escrevia utopias parvas como a previsão de, no futuro, virem a existir automóveis movidos a combustão interna e casas com luz eléctrica. E Tolstói que deu o título de “Tudo está bem quando acaba bem” para o imortal romance depois conhecido por “Guerra e Paz”.
Passámos ao Mundo Moderno e a F. Scott Fitzgerald que também introduziu muitas palavras novas na língua inglesa, Virgínia Woolf com o seu esquecido Flush que tenho em casa e ainda não li. E ainda T. S. Eliot, funcionário do Lloyds Bank, de chapéu de coco, que publicou o grande poema “A Terra Desolada” como hino ao pós-guerra.
No fim, as manobras anti-plágio do dicionário Oxford com palavras inventadas para apanharem as cópias indevidas.
Isto, é claro, antes da IA.
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Oliver Tearle
Biblioteca Secreta
Gradiva 17,50€

