Pedro Gomes Sanches: “Distinguir a administração do que existe da governação que transforma”

1-Qual foi a ideia que esteve na origem deste seu novo livro «Portugal na Paz dos Bloqueios»?
R-O livro nasceu de uma inquietação: como é que um país com tantas capacidades se habituou a exigir tão pouco de si próprio e se acomodou a uma mediocridade de conveniência? Quando é que foi a última vez que o país teve um desígnio, uma ambição? Conhecemos a maior parte dos nossos problemas e, mesmo assim, continuamos a adiar decisões que sabemos necessárias. Quis, sem fatalismos nem catastrofismos, porque nada é final nem tudo é mau, elencar algumas das decisões por tomar e o sentido que essas decisões devem seguir.

A «paz» do título tem, evidentemente, uma intenção irónica. É a paz que se obtém quando não se mexe em nada que possa incomodar alguém com capacidade de protestar, mesmo que a imobilidade prejudique muita gente sem capacidade de se fazer ouvir; e normalmente é isso que faz: manter excluídos os mais vulneráveis, os jovens que têm de procurar futuro fora do país, os mais pobres que têm de se conformar com um apoio extraordinário e com serviços públicos em deterioração crescente. Na habitação, na Justiça, na educação ou na Segurança Social, o adiamento tem consequências muito concretas sobre a vida das pessoas.

Depois, quis dar uma ideia integrada das políticas públicas. Procurei relacionar esses bloqueios, porque nenhum ministério resolve sozinho problemas que atravessam o país inteiro. E distinguir a administração do que existe da governação que transforma. Podemos passar anos a cumprir procedimentos e a anunciar medidas sem alterar as condições que produzem os maus resultados. O país fica administrativamente ocupado e politicamente parado.

Finalmente, porque tenho 4 filhos e gostaria que eles pudessem viver num país prospero e justo; onde a diligência individual não encontrasse permanentemente barreiras, e onde as condições de partida de cada um não fossem uma condenação intransponível.

2-Do seu ponto de vista, a quem deve ser endossada a responsabilidade pela persistência dos bloqueios?
R-A responsabilidade começa em quem dispõe de poder para decidir. Não aceito que se dissolva numa vaga culpa colectiva, muito conveniente para quem governou. Quem exerceu o poder durante mais tempo, e quem sustentou essas governações, tem de responder pelo que fez e pelo que deixou por fazer. Nesse sentido, o PS tem uma responsabilidade particularmente pesada na consolidação deste modelo, pelo menos nos últimos 30 anos. O PSD também tem responsabilidades, e seria pouco exigente da minha parte dispensá-lo de as assumir.

Mas os bloqueios sobrevivem às alternâncias porque têm beneficiários, defensores e uma considerável tolerância social. Cada reforma enfrenta interesses organizados que percebem imediatamente o que podem perder; quem poderia ganhar encontra-se disperso, nem sempre conhece esse benefício ou só o receberá mais tarde. O governante faz a conta eleitoral e, demasiadas vezes, conclui que é preferível encomendar outro estudo. Transformámos, de alguma maneira, a democracia numa partidocracia, com um sistema de recompensas que raramente se entrecruza com o bem-comum.

Também por isso, uma divisão que me interessa explorar – e isso não é dito assim, taxativamente, no livro, mas intui-se – é a que separa situacionistas de reformistas. Encontro pessoas à direita muito satisfeitas com o Estado que dizem combater, desde que este lhes preserve as conveniências. A defesa das “reformas” encontra muitas adversativas – e é por isso que se tornam especialmente exigíveis – quando bate à nossa porta.

3-Pensando no futuro, ainda estamos a tempo de furar os bloqueios e de nos desabituarmos de viver abaixo das nossas capacidades?
R-Sim, embora o tempo não seja indiferente. Um problema adiado pode tornar-se mais caro, mais difícil de resolver e mais injusto para quem chega depois. O envelhecimento da população, por exemplo, não fica suspenso enquanto os partidos negoceiam a próxima oportunidade para não decidir.

Precisamos de reformistas pragmáticos: pessoas com uma direcção clara, capazes de negociar os meios para lá chegar e de responder pelos resultados. Uma reforma exige preparação, sequência, avaliação e capacidade de corrigir o que falhar. Exige também franqueza sobre os custos da transição. Prometer que todos ganharão imediatamente é uma boa maneira de destruir a confiança quando surgirem as primeiras dificuldades. Discutir outra coisa que não um programa de governo, um alinhamento de políticas públicas, é a maneira mais rápida de nem sequer chegar a discutir o essencial.

O entendimento político necessário terá de servir para mudar alguma coisa. Um consenso que apenas distribui o direito de veto acrescenta um bloqueio aos anteriores.

Escrevi este livro porque acredito que podemos viver melhor. Não encontro nenhuma fatalidade portuguesa que nos condene à mediocridade. Encontro escolhas, incentivos e instituições que podemos alterar. Difícil? Certamente. Governar costuma ser.
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Pedro Gomes Sanches
Portugal na Paz dos Bloqueios
Guerra & Paz  17€

Pedro Gomes Sanches na “Novos Livros” | Entrevistas

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