Ricardo Franco: “Relacionar a temática do luto com o género policial”

1-Que significado teve para si a atribuição do Prémio Literário Orlando Gonçalves a este seu romance “Inspector Chavarino: A Caixa do Cisne”?
R-As palavras do escritor António da Costa Neves, Presidente do Júri, tiveram um efeito muito raro, muito belo. Foram como um espelho muito gentil, que me permitiu acreditar que aquela imagem que eu via refletida correspondia à realidade. É uma coisa muito preciosa, sem dúvida, sentir que se é aquele de quem se está a falar tão favoravelmente.
Stuart Mill dizia que os prazeres do espírito eram superiores aos do corpo. Dizia que era melhor alguém sentir-se amado, sentir-se cumprido, do que sentir a fugacidade dos prazeres físicos. É nesse sentido que o texto de fundamentação da atribuição do Prémio foi tão maravilhoso. Deu-me permissão para olhar para mim mesmo de uma forma muito benigna.
2-Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R-A ideia original foi a de relacionar a temática do luto com o género policial.
O trabalho de Chavarino é o de erradicar o mal, o de prender assassinos, o de afastar homens violentos, que convocam o medo e a incerteza para o panorama das nossas vidas.
No entanto, a morte do seu filho, resultante de uma doença, não tem culpados, não tem redenção possível, não figura alguém que mereça sofrer como consequência, é uma aberração, constitui um luto encravado, suspenso, insano. Não há nada que o inspector possa fazer contra a morte do filho, nada que o permita desvencilhar-se dos seus sentimentos cáusticos.
É esse contraste que adensa e que alimenta o drama. Chavarino é chamado para um novo caso, o homicídio de um rapaz, e procura o assassino como se ele fosse a figura de substituição de todo o mal, como se fosse o culpado de todas as dores. Quanto maior a obsessão do protagonista por apanhar o facínora, mais intensa a trama. Chavarino está a processar o luto, a atravessar o drama maior da experiência humana, a impotência dos homens contra o destino arbitrário.
Um detetive tem um trabalho trágico, predestinado à frustração, luta contra a natureza humana. Procura travar o crime, tal como um jardineiro procura arrancar as ervas daninhas e os ramos-ladrões do quintal. No entanto, é da natureza das ervas daninhas ignorarem as ideias da cabeça do homem e aparecer onde menos se espera. O género policial está configurado, por isso, pelo elemento transcendental do cinismo, da mesma forma que o romance de espionagem está configurado pela paranóia, por exemplo. No género policial, o leitor acede a uma realidade tingida de cinismo: todos podem esconder segredos macabros, todos podem mentir, todos podem ter motivações sinistras. Neste universo policial, corre mal ter fé e a solução apresenta-se necessariamente pela via do cepticismo. O que eu quis fazer foi, precisamente, explorar o que o cinismo profundo em relação à natureza humana e ao destino faria à alma do protagonista.
Outro dos elementos fundamentais constituintes do género policial relaciona-se com a ideia de reparação, de retribuição, de combate ao mal. É o contacto com o sofrimento e com a miséria humana que endurece a certeza moral do castigo. É por isso que o género tão facilmente escorrega para o justiceirismo, para a vontade de fazer justiça à margem das instituições.
Este aspeto apresentou-se como muito pertinente para os tempos em que vivemos. O medo de uma sociedade e de um planeta em profundas transformações têm levado a fraturas muito sérias na sociedade. O apelo, nestas crises, é sempre o de fazer justiça à margem das instituições democráticas, é sempre o consequencialismo de que importa mais o resultado do que os meios das ações.
Quando um grupo extremista planeia raptar o Primeiro-Ministro, terá certamente objetivos nobres de salvação da sua nação; quando um grupo humanista assalta um supermercado, para oferecer os bens roubados aos pobres, terá evidentemente objetivos nobres perante os mais vulneráveis; quando um grupo de ambientalistas impede o trânsito de circular ou agride um ministro, com tinta, terá objetivos nobres de salvação da espécie humana; quando uma ministra da educação se recusa a fornecer dados ao parlamento, um órgão de soberania da República, sobre os custos dos alunos no ensino público, quererá, é claro, evitar a contestação populista da escola pública e garantir os valores do iluminismo; quando há fugas de escutas que derrubam governos, quando há proibição no acesso dos diversos países da UE à propaganda russa, imposta pelo Parlamento Europeu, quando um governo falha o prazo constitucional para regularizar um decreto-lei aprovado pelo Parlamento, quando se teme o resultado de um possível referendo, etc, etc, etc.
Em todos estes casos, com polaridade inversa, existe descrença na democracia. Todos apelam à ação à margem das instituições, para assegurar objetivos nobres. Todas estão mais interessadas no bem comum do que em procedimentos burocráticos, em direitos e liberdades individuais e em consensos democráticos. Receamos cada vez mais o voto e as ideias dos outros e receamos cada vez mais a falência da forma de vida ocidental.
Dito de outro modo, este pai enlutado, que procura desesperadamente castigar os assassinos pela morte dos filhos dos outros, está na posição de todos nós na contemporaneidade. Na situação de perda de um passado idealizado, nostálgico, em crise, em sofrimento, com medo do futuro e descrente nas instituições. O apelo que colhe o seu espírito é o do justiceirismo.
É uma sorte descobrir personagens destes, que nos permitem explorar o espírito do tempo que vivemos, a substância de que é feita a nossa vida coletiva.
3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R-Terminei, agora mesmo, dois contos infantis. Vou dedicá-los à Olívia, que vai nascer em Dezembro. A ideia era a de que fossem acompanhados por um guião de perguntas, para que qualquer pai ou professor pudesse fazer Filosofia para Crianças, sem precisar de formação.
Ao mesmo tempo, estive a trabalhar a estrutura de três contos. A ideia da obra será a de trabalhar três períodos da História de Portugal, cada um num género distinto. O primeiro seria uma tragédia, o segundo literatura romântica, o terceiro um western. As tramas estão todas montadas e as ideias de fundo bastante desenvolvidas, falta apenas alguma investigação histórica, para que não escorregue nas determinações circunstanciais dos contextos históricos.
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Ricardo Franco
Inspector Chavarino: A Caixa do Cisne
Oficina do Livro 18,50€

