Rui Passos Rocha: “A probabilidade de ser futebolista profissional é ínfima (1%)”

1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu novo livro “Promessas do Futebol”?
R-A ideia de escrever este livro começou ao ler um artigo sobre os enormes esforços que Paulo Futre fez, na sua adolescência, para tentar alcançar o sonho de ser futebolista profissional: dormia na estação do cacilheiro, à noite, após os treinos, e porque teria de se levantar cedo no dia seguinte para ir para a escola. Isso fez-me querer saber quantos jovens haverá em Portugal que fazem também grandes esforços pelo mesmo objectivo, mas que por algum motivo não conseguem mais tarde atingi-lo. Quando percebi que há 180 mil jogadores portugueses federados actualmente no activo (dos quais 40 mil têm 19 ou mais anos), isso deu-me ainda mais vontade de explorar este tema. Porque o facto é que só uma ínfima parte desses futebolistas, poucas centenas, não mais, encontra lugar nos plantéis dos dois principais campeonatos portugueses e também em clubes de primeira divisão estrangeiros.
2-Do seu ponto de vista, qual o principal factor que atrai milhares de jovens para o futebol?
R-Julgo haver dois factores fundamentais: por um lado, o futebol tem uma qualidade democrática no facto de ser fácil praticá-lo e não requerer um investimento proibitivo para os mais desfavorecidos; por outro lado, os grandes futebolistas entram-nos pela vida adentro através dos media e das redes sociais, e fazem-no através de uma narrativa predominante que esquece o enorme mar de futebolistas que não alcançaram idêntico sucesso. Os jovens tendem a pensar nos futebolistas de elite, e nas suas contas bancárias, quando pensam em tentar a sua sorte. O que não sabem, e deveria ser do conhecimento geral, é que na 1.ª Liga portuguesa o salário médio (excluindo os três grandes) é pouco superior a 5500€/mês (bem bom, mas não estratosférico) e na 2.ª Liga o salário médio não chega a ser o dobro do salário mínimo. E aí, nesses dois campeonatos, só jogam cerca de 250 dos tais 40 mil futebolistas! A grande maioria está no Campeonato de Portugal (distritais) e no desemprego.
3-Escreve que para 24 convocados para a seleção nacional existem 10 mil promessas do futebol que estão condenadas a jogarem em escalões secundários, ao esquecimento ou ao desemprego: como poderemos alterar esta situação?
R-Não sei se é desejável melhorar o rácio de jogadores na Seleção A face ao total de jogadores. O que me parece desejável é que seja dada informação concreta às crianças e às famílias, para que saibam muito bem que a probabilidade de ser futebolista profissional é ínfima (1%), que a probabilidade de ser internacional por Portugal, no conjunto dos variados escalões, é-o ainda mais (0,24%) e que a probabilidade de ser futebolista de elite deve rondar os 0,01%. Sabendo isso, e conhecendo os números da realidade salarial, os jovens e suas famílias poderão decidir em consciência tentar ou não a sua sorte no futebol, com tudo o que isso implica em termos de investimento de tempo e dinheiro da parte das famílias. E sendo certo que prosseguir os estudos é fundamental. Se de uma maior consciência da realidade resultar uma redução do número de praticantes federados, então esse será um efeito secundário do que verdadeiramente nos deve ocupar: reduzir os níveis de frustração entre os muitos jovens que acham que vão ter um futuro no futebol profissional e, afinal, apercebem-se de que isso não será possível.
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Rui Passos Rocha
Promessas do Futebol
Fundação Francisco Manuel dos Santos 5€

