Erling Kagge e os malucos para tudo e ao mesmo tempo

CRÓNICA
| Rui Miguel Rocha
Bastou ler Polo Norte na capa para pegar no livro. Bastou ver quem era o autor para o comprar. Já li alguns livros de Kagge e gostei de todos. Este não foi excepção.
O Polo Norte existe e não existe. Não há terra ali, só gelo marinho a boiar e a fugir ao sítio exacto, de maneira que, quem lá chega não fica por muito tempo. Tem outra vantagem esta deriva, não dá para pregar bandeiras no polo norte, elas desaparecem para sul. Mesmo assim, os russos tentaram meter uma bandeira no fundo do mar, felizmente já obliterada pelas correntes e pelo tempo.
Lá em cima está a Estrela Polar que afinal são três e fazem parte da Ursa Menor. Cá em baixo o Ártico, baptizado pelos gregos com a palavra exacta para urso. A Terra dos ursos, assim como Antártica é a terra “antiurso”, portanto, sem ursos.
Tempo para falar de campos magnéticos e de como os cientistas chegaram à conclusão que os cães se alinham com eles nas manobras defecativas, “as coisas que os cientistas têm de observar…” Há ferro debaixo da terra da Terra que orienta as aves migratórias no ar. Está tudo ligado.
Mas o objectivo do livro é descrever as explorações polares e os motivos que levam um homem a arriscar a vida para chegar um pouco mais a norte (é muito mais mortífero o Polo Norte do que o do sul) e só um expedicionário polar pode escrever sobre expedicionários polares. Nomes como Amundsen, Hudson (o da baía), Barentsz, Peary, Bering, Barrow, Parry e tantos outros, sendo que a maior parte deles morreu a tentar.
Histórias de corridas contra o tempo, rivalidades mortais, inveja, ira, mentiras e trapaças também cabem nesta espécie de obsessão mortal. E a muitos e preparados acontecia isto: “ ao fim de dez horas, tinham percorrido um quilómetro para sul do navio. Após dois meses, encontravam-se a quinze quilómetros do ponto de partida.
Mas depois de quase não conseguirem andar, quase morrerem de fome ou de escorbuto ou comidos por um urso ou de quase congelarem ou serem atingidos por tempestades e blocos de gelo, aqueles que sobrevivem ficam com a “capacidade de apreciar as coisas mais simples.”
Muitas frases do livro começam com “o último sinal de que os seis estavam vivos foi emitido…”
Tudo isto para chegar a um sítio “sem longitude, sem posição, um “lugar nenhum”.
É caso para dizer que há malucos para tudo e ao mesmo tempo: respect.
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Erlin Kagge
Polo Norte (História de uma Obsessão)
Quetzal 18,80€

