Sobre a musa de Picasso

CRÓNICA
| Célia Gomes

Será que Dora Maar , a «mulher que chora» Picassiana, foi de facto uma musa, e, a ser musa, a única que inspirou o pintor?  Depende do significado atribuído  a«musa». Eu, sempre   associei esta palavra ao seu  significado mitológico de divindade inspiradora. Contudo, as Deusas não choram, não sofrem, são imunes a paixões e emoções. E Dora sofreu, chorou, submeteu-se, humilhou-se, tudo aceitou… por amor. Apagando a sua própria luz para que Picasso brilhasse como um sol esplendoroso «Pablo precisara de mim para compreender o seu trabalho, para admirar o seu trabalho e para o amar, porque era daí que retirava a sua energia. Ele era como um vampiro: tirou o que queria, sugou toda a minha alegria» . Será  este  o papel de uma musa!? Melhor seria apelidar-Dora de escrava. Escrava psicológica, presa a uma dinâmica de cobrança emocional «dou-te abrigo e segurança. Passamos tempo juntos. Porque arranjas sempre o que criticar’», cativa à vontade e desígnios das cores com que o seu «senhor» pintava os seus quadros e os seus dias. «Devias perceber que tudo tem o seu preço. Tudo o que vale a pena, a arte, a inspiração, tem a desvantagem da dor». Dora, a amante, que, segundo Louisa  Treger, se recusou a ser uma «nota de rodapé». Conseguiu-o? Penso que não, antes a considerando,  simultaneamente cabeçalho e nota de rodapé num capítulo da vida do artista. Cabeçalho por  muitas vezes ter  contextualizado e ter sido o sangue que alimentou o processo criativo de Picasso. Recordo o papel relevante de conselheira, fotógrafa e companheira que desempenhou na criação de  «Guernica» . «Enquanto observava, apercebi-me de que as mulheres devastadas, de boca aberta e que pareciam chorar lágrimas de sangue, tinham as minhas feições. E senti-me orgulhosa por o meu rosto ter sido distorcido para formar um símbolo de sofrimento da guerra. Umas horas mais tarde, Pablo  estendeu-me um pincel. – preciso da tua ajuda. Acabas o cavalo?». Cabeçalho sem deixar, contudo, de ser nota de rodapé, por esta frequentemente  servir de apontamento ou comentário nuclear para esclarecer, complementar ou  desnudar o  corpo  ou membro de um parágrafo. E Dora para além de  ser ela própria parágrafo e complemento, desnudou o corpo Pablo escondido nas entranhas de Picasso. O Pablo «minotauro» (retratado nas  pinturas e esculturas do artista), o Pablo cruel, o Pablo sádico, o Pablo criança traumatizado pela morte da irmã . O Pablo que  provocava lágrimas e aparentava ter surtos de alexitimia. O Pablo promíscuo, perverso, ávido de volúpia. O Pablo imprevisível. O Pablo fogoso «Aquilo era inebriante, era como ser convidada de um sumptuoso banquete cujo menu era constantemente alterado e improvisado. Marie-Thérèse e Olga esbateram-se na minha mente ao ponto de eu sentir que era o único amor de Pablo. Para mim , ele era luz e oxigénio. Havia momentos que parecia não conseguir respirar na sua ausência». Noutro contexto, esta frase poderia ser considerada romântica, mas aqui não  dado o sofrimento, a crueldade, a violência infligida.  Pablo era o motor que movia a mão de Picasso, que por sua vez era alimentado por combustível feito lágrimas ácidas femininas. Mas nem tudo no livro é ácido, nem pintado com  as  cores de «Guernica». Para além do cinzento, visualizamos o vermelho do sangue vertido na guerra e nas touradas, o sépia do choro  de  Dora,  Olga, de Marie-Therese e de mais mulheres, provocado pela vida,  pela morte, pelas paixões. Visualizamos o azul do mar das estadias na Cote d’Azur, a amálgama de cores elegantes das festas, da moda parisiense, das exposições. Um livro envolto num glamour secreto de mistério, deslumbramento e perturbação.  Custou-me a ler esta narrativa, provocou-me desconforto. Desconforto por também eu ser mulher . e ser solidária no sofrimento de Dora, testemunho do padrão feminino que se repete ciclicamente e nos transporta-para uma forma de amar dramática, flagelada, cheia de feridas e cicatrizes. O amor sentido e poetizado por Florbela Espanca. «Eu quero amar amar perdidamente…». Será  esta  sina de Dora a  sina de todas as mulheres, de amar até que a dor nos mate? Desconforto também, por ser fervorosa admiradora de Picasso e de toda a sua obra. Era admiradora e continuo a ser, pois, no fim do livro perdoei a Picasso mas não perdoei a Pablo.
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Louisa Treger
A Musa de Picasso: Dora Maar, a Artista que se Recusou a ser uma Nota de Rodapé
Singular Editora  17,75€

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