Tiago Bartolomeu Costa: “Uma aproximação ao retrato de um país que se teve que inventar”

1-Qual a ideia que esteve na origem desta colecção “Liberdade, Liberdade”?
R-Esta colecção surgiu na sequência da exposição LIBERDADE! LIBERDADE!, A REVOLUÇÃO NO TEATRO, comissariada por Nuno Costa Moura, à data director do Museu Nacional do Teatro e da Dança, inaugurada no Festival Internacional de Teatro de Almada em 2024, e que depois percorreu o país, integrada num programa mais vasto em colaboração com a Comissão para as Comemorações dos 50 Anos do 25 de Abril, que envolveu dez companhias de teatro “históricas” e que ainda estão no ativo.
Surgiu como exercício de reflexão sobre como pode o teatro documentar o real, nomeadamente um em permanente transformação, como foram os tempos imediatamente seguintes à revolução de 1974. O convite que me foi dirigido teve como orientação identificar um conjunto de peças que fosse significativamente representativo do modo de fazer, agir e escrever teatro no período pré e pós-revolucionário, com um arco temporal que permitisse acompanhar, entre o início da década de 1970 e a década seguinte, de que forma o teatro participou nos debates sociais e políticos que preocupavam as populações e, à sua escala e na relação direta entre texto e público, ajudou a traduzir o processo revolucionário.
Quisemos que esta colecção fosse um trabalho de pensamento diálogo, incompleto porque não é sobre os espetáculos que possam ter sido feitos a partir dos textos, ou por contar, já que muitas destas peças foram censuradas antes, e algumas depois da revolução. Quisemos que os textos, na sua dimensão teatral e documental, fossem uma aproximação ao retrato de um país que se teve que inventar, teve que procurar formas de contar a sua história, por aqueles que a estavam, também a aprender a vivê-la.
A coedição com a Tinta-da-China permite inscrever as peças num trabalho editorial mais vasto, acessível e pensado para um público não-especializado, colocando estas peças em estreito diálogo com o teatro contemporâneo que a editora já publica. De certo modo, cria um espelho entre o teatro sobre o presente de então, com o presente que agora se fixa.
2-A colecção terá 10 volumes: principais critérios de escolha das peças agora publicadas?
R- Procurei que, no seu conjunto, as peças fossem demonstrativas da riqueza do teatro apresentado em Portugal e pudessem, sem se responderem diretamente, exemplificar como há dimensões de escrita, de pensamento e de prática que são comuns ao teatro amador, teatro documental, teatro de intervenção, teatro dramático ou teatro de revista. Procurei peças que tivessem sido encenadas, mas nunca publicadas, vindas do teatro de revista, agora em completa liberdade (Pides na Grelha, por exemplo, a primeira peça de teatro de revista original a estrear após a revolução ); peças censuradas depois do 25 de Abril (Eva Péron, de Filipe La Féria, em 1975; A Cegada, do coletivo A Comuna, em 1976); peças editadas em edições de autor, pensadas para serem representadas pelas classes operárias e o povo (como as que foram reunidas no volume Teatro Popular 2 ou A Força do Povo, de Manuel Gírio), ou na expectativa de encontrarem quem as soubesse usar como crítica política (como A Ceia dos Pides, de Eduardo Fernandes); peças autores que observam, de campos diferentes, as sequelas da guerra colonial (Em Bizango de Bizangongo, de Manuel Geraldo; A como estão os cravos hoje?, de Orlando da Costa); pelas que fazem, no teatro, uma reflexão social intensa, provavelmente sobre as quais, tendo perdido o contexto, são hoje objectos poético-dramáticos demonstrativos de como o teatro é uma ferramenta de pensamento que não se extingue na efemeridade da representação nem na velocidade do ciclo noticioso (o conjunto reunido em Fábulas Teatrais sobre a Revolução Portuguesa, de Richard Demarcy e Teresa Mota; A Grande Marcha, de um autor que se desconhece; O proletário que não morreu, de Rui Salvada); peças de teatro documental, exercícios de experimentação narrativa, em estreito diálogo com o desejo de participação dos espectadores, activando a memória colectiva e herdada da história nacional (Esta é a ditosa pátria amada, de Jacinto Ramos e Luz Franco; Arraia-Miúda, de Jaime Gralheiro); textos de profunda intensidade poética e dramática, revendo os princípios do teatro simbolista (O Fio, de Prista Monteiro); textos estrangeiros adaptados à realidade nacional, enquanto exemplos de um diálogo e inscrição das lutas e resistências internacionais contemporâneas à nossa (Liberdade, Liberdade, de Luiz Francisco Rebello, Luís de Lima e Helder Costa; O canto do papão lusitano, de Peter Weiss); peças que tenham sido transformadas depois da revolução (A Ceia e A Ceia II, do coletivo A Comuna); e uma peça, das muitas escritas por mulheres que procuraram que, no Teatro Nacional D. Maria II se pudesse falar do presente, e cujo contributo foi rasurado da história oficial da dramaturgia portuguesa (Algures na Europa, de Maria Irene Dionísio).
Preocupou-me menos se eram autores conhecidos, peças mais fáceis ou se ainda poderiam ser representadas. Quis, sobretudo que, a partir destes exemplos, pudéssemos estar mais atentos aos modos como o teatro é uma disciplina em constante mutação, sobre a qual qualquer definição é sempre incompleta. O que estes textos têm em comum, agora, é um leitor contemporâneo que, retrospectivamente, poderá observar, na sua complementaridade, à qual se junta o saber de cada um, na sua escala e à sua maneira, de que modo olha para o teatro não como uma disciplina que se extingue em si mesma, mas como elemento participativo, empenhado e construtivo para a nossa história contemporânea. Razão pela qual defendo que estas peças, aos quais se podiam juntar outras, e nem assim alguma vez esta coleção estaria completa, não são o teatro feito em Portugal no período pré e pós-revolucionário, mas são um recorte vivo e actuante sobre aquilo que é, agora, a nossa história colectiva, assim dela saibamos ser seus leitores.
3-As peças escolhidas contribuíram para a renovação do Teatro em Portugal no pós-25 de Abril?
R- Se as soubermos, e continuarmos a ler, sim, absolutamente. A renovação do teatro faz-se se for continuada, e não um objetivo que se conclui. A revolução cumpriu-se ou a democracia é uma luta diária? Como pode o teatro não se renovar se nasce e morre todos os dias, porque todos os dias é diferente, para um público diferente, e cada encenação do mesmo texto, faz com que esse texto é diferente? O teatro foi-se renovando, às vezes a duras expensas de quem o tentava, num país político e social que tudo formatou. A questão está em saber se a revolução, por si mesma, resolveu todos os problemas do teatro do pré-25 de Abril. Não resolveu. Por um lado ainda bem: o que faríamos se estivesse tudo cumprido? Por outro lado, ainda bem: porque agora podemos voltar, como no teatro, todas as noites, a ler uma peça e a tentar fazer com que resolva.
Não é importante saber se e como e durante quanto tempo a renovação se deu, porque falamos sempre de tentativas e erros, e nunca de uniformização. O que é renovação para uns é excesso para outros; o que é perda de uns é reescrita de falsos heróis com outros… o Teatro tem esta maravilhosa possibilidade de ser uma coisa e o seu contrário. E, feita a revolução e resolvida a censura, veio outra coisa, a autocensura: até onde se pode ir? Isso sim, é aquilo que o teatro não sabe resolver. A escrita destas quase 40 peças reunidas em 10 volumes, são hipóteses de renovação. Cada uma delas é já uma revolução. E revolução maior é poder editá-las hoje sem serem apenas objecto de análise académica, mas como elementos vivos, participativos da renovação, isso sim, do nosso discurso sobre o teatro português. É essa a renovação que falta. Os textos estavam lá, nós é que nos esquecemos deles.
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Tiago Bartolomeu Costa (coord.)
Colecção Liberdade, Liberdade [10 volumes]
Tinta-da-China

