Tomás A. Moreira: “A maioria dos historiadores tem transmitido sobretudo uma versão romântica e parcial do período revolucionário que se seguiu ao 25 de Abril”

1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu novo livro «No Terramoto de 1975»?
R-Pretendi, com base em vasta documentação e muitos testemunhos pessoais, evitar que se perdessem as memórias de factos extraordinários que foram marcantes há 50 atrás e que hoje nos parecem surpreendentes, por serem pouco referidos. Na verdade, a maioria dos historiadores tem transmitido sobretudo uma versão romântica e parcial do período revolucionário que se seguiu ao 25 de Abril, escamoteando que houve graves atropelos, ilegítimos e injustificados, contra a liberdade e os direitos humanos, que deixaram sequelas negativas.

2-De que forma o caso do seu pai que aqui relata é um exemplo dos tempos controversos, contraditórios e agitados do PREC?
R-O caso da longa prisão do meu pai (oito meses), que conto com bastantes pormenores no livro, é exemplar de um período da nossa história no qual supostamente já viveríamos em liberdade, mas no qual na realidade não se respeitavam direitos humanos básicos nem os princípios dum estado de direito. Sob invocação dum suposto direito revolucionário que se sobrepunha à leis, houve dezenas de milhares de portugueses (ou centenas de milhares, se contarmos também os afectados pela descolonização) que foram vítimas de atentados muito graves à sua liberdade e ao seu património.

3-Passaram 50 anos: hoje, como interpreta a reacção dos trabalhadores da Molaflex que ousaram contrariar o clima político predominante e se manifestaram pela libertação do seu patrão?
R-Na altura, em Junho de 1975, os trabalhadores manifestaram-se, pedindo aos militares que permitissem o regresso à empresa do seu patrão, que estava há demasiado tempo detido sem culpa formada. Contra a doutrina de extrema-esquerda prevalecente na época, que proclamava a luta de classes por parte de trabalhadores explorados contra patrões criminosos, a reacção dos trabalhadores da Molaflex veio desmentir essas teorias, demonstrando que, pelo contrário, se vivia naquela empresa (como em muitas outras) um ambiente saudável entre os donos do capital, os dirigentes da empresa e os trabalhadores. Demonstraram também que era possível tentar contrariar pacificamente os excessos revolucionários que ameaçavam atirar o país para uma guerra civil e que o povo já não se conformava mais nem aceitaria pacificamente ser violentado pela extrema-esquerda e pelos militares que tinham alinhado com ela e pretendiam amordaçar o país, roubando a liberdade prometida em Abril.
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Tomás A. Moreira
No Terramoto de 1975
Guerra & Paz  20€

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