Ricardo Borges de Castro: “O livro nasce da preocupação com o futuro da democracia e das sociedades livres e abertas”

1-Qual a ideia que esteve na origem deste livro “Pensar o Futuro (Portugal e o Mundo em Prospetiva Estratégica”?
R-Há duas ideias ou razões principais pelas quais escrevi este livro: uma mais prática e outra, diria, talvez mais substantiva. Na vertente prática, o objetivo foi divulgar a prospetiva estratégica e a reflexão sobre futuros e, ao mesmo tempo, partilhar um pouco da minha experiência e vivência nestas áreas e o tanto que aprendi com pessoas extraordinárias nestes últimos anos. Neste sentido, é um pouco autobiográfico e reflete os meus interesses e formação académica de base bem como as experiências profissionais que fui tendo no campo da prospetiva, mas não só.
De um ponto de vista mais substantivo, o livro nasce da preocupação com o futuro da democracia e das sociedades livres e abertas, num contexto de maior fragmentação e polarização políticas e de crescentes riscos geopolíticos e económicos, potenciados pela aceleração tecnológica. Se em períodos ditos normais já é difícil pensar a longo prazo nas democracias liberais parlamentares, porque os incentivos eleitorais estão na resolução de problemas do presente, num contexto em que os governos ou são mais instáveis (minoritários ou de coligação) ou duram menos, a tarefa torna-se ainda mais difícil, podendo comprometer a própria democracia.
Se quisermos traçar uma biografia da democracia para o futuro, ela passa por ter capacidades de antecipação estratégica reforçadas. Ou seja, temos de construir aquilo que se pode chamar a “democracia antecipatória,” um termo cunhado por Alvin Toffler em Choque do Futuro nos anos 1970, mas que ganha um novo significado nos dias de hoje. Na minha opinião, o futuro da democracia e das sociedades abertas e plurais depende, em grande medida, desta capacidade de pensar mais a longo-prazo e de antecipar e preparar os futuros.

2-Numa situação mundial tão instável, complexa e volátil apostou em escrever um livro sobre prospetiva estratégica: de que forma esta abordagem pode contribuir para que decisores definam políticas e tomem decisões no sentido certo?
R-Nunca sabemos a 100 por cento se as decisões que tomamos vão no sentido certo, porque depois de tomadas o futuro ou os futuros interferem e influenciam essas mesmas decisões. A prospetiva estratégica também não deve ser vista como uma varinha de condão ou uma bola de cristal que permite predizer o futuro e resolver todos os problemas. Dito isto, a incerteza é avenida principal da prospetiva estratégica e esta pode ajudar decisores, instituições, governos, empresas e sociedades a preparar melhor os futuros.
De facto, a prospetiva estratégica contribui para que se tomem melhores decisões ao ter à sua disposição um conjunto de ferramentas ou métodos que ajudam a lidar com a incerteza e o futuro de forma mais sistemática e estruturada, tais como a análise (e projeção) de grandes tendências para perceber a direção do mundo, a chamada ‘exploração de horizontes’ que permite identificar riscos ou oportunidades novas ou emergentes, a cenarização que se tornou prática de muitos governos e organizações para pensarem sobre o seu futuro e a forma como ele pode evoluir e com que consequências, ou o ‘visionamento’ que é útil para definir estratégias ou um futuro que ambicionamos respondendo a duas questões: para onde queremos ir e como lá chegamos?
Numa situação mundial tão instável, complexa e volátil, a prospetiva pode ajudar os decisores a ‘ensaiarem’ o futuro ou futuros antes de eles acontecerem e, através disso, a preparam-se melhor ou para os influenciar ou para mitigar potencias riscos que possam estar a caminho. Este aspeto é muito importante: a prospetiva, só por si, não vai resolver problemas. Mas se for entendida e usada como uma chamada à ação, a sua utilidade e relevância aumentam.

3-Partilha a ideia de que Portugal nem sempre tem tido a visão estratégica necessária para se distinguir e afirmar no cenário europeu e mundial?
R-Não creio ser o único a partilhar essa ideia. Mas também acredito que isso está a mudar, como a publicação deste ensaio pela Fundação Francisco Manuel dos Santos demonstra.
Ora, Portugal não precisa de mais improviso. Nisso, já sabemos que somos bons. Precisamos, sim, de prospetiva, de planeamento e de preparação em doses reforçadas. Note-se que isto não significa pensamento único. Por exemplo, no caso da Finlândia que apresento no “Pensar o Futuro,” o parlamento joga um papel fundamental com o seu ‘Comité do Futuro.’ Aliás, a prática do governo finlandês em apresentar um ‘Relatório do Governo sobre o Futuro’ em cada legislatura decorre de uma obrigação parlamentar. Mais democrático e plural que isto é difícil.
Muitas vezes me pergunto: “como seria vista ou recebida na opinião pública (ou publicada) em Portugal uma Comissão do Futuro na Assembleia da República”? Não sei se estamos já preparados para isto… Mas, na verdade, e como dizia em cima, a situação está a mudar para melhor. Naturalmente, já se pensou muito sobre o futuro em Portugal e destaco, por exemplo, aqui o decano destas atividades no nosso país – o José Manuel Félix Ribeiro – ou mesmo o saudoso Professor Ernâni Lopes que também foi um grande estratega. Mas, como em muitas outras partes do mundo, a prospetiva que é cada vez mais necessária, sofreu em Portugal das vicissitudes dos contextos políticos e económicos, das prioridades do momento, ou eventualmente da falta de recursos – desde humanos ou financeiros até àquele que nunca temos em doses suficientes e que não recuperamos: o tempo.
Digo que a situação está a mudar para melhor porque não só se têm multiplicado as iniciativas da sociedade civil relativamente ao estudo ou debate de futuros, mas o estado português dotou-se em 2021 de uma espécie de think tank interno – o Centro de Planeamento e Avaliação de Políticas Públicas (PLANAPP) e a rede REPLAN que junta toda a administração pública – que tem a responsabilidade de contribuir para que Portugal tenha a tal visão estratégica para o futuro. Um dos aspetos principais deste Centro é ter sido criado na vigência do governo anterior e ter sido mantido pelo atual. Isto nem sempre acontece e se há coisa que as atividades de prospetiva necessitam é de sustentabilidade e duração no tempo para evitar estar sempre a inventar a roda ou a recomeçar. Presentemente, a PLANAPP e a REPLAN estão a pensar em Portugal com um horizonte até 2050. Esta deve ser uma viagem ao futuro que todos os portugueses deveriam acompanhar. No fim de contas é do nosso futuro que se trata.
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Ricardo Borges de Castro
Pensar o Futuro (Portugal e o Mundo em Prospetiva Estratégica
Fundação Francisco Manuel dos Santos  5€

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