Diga não ao cruel comércio da morte.

Artur Azul | Mente e Consciência

1. Como podemos conciliar Filosofia e Neurociência?
R- Ainda que, por vezes, alguns cientistas pensem que a Filosofia não lhes interessa em nada para o seu trabalho específico, a verdade é que, como diz o filósofo e cientista Daniel Dennett, «não há tal coisa como ciência livre de filosofia; há apenas ciência cuja bagagem filosófica é tomada a bordo sem examinação». Tem de se esclarecer, à partida, que à filosofia não cabe o papel de se substituir à ciência; é a esta que cabe a função de investigar, produzir conhecimento objetivo sobre o domínio que investiga e verificar empiricamente a validade desse conhecimento. À filosofia não lhe cabe a função de produzir conhecimento ao nível empírico. No entanto, a filosofia tem o direito de se situar “aquém” e “além” da ciência: (1) “aquém” no sentido em que não se faz ciência sem um fundo de pressuposições e orientações que a filosofia tem o direito de questionar e procurar esclarecer (por exemplo, os conceitos utilizados pela ciência, a adequação dos métodos empregues, face aos objetivos visados, etc.); e (2) “além” no sentido em que, após a obtenção dos conhecimentos científicos, há de novo lugar para a intervenção da filosofia, relacionando esses conhecimentos com outras áreas dos saberes e atividades humanas (questões éticas, socioculturais, etc.) e procurando perspetivas mais abrangentes. Portanto, entre filosofia e neurociência, não se trata de obter uma conciliação no sentido em que ambas estejam de acordo ou que cheguem às mesmas conclusões; no entanto, podemos falar de uma ação complementar entre essas duas disciplinas do pensamento.

2. Que ideias estão na origem da reflexão e escrita deste livro?
R-Como digo no Prefácio do livro, «o presente trabalho teve, como ponto de partida, algumas ideias ou conceções que foram surgindo, de forma embrionária, na sequência de algumas leituras prévias nos domínios filosófico e científico sobre a mente e a consciência». As funções ou faculdades de uma mente consciente – perceção, emoção, memória, volição, pensamento, etc. – são, para mim, uma temática fascinante, pois representam o domínio central do nosso ser enquanto pessoas. A minha formação filosófica levou-me a procurar obras de filosofia nessa área e verifiquei que existiam muito poucas publicações em português. Os principais filósofos contemporâneos da mente e da consciência situam-se no espaço geográfico habitualmente designado por “mundo de fala inglesa” e há pouquíssimas traduções das suas obras para português. Por outro lado, temos o neurocientista português, António Damásio, que é uma referência a nível mundial no domínio da neurociência. Daí, o reforço do meu interesse por esta disciplina que, nas últimas décadas tem sido bastante falada, sobretudo devido às múltiplas descobertas sobre o funcionamento do cérebro humano e possíveis explicações sobre a consciência. Após alguns anos de leituras e pesquisas nestes dois domínios – filosofia e neurociência –, constatei que não havia praticamente nada publicado em português que conjugasse estas duas áreas disciplinares. Daí, que tenha encarado o desafio de escrever um trabalho sobre a mente e a consciência que abordasse ao mesmo tempo as perspetivas da filosofia e da neurociência.

3. A mente humana é, ainda, um enorme desafio ou estamos a começar a descobrir cada vez mais elementos concretos e esclarecedores?
R-A mente humana abrange uma grande diversidade de funções ou faculdades, desde as perceções e emoções, até aos pensamentos mais complexos e sublimes, passando pela memória, imaginação, crenças, desejos, intenções, etc. Além disso, acompanhando todas essas funções temos, em maior ou menor grau, a consciência. A consciência é aquilo que mais direta e intimamente conhecemos, pois é, por definição, a nossa própria presença, sentida, percebida ou projetada, que acompanha os nossos estados e eventos mentais. No entanto, a consciência e a mente em geral representam efetivamente um enorme desafio para as ciências da mente, designadamente, para a neurociência. A razão disso reside no facto de a consciência, assim como muitas funções mentais, ocorrerem na interioridade de cada um, sendo diretamente acessíveis apenas ao próprio sujeito em que ocorrem (subjetividade e perspetiva de primeira pessoa), ao passo que a ciência exige a objetividade e a perspetiva de terceira pessoa (observação de um ponto de vista exterior ou intersubjetivo). O conhecimento do funcionamento do cérebro tem aumentado muito com as investigações neurocientíficas. Por exemplo, sabe-se que, quando ocorrem certos tipos de emoções, quando falamos ou estamos atentos, quando resolvemos problemas ou quando planeamos ações, certas regiões ou órgãos do cérebro entram em atividade (aumentando o fluxo sanguíneo, interagindo com outras regiões ou órgãos, segregando certos tipos de substâncias, etc.). A neurociência investiga os processos neurofisiológicos do cérebro e procura estabelecer relações ou correlações desses processos com as funções da mente consciente – os chamados “correlatos neurais da consciência”. No entanto, esses correlatos não são ainda uma explicação da consciência. Ainda não temos uma explicação científica completa de como, a partir dos constituintes físicos, biológicos e neurofisiológicos do cérebro se chega a uma mente que funciona do modo como estamos familiarizados e com uma consciência subjetiva e qualitativa. Esse é um desafio que alguns estão convencidos de que virá a ser alcançado, enquanto outros acham que nunca isso nunca será possível, dada a natureza específica da consciência, perante os métodos objetivos da investigação científica.
Voltando ainda à questão das ideias na origem deste livro, acrescentaria que um dos principais objetivos foi o de procurar esclarecer certos “mal entendidos” e dogmas que ainda predominam quer na filosofia quer na neurociência acerca da consciência. Um desses dogmas surge da parte de alguns neurocientistas das últimas gerações, que assumem que a neurociência deve adotar uma posição fisicalista reducionista – o que os leva à convicção de que a consciência é completamente explicável a partir dos processos neurofisiológicos do cérebro. Contra esse dogma eu procuro esclarecer que a consciência tem uma natureza irredutível a esses processos neurofisiológicos e, por isso, tem de se admitir a necessidade de uma perspetiva diferente. A consciência tem dois níveis de emergência: o senciente e o pensante. Cada um desses níveis resulta do domínio biológico subjacente, mas com a emergência de propriedades ou características inteiramente novas: as sensações, perceções, emoções, volições – no domínio senciente; e o pensamento, a linguagem, a comunicação verbal e simbólica – no domínio da consciência pensante (que continua a ter uma dimensão senciente, mas que também é capaz de autoconsciência e de desenvolver uma memória autobiográfica). E isto implica uma abordagem filosófica, com uma nova perspetivação ontológica – que é a proposta da terceira e última parte do livro.
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Artur Azul
Mente e Consciência
Guerra e Paz  19€

ALEXANDRE ANDRADE


Alexandre Andrade já editou seis livros de ficção, tendo-se afirmado como uma dos grandes contistas portugueses da actualidade. Com um estilo muito próprio e procurando sempre novos caminhos.
Na sua obra mais recente "quis escrever contos sobre as cores e a maneira como afectam a vida das pessoas". Um autor a seguir com toda a atenção. 
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1. O que é para si a felicidade absoluta?
R- Só depender de si mesmo para alcançar os objectivos.
2.  Qual considera ser o seu maior feito?
R- Nem sequer consigo começar a imaginar que critério poderia aplicar para hierarquizar os meus “feitos”.
3. Qual a sua maior extravagância?
R- Deixo a colher dentro da caneca enquanto bebo o leite.
4. Que palavra ou frase mais utiliza?
R- “Dantes é que era bom”.
5. Qual o traço principal do seu carácter?
R- O gosto pelo papel de observador.
6. O seu pior defeito?
R- Falta de disciplina.
7. Qual a sua maior mágoa?
R- Não vou responder a esta.
8. Qual o seu maior sonho?
R- Ver pergunta nº 2.
9. Qual o dia mais feliz da sua vida?
R- 24/4/2006.
10. Qual a sua máxima preferida? 
R- “Segue sempre os teus sonhos e não te esqueças de usar fio dental”. (Do filme “Boyhood”, de Richard Linklater.) 
11. Onde (e como) gostaria de viver?
R- Paris, com um rendimento fixo que evitasse a penúria, empregado por conta própria e com muito tempo livre.
12. Qual a sua cor preferida?
R- Verde e azul.
13. Qual a sua flor preferida?
R- Rosa.
14. O animal que mais simpatia lhe merece?
R- Gato.
15.Que compositores prefere?
R- Schubert, Bach, Debussy, entre outros.
16. Pintores de eleição?
R- Degas, Courbet, Bonnard, Vermeer, Veronese, Barnett Newman, entre outros.
17. Quais são os seus escritores favoritos?
R- Joyce, Proust, Beckett, Kafka, Donald Barthelme, Agustina Bessa-Luís, entre outros.
18. Quais os poetas da sua eleição?
R- Hopkins, Apollinaire, Berryman, Fiama H.P. Brandão, entre outros.
19. O que mais aprecia nos seus amigos?
R- Sentido de humor.
20. Quais são os seus heróis?
R- Aqueles que não cedem à adversidade e mantêm a cabeça erguida.
21.Quais são os seus heróis predilectos na ficção?
R- Murphy (Beckett), o comissário Maigret, Margarita (Bulgakov), Adrian Mole (Sue Townsend), entre outros.
22. Qual a sua personagem histórica favorita?
R- Afonso Costa.
23. E qual é a sua personagem favorita na vida real?
R- Não percebo a pergunta.
24. Que qualidade(s) mais aprecia num homem?
R- A atenção ao próximo.
25. E numa mulher?
R- A atenção ao próximo.
26. Que dom da natureza gostaria de possuir?
R- Uma memória mais fiável.
27. Qual é para si a maior virtude?
R- A compaixão.
28. Como gostaria de morrer?
R- Quando penso neste assunto vem-me sempre à memória uma citação de M. Yourcenar. «Quero morrer lentamente para sentir o processo a ganhar terreno dentro de mim» (citado de memória).
29. Se pudesse escolher como regressar, quem gostaria de ser? 
R- Para quê perder tempo com uma pergunta sobre um acontecimento que, para além de impossível, é (mais grave ainda) conceptualmente inverosímil? Se alguma vez “regressasse”, seria eu mesmo; se fosse outra coisa, já não “regressaria”.
30. Qual é o seu lema de vida?
R- As coisas que têm de ser feitas merecem ser bem feitas.
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Alexandre Andrade na Novos Livros | Entrevistas

Isabel Nery | Sophia de Mello Breyner Andresen



1-Como foi investigar e descobrir o percurso Sophia?
R- Foi uma bela aventura, que me levou até à Grécia, ao Algarve, à Granja e ao Porto, mas também a ouvir cerca de 60 testemunhos. Desde alguma família, grandes amigos, como Manuel Alegre e Graça Morais, até tradutores e especialistas na obra, assim como o pescador José Muchacho ou empregados dos restaurantes que Sophia frequentava. Ou ainda historiadores da ilha de Föhr (antes Dinamarca, hoje Alemanha) de onde o bisavô de Sophia, Jan Andresen, veio para Portugal. Foi um trabalho profundo, de investigação, por isso, a somar ao que já referi, pesquisei arquivos, como os da PIDE, na Torre do Tombo, ou os arquivos da Presidência da República, o espólio da Biblioteca Nacional, assim como artigos de jornal e textos escritos sobre Sophia. O objetivo era chegar a uma visão o mais abrangente possível da autora, que me permitisse revelar uma Sophia completa, nas suas diferentes facetas (criança, mulher, mãe, amiga, poeta, política).

2-Durante a sua pesquisa sobre Sophia de Mello Breyner Andresen, ficou surpreendida com algum aspecto da sua vida?
R- Talvez o mais surpreendente, porque completamente desconhecido até aqui, seja o facto de Sophia ter entrado na Faculdade de Letras de Lisboa (em Filologia Clássica) com uma média relativamente baixa de 12 valores. O génio literário que lhe é reconhecido levaria a pensar que poderíamos estar perante uma aluna genial. No entanto, este dado é, ao mesmo tempo, coerente com a personalidade de Sophia, desde sempre avessa a formalismos e formatações, especialmente aqueles que a escola impunha no tempo da ditadura. Por outro lado, este detalhe é também muito interessante por revelar o rigor na sua postura pública. Ao tornar-se deputada da Assembleia Constituinte, a informação que consta na ficha parlamentar indica nas habilitações literárias: «primeiro ano incompleto». 

3-A biografia que escreveu é, também, um livro sobre a história de Portugal que Sophia viveu e em que se empenhou?
R- Foi uma decisão que tomei relativamente cedo no processo de biografar Sophia. Pareceu-me difícil entregar aos leitores da biografia uma poeta descontextualizada do seu tempo, ou até do tempo que a precedeu. Como poderíamos compreender uma autora se não notássemos que nasceu um ano depois da primeira Guerra Mundial, que cresceu num país pobre e analfabeto e se fez adulta desejando a liberdade num território sujeito à ditadura e à guerra colonial?
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Isabel Nery
Sophia de Mello Breyner Andresen
Esfera dos Livros  22€

Pedro Quelhas Brito | Distribuição-Gestão de Pontos de Venda e de Retalho

1- Qual a ideia que esteve na origem deste vosso livro «Distribuição-Gestão de Pontos de Venda e de Retalho»?
R-A ideia inicial para a elaboração deste livro passou pela constatação de que fazia falta. Fazia falta aos gestores, colaboradores e estudantes dos setores do Retalho, Distribuição e Gestão Comercial.  Só em Portugal, há cerca de 220 mil empresas e 770 mil pessoas que trabalham diretamente no setor do comércio por grosso e a retalho, segundo dados da Pordata. E nas dez maiores empresas empregadoras estão três empresas de retalho: Pingo Doce, Modelo Continente (Grupo SONAE), e Jumbo/Auchan Portugal. Para além disso, aumentou consideravelmente o número de lojas nos últimos anos, estando já previstas muitas aberturas para os próximos anos. Para além destes números “diretos”, temos outros setores relacionados com o comércio de forma indireta, tais como as indústrias agro-alimentares e de bens de grande consumo, e as atividades de transporte e armazenagem, entre outras, que também necessitam de acompanhar os últimos desenvolvimentos do retalho, para se manterem atualizadas.

2 - A distribuição é uma das áreas que mais se alterou nos últimos 20 anos: que balanço se pode fazer, hoje, desse processo?
Desde 1990, o número de empresas do setor do comércio por grosso e a retalho passou de cerca de 560 mil para 770 mil colaboradores, e de 173 mil para 220 mil empresas. Isso representa um aumento superior a 35% em colaboradores, e superior a 25% no número de empresas. Associados a estes números, temos uma história com diversos marcos e inovações no retalho em Portugal nos últimos anos, das quais destacamos:
a) Chegada dos discounts ao mercado português (por exemplo com as primeiras lojas da insígnia Dia em 1993, e Lidl em 1995), que vieram reformular o panorama competitivo do setor; b) Reforço da importância dos atributos de proximidade e conveniência, na escolha do consumidor sobre o local onde efetuam as suas compras (que gera oportunidades para os formatos de menor dimensão e maior proximidade); c) Desenvolvimento de programas de fidelização, recorrendo cartões e aplicações digitais (por exemplo o Cartão Continente tem hoje mais de 3 milhões e 500 mil utilizadores, e a aplicação tem mais de 600 mil utilizadores, segundo informação transmitida pela empresa); d) Maior peso das vendas com Promoções – associadas a folhetos constantes (com periodicidade geralmente semanal), e sistemas de fidelização dos clientes. Destacam-se ainda diversos marcos como as campanhas de 50% do Continente (desde 2003), ou as ações do dia 1 de maio geralmente efetuadas pelo Pingo Doce, que se iniciaram em 2012; e) Maior preocupação com o detalhe nas operações e logística, em busca de eficiência acrescida; f) Centralização logística (entregas dos fornecedores ocorrem em centros de distribuição do retalhista e não nas lojas, na maior parte dos casos); g) Ações de responsabilidade social e de cidadania empresarial das cadeias retalhistas; h) Ofertas direcionadas para turistas e residentes estrangeiros (por exemplo com lojas de souvenirs, e de produtos locais e regionais, bem como produtos e marcas originárias do local de onde os turistas nos visitam); i) Preocupações crescentes com a complexificação do sortido de produtos, devido à multiplicação de produtos e marcas existentes que concorrem pelo seu espaço no linear, pois geram complexidade e custos acrescidos para a operação dos retalhistas; j) Reformulação dos conceitos de loja da maior parte das grandes cadeias retalhistas, para melhorar a experiência de compra dos clientes e a eficiência operacional, bem como para maximizar a produtividade das áreas de venda; k) Crescente importância do e-commerce, retalho omnicanal e fenómenos como o webrooming e showroomingl) Fecho de lojas e de algumas cadeias menos eficientes (veja-se por exemplo as dificuldades que o grupo Dia / Minipreço enfrenta atualmente); m) Consumidor cada vez mais preocupado com a sua saúde e com questões ecológicas e de sustentabilidade (o que tem levado à reformulação da oferta dos retalhistas, com produtos biológicos, “light”, com menos açúcar, sal e gorduras; e ecológicos); m) Tecnologias diversas que alteram o interface com os clientes, a experiência de compra e os processos dos retalhistas (Apps, Scan and Go, Self checkouts, prateleiras inteligentes, softwares para análise de filas de espera, novos métodos de pagamento, a “big data” facilmente operacionalizável; entre outras); n) Passagem duma comunicação e promoções de vendas massificadas para todos os consumidores, para uma comunicação e promoções de vendas cada vez mais personalizadas, em função dos hábitos, preferências e localização dos consumidores.
Em resumo, podemos dizer que hoje em dia os consumidores estão mais informados, conscientes e exigentes com os retalhistas (devido a terem um maior acesso a informação dos vários retalhistas, partilharem informação, e a estarem ligados 24 horas por dia); há um reforço da importância da experiência de compra (que obriga a que as lojas físicas se reformulem para continuarem relevantes e “combaterem” o fenómeno do e-commerce); há uma concorrência crescente (inerente às diversas cadeias internacionais que se instalaram em Portugal); há uma aceleração da digitalização do retalho (com diversas inovações tecnológicas e de processos); e imperativos crescentes de produtividade para garantir que o retalhista continua a ser eficiente (com maior pressão concorrencial, os retalhistas têm vindo a reduzir as suas margens de rentabilidade, o que obriga a que se tornem mais eficientes nas suas operações).

3 - Na pesquisa que realizaram, que novas tendências puderam identificar que vão marcar a distribuição em Portugal?
A distribuição está, e vai continuar a mudar muito nos próximos anos em Portugal e no mundo. Destacamos as inovações em termos de produtos, marketing, canais de distribuição e pontos de venda, bem como nas operações e logística. Ao nível das inovações de produtos, destacamos uma alteração do sortido de produtos dos retalhistas relacionada com o reforço das marcas exclusivas dos distribuidores (em produtos orgânicos e biológicos; produtos relacionados com saúde e bem-estar; menos sal, açúcar e gorduras; produtos sem glúten; produtos com proteínas criadas em laboratório e com proteínas vegetais; produtos proporcionadores de beleza para pele e cabelos), e processos de fabrico avançados (que permitem a redução dos timings de produção, e a oferta de produtos personalizados, nomeadamente nos setores da moda, vestuário e calçado).
Ao nível do marketing, canais de distribuição e pontos de venda, as lojas do futuro terão uma abordagem omnicanal (podendo ser mesmo vistas como centros de distribuição das encomendas online) e a serem mais tecnológicas do que hoje em dia (com robots, chatbots, assistentes virtuais, mecanismos de realidade virtual e aumentada, utilização de QR Codes em larga escala, utilização de tecnologia e algoritmos para minimizar os tempos em filas de espera, alterações nos meios de pagamento aceites, checkouts automáticos; utilização de marketing de proximidade com ofertas em tempo real para os clientes baseadas na sua localização e históricos de consumo – mesmo dentro dos pontos de venda físicos); pontos de venda físicos alternativos (nomeadamente com lojas virtuais em zonas de elevado tráfego como estações de metro, paragens de autocarro e mesmo hospitais); e uma maior utilização de lojas pop-up como forma de testar novos conceitos de negócio. Existirão ainda assistentes virtuais em casa (como hoje já temos o Alexa da Amazon), que permitirão que façamos as compras por voz, sem sairmos de casa. Ao nível das operações e logística, perspetivamos uma maior utilização da tecnologia RFID, a entrega de encomendas de forma autónoma associada ao e-commerce, a robotização dos centros de distribuição e armazéns dos pontos de venda, a utilização da blockchain na cadeia de abastecimento, a existência de embalagens otimizadas para e-commerce, e as embalagens conectadas através da Internet of Things, entre outras inovações. Ao nível dos custos, no modelo de negócio do retalho no futuro, perspetivamos um aumento nos custos dos sistemas de informação e comunicação (inerentes às novas tecnologias e “big data”), na distribuição dos produtos (associados ao fenómeno da “última milha do retalho” e ao aumento do e-commerce), e ao nível e stocks (na medida em que os produtos originários de economias emergentes vão ficar mais caros, devido ao aumento dos custos laborais nessas economias). Perspetivamos ainda um decréscimo nos custos relacionados com o marketing e comunicação (que passará duma abordagem massificada, para uma abordagem personalizada, low-cost e predominantemente digital); e com a propriedade dos pontos de venda físicos (inerentes à otimização do parque de lojas e reformulação inerente ao retalho omnicanal). Perspetivamos ainda uma alteração nos custos com os colaboradores, com um decréscimo no número de colaboradores dos pontos de venda físicos, e um aumento de colaboradores “especialistas” que apoiam as operações dos pontos de venda, como analistas de dados e especialistas em sistemas de informação. O setor da distribuição é assim marcado por um sistema de inovação aberto, podendo as inovações serem replicadas pelos diversos retalhistas num curto espaço de tempo. Os fenómenos de monitorização e benchmarking permanente, a imitação e adaptação das diversas propostas de valor dos retalhistas será assim disseminada facilmente pelos vários retalhistas ao longo do tempo. No mercado português, em específico, teremos a instalação do líder de mercado do retalho alimentar em Espanha, a Mercadona. Veremos como a estratégia “every day low price” será aceite em Portugal, e como é que os concorrentes já instalados irão reagir a este concorrente. Em jeito de conclusão, diríamos que as alterações no retalho passam pelos consumidores (e respetivas preferências, tendências sociais e económicas); pelos concorrentes (através da monitorização e benchmarking permanente associada a um setor de “inovação aberta”); proposta de valor (com estratégias de pricing, sortido de produtos, serviço ao cliente, balanceamento de formatos e conceitos de loja e procura de eficiência nas operações e logística dos diversos operadores), e uma predisposição para a mudança permanente dos retalhistas (para adaptarem a proposta de valor que apresentam aos seus clientes, e efetuarem as alterações necessárias nos processos e tecnologias que a suportam).
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Joaquim Monteiro Pratas/Pedro Quelhas Brito
Distribuição-Gestão de Pontos de Venda e de Retalho
Actual Editora  32,90€

| Homens do Mar

1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu livro «Homens do Mar»?
R- Depois da publicação de Grandes Batalhas Navais Portuguesas (2009/2013) e Grandes Naufrágios Portugueses (2013), a Esfera dos Livros desafiou-me a escrever sobre personalidades, Homens do Mar numa perspectiva alargada. 

2-O seu livro conta a história de 50 homens do mar desde o tempo de D. Afonso Henriques até à 1ª Grande Guerra Mundial: temos mesmo sido um país de marinheiros?
R- Dos 50 biografados há seis que se distinguiram depois do final da Grande Guerra (1914-1918), homens que viveram já na segunda metade do Século XX. Fomos efectivamente um país de marinheiros apesar de, a partir dos meados do Século XIX, termos deixado de ser uma potência marítima tornando-nos apenas num povo marítimo.

3-Ao escrever este livro, qual o homem do mar que se revelou mais surpreendente?
R- Julgo que a figura do Padre António Vieira nesta lista deve surpreender muita gente. Mas ele foi o estratega da Guerra da Restauração (1640-1668), nomeadamente quanto à necessidade do nosso reequipamento em navios (de comércio e de guerra). Também foi ele que planeou a retirada do monarca para o Brasil em caso de desastre militar na Península; depois de várias ameaças no reinados de D. João V e D. José I, esta acção viria a ser levada a cabo, em 1807 pelo Príncipe Regente, face à invasão de Portugal pelos exércitos napoleónicos.
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José António Rodrigues Pereira
Homens do Mar
Esfera dos Livros  23€

André Rodrigues | Números que Contam Histórias

Fotografia: FOTOLOOK
1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu livro «Números que Contam Histórias»?
R-O livro é, no fundo, a adaptação de uma parte dos mais de 400 episódios da rubrica “O Mundo em Três Dimensões”, que passa todos os dias na Renascença. O objetivo do programa é ajudar a compreender, em três minutos de rádio, os muitos números que fazem parte do nosso quotidiano. Esta ideia pode assustar à primeira vista, sobretudo aqueles que se acham um «zero à esquerda» em matéria de contas. Mas este não é um livro de matemática. É, essencialmente, um livro com factos e histórias curiosas, uma tentativa de prestar um serviço de cultura geral ao leitor.

2-Os números aparentam quase sempre rigor ou um esforço nesse sentido: mas, por vezes, os números podem mentir?
R-Os números não mentem, porque não merecem discussão. 2 + 2 = 4, ponto final. O problema são as pessoas e as intenções que se escondem atrás de um determinado resultado. Gostamos muito de dizer que as pessoas não são números. E, de facto não são. Mas precisamos dos números para nos organizarmos enquanto sociedade, para perceber quem somos, onde estamos e para onde é que o futuro nos leva. No fundo, precisamos deles para mitigar a nossa complexidade intrínseca de seres humanos. O problema está no risco da manipulação dos números. É aí que a intencionalidade interfere com a objetividade, procurando impor-nos uma determinada leitura dos factos. No limite, pode ser uma leitura enviesada da realidade, desde que sirva determinados objetivos. Sejam eles comerciais ou políticos. Num ano com três eleições, devemos estar particularmente atentos.

3-Dos números que apresenta no livro, qual o mais surpreendente?
R-É difícil identificar um número que seja o mais surpreendente de todos. Na verdade, sempre que me lanço à pesquisa para novos episódios, acabo por ser confrontado com elementos que me surpreendem: atualmente, o planeta tem aproximadamente 8.000 milhões de pessoas à volta do mundo. Todos os dias, em média, 19 milhões de pessoas celebram o seu dia de aniversário. A Rússia tem mais de 17 milhões de quilómetros quadrados, 11 fusos horários, faz fronteira com 14 países, da Noruega à Coreia do Norte. A Espanha tem mais cabeças de gado suíno (50 milhões) do que seres humanos (46,5 milhões). O Presidente da República português recebe um salário bruto inferior ao de qualquer estagiário de um dos gigantes tecnológicos de Silicon Valley, na Califórnia. Um simples par de calças de ganga que usamos diariamente consome 8.000 litros de água, desde o campo de algodão até aos acabamentos na fábrica. A União Europeia custa 0,48€ por dia aos contribuintes portugueses. E a lista de números surpreendentes podia continuar indefinidamente. Afinal, eles estão presentes em tudo.
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André Rodrigues
Números que Contam Histórias
Contraponto  15,50€

Paulo Drumond Braga | D. Filipa de Bragança

 
1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu livro «D. Filipa de Bragança»?
R-Em 2017 publiquei uma biografia de D. Duarte Nuno (1907-1976), duque de Bragança, e apercebi-me então da importância de uma de suas irmãs, a infanta D. Filipa (1905-1990). Mulher decidida, determinada, voluntariosa, empenhou-se na luta pela restauração da Monarquia e para isso aproximou-se de Salazar. Por isso considerei que seria interessante biografá-la.

2-Primeiro António Salazar e, depois, Marcelo Caetano: com o mesmo objectivo de restauração da monarquia, podemos dizer que a abordagem de D. Filipa de Bragança foi diferente?
R- D. Filipa visitava Salazar, escrevia-lhe e telefonava-lhe. Acreditou que se a Monarquia voltasse a Portugal seria pela mão do ditador. Com Marcelo Caetano tudo mudou: embora tenha escrito algumas cartas ao sucessor de Salazar, o contacto rapidamente cessou e D. Filipa passou a ver Marcelo Caetano como um traidor à obra de Salazar.

3-Na sua pesquisa, que factos novos (ou inesperados) encontrou e que podem conhecer melhor a história portuguesa do século XX?
R-Consegui sobretudo aperceber-me do papel desta mulher extraordinária junto do irmão, D. Duarte Nuno, dos monárquicos e de Salazar. Procurou que houvesse sempre união no campo monárquico e que nunca se pusesse em causa Salazar, pois considerou que só através do mesmo seria possível a restauração da monarquia. Tornou-se próxima do ditador e é possível que por ele tenha desenvolvido sentimentos que iam para além de uma grande amizade, os quais, muito provavelmente, não foram correspondidos.
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Paulo Drumond Braga
D. Filipa de Bragança: Lutar pela Restauração da Monarquia no Tempo e Salazar
Esfera dos Livros  20€

Jaime Bulhosa | Pedra de Afiar Livros

1-Qual a ideia que esteve na origem do livro «Pedra de Afiar Livros e Outras Histórias de um Livreiro»?
R- Este livro nasceu, em primeiro lugar, como bloco de notas de um livreiro. Onde eu ia registando pequenos episódios passados na livraria entre os livreiros e os clientes. Depois passou para o blogue da livraria Pó dos Livros e dez anos mais tarde tive a ideia de seleccionar os textos que de alguma maneira estivessem relacionados com os livros, a vida de um livreiro ou algo ligado aos livros e transformá-lo num livro. No entanto, o objectivo principal do livro sempre foi divulgar a leitura e ao mesmo tempo deixar um registo de memórias de uma profissão que parece, cada vez mais, estar em vias de extinção.

2-Em mais de 30 anos na profissão de livreiro, o que mais o surpreendeu no mundo dos livros?
R- O que mais me surpreendeu na profissão de livreiro foi verificar que os livros sempre foram e continuam a ser o bem de luxo para um pequeno número de pessoas. É claro que hoje se vendem mais livros do que há 30 anos. Porém, vendem-se em Portugal – e cada vez menos - um pouco mais de um livro por ano, por cada habitante. O que é muito pouco para um país que se deseja desenvolvido e com níveis de iliteracia baixos.

3-Começou a sua carreira em 1985. Pensando no futuro: consegue imaginar as livrarias em 2085?
R- Consigo imaginar o meu filho a passear, num dia de sol de primavera, no miradouro do Jardim de São Pedro de Alcântara, no ano de 2085. Com 91 anos de idade, cansado da caminhada, senta-se num banco de pedra que por ali ainda existem, para poder ganhar folgo e vislumbrar a cidade. O Castelo de São Jorge, a Sé de Lisboa e o casario contrastam com as águas ainda azuis do rio Tejo. Os lisboetas e os turistas gozam o fim-de-semana. A cidade está linda, como sempre. Muita gente nas ruas, nas esplanadas e nos jardins. Todos aproveitam a luz branca e brisa amena que vem do mar. O centro de Lisboa não mudou muito desde o ano de 2019. A minha neta (hipotética de cinquenta e cinco anos) está sentada ao lado dele. Aproveitando o descanso o meu filho tira do bolso do casaco um livro muito antigo. Abre-o e pega num postal que servia de marcador, também ele muito velho, com um carimbo datado do ano de 1985. Depois olha para o postal e suspira com a memória que a imagem lhe provoca. O postal mostra um jovem livreiro, à porta de uma livraria de onde se podia ler no letreiro as seguintes palavras: Livraria Bertrand, desde 1732. Uma pequena lágrima de saudade desce pela face enrugada. A minha neta ao vê-lo comovido, num impulso, pergunta-lhe: «Pai, e se fossemos visitar esse museu onde o avô trabalhou?» 
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Jaime Bulhosa
Pedra de Afiar Livros e Outras Histórias de um Livreiro
Oficina do Livro   14,40€

Leonor Xavier | Há Laranjeiras em Atenas

1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu livro «Há Laranjeiras em Atenas»?
R-O livro nasceu em Atenas, num dia de Maio, entre amigos. Eu nunca tinha estado na Grécia nessa altura do ano. Ia viajar pelo Peloponeso com amigas belgas. Passei dois dias em Atenas com amigos gregos. Descíamos as ruas de Kolonakis e eu exclamei: Ah, há laranjeiras em Atenas. Alguém disse: belo título. E assim ficou. A ideia foi sendo desenhada com a própria escrita. Começou pelo cenário balburdioso desse fim de tarde. E foi seguindo, sem linha pré determinada. A certa altura, senti que a narrativa é testemunho. Creio que escrever é dar testemunho. 

2-O que sentiu ao reler os papéis que ao longo dos anos foi guardando? 
R-Senti um certo espanto sobre o quanto que vivi e me apetecia contar. Há os papéis e os tempos passados, com os seus cenários e personagem. Há a memória, a partir de cada nome, de cada pessoa, de cada frase, de cada lugar. Como em teatro ou cinema, desfilam todas as impressões, a partir de um pormenor que ficou guardado num bocado de papel.

3-São muitos e variados os temas dos textos deste livro: consegue encontrar um fio condutor?
R-A certa altura, senti que a narrativa é testemunho. Creio que escrever é dar testemunho. Sou jornalista, sinto-me no dever de reportar o mundo que está à nossa volta. Pela palavra escrita, a cada dia cresço no meu entusiasmo pela língua portuguesa. Isso é um fio condutor. Surpreender os leitores, envolvê-los, seduzi-los, porque se escrever é bom, ler é melhor.
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Leonor Xavier
Há Laranjeiras em Atenas
Temas e Debates  16,60€
Leonor Xavier na "Novos Livros" | Entrevistas

Maria Judite de Carvalho: a flor discreta da literatura portuguesa | Obras Completas

Maria Judite de Carvalho (1921-1998) foi uma escritora portuguesa que está, hoje, um pouco esquecida mas que pode ser considerada uma das mais importantes da ficção portuguesa no século XX. Agustina Bessa-Luís considerou-a mesmo como a “flor discreta” da nossa literatura.A sua vasta obra, iniciada em 1959 com o livro de contos “Tanta Gente, Mariana”, inclui ainda novelas, crónicas, uma peça de teatro e um livro de poesia.
Maria Judite de Carvalho foi várias vezes galardoada, destacando-se: o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, o Prémio da Crítica da Associação Portuguesa de Críticos Literários, o Prémio P.E.N. Clube Português de Novelística e o Prémio Vergílio Ferreira.
Como jornalista escreveu no Diário de Lisboa, Diário Popular, Diário de Notícias e O Jornal.
A edição das Obras Completas está organizada em seis volumes dos quais já estão disponíveis os primeiros quatro:
-Volume 1 que inclui as duas primeiras coletâneas de contos: “Tanta Gente, Mariana” (1959) e “As Palavras Poupadas” (1961), obra que recebeu o Prémio Camilo Castelo Branco.
-Volume 2 que inclui duas coletâneas de contos “Paisagem sem Barcos” (1963) e “O seu Amor por Etel” (1967). E ainda uma novela: “Os Armários Vazios” (1966).
-Volume 3 que inclui as coletâneas de contos: “Flores ao Telefone” (1968), “Os Idólatras” (1969) e “Tempo de Mercês” (1973).
-Volume 4 que inclui dois livros de crónicas: “A Janela Fingida” (1975) e “O Homem no Arame” (1979). E ainda uma coletânea de contos: “Além do Quadro” (1983).
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Maria Judite de Carvalho
Obras Completas
Volumes 1, 2, 3 e 4
Minotauro  15,90€/Cada
Foto: Veríssimo Dias
1-Qual a ideia que esteve na origem deste livro "Depois da Queda"?
R-O que me motivou a escrever este livro foi a necessidade de partilhar com os leitores aquilo que me parece ser o aspecto essencial da crise europeia, e a chave de uma eventual solução para a longa crise em que o projecto europeu se arrasta. A tese central do livro consiste na ideia de que o projecto europeu estará condenado a agonizar e a fragmentar-se, mais tarde ou mais cedo, se os problemas matriciais da moeda comum não forem resolvidos. Os temas da União Europeia são complexos, mas não são opacos. Procuro explicar do modo mais lúcido e claro que me foi possível os detalhes principais de uma espécie de pacto aventureiro e profundamente irresponsável que foi assumido pelos construtores do euro no Tratado de Maastricht, em Fevereiro de 1992. Procuro demonstrar como estaremos condenados a perder tempo se tentarmos analisar os problemas do populismo, dos refugidos, da (ausência) de política de defesa, da deriva autoritária de países como a Hungria ou a Polónia, da corrupção e fuga ao fisco em larga escala, sem os relacionar com o coração da crise: a péssima estrutura de funcionamento e governação do euro, que é um travão ao desabrochar de uma verdadeira unidade europeia, democrática, funcional e efectiva. A chave do futuro da Europa reside na construção de um verdadeiro federalismo económico, monetário e político. Tudo o resto depende desta tarefa por realizar.

2-A Europa tem sido um dos seus focos de reflexão: em 2019, o que poderá ainda acontecer a nós, Portugueses, neste ambiente de absoluta incerteza?
R-O que acontecer a Portugal acontecerá, com variações não demasiado significativas, também aos outros povos da zona euro e da União Europeia. Se a implosão do euro ocorrer, não haverá santuários. Em 2019, é provável que o projecto europeu continue nas mãos de líderes que nunca acreditaram verdadeiramente na unidade europeia. A diferença é que até aqui, dominaram aqueles que poderemos designar como nacionalistas liberais, de que a chanceler Merkel é o “tipo-ideal”, que utilizaram a União Europeia como veículo para uma hegemonia moderada das suas economias e países (não é possível perceber o sucesso do mercantilismo exportador dos últimos 25 anos da economia alemã sem compreender que o euro foi estruturado como uma espécie de marco para a época da globalização). Contudo, depois de Maio, a tónica dominante no nacionalismo poderá mudar de tom. É provável que o papel dos nacionalistas iliberais tenda a ser ainda mais relevante. Personalidades como Salvini ou como Marine le Pen (com fortíssimas probabilidades de vir a substituir Macron, cujo percurso é no mínimo desastrado) encaram a União Europeia não como um veículo, mas como um obstáculo para as suas economias. A Itália, completamente, e a França, parcialmente, são perdedoras do euro. Quando tiverem poder, elas vão tentar “reformar” o euro. Mas, a mistura tóxica entre nacionalismo e incompetência que caracteriza estes nacionalistas iliberais, poderá dar a estocada mortal neste processo de agonia lenta, que tem tudo para se arrastar ainda durante muitos anos.

3-Apesar das dificuldades, contradições e obstáculos: a Europa tem futuro? 
R-A Europa tem condições materiais e culturais para ser a potência mais marcante no sistema mundial. Só a mediocridades de quem teve a ousadia de se meter na política, por vaidade e ambição, sem preparação adequada, nem ter nada a propor para um futuro melhor, é que explica o desastre para onde caminhamos. A União Europeia tinha condições para ser uma força hegemónica benigna global, capacidade para reconstruir um directório mundial pacífico com os EUA, a China, a Índia, o Japão, e o Brasil. Um directório para combater os riscos existenciais da crise ambiental e climática e da distopia tecnológica em que estamos mergulhados. Mas para isso, a Europa teria de apostar numa verdadeira revolução federal, que aumentaria, simultaneamente, a democracia e o poder europeus. Essa hipótese não está ainda excluída. Mas temos de confessar que, por inteira culpa nossa, estamos mais perto do cenário sombrio de uma Europa fragmentada e empobrecida, repartida por zonas de influência dos EUA, da Rússia e da China. 
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Viriato Soromenho-Marques
Depois da Queda. A União Europeia entre o Reerguer e a Fragmentação
Temas e Debates/Círculo de Leitores  14,40€

Sofia Miguens | Uma Leitura da Filosofia Contemporânea


1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu livro «Uma Leitura da Filosofia Contemporânea-Figuras e Movimentos»?
R-Foram na verdade as minhas aulas na Universidade do Porto (aulas de filosofia contemporânea, de epistemologia, de estética, de filosofia da mente e da linguagem e outras) que estiveram na origem deste livro. Tive vontade de replicar por escrito situações de discussão em aula, comparações de autores que aparecem como iluminadoras, ligações históricas mais ou menos inesperadas e que nos permitem subitamente compreender uma ideia. Por outro lado quis mostrar que o isolamento numa ou outra tradição da filosofia contemporânea, por exemplo a tradição analítica, ou a fenomenologia, resulta empobrecedor – há muito a ganhar quando se procura conhecer o lado de lá, o suposto adversário, a tradição estranha. Por outro lado ainda, foi importante o facto de conhecer pessoas pelo mundo fora, pessoas que admiro, que trabalham em filosofia, em vários países, na Europa e nos Estados Unidos, e que trabalham para lá desse isolamento das tradições. Elas inspiraram-me. Eu própria sempre procurei fazer isso nas minhas aulas e, como disse, era um desafio dar uma forma escrita a essa experiência. Devo dizer também que passei os últimos vinte a tentar pôr toda a gente que trabalha comigo, nomeadamente no meu grupo de investigação, o MLAG (https://mlag.up.pt/) a trabalhar e publicar em inglês. Continuo a achar que isso é essencial para um certo trabalho de investigação em filosofia feito directamente num contexto internacional (e nós estamos hoje, imensamente melhor, em Portugal, nesse aspecto) Mas ao mesmo tempo que fazia isso não deixei nunca de pensar que ler literatura filosófica em francês e alemão também é muito importante – a filosofia de língua alemã, nomeadamente, que é muito importante neste livro, é uma componente incontornável da filosofia europeia - a própria filosofia analítica, que hoje se pensa ser uma tradição de língua inglesa, nasceu no mundo germanófono. Em suma (e também aí me sinto acompanhada por colegas de vários países) por trás do livro está a ideia de filosofia europeia, que não é una em termos de tradições, e a exploração dos rumos vários filosofia europeia dos últimos dois séculos.

2-Sendo esta obra uma «leitura pessoal» da filosofia contemporânea, quais as figuras e movimentos mais relevantes que analisa?
R-Bom, Wittgenstein organiza todos os meus percursos em filosofia e certamente o capítulo do livro sobre Wittgenstein é muito importante para mim. Claro que o Wittgenstein que procuro retratar não se resume a teses alusivas mais ou menos poéticas (ou mais ou menos escolásticas) sobre jogos de linguagem – é um filósofo potente, que nos permite trabalhar em todas as áreas da filosofia e que representa teses bem específicas sobre a natureza do pensamento da linguagem, bem como ideias metodológicas acerca desse estranho empreendimento conceptual que é a filosofia e que eu penso que não se resume a análise de conceitos, a argumentação, e muito menos apenas a análise dos textos da tradição (embora isso seja, é claro, literária e culturalmente muito importante – mas ainda não é filosofia). No livro Kant faz o contraponto de Wittgenstein. À parte esses dois pontos de sustentação penso que todos os autores e movimentos que escolhi – desde Kierkegaard ou Marx até Cora Diamond e Stanley Cavell – são relevantes. Se não fossem não os teria escolhido, e a verdade é que deixei muita coisa de fora. Como digo a certo ponto no livro (quando entro pelo século XXI) interessa-me o futuro da filosofia – foi por isso que escolhi os autores e movimentos que escolhi. Penso que têm futuro.

3-A filosofia contemporânea ainda é capaz de inovar e de a surpreender?
R-Claro que sim, absolutamente. Vejo à minha volta muita filosofia escolástica, cheia de jargão, técnica demais, impenetrável – isto em todas as tradições. Essa forma mata, ou pelo menos perturba, o interesse mais imediato e genuíno que se pode ter pela filosofia e que não é menor agora do que no tempo de Platão, ou de Kant, ou de Nietzsche. Mas também vejo trabalho muitíssimo bom e esse surpreende sempre – faz-nos voltar ao puro desejo de compreender as coisas, o desejo que nos leva à filosofia como nos leva à ciência e à arte. Mas é à filosofia cabe perceber a natureza desse estranho desejo.
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Sofia Miguens
Uma Leitura da Filosofia Contemporânea: Figuras e Movimentos
Edições 70  18,90€

Cláudia Cruz Santos | A Vida Oculta das Coisas

1-O que representa, no contexto da sua obra, o livro «A Vida Oculta das Coisas»?
R-A possibilidade de um futuro na escrita de ficção, espero eu. É o meu segundo romance e foi publicado cerca de um ano e meio depois do primeiro, Nenhuma Verdade se Escreve no Singular. Comecei a sentir a necessidade de escrever histórias inventadas, sobretudo pela manhã, quando ainda estou vagamente imersa nos sonhos, porque depois, ao longo do dia, a realidade vai-se impondo e preciso de regressar à minha outra vida. Quis que este romance acontecesse, não só porque achava que podia ser uma boa história, mas também por querer confirmar se conseguia, se o primeiro livro não tinha sido só sorte de principiante.

2-Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R-Fiz uma conferência na Faculdade de Direito de Coimbra sobre as vítimas do tráfico de pessoas e a pesquisa que a antecedeu levou-me a descobrir um conjunto de episódios, tão terríveis como surpreendentes, sobre as pessoas que, no terceiro milénio, continuam a ser tratadas como coisas. A afirmação de que abolimos a escravatura é bastante questionável, se não no plano da lei, pelo menos no plano da vida. Na mesma época, a minha avó teve um acidente grave e precisei de a acompanhar na urgência de um hospital e depois no internamento. Essa experiência fez-me pensar que a idade também pode facilitar a nossa coisificação, não é só a pobreza, a exclusão social ou o género. E depois, estranhamente, deu-se uma mudança em mim, comecei a dar valor a objectos que me recordam momentos e que me contam histórias. Suponho que acabei por transportar esse conjunto de vivências e sentimentos para A Vida Oculta das Coisas.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Uma história policial. Começa com uma morte improvável, de uma mulher demasiado bem-sucedida para acabar a vida de uma forma tão ruidosa e pecaminosa. Estou muito entusiasmada com a ideia. Afinal, o que mais pode desejar uma voraz leitora de livros policiais do que ser ela, desta vez, a poder escolher o assassino? Mas é um estilo difícil, descubro-o agora, porque é preciso manter o suspense sem perder a coerência e sem resvalar para o absurdo.
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Cláudia Cruz Santos
A Vida Oculta das Coisas
Bertrand  16,60€
Cláudia Cruz Santos na "Novos Livros" | Entrevistas

Inês Lourenço | Últimas Regras

1-O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Últimas Regras»?
R- É uma segunda incursão no campo da micro-narrativa, que tinha iniciado em 2012, com o livro "Ephemeras", precisamente na mesma editora e que se encontra actualmente esgotado. A técnica da micro-narrativa, conforme a entendo, não difere muito da minha escrita de poesia, pois cultiva, na mesma, a elipse e uma espécie de surpresa final ou "turning point".

2-Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- Na origem de mais este livro está toda a mundividência e suas temáticas da minha escrita: a infância, a precaridade do ser, o desfazer de clichés culturais,a ironia, apogeus e declínios, etc.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Tenho projectos para novos livros de poemas, já iniciados. Uma antologia de textos escolhidos por um poeta brasileiro está próxima a entrar em provas para distribuição no Brasil.
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Inês Lourenço
Últimas Regras
Companhia das Ilhas  12

Inês Lourenço na “Novos Livros” | Entrevistas