Cláudia Cruz Santos | Nenhuma Verdade se Escreve no Singular



1-«Nenhuma verdade se escreve no singular» é o seu primeiro romance: como espera olhar para ele daqui a 20 anos?
R-Espero, daqui a 20 anos, recordar este livro com carinho e pensar que correspondeu à concretização de um sonho. Um sonho que, estranhamente, só descobri que realmente tinha depois de se ter tornado realidade. É bom, a meio da vida, verificarmos que temos projectos novos e que há desafios que ainda nos entusiasmam.

2-Qual a ideia que esteve na origem desta obra?
R-Havia várias histórias que queria contar e que tinham como elemento comum envolverem pessoas que foram acusadas pela prática de crimes e que estão a ser julgadas. Queria procurar as pessoas que estão por trás das máscaras de arguido e de vítima afiveladas num julgamento penal, procurar a sua humanidade. E pensei que o elemento unificador podia estar na juíza, Amália, que vai ouvindo essas pessoas e que tem dúvidas sobre as respostas que encontra, quer no trabalho, quer na sua vida pessoal.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R-Comecei a escrever uma história muito diferente, cujo epicentro é um homem jovem e com uma vida confortável que a certo momento recebe um telefonema que muda o curso da sua existência. Quero tratar a questão das escolhas individuais e do acaso, indagando também o modo como vamos sendo cada vez mais determinados pelas coisas, pelos objectos que nos rodeiam e de que a cada dia dependemos mais, ainda que nem sempre de modo consciente. Mas estou longe do fim e a narrativa pode ainda evoluir de várias formas. Espero ainda ser surpreendida pela força da própria história.
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Cláudia Cruz Santos
Nenhuma Verdade se Escreve no Singular
Bertrand   16,60€

Manuel Lemos Macedo | Piedade para os Pecadores



1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Piedade para os Pecadores»?
R-Piedade para os Pecadores é no fundo o mesmo livro que eu escrevi antes mas depurado, melhorado, corrigido (espero), dos defeitos dos outros. A literatura é a observação da natureza humana a tradução dessa observação numa linguagem literária e uma história que nunca muda.

2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- A mesma que esteve na origem dos outros. A necessidade de dar a minha versão daquilo em que consiste o mecanismo interior que explica o comportamento do ser humano; o enredo quase não conta mas a história é necessária para permitir que as personagens se apresentem pelo uso que lhe consentimos do discurso directo.

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Estou a reescrever o mesmo livro mas com mais atenção ao ritmo, à eufonia e à lucidez.
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Manuel Lemos Macedo
Piedade para os Pecadores
Guerra & Paz  17,50€   

Estevão Azevedo | Tempo de Espalhar Pedras


1-O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Tempo de Espalhar Pedras»?
R- O romance representa um novo patamar no contexto da minha obra por fatores literários, isto é, interiores ao texto, e extraliterários, mais relacionados ao mercado do que à obra em si. Primeiro, os propriamente literários. Esse romance é o meu primeiro narrado em terceira pessoa, o que representa uma série de novos problemas, mais distantes do subjetivismo no qual eu navegara até então. Soma-se a isso o fato de, ao contrário da imensa maioria de meus textos anteriores, a matéria de que tratei não estar relacionada à minha trajetória pessoal. Eu não sabia nada de garimpo de diamantes e muito pouco do lugar e do tempo em que a trama ocorreria. Por conta desse distanciamento, foi preciso emular uma linguagem específica, que se dá a ver na sintaxe, na escolha dos vocábulos, no ethos. Tive de me servir de muitas fontes, das mais variadas. Telenovelas da minha infância, romances regionalistas, músicas, filmes, certa memória de família... Do ponto de vista da carreira, o romance foi um salto decisivo: a recepção da crítica, simbolizada pela eleição como livro do ano pelo Prêmio São Paulo de Literatura, fez com que eu vencesse o maior dos desafios: conquistar pelo menos alguns leitores num país onde praticamente não se lê.

2-Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- O livro nasceu do encontro de duas ideias. A primeira, um relato feito por um guia de trilhas durante uma viagem por uma região de natureza exuberante conhecida como Chapada Diamantina, no interior do estado da Bahia. Disse ele que havia nas imediações um vilarejo erguido por garimpeiros de diamantes. Depois de um período de pujança, as pedras escassearam. Foi então que os homens se deram conta de que o único lugar em que ainda poderia haver diamantes era exatamente onde estava o vilarejo. Começaram, então, a garimpar nas praças, nas ruas, nas casas, até a destruição total. Esse relato nunca me saiu da memória, pois me pareceu uma alegoria muito poderosa da cobiça. Anos mais tarde, surgiu a segunda ideia que está na gênese de “Tempo de espalhar pedras”. Meu primeiro romance, “Nunca o nome do menino”, tinha ambientação urbana e contemporânea e personagens cultos, do universo letrado, como artistas e escritores. Por conta disso, após a publicação, eu me impus o desafio de escrever algo que se passasse em tempo e lugar distintos dos de minha experiência. Foi então que o relato do vilarejo destruído pelo garimpo ressurgiu: era a moldura de que eu precisava para o romance que pretendia escrever.

3-Esta é a sua primeira obra editada em Portugal: que expectativas tem sobre a recepção dos leitores portugueses?
R-Eu estou muito ansioso pela chegada do livro a Portugal porque imagino (como leitor de autores de países que falam português, vivo isso) que possa causar ao mesmo tempo estranhamento e familiaridade. É a mesma língua, mas também muito diferente. Lermos os livros uns dos outros – brasileiros e portugueses e lusófonos – talvez seja o equivalente a encontrar um irmão gêmeo do qual fomos separados ao nascer. Uma identificação extrema e imediata pela semelhança aparente e um enorme estranhamento pelas diferenças profundas.
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Estevão Azevedo
Tempo de Espalhar Pedras
Cotovia

Fernando Correia | E Se Eu Fosse Deus?

1-Como surgiu a ideia de escrever este livro "E Se Eu Fosse Deus"?
R-Sou um homem de causas e preocupado com a forma como o mundo está a evoluir no sentido de desprezar valores e de estabelecer uma vala cada vez maior entre os que têm muito e os que precisam muito. Sob o ponto de vista humano e sociológico é fundamental contribuir, de forma visível, para que as desigualdades sejam menores. O livro “e se eu fosse Deus?” vai exactamente nesse caminho de alerta e prevenção para ser possível diminuir as desigualdades sociais. Os direitos humanos não podem ser, apenas, uma figura de retórica. É preciso dar expressão ao que se pensa e estabelece nos lugares de decisão mundiais.

2-Qual a realidade das ruas de Lisboa que descobriu com o Henrique, o protagonista desta obra?
R-Henrique existe e, com ele, muitos outros Henriques que andam sem destino pelas ruas e pelos recantos de Lisboa. Henrique é um idealista e um sonhador, mas ele próprio demonstra ser um homem de causas sempre preocupado em ajudar quem está pior do que ele. Henrique, por tudo o que fez, por tudo o que me ensinou, por tudo o que disse, pela sua filosofia de vida está, certamente, muito mais próximo da abstração Deus do que qualquer de nós, porque a corporizou, porque acredita num Ser superior, porque percebe que é quase nada perante a grandeza do Universo. No fundo, Henrique é uma lição de vida que deve ser entendida.

3-Escrever um livro como este é, certamente, algo que mexe com o autor: o que se passou consigo?
R-Aprendi, ou reaprendi, a viver sabendo que não estou sozinho e que devo partilhar o que tenho, o que penso e o que posso fazer com os meus semelhantes. Sinto que sou um ser humano diferente e que tenho, agora, muito mais preocupações do que tinha, com aqueles que necessitam do apoio e da ajuda de todos nós, a começar pelas autarquias e a acabar no governo central. E falo assim porque as Juntas de Freguesia e as Câmaras Municipais estão muito mais próximas da realidade.
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Fernando Correia
E se Eu Fosse Deus?
Guerra & Paz  15,90€

José Jorge Letria | Refugiados

1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu livro «Refugiados»?
R-Depois de escrever e publicar "Muros", o meu livro anterior (ed. Guerra e Paz), tive, enquanto escritor, jornalista e cidadão a noção da importância que o fenómeno dos refugiados tem na sua vida colectiva, com milhares de pessoas a procurarem na Europa do sul condições de sobrevivência e liberdade que os seus países de origem deixaram de lhe assegurar. Escolhi o exemplo de 50 refugiados de diversas origens, línguas e formas de pensamento por achar que representam bem a complexidade desta situação de excepção.

2-O livro recorda-nos 50 vidas de refugiados famosos (de Albert Einstein a Walter Benjamin): como foi feita a escolha?
R-O critério de escolha assentou na diversidade e no carácter dramático das várias situações. É certo que são ou foram pessoas famosas. Escolhi estas também por esse motivo, mas podia ter escolhido muitas outras. Cada refugiado é um caso e estes casos foram os que mais me tocaram e sensibilizaram.

3-Ao pesquisar e escrever estas 50 histórias, qual o refugiado retratado que mais o surpreendeu?
R-Confesso que houve alguns que muito me emocionaram, por diversas razões. Dou alguns exemplos: Stefan Zweig, Amílcar Cabral, Humberto Delgado, D. António Prior do Crato (brevíssimo rei português), Anne Frank e Hannah Arendt. Todos eles por razões diferentes e complementares.
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José Jorge Letria
Refugiados
Guerra & Paz  18,50€

Nuno Galopim | Afonso VI, o Indesejado

1-O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Afonso VI, O Indesejado»?
R- É uma segunda ficção, um ano depois de “Os Últimos Dias do Rei” sobre a figura de D. Manuel II. É, tal como esse livro, uma obra de ficção que toma um monarca português como objeto central da atenção da narrativa mas que não procura ser uma biografia romanceada do rei em questão. É uma história de ficção.

2-Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- Há aqui um exercício no campo da história alternativa, colocando em cena um “e se...”… Neste caso concreto trata-se da hipótese de D. Afonso VI ter tido descendência, o que contraria a alegada impotência pela qual o seu casamento foi anulada. É o investigar desta hipótese que lança a trama de ficção que, tal como no livro anterior, procura alicerçar-se sobre um rigor na caracterização da época, dos lugares e dos próprios factos da vida do monarca de quem a narrativa fala.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R-Além da escrita jornalística (no Expresso e BLITZ) há um projeto em marcha (já avançado na escrita) de um livro novo sobre música a publicar em 2018. Recordo que, além destas duas ficções, tenho publicadas biografias sobre Sérgio Godinho e os The Gift, além de um livro sobre como a literatura, o cinema e outras artes foram construindo uma visão humanizada do planeta Marte ao longo dos tempos e um outro mais, em coautoria com o meu pai, sobre dinossáurios num ponto de vista de divulgação. Haverá depois deste livro sobre música um terceiro romance histórico a completar este tríptico – em curso – de histórias ligadas a monarcas portugueses com vidas com uma dimensão trágica. E, ao mesmo tempo, estão a nascer contos na área do fantástico e do absurdo e as linhas gerais de uma primeira incursão mais profunda pela ficção científica...
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Nuno Galopim
Afonso VI – O indesejado
Esfera dos Livros  17,90€

Luís Osório | A Queda de Um Homem

1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu novo livro, "A Queda de um Homem"?
R- Para mim era essencial escrever um livro que fosse sobre este tempo. Que fosse pensado na sua base para permitir várias leituras – um jogo de espelhos em que a verdade pode ser mentira, a morte ser vida e o sonho a realidade. Pretendi que fosse um livro ambíguo, contraditório e amoral, como o tempo histórico que vivemos. Também me era essencial arriscar na narrativa, ser um romance que depois de lido fosse novo para quem o lê.

2-Não sendo o seu primeiro livro, é a sua estreia no romance: como espera poder olhar para este livro daqui a 20 anos?
R- Espero poder olhar como o primeiro de um novo caminho no meu percurso. Um romance que radicalmente quis ser do século XXI.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Estou a escrever o próximo livro. Muito cedo para dele falar. Sei que não será um romance.
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Luís Osório
A Queda de Um Homem
Teorema  14,90€

Luís Naves | Portugal Visto pela CIA


1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu livro "Portugal Visto pela CIA"?
R- Este livro, Portugal Visto pela CIA, baseia-se na análise de documentos secretos da espionagem americana sobre o nosso País, escritos ao longo de mais de 40 anos. Estes relatórios foram desclassificados e o jornalista espanhol Eric Frattini, conhecido especialista em questões de espionagem internacional, conseguiu ter acesso em Washington a uma colecção que incluía uma centena de relatórios, que entregou à Bertrand. Eu fui convidado pela editora para tentar escrever um livro sobre estes documentos, muitos dos quais a CIA entretanto colocou na internet. Em resumo, Portugal Visto pela CIA analisa os documentos obtidos por Eric Frattini, foi enriquecido com material que não constava desta primeira colecção de textos e, evidentemente, procurou contextualizar as opiniões dos agentes americanos, usando a literatura existente sobre as relações entre Portugal e os Estados Unidos.

2-Quais as principais revelações que conseguiu descobrir e contar neste livro?
R- Não se pode dizer que este livro tenha revelações bombásticas, embora o essencial seja novo. Sendo a obra baseada em relatórios escritos por espiões, não é possível saber se determinado documento foi crucial para justificar uma determinada decisão dos responsáveis americanos. O que se adivinha é que um relatório secreto enviado para Washington possa ter sido influente. O livro revela as intenções e a mentalidade dos agentes da CIA em relação a Portugal, em relação ao império ou ao Estado Novo. O livro permite compreender melhor o que pensaram os americanos sobre Salazar e a Revolução, sobre a guerra colonial ou o início do período democrático. Antes de Portugal Visto pela CIA, sabia-se o que tinham discutido e escrito os diplomatas americanos em vários momentos essenciais da nossa história recente. A partir de agora, sabemos também alguma coisa sobre o que pensaram os espiões americanos. Dito isto, as omissões também podem ser reveladoras, pois há assuntos que ainda não foram desclassificados, por exemplo, tudo o que se refere à “Abrilada” de 1961, à morte de Sá Carneiro ou às dificuldades que a CIA enfrentou em 1975.

3-Nos documentos e na investigação que fez, que factos mais o surpreenderam na presença e acção da CIA no nosso país?
R-O que mais me surpreendeu na leitura dos relatórios da CIA sobre Portugal foi a forma condescendente e pouco lisonjeira como os espiões americanos trataram os portugueses. Os documentos sugerem que a CIA se sentiu muitas vezes frustrada com a atitude dos políticos nacionais, nomeadamente Salazar. Para os americanos, o ditador era teimoso e anacrónico, devido à sua insistência em manter um império do século anterior, que não tinha qualquer hipótese de sobreviver no contexto político existente. Portugal era descrito nos relatórios dos anos 50 e 60 como um país invulgarmente atrasado, pobre e provinciano, dado a lirismos que os americanos não entendiam e que eram olhados com desdém. Outro elemento que me surpreendeu foi a ideia de periferia, que é constante nos documentos da agência de espionagem americana dedicados a Portugal: o nosso País era visto como provinciano, pouco relevante na luta que verdadeiramente interessava aos espiões, ou seja, quase inútil na Guerra Fria. Na realidade, para os espiões, tirando a luta contra o comunismo, Portugal era um aliado pouco fiável, até ligeiramente embaraçoso.
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Luís Naves/Eric Frattini
Portugal Visto pela CIA. Ou como a espionagem americana vigiou o Estado Novo, Salazar, o Império e a Revolução
Bertrand  17,70€

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(C) Vieira da Silva

Diga não ao cruel comércio da morte.