Mais 10 Sugestões para este Natal


Natal: tempo de livros: poesia ou ensaio, crónicas ou memórias. São muitas e boas as razões para oferecer  um livro. Aqui ficam mais dez sugestões.


_____ANTOLOGIA
Jorge Luis Borges está a ser reeditado pela Quetzal. Autor admirado por muitos e, talvez, ainda uma desconhecido para alguns. Uma obra que nos transporta ao universo borgiano nas suas múltiplas dimensões: Nova Antologia Pessoal. São 300 páginas com alguns dos mais interessantes textos de Jorge luis Borges: poesia, prosa, contos e ensaios.
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1. Jorge Luis Borges, Nova Antologia Pessoal (Quetzal: 17.70€)


_____POESIA
António reis publicou aquele que foi, talvez, o melhor livro de poesia de 2017: Poemas Quotidianos. Um livro breve que se pode ler de uma assentada. Ou se pode saborear devagar: um poema por dia. Em qualquer caso, tem poemas que nos ficam na memória e a que quereremos regressar mais tarde. Poemas com uma escrita límpida e profunda:

"Sei
ao chegar a casa
qual de nós
voltou primeiro do emprego

Tu
se o ar é fresco

eu
se deixo de respirar
sùbitamente"
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2. António Reis, Poemas Quotidianos (Tinta da China: 14,90€)


_____FICÇÃO ESTRANGEIRA
Murakami é um autor de culto. O seu novo livro saiu em 2017 em Portugal e traz-nos um conjunto de  contos diferentes entre si mas com um ponto de ligação, um fio condutor: são histórias de homens sozinhos e solitários a braços com dilemas, dúvidas, frustrações e medos. A escrita de Murakami em todo o seu esplendor.
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3. Haruki Murakami, Homens sem Mulheres (Casa das Letras: 18,90€)


_____ENSAIOS
A história da ciência num ensaio inovador e desafiante. Wooton percorre centenas de anos em busca da ciência, da sua evolução e das múltiplas formas que influenciou e determinou as nossas vidas e as dos nossos antepassados. 
Por seu turno, Pinker analisa a nossa história e a actualidade. E defende que, contrariamente ao que a maioria das pessoas acredita, vivemos numa época menos violenta do que no passado. Uma visão inovadora a merecer uma leitura atenta. 
Finalmente, um ensaio sobre as possíveis alterações que a disseminação robôs e a sua entrada na nossa sociedade e, em especial, nos locais de trabalho. O centro da reflexão é o emprego mas é cada vez mais claro que os impactos serão muitos e em várias áreas da nossa vida.
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4. David Wootton, A Invenção da Ciência (Temas e Debates: 29,90€)
5. Steven Pinker, Os Anjos Bons da Nossa Natureza (Relógio d'Água: 27,00€)
6. Martin Ford, Robôs-A Ameaça de um Futuro sem Emprego (Bertrand: 17,70€)


_____POLÍTICA
Jaime Nogueira Pinto reflecte sobre as transformações sociais e políticas do início do século XDI. Em particular duas questões: o populismo e a utopia. Como pano de fundo, a luta de muitos anos entre os iluminados (que desde o Século das Luzes têm dominado o mundo ocidental e os bárbaros que os combatem sob várias formas e com várias identidades. Uma profunda reflexão sobre o novo século XXI na Europa, nos EUA e no mundo. 
Patrik Orednik, por seu turno, oferece-nos uma breve história do século XX, num estilo muito próprio e com humor. Por vezes desconcertante e, na maioria das páginas, muito clarividente na visão que construiu e partilha.  
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7. Jaime Nogueira Pinto, Bárbaros e Iluminados: Populismo e Utopia no Século XXI (Publicações D. Quixote: 18,90€)
8. Patrik Ourednik, Europeana (Antígona: 14,00€)


_____MEMÓRIAS
Dois grandes vultos do pensamento europeu no século XX mantiveram uma relação ao longo de mais de 50 anos. Estas cartas são o testemunho de como duas pessoas tão diferentes podem desenvolver laços de proximidade e cumplicidade. Uma viagem que permite conhecer não só as personalidades mas também as suas ideias. Íntimo e, ao mesmo tempo, revelador de um século.
Mário Augusto anda às voltas com as suas memórias dos anos 70 e 80 do século XX. As memórias dele também são, muitas vezes, as nossas pois foram/são importantes também para todos os que viveram aquele tempo. Um livro delicioso que nos conduz numa viagem ilustrada (muitas imagens e sempre pertinentes) e com uma prosa simples e cativante.
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9. Hannah Arendt/Martin Heidegger, Cartas 1925-1975 (Guerra e Paz: 27,00€)
10. Mário Augusto, Caderno Diário da Memória (Bertrand: 17,70€)
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Ribeiro Cardoso | O 25 de Novembro e os Media Estatizados: Uma História Por Contar

1-Comecemos por uma dúvida: porque é que esta era, 42 anos depois, «uma história por contar»?
R-Começo por uma pequena história: depois de ter terminado o texto do livro pensei apresentar à editora uma proposta de capa a negro com os seguintes caracteres a branco que rezava assim:

O 25 de Novembro 1975 e os media estatizados
O grande golpe ou uma história por contar
. 152 trabalhadores suspensos e despedidos à margem da Lei
. Um processo exclusivamente político-partidário
. Administrações de má fé arrastam processos
.Tribunais, ao fim de anos, absolvem todos os trabalhadores
. Provedoria de Justiça deliberadamente desrespeitada
. RTP: condenada e sem dinheiro para pagar indemnizações milionárias
.Militares e políticos de mãos dadas num mundo de ilegalidades
. Carreiras profissionais arruinadas
. Dezenas de vidas pessoais e familiares destruídas

Na discussão que se seguiu mudei de ideias e outra foi a solução. Não sei se o meu amigo, ao ler a primeira proposta de capa, conclui que já respondi à sua pergunta. Isto por uma razão simples: os media dessa época, com raras excepções, contaram e repetiram outra história. Pior: uma história, a meu ver a milhas da realidade, que ao longo de 42 anos foram repetindo, assim moldando a nossa memória colectiva. Como aconteceu com a história que culpa Saramago pelo despedimento, no chamado Verão Quente, de 24 trabalhadores do Diário de Notícias – uma história falsa de cabo a rabo, como sublinho com pormenor e dados concretos neste livro.
Para além disto, e para responder cabalmente à sua dúvida: até agora nunca alguém (nos jornais, rádios e televisões) 
- tratou do tema globalmente, apesar do seu enorme significado político
- foi ouvir os defenestrados e/ou relatou as consequências trágicas na vida de tantos trabalhadores, jornalistas ou não
- consultou todo o processo judicial, que começou no Tribunal do Trabalho, passou pela Relação e terminou com sentença irrecorrível do Supremo, dando sempre razão total aos trabalhadores.
O que, julgo eu, deve ter algum significado. Como significado tem o manto de silêncio que, neste e em muitos outros casos, tenta esconder as safadezas e as injustiças que caem sobre tantos cidadãos. Em Portugal como por esse mundo fora.
Na verdade, a História e a Memória Colectiva andam, por norma, de candeias às avessas. A bota raramente bate com a perdigota… Fundamentalmente, mas não só, graças aos media que, por razões comerciais e sobretudo ideológicas, num primeiro momento distorcem a realidade, os factos; e mais tarde, não investigam, não cavam o passado para melhor conhecermos o presente. Mas, como dizem a canção e o poema, há sempre alguém que resiste. Investigação e memória precisam-se. Sempre. Como pão para a boca. E neste contexto, a meu ver, deve ser enquadrado este livro. Esta história por contar.

2-Na investigação que fez e que deu origem a este livro, que factos novos (ou desconhecidos) identificou?
R-De algum modo a resposta à pergunta anterior também responde à segunda questão levantada. Contudo, na esperança de tornar mais clara a resposta, acrescento:

  a. O principal facto novo é a abordagem e enquadramento global que faço – o que até agora, que eu saiba, nunca tinha acontecido. O que faz toda a diferença e dá uma ideia mais próxima da extrema gravidade - política, social e humana - do caso. Bem como dos seus porquês.
  b. Acontece ainda que nunca até hoje alguém tinha ido consultar, para relatar publicamente, os processos existentes em Tribunal – com factos, nomes e muitas surpresas.
  c. Do mesmo modo, nunca ninguém tinha ouvido, para relatar, tantos testemunhos, de viva voz, de quem viveu por dentro esse tenebroso processo.
  d. Novo também, e para se entender de modo mais claro que as defenestrações nos media nacionais no 25 de Novembro não foram um facto isolado, conto ainda novas versões, documentadas, de três casos que foram da maior importância na contra-revolução que na época se verificou:
 -o caso do jornal ‘República’ (uma das maiores mistificações do chamado PREC – Processo Revolucionário em Curso)
 -o caso da Rádio Renascença, até agora sempre deliberadamente muito mal contado (um exemplo: ao fim de 42 anos finalmente vem a público a versão, nunca contada, do jornalista que então coordenava a informação na Rádio Católica Portuguesa)
 -e o caso do capitão penetra Tomás Rosa (como vasco Lourenço o qualifica), figura sinistra e marioneta incontestada de outros interesses. Nem sequer cheirou Abril ou alguma vez pertenceu ao MFA. Mas rapidamente chegou a Ministro do Trabalho e a Presidente da RTP…
Para terminar esta resposta, permita-me ainda que lembre a seguinte citação de Manuela Cruzeiro, reputada estudiosa da Revolução do 25 de Abril : “A memória não é um processo natural e muito menos pacífico. É sim uma batalha permanente entre os que não querem lembrar e os que não podem esquecer". Acontece que estou no grupo dos que não podem esquecer. E também no pequeno grupo dos que querem lembrar.

3-O seu livro é, também, a partir do que se viveu na comunicação social, um contributo para se conhecer e compreender o ambiente político em Portugal entre 1974 a 1976?
R_Esse foi, na verdade, um dos objectivos do livro. Se foi conseguido ou não, por aí não entro. Outros que digam de sua justiça. A única coisa que posso afirmar é que sobre o que na verdade se passou no 25 de Novembro de 75 e nos meses anteriores – na comunicação social e em numerosos sectores da vida portuguesa - , muito está por contar e para contar. Alguma coisa tem vindo ultimamente à tona. Sublinho dois livros: “Quando Portugal ardeu”, do jornalista da Visão Miguel de Carvalho; e “O 25 de Novembro a Norte”, de Jorge Sarabando. E repito a pergunta que já alguns fizeram e fazem: afinal, quantos 25 de Novembro houve?
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Ribeiro Cardoso
O 25 de Novembro e os Media Estatizados: Um História por Contar
Editorial Caminho   19,90€

José Jorge Letria | Tão perto de Mim

1-Qual a ideia que esteve na origem deste livro "Tão Perto de Mim"?
R- A ideia fundamental foi recordar pessoas com quem convivi (a única excepção, por razões etárias, é o general Humberto Delgado) e cuja qualidade e singularidade ficaram gravadas na minha memória. Quando os revisitamos assim, ficamos com uma lembrança mais viva do que foram e valeram, mesmo que os recordemos apenas em verso, como acontece em alguns casos.

2-Mais do que falar de autores, fala da relação que manteve com cada um deles. Será por isso um livro muito pessoal e intimista?
R- É naturalmente um livro pessoal e intimista, embora o valor e a representatividade dos nomes recordados sejam públicos e amplamente reconhecidos. Lembrá-los, incluindo os vivos, é também uma forma de recordar as circunstâncias em que se tornaram figuras exemplares e de referência. Foram e são pessoas com quem convivi, dentro e agora da SPA, e que deixaram uma marca profunda e sensível na minha memória. Confesso que não tenho projectado um segundo volume, mas, se ele vier a a ser publicado, não me faltarão outros nomes para recordar e celebrar, porque o merecem. Gostaria, por exemplo, de ter falado sobre Maria Isabel Barreno neste livro. Fiz com ela uma entrevista para um livro da colecção O Fio da Memória e e admirava-a muito no plano pessoal e intelectual mas terá lugar no segundo, a par de outros. Penso também em Zé da Ponte, que pertenceu comigo à Administração da SPA e foi meu amigo. Mas há mais. Por razões ligadas ao meu percurso político e jornalístico também convivi com Álvaro Cunhal, que nunca deixou de ser autor com talento, a escrever e a desenhar.

3-Para este livro escolheu falar de alguns dos mais significativos autores dos últimos 50 anos. Num segundo volume, a escrever no futuro, quem poderá surgir?
R- Num rápido balanço como este há sempre nomes que ficam de fora.  Gostava de ter incluído uma referência a Maria Isabel Barreno, grande escritora e minha amiga, entretanto falecida. Se houver mais lembranças como estas, ela lá estará com direito pleno. Por sinal também convivi durante anos, por razões de militância política, com Álvaro Cunhal, que aqui recordo como escritor e grande desenhador. Mas há sempre outros.
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José Jorge Letria
Tão Perto de Mim
Guerra e Paz   13,95€

LER JOSÉ JORGE LETRIA na "NOVOS LIVROS" (entrevistas)

Vergílio Alberto Vieira | Quaderna Nº 1

1- Mais uma revista de cultura: objectivos da nova aventura de nome Quaderna?
R- Valendo-me da, não raro, desconcertante ironia de Bloom, diria: mais uma reserva para “caçadores de fontes e biógrafos”. Mas este projecto editorial não vai por aí; a pretensão é ser desvio, sem hostilizar a regra: parafraseando “o velho pisano”, entendida como demanda  nas suas diferentes formas de expressão, a arte contudo move-se. Não fosse, porém, a cultura portuguesa o que é, e não lhe assistisse a presunção, qual indício de ouro, de ter nascido “tocada de estrela e cabra”, de que identidade falaria Eduardo Lourenço  a não ser da nossa, uma entre outras, no seu sentido histórico e trans-histórico? Assim sendo, arrisco reconhecer que é para contrariar tanta “colheita perdida” que tenho tentado ir além, não da Taprobana luso-artística, mas da videirunha lusófona em busca de “glória ou da Abissínia”, como confessa o poeta de Servidões: “(..) sei bastante do que todos sabem.”

2- O que traz de novo a revista nascida sob a égide de João Cabral de Melo Neto?
R-Depois de peregrinar em/ por outros mundos, e em várias direcções (Lugarcomum, Mealibra,Vandoma, Babel, Delphica, acompanhado ou só), Quaderna  propõe-se refutar o estado de amnésia para que os torcionários dos estados-nações têm empurrado  as sociedades de hoje, e com elas o homem, mercantilizando-o até às fezes. À escala nacional (em que nem tudo é bom), e sem pretender navegar a coberto do pavilhão palopiano (de cauda), esta revista é projecto de cultura, em língua portuguesa, e isso lhe basta, acrescenta um ponto ao património, que a edição de revistas de cultura (literatura e arte), engrandeceu sempre diversamente, em Portugal, quer do ponto de vista estético, quer de gerações. Neste primeiro número, pretendeu-se pagar tributo ao povo brasileiro, à  sua cultura, à sua literatura, , saudando na vida e obra de João Cabral de Melo Neto, o generoso legado, e reconhecimento sempre rendido à língua portuguesa por parte do Brasil.

3-Muitas das secções: poesia, narrativa, viagem, música, biografia, reportagem, dramaturgia, artes plásticas, quadernário – o que destaca neste primeiro número?
R-Deixando o que há de intencional, e prospectivo; de ideário, e prático, para outra ocasião, esta revista de cultura y arte, como vem escrito no editorial, pretende apenas ser “uma publicação do seu tempo”. Nesse sentido, a fórmula encontrada para alargar o quadro de motivações, e interesse; de abertura, e funcionalidade - foi a senha para sinalizar o caminho, quer seguindo de perto experiências anteriores, quer reconhecendo o que, num ou noutro caso, a inércia  retira força a todo e qualquer projecto de liberdade e conduta. Neste número, destacaria os inéditos de Walmir Ayala  e Antonio Carlos Secchin; a narrativa de Gil de Carvalho e a crónica de viagem de Rui Vieira; as entrevistas ao pintor Jorge Pinheiro e ao músico António Saiote; por último: o caderno dedicado a João Cabral de Melo Neto.
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Vergílio Alberto Vieira
Quaderna
(Revista Nº 1)

Ana Gil Campos | As Impertinências do Cupido

1-O que representa, no contexto da sua obra, o livro «As Impertinências do Cupido»?
R- É mais uma análise do ser humano, desta vez como ser atuante e pensante nas relações amorosas, mas com uma abordagem bastante diferente em relação aos livros que escrevi anteriormente. A ironia impera, as histórias aparentemente distintas cruzam-se apresentando e explicando as personagens, até que no final o puzzle fica completo.

2-Depois de dois romances, este é muito mais um livro de histórias: como se sentiu no papel de contista?
R- Relativamente a este livro, não sei se é um romance que pode ser confundido com um livro de contos, se é um livro de contos que se transformou em romance, ou se é um ensaio sem que o leitor se aperceba. Desconfio que seja a terceira hipótese. A ideia para este livro surgiu de um conto que já tinha escrito há algum tempo. Tenho vários contos escritos, assim como poemas, que nunca foram publicados. Um poema é uma explosão da boca, um conto é uma flor que brota da mão. Os contos encerram uma magia única, conseguem dizer muito em poucas páginas.

3-Estas histórias do Brasil urbano podiam passar-se noutra cidade ou são indissociáveis de São Paulo?
R- As personagens e as suas histórias, atitudes e reflexões, poderiam passar-se em qualquer parte do mundo, visto sermos muito parecidos nas nossas ações e reações nas relações amorosas, uns mais do que outros obviamente. Assim se explica a facilidade com que as pessoas se identificam com As Impertinências do Cupido. Como diz a nota introdutória do livro, as personagens amam, não amam, desejam amar e serem amadas, isto é, não são muito diferentes de qualquer pessoa que vive em qualquer outro bairro do mundo. Contudo, o local onde se passa a história existe realmente. Através da leitura do livro é possível percorrer-se o bairro Itaim Bibi​,​ em São Paulo, pois as suas ruas e locais são descritos tal e qual existem. Aliás, pode ser interessante acompanhar a leitura do livro com o mapa do bairro, percebendo onde se situa a rua na qual vive determinada personagem e onde se localizam os espaços que costuma frequentar. Além disso, há várias referências aos hábitos e estilo de vida dos moradores deste bairro, e isto é indissociável de São Paulo.
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Ana Gil Campos
As Impertinências do Cupido
Coolbooks  11€

Entrevistas sobre os outros livros da autora:
LER A Segunda Pela da Acácia Mimosa (2014)
LER Quando ruiu a Ponte sobre o Rio Tamisa (2016)

10 Sugestões para este Natal


O Natal é uma época de compras e os livros ainda são uma prenda incontornável. Há-os para todos os gostos e as zonas de Destaques das livrarias estão repletas de dezenas e dezenas de novidades. Depois, ainda temos sempre os best-sellers e os clássicos. E os autores de referência. Portanto, o difícil só poderá ser a escolha. Aqui destacamos alguns dos livros que merecem uma oportunidade no mar de opções.


_____FICÇÃO PORTUGUESA
Gonçalo M. Tavares assinala os 10 anos de uma tetralogia marcante com uma nova e cuidada edição de O Reino, reunindo num só volume quatro romances: Aprender a rezar na Era da Técnica, A Máquina de Joseph Walser, Um Homem: Klaus Klump e Jerusalém. Estes quatro volumes receberam vários prémios e são algumas das melhores obras escritas por este autor: Grande Prémio Romance e Novela da APE, Prémio Fundação Inês de Castro, Prémio Fernando Namora do Casino Estoril, Prémio Portugal Telecom (Brasil), Melhor Livro Estrangeiro (França), Prémio Melhor Narrativa Ficcional da SPA, Prémio Belgrado Poesia (Sérvia), Prémio Internazionale Trieste 2008 (Itália), Prémio Portugal Telecom (Brasil) e Prémio Literário José Saramago. Saber Mais
Sandro William Junqueira continua um percurso sólido e consistente na mais recente ficção portuguesa. Este é o seu quarto romance. Surpreendente.
Teolinda Gersão é uma exímia contista e este livro traz-nos 14 histórias que se lêem de um fôlego. Com um estilo próprio e uma imaginação sempre viva.
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1. Gonçalo M. Tavares, O Reino (Editorial Caminho: 45,90€)
2. Sandro William Junqueira, Quando as Girafas Baixam o Pescoço (Editorial Caminho: 14,90€)
3. Teolinda Gersão, Prantos, Amores e Outros Desvarios (Sextante: 14,40€)
Entrevista


_____CRÓNICA
Ricardo Araújo Pereira apresenta a mais recente recolha das suas crónicas: Reaccionário com Dois Cês. Um novo livro mas o estilo e a qualidade da prosa são inconfundíveis. Leitura obrigatória (ou releitura para quem acompanha semanalmente este autor).
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4. Ricardo Araújo Pereira, Reaccionário com Dois Cês (Tinta da China: 15,90€)


_____FOTOGRAFIA
Inácio Ludgero e Mário Soares. O fotógrafo acompanhou o estadista durante quarenta anos. Neste livro mostra algumas fotografias de momentos marcantes: políticos, pessoais e familiares. Uma viagem em imagens pela vida de uma das figuras mais marcantes da história contemporânea de Portugal. Além das fotografias, o livro inclui textos de José Jorge Letria, Eduardo Lourenço e Guilherme d'Oliveira Martins.
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5. Inácio Ludgero, Soares Sempre Fixe! (Guerra & Paz: 22€)


____HISTÓRIA
Laurence Rees escreveu um extenso e consistente livro sobre e o holocausto em que conjuga testemunhos e uma bem documentada investigação. A qualidade do trabalho torna esta obra uma das mais profundas, completas e esclarecedoras sobre este período negro em que a Europa viveu sob um regime de horror.
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6. Laurence Rees, Holocausto. Uma Nova História (Vogais: 29,99€)


_____ARTE
Picasso é uma referência incontornável da arte mundial. Ponto. Manuela France escreveu um livro sobre as dez invenções mais importantes do artista. Para conhecer Picasso e descobrir alguns dos traços mais significativos da sua imensa obra.
Para os mais novos, uma excelente e divertida introdução à história da arte num estilo animado tendo por base um conjunto de respostas consistentes a perguntas surpreendentes como a que dá título ao livro: porque tem a arte tanta gente nua? Susie Hodge responde com humor e rigor.
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7. Manuel France, As 10 Invenções de Picasso (Bizâncio: 15€)
8. Susie Hodge, Porque Tem a Arte Tanta Gente Nua? (Bizâncio: 15€)


_____BIOGRAFIA
Benjamin Franklin escreveu a sua autobiografia que é, além de uma história pessoal, uma história de uma época. Além de ser um dos líderes da Revolução Americana, o que surpreende é a infindável lista de actividades, causas e intervenções deste personagem.
Casanova é quase um mito da história europeia, conhecido pelas inúmeras conquistas. mas, no século XVIII, foi um actor importante e este século pode agora ser revisitado pela mão sábia de Laurence Bergreen, autor de uma biografia extensa e muito rica.
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9. Benjamin Franklin, Autobiografia (Edições Sílabo: 15,40€)
10. Laurence Bergreen, Casanova (Bertrand: 24,40€)
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Mais sugestões de Natal

José Viale Moutinho | Livro Português das Fábulas

1-Como lhe surgiu a ideia de organizar esta antologia, «Livro Português das Fábulas»?
R-Esta obra faz parte de um projecto muito mais vasto, em que pretendi figurar o que de melhor se tem produzido em Portugal no que respeita à Literatura Popular. O início já tem mais de vinte anos, com um volume antológico de Contos Populares Portugueses, que surgiu na colecção de bolso de Publicações Europa-América, cinco ou seis edições esgotadas. Seguiu-se um volume de Adivinhas Populares Portuguesas, cuja sétima edição é da Casa do Livro. Este volume não é antológico mas de recolha da totalidade dos materiais encontrados, com as variantes detectadas. E para encerrar aquilo que poderá ser tomado como uma realização de volumes não seriados, organizo Portugal Lendário, em que ela primeira vez surge a cobertura de todos os municípios portugueses representados com as suas principais lendas. Este livro foi solicitado para reedição pelo Circulo de Leitores, tendo alcançado um volume de lendas invulgar. Acontece então a organização de uma obra em quatro volumes que constituiu como que o culminar do projecto: um quarteto dividido em três partes: um conjunto de dois volumes intitulado À Lareira, que é uma antologia da literatura popular de algum modo canónica. Inclui contos populares, adágios, adivinhas, orações populares, teatro popular, romances, etc. O titulo constitui uma homenagem a Trindade Coelho, cujo conto homónimo (incluído em Os Meus Amores), é uma interessantíssima visão ficcionada dessa maravilhosa expressão popular diversificada que se expandia à lareira! Quando criança assisti em semelhantes reuniões familiares e de vizinhança! Os outros dois volumes correspondiam à Literatura de Cordel – de que Arnaldo Saraiva tem sido um excelente divulgador e campeador – e de que eu tinha em temos dado sinais através de um livrinho com materiais humorísticos do género. Fecha-se o projecto com este volume O Livro Português das Fabulas. Inicialmente foi-me encomendado por uma editora algo como 100 Fábulas de La Fontaine, tendo eu recorrido a traduções de autores portugueses dos séculos XVIII e XIX. E ao realizar esse trabalho fui ao encontro dos fabulistas portugueses que, tradutores do francês, influenciados por ele, tiveram também produção própria. É quando surge a ideia inicial deste livro. E dentre esses, encontro autores – como Bocage, por exemplo – que não deviam nada a Esopo nem a La Fontaine, salvo a ideia de fábula. E inicio uma investigação sistemática, levantando autores insuspeitados, de Fernão Lopes, que germinou essa fábula, que publico, entre as páginas de uma das suas crónicas, ao inesgotável Fernando Pessoa. Entre estas balizas estão autores que não eram considerados fabulistas e cuja inclusão pode surpreender. E ainda bem. Infelizmente, em Portugal não houve seguidores de uma corrente que arranca ainda em La Fontaine que é a das fábulas fesceninas, que não estão traduzidas nem divulgadas entre nós! Também seria interessante restaurar o movimento fabulístico de Pessoa até aos nossos dias.

2-A antologia reúne autores tão diversos como Fernando Pessoa e Fernão Lopes: que critérios estabeleceu para a sua escolha?
R-Ora, conforme procurava fábulas nas obras dos autores, achava-as e arquivava-as. Ao chegar a Pessoa, tive a surpresa de uma pasta enorme com o material recolhido. Refiz a pesquisa entre os achados e fiquei com esta escolha. Com esta escolha e quatro ou cinco antologias individuais de fábulas que mereciam entrar imediatamente no mercado.

3-Enquanto leitor, quais são os autores de fábulas que mais o surpreenderam quando estava a organizar esta antologia?
R-Bocage chama a atenção logo nas traduções! O seu português recria fábulas de La Fontaine que merecem a melhor das nossas atenções. Curvo Semedo, Filinto Elísio, Sá de Miranda, Garrett, O’Neill, o padre Manuel Bernardes, tantos outros.
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José Viale Moutinho
Livro Português das Fábulas
Temas e Debates  19,90€

Sandro William Junqueira | Quando as Girafas Baixam o Pescoço

1-O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Quando as Girafas Baixam o Pescoço»?
R- Aqui não há heróis nem vidas extraordinárias. É um livro de gente banal que habita um edifício de paredes finas e vive à beira do abismo. São vidas que por circunstâncias diferentes encontram-se suspensas, num intervalo, numa pausa que contraria a voragem e a velocidade do mundo moderno; quase como se tivessem descoberto um erro no sistema: e que por isso foram obrigadas a parar, a ficar em suspensão, presas num intervalo; e com tempo para mergulhar no lado avesso, nas profundezas do ser, sofrem as investidas dos fantasmas, das perguntas, do enigma e da permanente insatisfação. Apesar de apresentar elementos de estranheza e temáticas já exploradas nos romances anteriores, este livro apresenta-se menos distópico. Mais urbano e próximo de uma realidade facilmente identificável.

2-Qua a ideia que esteve na origem deste livro?
R- Não terá sido apenas e só uma ideia, mas um acumular de experiências e observações. Sempre vivi em cidades e habitei uma boa dezena de apartamentos diferentes. Por isso aprendi a viver com gente por cima, em baixo, dos lados, sem que existisse qualquer género de comunicação ou proximidade. E isto é um problema do mundo moderno: apesar de sermos cada vez mais em termos de número e vivermos cada vez mais próximos uns dos outros em termos de centímetros vivemos cada vez mais isolados. Numa solidão que faz muito barulho. Numa solidão que grita.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Tenho terminado um novo livro infantojuvenil que julgo será publicado no primeiro semestre de 2018 e estou a trabalhar num novo romance.
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Sandro William Junqueira
Quando as Girafas Baixam o Pescoço
Editorial Caminho   14,90€
1-De que trata este seu livro «STOP-As 50 Estratégias para Mulheres sem Tempo»?
R- Trata-se de um guia para que pessoas com estilos de vida diversos e formas de pensar e agir diferentes, consigam utilizar soluções práticas para problemas do dia a dia, que tocam áreas importantes da vida das pessoas, que nem sempre são fáceis e podem tornar-se enormes ladrões de tempo.

2-Numa época como a nossa, um livro dirigido especialmente a mulheres poderá ser redutor: não andamos todos (homens e mulheres) a lutar contra a falta de tempo?
R- Homens e mulheres debatem-se com uma “sensação” de falta de tempo. Passamos o tempo a fazer cada vez mais coisas, mais depressa e esquecemo-nos de questões básicas como descansar, manter um estilo de vida saudável e reduzir o que se faz em quantidade (menos atividades) ou duração (faço uma caminhada de 10m em vez de 30m ou 45m). Pela minha experiência e de acordo com um estudo que realizei em 2017 sobre formas de as pessoas se organizarem e simplificarem a sua vida, a resposta que reuniu mais consenso foi: “as mulheres têm que trabalhar mais para mostrarem o que valem”. Quer por este resultado, quer pela minha experiência em mais de 100 empresas e com o contacto direto com pelo menos 2500 pessoas, o contexto de trabalho na maior parte das organizações e empresas em particular, não cria condições de igualdade de oportunidades para as mulheres. Por isso, do meu ponto de vista, o que é redutor é tratar realidades diferentes como sendo iguais. Há muitas semelhanças, mas há especificidades que justificam e requerem um livro que seja dedicado às mulheres.

3-Se tivesse que escolher apenas 3 estratégias, quais seriam as mais importantes?
R- Simplifique e faça o essencial. Pratique o toma lá dá cá. Durma e descontraia.
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Ana Tapia
STOP-As 50 Estratégias para Mulheres Sem Tempo
Esfera dos Livros  16€

Aida Chamiça | Break Heaven


1-De que trata este seu livro «Break Heaven»?
R- Trata-se de uma viagem de transformação equivalente à que acontece numa sessão de coaching executivo. Uma viagem em que o leitor contacta com o melhor de si, ativa o seu potencial e se vai transformando enquanto lê. A ambição do Break Heaven é em si mesma, transcender os paradigmas de leitura conhecidos e viver uma experiência nova, em que o protagonista é o leitor e o resultado da leitura, um grande sorriso, uma auto-confiança renovada e uma vontade imensa de ascender ao nível seguinte. Este não é um livro de auto-ajuda. É um livro de gestão. Gestão de si. Baseado em 15 anos de experiência a ativar o potencial de executivos de alta gestão, a estudar muito e anualmente nas melhores escolas e centros de formação do mundo nestas matérias, numa sabedoria que integra a informação académica, a investigação que outros fizeram, com a experiência prática de apoiar gestores de topo na superação de obstáculos para alcançar resultados. Uma experiência que promete transformar a leitura numa poderosa ferramenta de conhecimento que irá mudar para sempre a forma de gerir e liderar. Porque somos todos do tamanho dos nossos sonhos, o nosso cérebro responde às realidades que criamos e em que acreditamos. Os gestores de topo e líderes que fizeram programas de coaching executivo comigo tiveram oportunidade de ascender a muitos níveis seguintes.

2-Sendo um guia prático, de que forma pode ajudar os leitores a (como diz) «ascender ao seu próximo nível»?
R- Cada capítulo, para além do conteúdo central, tem um conjunto de secções: Conteúdo em que partilho os conhecimentos que tenho vindo a adquirir com base na minha formação e experiência profissional; Histórias inspiradas na minha atividade profissional, em que partilho o desafio inicial do cliente em coaching  executivo  e  a  forma  como  superou  a  adversidade  ou ativou  o  potencial para  alcançar  com  sucesso  as  suas  metas; Propostas de exercícios práticos de autoconhecimento e reflexão que permitirão identificar as áreas que precisa de desenvolver.  A tomada de consciência desencadeia por si só uma espécie de autorregulação do sistema que se torna ainda mais intensa quando desencadeia decisões estruturantes ou um plano de ação de implementação imediata. Contos ou histórias que ilustram de forma metafórica o conteúdo explícito, nos conectam com o pensamento mágico e o inconsciente e geram emoções e insights com um imenso poder transformador. Pode ler-se este livro sem tirar partido da sua componente de  aplicação  imediata ou  desafiar-se  a  começar  desde logo uma  viagem  de  transformação.

3-De tanto e em tantas ocasiões se falar de coaching, a palavra parece ter muitos significados: qual o âmbito em que é desenvolvido neste seu guia prático?
R-Este não é um livro sobre coaching. É um livro em que as histórias de coaching executivo que partilho, têm o propósito de ilustrar o conteúdo e inspirar o leitor. O contexto é aquele que conheço melhor: os desafios mais comuns para executivos, líderes e gestores de topo. O conceito de coaching que adoto é o da Federação Internacional de Coaching (ICF) que conta com, aproximadamente 30 mil membros em 140 países.
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Aida Chamiça
Break Heaven-Um livro para executivos que querem ascender ao seu próximo nível
RH Editora  18,50€

Cláudia Ninhos | Portugal e os Nazis

1-De que trata este seu livro «Portugal e os Nazis»?
R- O livro procura analisar as política cultural nazi em Portugal através de fontes alemãs. Embora o período sobre o qual me debruço corresponda aos anos em que o regime Nacional-Socialista esteve no poder, foi necessário recuar no tempo para compreender as continuidades e rupturas. Centramo-nos nos inúmeros intercâmbios promovidos pela Legação Alemã, pelo Grémio Luso-Alemão, pelas organizações nazis, em especial a Juventude Hitleriana, mas também pelos Institutos Portugueses criados no Reich e pelo Instituto Ibero-Americano de Berlim. Optámos por alargar o âmbito do estudo das relações luso-alemãs a um aspecto pouco estudado pelos investigadores, que é a diplomacia de cariz cultural e científico, campos que são, muitas vezes, incorrectamente entendidos como apolíticos. Como procuraremos demonstrar, a política cultural alemã em Portugal respondeu sempre a objectivos de natureza política e económica.

2-A investigação que desenvolveu revelou-lhe dados novos sobre este período da história de Portugal e da Europa?
R- Sim, a consulta da documentação do Arquivo Político do Ministério dos Negócios Estrangeiros Alemão permitiu-nos aceder a fontes primárias importantíssimas para compreender as relações luso-alemãs durante este período, que depois confrontei com fontes inglesas e portuguesas. A correspondência diplomática prova que a política cultural foi o instrumento privilegiado para promover a compreensão pela Alemanha e pelo novo regime, nomeadamente à medida que a sua política externa se radicalizava. Os diplomatas e as instituições alemãs procuravam criar um clima de simpatia e boa vontade face ao III Reich e às suas reivindicações através de filmes, revistas, exposições, digressões de orquestras e grupos de teatro, fomentando o ensino do alemão e o intercâmbio académico. Todas estas actividades promovidas, a par das visitas ao Reich, das conferências, do intercâmbio juvenil e académico, visavam promover a imagem do regime nacional-socialista junto das elites portuguesas e, por intermédio delas, influenciar a própria orientação diplomática do governo de Salazar e afastar Portugal da omnipresente «Aliança Inglesa», isto é, da forte influência económica inglesa, colocando o país sob a órbita alemã.

3-A neutralidade portuguesa (propalada pelo regime de António Salazar) foi a realidade ou uma construção?
R- A neutralidade foi uma construção, que resultou do esforço intransigente de Salazar em manter o país afastado do palco bélico, mas que beneficiou, e muito, da sorte. O ditador encarava a neutralidade como um campo que lhe permitia negociar com os dois lados e foi tentando contornar os obstáculos e resistir às pressões a que era sujeito. Tratou-se uma "neutralidade colaborante" quer com a Inglaterra, quer com a Alemanha Nazi. Salazar sempre desejou uma paz sem vencedores, nem vencidos, que se pautasse pela manutenção do status quo do período pré-guerra.
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Cláudia Ninhos
Portugal e os Nazis
Esfera dos Livros  15,90€

Hernâni Carvalho | O Índice da Maldade

     (Foto: Neusa Ayres)

1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu livro «O Índice da Maldade»?
R-A encomenda foi da SIC e da Editora Guerra e Paz. Pediram-me que escrevesse acerca dos temas que abordo diariamente no programa das manhãs da SIC. Em boa verdade, muito do que ali abordamos passa pela Maldade. Esta é provavelmente a característica humana menos conhecida. A Maldade inclui em si a delícia e o prazer da observação e participação no sofrimento e/ou na morte do outro. E portanto, numa abordagem diferente, procurei descrever factos, sem rodeios e sem pretensões. Como, porquê e de que forma é que a Maldade caminha e opera no cérebro de alguns, foi o que pretendi explicar no livro, de forma simples e acessível. Usar a Escala do Dr Michael Stone ajudou muito a sistematizar e a enquadrar a apresentação dos casos portugueses.

2-Será que estamos a deixar de ser o tal «país de brandos costumes»?
R-Talvez. Portugal ainda é um país seguro. As forças de segurança têm um contingente mais do que suficiente, mas muito mal distribuído, com funções espúrias e politicamente muito mal comandando. Não há maus exércitos, há maus generais…

3-De todos os casos investigados que aborda no livro, quais o que mais o impressionaram ou surpreenderam?
R-Todos os casos que envolvem crianças de tenra idade nos tocam. Mas saber que o Violador de Telheiras, já depois de preso, enviou notas de 20 euros às suas vítimas é preocupante. Mesmo depois de presos, os agressores têm acesso total aos dados e à vida das suas vítimas. Preocupante.
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Hernâni Carvalho
O Índice da Maldade
Guerra e Paz  15,50€

Luís Miguel Rosa | Nova Arte de Conceitos


1-O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Nova Arte de Conceitos»?
R- Sendo este o meu primeiro livro de ficção em prosa, é prematuro falar dele no contexto de uma obra ainda por fazer. Posso explicar o que significa para mim neste ponto concreto da minha vida. Esta publicação alentou-me a respeito do futuro. Em 2013 comecei a escrever um romance que, quando o terminei em 2015, enviei para várias editoras, recebendo ora recusas ora silêncio. Sem desânimo, comecei outro livro, este agora publicado, e enviei-o para editoras aí em princípios de 2016. Mais recusas, mais silêncio. Já andava embrenhado em pesquisa para o terceiro e o quarto quando Carlos Alberto Machado, da Companhia das Ilhas, entrou em contacto comigo para publicar Nova Arte de Conceitos. O apreço dele fortaleceu-me a auto-estima; pensei que afinal não estava a escrever para o vácuo, que a minha escrita pudesse interessar aos outros. Esta é uma dúvida que me assombra: o que escrevo interessa a alguém? O processo de publicação deste livro também me ensinou lições valiosas. Antes de mais, descobri a importância da paciência. O Carlos respondeu-me em Maio de 2016 e só em Setembro passado é que o livro saiu, quase um ano e meio depois; e ainda bem que demorou tanto, porque no entrementes andei a corrigi-lo e a revê-lo várias vezes, até quase à semana anterior ao livro ir para a prensa. Acabei com um livro bem melhor do que aquele que enviei para as editoras, e é isso que quero acima de tudo: criar o melhor livro possível de acordo com as minhas capacidades. Aprendi que não vale a pena haver pressa em publicar; no meu caso, pelo menos, isso vai de encontro ao meu objectivo, que é ir ao encontro da perfeição possível. Descobri ainda a utilidade de escutar um editor. O Carlos fez-me várias observações e recomendações com o fito de melhorar o livro; ponderei-as e concordei com algumas delas. Quando escrevo, escrevo só para mim, fazendo de mim próprio a medida das coisas; quanto a isso sou muito protagoriano. Depois, claro, fico curioso por saber o que os outros pensarão do livro. O Carlos apontou-me aspectos que lhe pareceram problemáticos; isso deu-me oportunidade de os reconsiderar de uma nova perspectiva, e concluí que em alguns casos tinha razão. Logo fiz certas mudanças que, no seu todo, tornaram o livro mais bem estruturado, mais elegante, sem com isso lhe trair o espírito inicial. Foram, portanto, essas as lições que colhi desta experiência: ter paciência e lidar com críticas construtivas.

2-Qual a ideia que esteve na origem deste livro de contos?
R- Escrevi-o para ser deleitoso: os contos são eclécticos e cómicos, indo do realismo à fantasia, da actualidade ao século XII, de Lisboa à Ilha dos Amores, e lidando com as questões perenes da literatura: amor, poder, ambição, fracasso. Nada une os ingredientes desta mixórdia salvo o gozo que tive em manipular a língua portuguesa para lhes dar forma e flama, o que sobressai em cada linha. O que é  me levou a enveredar por um livro de contos? Agora envergonho-me de o admitir, mas foi sobretudo falta de ambição e um certo desdém pelo conto como um género fácil, menor e despachado. Em 2015, quando terminei o meu primeiro romance, descobri com pavor que este tinha mais de 310 000 palavras. Os Maias, para efeitos de comparação, tem cerca de 210 000. Eu era, portanto, um noviço sem nome, sem público, sem créditos, sem cunhas, pensando mesmo que ia publicar um calhamaço que deverá dar umas 700 ou 800 páginas num país onde só publicam tais beemotes autores consagradíssimos como António Lobo Antunes, Maria Teresa Horta e Mário Cláudio. Pode calcular o quão bem a experiência correu quando o enviei para as editoras. É um facto que os romances portugueses, de Herculano aos nossos dias, e sobretudo as obras marcantes da sua história, foram curtos: Viagens na Minha Terra, Confissão de Lúcio, Húmus, Nome de Guerra, Esteiros e Gaibéus, Rumor Branco, O Delfim, são romances que mal chegam às 200 páginas. Sempre achei isso curioso, porque em outros países tendem a ser livros longos a iniciar ou a definir uma época: Gargântua e Pantagruel, Dom Quixote, Tom Jones, Crime e Castigo, Guerra e Paz, Em Busca do Tempo Perdido, Ulisses, The Recognitons, Grande Sertão: Veredas, The Sot-Weed Factor, La Saga/Fuga de J.B, Gravity’s Rainbow, etc. Não sei o porquê; só sabia na altura que eu era um zé-ninguém com um livro impublicável perante os padrões há muito vigentes no nosso meio literário. Assim virei-me para o conto; pensei que dava para despachar uma mancheia deles em poucos meses. Acreditava que, a um dia publicar este romance, só o faria depois de ter obra feita e um nome conhecido na praça pública, e mais valia trabalhar para isso o quanto antes. Conhece aquela citação de Lobo Antunes? “A mim enviam-me muitos manuscritos para que dê a minha opinião, e fico surpreendido porque estes jovens querem ser lidos na segunda-feira, ser publicados na terça, ter um êxito extraordinário na quarta e ser traduzidos em todo o mundo na quinta. Não são escritores porque têm um apetite de êxito imediato e essa atitude impede-os de crescer literariamente.” Eu fui esse cretino. Foi por isso que iniciei Nova Arte de Conceitos por volta de Maio de 2015 e aí em Janeiro de 2016 já o andava a prostituir junto das editoras. De início concebi o livro em parte como uma obra mais curta e menos assustadora para um editor. Felizmente, o Carlos disse-me que não o podia publicar de imediato, presumo que por causa de outros compromissos e as dificuldades inerentes a gerir uma pequena editora; e isso foi um bálsamo, porque aproveitei essa demora para acrisolar o livro. Aliás, quando ele me contactou eu já estava a meio de um novo rascunho. A verdade é que, embora eu tenha um certo desejo de ser acessível, a minha mente revolta-se contra mim se eu insisto nisso por muito tempo. A minha estética pende para o excesso, o exagero, a extravaância. Quando mostrei uns capítulos do meu romance a conhecidos, vários me disseram que eu era barroco. Como a palavra “barroco” suscitava associações muito vagas na minha mente, pus-me a estudar o nosso século XVII e os seus escritores para ver o que podia extrair deles que enriquecesse o meu próprio processo. Quando li Corte na Aldeia, de Francisco Rodrigues Lobo, encontrei a estrutura que me faltava ao livro. Há um capítulo maravilhoso em Corte na Aldeia onde os personagens discutem retórica, ou melhor, condenam a retórica barroca, e o que condenam é exactamente aquilo que eu já realizara em alguns contos. Então decidi usar citações como epígrafes de cada conto, num jogo de ponto e contraponto. Se ele condena o uso de arcaísmos, então dou-lhe um conto cheio de palavras desusadas; se condena o uso de estrangeirismos, então dou-lhe um conto cheio de brasileirismos, especialmente derivados do Tupi. E quando ele se queixa dos “mancebos” que fazem “na prosa acentos de música ou medidas de poesia,” tive por bem dar-lhe um conto todo escrito em prosa rimada. Recentemente tive a maravilha de descobrir que D. Francisco Manuel de Melo se antecipara a muitos dos meus jogos numa obra-prima negligenciada intitulada A Feira dos Anexins. Rodrigues Lobo, por quem tenho muita estima, deu-me um inimigo em quem eu me pudesse focar; o meu livro foi de ser um mero aglomerado de contos a ter uma coerência interna de capa a capa graças a ele. Também gosto de pensar que é uma espécie de homenagem ao Barroco português, sempre tão desprezado e incompreendido entre nós. O título do livro vem de um tratado de retórica do século XVIII de Francisco Leitão Ferreira, o qual não é reeditado desde 1722. Por incrível sincronicidade, dias depois do lançamento do meu livro descobri que o Nova Arte de Conceitos de Leitão Ferreira vai ser finalmente reeditado na colecção “Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa” da Círculo de Leitores. Apraz-me saber que em breve, quando o quiser folhear, não terei de ir à sala de microfilmes da Biblioteca Nacional. Dá-me esperança que um dia até A Feira dos Anexins esteja ao alcance de todos e não apenas de ratos de alfarrabistas como eu. De certo modo, Nova Arte de Conceitos, nascido sob a égide da simplicidade e da preguiça, acabou por me exigir tanto quanto o romance, e se calhar tornou-se um livro mais desafiante do que este.

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Fora da ficção, ando a ver se encontro casa para uma tradução do romance de um escritor americano que adoro: Three Wogs, de Alexander Theroux. Ademais, entretenho-me amiúde com ensaios literários. Mas a ficção fascina-me mais do que o resto. Quanto a ela, bem, antes de Nova Arte de Conceitos já contemplava um segundo romance; este seria do género histórico, passado no século XVII; começaria em Portugal e acabaria no Brasil, como as vidas de tantas pessoas desse século. Contudo, à medida que a pesquisa foi crescendo, percebi que este seria ainda mais longo e exigente do que o primeiro. Ademais, seria igualmente impublicável, e não vejo utilidade em ter dois livros impublicáveis terminados a acumular cotão digital num disco externo. Assim, vou trabalhando nele com vagar. De momento, ando mais ocupado com dois projectos em simultâneo: um é uma obra nascida do meu desejo de ir sempre além do que julgo ser capaz de realizar; é um livrito lipogramático de 100 páginas, cada página com um texto de 100 palavras, pelo que o livro terá 10 000 palavras. O desafio reside no facto de só usar palavras com a vogal A. Isto é mais claro se lhe mostrar um excerto: “Nata há nada, a malva Sandra, avalancha salgada, a aflar abalada, para a saga avança da racha nas ancas da mamã. Mamã ama-a. Mas, da mamã, zás, apartada. Vá lá, laça ar, lança ar! Batam nas nalgas! Zás-catrás! Ah, já brada, já arfa. Cá tás, cansada vassala da campa: nada dá para travar a valsa astral. Rapas cabalas, alastram as cãs, passa a chama, passas a pasta para anafar grama, dás a casca à Dama-da-Gadanha, a alma, às tantas, lá acampa na campa. Tragam dâmaras, sâmaras, tâmaras, câmaras pra captar a data! Papá, abra a garrafa da champanha. Papá ama-a.” A versão final será, decerto, diferente. Imaginei o projecto há anos, mas depois de tentativas sob a forma de poesia, aceitei que sou essencialmente um escritor de prosa narrativa. Além disso, percebi que num estágio anterior à escritura teria de fazer um levantamento lexical exaustivo, o que comecei a fazer há 2 anos e já vou para aí numas 2500 palavras. Agora, com lenteza, vou tentando extrair desse opressivo constrangimento clareza, enredo, sentido, personagens, humor, tragédia e acima de tudo beleza. É terrível: posso passar um dia inteiro à volta dum texto de 100 palavras. Mas quando corre bem, sinto-me feliz e justificado. Basicamente, isto é uma continuação dos constrangimentos que impus a mim próprio em Nova Arte de Conceitos; só que em vez de estar a escrever um conto inteiro cheio de neologismos, outro cheio de arcaísmos, outro de frases aliterantes, etc., decidi experimentar um lipograma. Era o próximo passo lógico. O outro projecto é mais normal, por assim dizer: é uma trilogia de novelas interligadas pelo tema da intolerância e do fanatismo ao longo da nossa história. Começo, portanto, no meu amado século XVII com um inquisidor, depois salto para a I República e acabo nos dias actuais com um terrorista islâmico. A escritura deste desenrola-se mais depressa, e é o que me tem consumido mais atenção. Também ajuda o facto de ser divertidíssimo ter um inquisidor a viver na minha cabeça há meses; o tipo é tão irresistível que não lhe consigo dizer não. O lipograma deixa-me exausto se trabalho nele durante mais do que 2 dias seguidos, e por isso uso este outro para recarregar as baterias antes de nova investida. É uma estafa, mas quem existe não desiste.
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Luís Miguel Rosa
Nova Arte de Conceitos
Companhia das Ilhas  14€

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(C) Vieira da Silva

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