Diga não ao cruel comércio da morte.

Francisco Moita Flores | O Mistério do Caso de Campolide (primeira página)


Depois de vários romances, Francisco Moita Flores decidiu escrever um policial. Com o seu talento e a sua muita experiência na Polícia Judiciária, só podemos esperar um bom livro: "O Mistério do Caso de Campolide" começa assim. 

Francisco Moita Flores | O Mistério do Caso de Campolide


1-O que representa, no contexto da sua obra, o livro «O Mistério do Caso de Campolide»?
R- É o meu primeiro livro policial. Uma aventura por uma técnica narrativa diferente, criando uma história de intriga detectivesca no apogeu do Estado Novo.  É, por outro lado, uma resposta a centenas de leitores que me interpelavam para saber quando escreveria um romance policial. No contexto da minha carreira literária é mais um romance. Desta vez procurando decifrar as emergentes mentalidades dominadas pelo salazarismo. Julgo que é um bom romance.

2-Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- O pretexto foi visitar o Estado Novo durante o seu apogeu. Salazar e o salazarismo são temas inquietantes dos quais nos aproximamos sempre com preconceito. Quis olhar este tempo com distância crítica. Ir para além da política e penetrar nos quotidianos de Lisboa. Foi um belo exercício que me continua apaixonar, e que continuo a estudar, mesmo após a publicação do Mistério do caso de Campolide.

3-De que forma a sua experiência profissional como investigador da Polícia Judiciária influenciou a escrita deste romance?
R- Influenciou bastante, como pode imaginar. Conheço bem os mecanismos de pensamento dos detectives, conheço bem a nossa criminalidade (a de hoje e de ontem), conheço o jargão, as motivações. Embora a acção decorra em 1937. Nessa altura a PIC, a Polícia de Investigação Criminal, que seria a 'mãe' da Polícia Judiciária já ganhara uma cultura própria no domínio da investigação. É seguramente o romance que escrevi até hoje, onde o meu passado serviu como objecto de pesquisa.
__________
Francisco Moita Flores
O Mistério do Caso de Campolide
Casa das Letras  18,90€

Francisco Moita Flores na "Novos Livros" | ENTREVISTAS

Cláudia Clemente | A Preto e Branco

1-O que representa, no contexto da sua obra, o livro «A Preto e Branco»?
R- Este livro é uma espécie de "regresso às origens", neste caso, aos contos breves, género literário com que me estreei na literatura. Depois de ter publicado dois livros de contos, uma peça de teatro e um romance, decidi aceitar o desafio do Hugo Xavier, que resultou neste "A Preto e Branco". Este projecto conjunto era já antigo, uma vez que os contos estavam escritos há quase dez anos, quando o Hugo ainda estava no grupo Babel. Assim que criou a e-Primatur (e a Book-Builders), decidimos retomar este livro, e convidámos diversos artistas para participar no projecto.

2-Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- A ideia era conjugar contos muito breves - uns terão meia página, outros uma - com o trabalho de artistas de estilos e origens muito diferentes entre si. Assim, o ilustrador Sérgio Condeço, por exemplo, elaborou desenhos para alguns dos contos, o cineasta Edgar Pêra criou imagens para outros, bem como a pintora Cristina Troufa, a designer Susana Villar, o Ricardo Castro, o Bruno Leal, etc. A capa é um trabalho do Luís Manuel Gaspar. Foi um trabalho colectivo.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Neste momento tenho entre mãos um novo romance, que me está a dar muita luta, de há 3 anos para cá. Estou também a escrever contos, como sempre.
__________
Cláudia Clemente
A Preto e Branco
BookBuilders  15,90€

J.-M. Nobre-Correia | Teoria da Informação Jornalística

P-Qual a ideia que esteve na origem deste livro “Teoria da Informação Jornalística”?
R- Durante 31 anos, dei a estudantes de Ciências da Informação e da Comunicação, na Université Libre de Bruxelles, uma matéria que mudou duas vezes de nome e que acabou por se intitular Teoria da Informação Jornalística. Como apoio às exposições orais desta matéria, publiquei um manual (Théorie de l’Information Journalistique) que teve 21 edições diferentes e várias reimpressões. Manual que alguns amigos portugueses me propuseram mais de uma vez que eu o publicasse em Portugal. Mas eu nunca tive a disponibilidade de tempo necessária para me ocupar de uma edição em português… Regressado a Portugal, após mais de 45 anos de residência em Bruxelas, resolvi ocupar-me eu próprio da tradução e da devida adaptação : não se trata pois exatamente do mesmo livro, a edição em francês sendo bastante mais extensa. E decidi fazê-lo porque penso que não há livro nenhum do mesmo género publicado em português e tendo como autor um português. Há é verdade vários livros (não muitos) de caráter mais técnico, mais pontual. Pelo que, no ensino superior como nos meios mediáticos, se recorre então a edições brasileiras, por vezes espanholas ou anglo-americanas, com que isto poderá ter de insatisfatório. E o mesmo são obrigados a fazer os cidadãos portugueses que se interrogam sobre a evolução atual dos média e da informação jornalística. Por fim, achei que, sair de uma abordagem puramente portuguesa e propor uma perspetiva europeia do tema, não seria desprovido de interesse : os leitores di-lo-ão…

2-Para quem há tantos anos estuda o Jornalismo, como analisa agora o tempo das "fake news"?
R- Sempre houve notícias falsas na história dos média, desde o nascimento da imprensa. Notícias voluntariamente falsas : por iniciativa dos média, para fazer vender papel ou aumentar audiências ; ou por iniciativa de meios exteriores aos média, para lançar descrédito sobre concorrentes, por exemplo. Ou notícias involuntariamente falsas : por incompetência ou/e precipitação dos média, para procurar anunciar um facto antes dos concorrentes, para ter uma “exclusividade”. O que mudou radicalmente é o facto de, com a internet, os antigos recetores (leitores, ouvintes, espectadores) passarem a poder ser também emissores. Pelo que somos inundados de informações que têm por origem os meios jornalísticos (que em princípio respeitam um certo número de princípios técnicos e deontológicos), mas também por outras de origem conhecida ou perfeitamente anónima e que, na grande maioria dos casos, nada têm de jornalístico.
Ora, os meios dirigentes como os meios minoritários sempre procuraram influenciar os média e a prática jornalística, a maneira como os média dão conta da atualidade e a interpretam. Com a internet, a partir da segunda metade dos anos 1990, esses mesmos meios deixaram de ter obrigatoriamente que passar pelos jornalistas e pelos média tradicionais : passaram eles mesmos a emitir toda a espécie de notícias verdadeiras, aproximativas ou falsas. Há um ditado que tem aspetos horríveis e que diz “não há fumo sem fogo”. Pelo que as notícias desprovidas de factualidade, de veracidade, deixam sempre um certo rasto de credibilidade ou pelo menos de dúvida. E como, com a internet e as chamadas “redes sociais” passou a haver milhões e milhões de emissores de notícias, passámos a ter de praticar mais do que nunca um sentido crítico particularmente agudo em relação às notícias a que temos acesso.

3-Pensando no futuro: ainda vamos a tempo de refundar o jornalismo e fazer dele uma peça essencial na vida das pessoas no século XXI?
R- O jornalismo no sentido mais autêntico e forte da palavra é cada vez mais necessário, dada a gigantesca proliferação dos média a que assistimos desde os anos 1960-1970 e sobretudo desde os anos 1990-2000. Para melhor gerirmos as nossas próprias vidas e melhor nos inserirmos na sociedade em que vivemos, todos nós temos cada vez mais necessidade de rigor na recolha, na hierarquização e no tratamento dos factos, assim como de uma mais valia exigente na interpretação e na análise destes factos.
__________
J.-M. Nobre-Correia
Teoria da Informação Jornalística
Almedina  21,90€

Nobel para Saramago: 20 anos depois


A Fundação José Saramago tem um programa completo para assinalar os 20 anos da atribuição do Prémio Nobel da Literatura ao autor de Memorial do Convento.
Lisboa, Lanzarote e Azinhaga são três espaços privilegiados para acolher diversas iniciativas. Será ainda lançado um livro inédito: o Último Caderno de Lanzarote, o diário de José Saramago no ano que se seguiu ao Nobel.
Além disso, esta efeméride pode e deve servir para servir de estímulo à leitura dos livros de José Saramago que pode encomendar aqui.
__________
WEB: Fundação José Saramago

Richard Zimler | Os Dez Espelhos de Benjamim Zarco (primeira página)

Como começa o novo romance de Richard Zimler? Não sabíamos. E por isso aqui fica a página um do novo romance que o autor acaba de publicar: Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco.

Richard Zimler | Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco

1-O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco»?
R- É uma oportunidade de entrar mais uma vez no mundo paralelo dos Zarco – que comecei a construir com o meu primeiro romance – e contar uma história que me parece fascinante e comovente.  Mais do que qualquer outro livro meu, é também uma oportunidade para o leitor preencher a história com a sua própria sensibilidade e inteligência, uma vez que é contada de cinco perspectivas diferentes. 

2-Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
A ideia de explorar como é que transmitimos os nossos traumas à nossa família, particularmente aos nossos filhos, sem o querer. Ou seja, os sobreviventes do Holocausto – como os dois protagonistas deste livro – tentam evitar que os filhos sejam sobrecarregados com as suas fragilidades e medos provocados pelo sofrimento durante a Segunda Guerra Mundial, mas nem sempre têm sucesso. No fundo, queria explorar como é que ultrapassamos os nossos traumas.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Estou a escrever mais um romance sobre uma geração dos Zarco.  Os personagens do livro vivem em Portugal durante o século XVII.
__________
Richard Zimler
Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco
Porto Editora, 17,70€
WEB

Filipa Fonseca Silva | Odeio o Meu Chefe

1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu livro «Odeio o Meu Chefe»?
R- Não foi bem uma ideia, foi mais a constatação de que ,tal como eu a da da altura, muita gente estava a sofrer ou já tinha sofrido com maus chefes. Quanto mais falava do assunto, mais histórias surreais me contavam, ao ponto de começar a coleciona-las e decidir mostrá-las na forma de um cartoon.

2-Este livro pode ser considerado um livro de auto-ajuda em contexto empresarial?
R- Pode ser de auto-ajuda se considerarmos que rir é uma maneira de lidar com os abusos de certas chefias. Ou se nos consolarmos com o facto de não estarmos sozinhos nesse sofrimento. Também poderia servir de auto-ajuda para muitos maus chefes, se estes tivessem a capacidade de se ver ao espelho neste personagem que criei e que não é mais do que uma caricatura com um pouco de todos os maus chefes que protagonizaram as histórias (absolutamente reais) descritas no livro.

3-Enquanto não desaparecem, como podemos lidar com chefes que odiamos: quais os seus 3 melhores conselhos?
R- Há três estratégias que podem ajudar muito: (1) dizer que sim a tudo o que ele diz, como se faz com os malucos, e depois fazer o que achamos correcto, até porque na maioria das vezes ele não sabe o que andamos efectivamente a fazer; (2) apresentar-lhe ideias ou soluções de forma a que ele ache que foi ele que as teve e assim aprovar o trabalho; (3) fugir. Sei que não é fácil e nem sempre é possível, mas ele não vai melhorar, acreditem.
__________
Filipa Fonseca Silva
Odeio o Meu Chefe
Bertrand  15,50€

Filipa Fonseca Silva na "Novos Livros" | ENTREVISTAS

500 MIL visitantes

A nossa revista começou a publicar-se online em Junho de 2001 e, em Maio de 2008, adoptou a plataforma do Blogger e assumiu o formato de um blogue. 
Foi um percurso lento, com os nossos leitores, com os autores e com os editores. 
Ontem, 27 de Setembro de 2018, chegámos a um número de visitantes que nos deixa muito felizes e que, em 2001, não imaginávamos ser possível alcançar. 
Temos vindo a crescer de uma forma lenta mas segura e a conquistar novos leitores, sendo já mais de 20 mil os que, mensalmente, visitam a página da revista.
Ontem, ultrapassámos os 500 mil visitantes contabilizados desde 2008. 
Obrigado a todos os que ajudam a fazer o projecto Novos Livros.

Grandes Clássicos da Língua Portuguesa

1-Como surgiu a ideia de organizar esta antologia de pequenas histórias dos grandes clássicos?
R- Sempre gostei muito de literatura, e embora tenha formação em Filosofia, sempre me interessei pelas duas coisas, que procuro conciliar. Dentro da literatura, gosto especialmente de histórias, que me façam sonhar e criar mundos de imaginação. Por falta de tempo não poderia ler todos os romances destes escritores, mas as pequenas histórias são uma forma de aceder a esses escritores. Por outro lado, tenho tido uma certa experiência com a aorganização de antologias, por isso pensei em fazer também uma de pequenas histórias de autores portugueses. Atualmente as pessoas andam muito entretidas com autores que estão na moda, autores mediáticos, e que certamete não ficarão na História da Literatura, e considero uma lacuna no conhecimento das novas gerações, o conhecimento dos autores clássicos. Penso que é importante conhecer também os clássicos, pois é uma forma de tomarmos maior consciência da nossa identidade cultural e de  mergulharmos um pouco mais nas nossas raízes.

2-Quais os critérios que presidiram à escolha dos 25 autores e dos seus contos?
R- O principal critério já foi referido na resposta anterior, isto é, tinham que ser autores clássicos. Esta forma de texto literário (que geralmente se denomina "conto", mas que, conforme eu explico no prefácio do livro, não é exactamente a mesma coisa), só surgiu no século XIX, e foi a partir daí, até mais ou menos à primeira metade do século XX que eu procurei as histórias escritas por esses autores. De entre os clássicos, e dado que não é sobre autores contemporâneos, não havia muitos autores, pois houve muitos autores que escreveram apenas poesia ou romances, e não pequenas histórias. Mas dentro das pequenas histórias seleccionadas, o critério foi também o considerar que essas histórias tinham qualidade literária. Há também a referir que procurei como critério que algumas dessas pequenas histórias fossem das mais conhecidas e populares desses escritores, como por exemplo "O suave milagre", de Eça de Queirós. Finalmente, é de referir o critério da variedade, isto é, procurei diversos temas, e em vez de serem por exemplo histórias de Natal, de amor, de  terror, etc, houve a preocupação de procurar e seleccionar uma variedade de temas. Através deste livro não apenas a variedade de temas, como também literária e estilística.

3-Pensando no futuro: tem em preparação mais antologias ou obras pessoais?
R- Estou a aguardar a publicação de um novo livro, uma obra de ensaio que escrevi, sobre a dicotomia público-privado, e que vai ser publicado ainda este ano, na editora Almedina. Estou a preparar mais dois livros. Um deles é sobre a política em Fernando Pessoa (autor pelo qual me interesso em todas as suas várias facetas, e pretendo no futuro investigar outros temas em Fernando Pessoa). Estou a preparar outro livro, que está a ser muito interessante e absorvente (que interrompi apenas para responder a estas perguntas, e na qual vou pegar de novo assim que acabar de responder a estas perguntas). Trata-se de uma tradução que estou a fazer de poemas satíricos do Cancioneiro Medieval Galaico Português. Estão publicado, mas em Galaico-Português, um português arcaico, misturado com Galego, e portanto ainda não estão traduzidos  em Português, que é o que eu estou a fazer (uma selecção de entre os poemas satíricos). O tema é muito interessante, e vai ser uma grande revelação para o público português, ao descobrir que a Idade Média afinal não é tão "santa" como se pensa. É uma sensação muito interessante esta viagem até à Idade Média, ao estar a traduzir poemas do século XIII, e o seu carácter satírico tem-me causado boa disposição, assim como causará em quem os ler.
__________
Vários Autores, Pequenas Histórias dos Grandes Clássicos da Língua Portuguesa
(Organização: Victor Correia)
Guerra e Paz  16,50€

Lucília Galha | Mãe, Porque Não Gostas de Mim?

1 - Qual a ideia que esteve na origem deste seu livro “Mãe, Porque Não Gostas de Mim?”?
R-A premissa que está na base deste livro tem a ver com o alegado incondicional amor de mãe, com a desconstrução de uma visão muito romântica da maternidade que ainda existe na nossa sociedade. A ideia era encontrar histórias em que este amor de mãe pode não existir e tentar explicar as razões pelas quais isto pode acontecer. Não é tão simples como existirem “boas” ou “más” mães. Quisemos, eu em conjunto com o editor, fazê-lo da perspectiva dos filhos para perceber que impacto e que consequências é que este “vazio” pode provocar na vida de uma pessoa. 

2 - Como jornalista, o que aprendeu com os testemunhos que integram este livro?
R-Que a realidade não é linear e que a bipolarização entre o “bom” e o “mau” nem sempre faz sentido. Que estas mães retratadas na terceira pessoa, pelos seus filhos, se calhar não tiveram condições para fazer melhor, para dar mais, pelas circunstâncias da sua vida. Que há mulheres que não nasceram para ser mães e não deviam ser pressionadas pela sociedade, ou pelos terceiros, para o fazerem. Que é possível ultrapassar, apesar de com muita mágoa, este vazio provocado pela falta do amor de mãe através de apoio profissional e de outras figuras importantes e que ajudem a colmatar essa lacuna.

3 - Sendo mãe, como espera que a sua filha venha a ler este livro daqui a uns anos?
R-Gosto de escrever e de reflectir sobre temas difíceis, duros, alguns mesmo tabus, porque me dão mundo, ajudam-me a pôr as coisas em perspectiva, me enriquecem enquanto pessoa e enquanto profissional. Espero que, quando tiver maturidade, a minha filha leia este livro com esta mesma visão e que a ajude também a ser e a fazer melhor. 
__________
Lucília Galha
Mãe, Porque Não Gostas de Mim?
Esfera dos Livros  12€

Luís Osório | Mãe, Promete-me que Lês (primeira página)

Há quem diga que um romance se define pela sua primeira frase, pela sua entrada. Pode ser discutível, mas é uma ideia tentadora. Aqui fica, em primeira mão, a página um do novo romance que Luís Osório acaba de editar na Guerra & Paz: Mãe, Promete-me que Lês.

Luís Osório | Mãe, Promete-me que Lês

1-O que representa no contexto da sua obra, o livro «Mãe, promete-me que lês»?
R- É um livro em que, depois de “A Queda de um Homem”, continuo a ir ao encontro de uma ideia em mim essencial, a ideia de que a literatura/criação é o único lugar possível, como diria Borges o único lugar capaz de oferecer uma ordem ao mundo. É o meu livro mais literário, que mais pretende radicalmente marcar uma fronteira entre um antes e um depois daqui. É também um livro que, à semelhança do meu primeiro romance, aposta na ideia de que não há interesse numa literatura de onde se sai exatamente igual ao que se entrou. No contexto dos livros que publiquei, esta carta a minha mãe é também uma carta ao que em nós (eu e leitores) é vontade de mergulho, abismo e luz.  

2-Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- A minha mãe morreu há dez anos. E a ideia foi crescendo ao longo dos últimos anos. Quis a providência (ou alguém por ela), que me fosse parar às mãos a carta à Mãe escrita por George Simenon. Li-a depois do entusiasmo com os seis volumes de Knausgaard (A Minha Luta) e, claro, com a importância na minha adolescência  da carta ao pai, de Kafka. Foi como se sentisse que tinha de ser, este livro tinha de nascer – assim como a urgência de fundir a literatura com a realidade, de contaminar uma com a outra, de baralhar as contas e provocar o leitor para uma dança arriscada.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- No próximo ano será editado um livro de entrevistas, “30 Portugueses, 1 País”, resultado de 30 conversas com figuras portuguesas fundamentais. O livro será também editado pela Guerra e Paz e assinala os 20 anos da publicação do meu primeiro livro, 25 Portugueses (também um livro de entrevistas). E começarei brevemente a escrever o meu próximo romance que, muito provavelmente, será editado em 2020.
__________
Luís Osório
Mãe, Promete-me que Lês
Guerra e Paz   14,90€
Luís Osório na "Novos Livros"|ENTREVISTAS

Relembrar Augusto Abelaira (1926-2003)

“Augusto Abelaira, um amigo também”: este é o mote da sessão que decorrerá no Auditório da Biblioteca Nacional (Lisboa), no dia 19 de Setembro, pelas 18h.
Este encontro decorre no âmbito da exposição “Augusto Abelaira e o continuum narrativo”, patente na BNP até 29 de Setembro, e contará com as intervenções da jornalista Maria Antónia Palla (“Augusto Abelaira, um amigo também”) e do professor da Universidade de Aveiro Paulo Alexandre Pereira (“Outrora, agora. Ler Augusto Abelaira hoje”).

SOBRE A EXPOSIÇÃO

Esta exposição evocativa de Augusto Abelaira (1926-2003) pretende mostrar ao público em geral o seu espólio incorporado na BNP, entre 2004 e 2015, por doação da sua filha, Ana Sílvia Abelaira.
A exposição é composta por cinco núcleos. Num primeiro, situa-se o escritor no quadro familiar, mostram-se os escritos da sua infância e juventude, designadamente os jornais autógrafos que o jovem Abelaira preparava e fazia circular em família.
O segundo, que cobre um período que vai dos anos 40 a 1959, mostra, por um lado, os interesses culturais e as sociabilidades de Augusto Abelaira e, por outro, as suas primeiras obras, inéditas, os primeiros textos publicados (poesia e ensaio), os registos dos seus percursos académico e profissional, bem como do seu envolvimento cívico e político. 
O terceiro núcleo, cujas balizas cronológicas vão de 1959 até 1974, abre com a primeira obra publicada, em edição de autor, A Cidade das Flores, ao mesmo tempo que mostra os processos de trabalho subjacentes a algumas das reedições. Apresentam-se também as primeiras edições da sua ficção (romance e teatro), publicada nesse período. 
Ainda neste núcleo, expõem-se aspetos da atividade cívica do escritor, tais como a participação no júri que atribuiu o 1.º prémio a Luuanda, de Luandino Vieira, e que levou ao encerramento compulsivo da Sociedade Portuguesa de Escritores, a sua passagem pela direção da revista Seara Nova e os trabalhos para a edição das Obras completas de António Sérgio. 
No quarto núcleo, a partir de 1974, assinala-se o Abelaira cronista a par do ficcionista. Sublinha-se ainda a sua passagem pela redação do jornal O Século, pela direção da revista Vida Mundial, bem como a participação em O Jornal e no JL. Jornal de Letras, Artes e Ideias. 
Completa-se a exposição com as suas traduções, prefácios e revisões técnicas, e uma seleção de teses académicas sobre a sua obra literária. Por último, evocam-se os cafés, locais de trabalho e de tertúlia de eleição para Augusto Abelaira. (Texto da Biblioteca Nacional; desenho de João Abel Manta.)
__________
Biblioteca Nacional
Campo Grande, 83
Lisboa. Portugal

HERNÂNI CARVALHO

Hernâni Carvalho nasceu em 1960. A sua formação é Psicologia mas a carreira que abraçou foi a de jornalista. Destacou-se, na RTP, pelas suas peças sobre as reportagens de guerra no Afeganistão, Bósnia, Gana, Honduras, Paquistão e Timor. Outras presenças na televisão (SIC e TVI) também fazem parte do seu percurso. Na imprensa escreveu no Correio da Manhã, no Independente, na Sábado e na TV Mais. Recentemente publicou o O Índice de Maldade.   Anteriormente já tinha publicado um romance (Azul Suai) e três livros de não-ficção (Madie 129, Terroristas e Morrer em Times Square).
____________________
1. O que é para si a felicidade absoluta?
R- Um dogma
2. Qual considera ser o seu maior feito? 
R- Sobreviver
3. Qual a sua maior extravagância? 
R- Um relógio
4.Que palavra ou frase mais utiliza? 
R- Vamos com calma
5. Qual o traço principal do seu carácter? 
R- Lealdade
6. O seu pior defeito? 
R- Não me esqueço!
7. Qual a sua maior mágoa?
R- Pagar impostos injustos
8. Qual o seu maior sonho? 
R-Não precisar de trabalhar 
9. Qual o dia mais feliz da sua vida? 
R-A minha Vida ainda não terminou…
10. Qual a sua máxima preferida? 
R- Olho por olho…
11. Onde (e como) gostaria de viver? 
R- No campo, sem ter de trabalhar
12. Qual a sua cor preferida? 
R- Azul
13. Qual a sua flor preferida? 
R- Lírios
14. O animal que mais simpatia lhe merece?
R- Coruja
15. Que compositores prefere? 
R- De Wagner a Tchaykovsky, de Emerson Lake & Palmer a Procol Harim, de a Elton John a Queen…
16. Pintores de eleição? 
R-Salvador Dali
17. Quais são os seus escritores favoritos? 
R- John Steinbeck
18. Quais os poetas da sua eleição? 
R- Não tenho
19. O que mais aprecia nos seus amigos? 
R- Amizade
20. Quais são os seus heróis? 
R- O meu pai, Bernardo de Claraval, Santo Condestável
21. Quais são os seus heróis predilectos na ficção?
R- Não tenho
22. Qual a sua personagem histórica favorita?
R- D. Diniz e D. João II
23. E qual é a sua personagem favorita na vida real? 
R- O meu pai
24. Que qualidade(s) mais aprecia num homem? 
R- Amizade
25. E numa mulher? 
R- Amizade
26. Que dom da natureza gostaria de possuir? 
R- Não tenho a pretensão de me igualar à Natureza
27. Qual é para si a maior virtude? 
R-  Lealdade
28. Como gostaria de morrer? 
R- Com um inopinado ataque de coração. Rápido!
29. Se pudesse escolher como regressar, quem gostaria de ser?
R- Não me apanham cá outra vez
30. Qual é o seu lema de vida? 
R- Quercus Robur Salus Patria
__________
Hernâni Carvalho na "Novos Livros" | ENTREVISTAS

Joana Bértholo | Ecologia

1-O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Ecologia»?
R- O livro mais recente é sempre o mais importante, porque representa um avanço em relação às investigações e aprendizagens conseguidas com os livros anteriores. Só podia ter escrito o «Ecologia» depois de «O Lago Avesso» e, de outra forma, depois do «Inventário do Pó». No entanto, sinto que, com este livro, volto ao início. Talvez, quem sabe, fechando assim um ciclo. Isso não sei ainda. O que é certo é que, com o «Ecologia», retomo a inquietação que me levou a escrever os «Diálogos para o Fim do Mundo», o meu primeiro romance, publicado na já longínqua década do ano de 2009. Já vivia com imensa perturbação o tema das alterações climáticas, nessa altura, e hoje, quase 10 anos depois, não só nada mudou, como me parece tudo pior. Em termos de consciência, e de negligência. Noutro dia, numa entrevista, dei por mim e dizer uma coisa que, ainda que surpreendente, me pareceu certa: o «Ecologia» é o livro que eu queria ter escrito em 2009 mas não era capaz. Levou-me 10 anos e tantos outros livros, mas algo se cumpre agora.

2-Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- Desde que me lembro que me inquietam estes fenómenos que normalmente agrupamos como aquecimento global. Além da ciência que quantifica (as espécies que se extinguem, as calotes glaciares que derretem, etc) interessam-me e fascinam-me os processos cognitivos, sociais, culturais, que levam indivíduos em tudo o resto sãos, a desligar-se do seu próprio entorno material, daquilo que lhes dá sustento, chão, casa. Uma neurose que, a meu ver, não está longe de um longo e silencioso suicídio colectivo.  Há uns anos, acompanhei a luta dos agricultores e activistas ambientais contra os grandes laboratórios (Monsanto, Du Pont, Syngenta, Bayer) que querem patentear as sementes agrícolas. Querem ser os donos de uma semente específica, que existe na terra há milhares de anos como património comum, que sempre foi grátis, e quem a queira usar tem de lhes pagar a eles para poder usar uma coisa que, milenarmente, é de todos. Já se vê que é daqui - deste absurdo - que nasce o «Ecologia». É a mesma lógica. O que também quer dizer que aquilo que acontece na minha distopia fantasista, já acontece no nosso mundo, é muitíssimo real. Além de tudo isto, sabia que tinha de falar de dinheiro. Nalgum momento das minhas leituras e reflexões, entendi que não há pensamento ecológico sem se encarar plenamente a questão da usura, da corrupção, do lucro. Todos os crimes ecológicos que possamos aqui debater giram em torno de interesses económicos. É o pináculo da nossa hierarquia de valores, e a própria terra vem depois, como recurso para gerar dinheiro, e não como lar, como casa, como mãe primordial. É absurdo. E é esta, para mim, a principal inversão da nossa sociedade (nisto) doente. E é de tudo isto que nasce o «Ecologia».

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Esperam-me alguns meses consagrados ao teatro. Vou começar agora os ensaios da minha primeira peça longa, o «Quarto Minguante», que estará em cena no Teatro Nacional D. Maria II em Novembro e Dezembro deste ano, com encenação de Álvaro Correia. Logo a seguir, já tenho uns quantos convites para escrever outras peças, e vou estar dedicada a isso. Não imagino que haverá outro romance em breve, por muitos motivos, sendo que o principal é eu ser uma escritora "lenta". Levo muito tempo em leituras e investigações. É o que já ando a fazer. Mas, como disse antes, alguma coisa se fecha com o «Ecologia», e eu não sei bem o quê. Agora é tempo de esperar e escutar, até perceber o que me compete fazer neste depois. 
__________
Joana Bértholo
Ecologia
Editorial Caminho  23,90€

Joana Bértholo na "Novos Livros" | Entrevistas

Eduardo Cintra Torres | Televisão do Século XXI

1-Durante anos, dissemos que a televisão era a caixa que tinha mudado o mundo. E hoje?
R-Foi a caixa que mudou o mundo, em quase tudo para melhor. Mas a Revolução Digital pôs em causa essa primazia. A diversificação de meios e de fontes é positiva.

2-Do seu ponto de vista, o que é a televisão do século XXI?
R-É um dos mais importantes media, o mais importante em muitas partes do mundo, embora menos nos países mais desenvolvidos. Tem uma linguagem própria e conteúdos próprios, que se libertaram dos constrangimentos técnicos (o televisor) e em parte dominam nos outros media. Muito do que se vê na Internet (que não é um media, é um meio técnico de produção e disseminação) foi pensado e produzido como conteúdos em linguagem televisiva e de acordo com os padrões anteriores dos conteúdos televisivos. Por isso costumo dizer que as pessoas que dizem que não vêem televisão, sim, vêem televisão por outros meios. Não vêem no televisor. E não só conteúdos feitos como televisão, também conteúdos de televisão mostrados em parte ou no todo noutros meios de informação e comunicação disponíveis na Internet. A luz intensa das novidades tende a obscurecer as permanências. No caso, verifica-se que a importância da televisão ainda é transversal. Diminuiu a importância das instâncias institucionais da televisão, as empresas e canais. Por exemplo, a RTP perdeu nove décimos da sua audiência em 25 anos; os beneficiários, TVI e SIC, estão a perdê-la agora, não só para o cabo, que também é TV, mas para outros e diversificados meios.

3-De certa forma, poderemos dizer que somos nós (os nossos novos hábitos e novos comportamentos) que estamos a mudar a televisão e a criar , como refere no livro, "as televisões”?
R-Sim. Os espectadores e consumidores, sendo-lhes dada a diversificação, tomam opções que alteram o panorama audiovisual. Dentro de pouco tempo (um, dois, três anos?), o poder político será confrontado com o que fazer com a RTP, por exemplo. Se o tivesse feito há doze anos ou há sete anos, como eu e outros propusemos, teria o problema resolvido. Mas o afã de controlar e de impor modelos à RTP (que esta tem apreciado) levaram à sua menorização por escolha dos espectadores.Nos operadores generalistas sabem qual é o seu destino: a irrelevância ou quase. Mas, dado que a actividade ainda é lucrativa, vão-na continuando, da mesma forma que os comboios a vapor continuaram enquanto não se alargasse a rede ferroviária eléctrica. Vão tendo de adaptar os conteúdos ao público disponível, e isso significa quase sempre afastar ainda mais os que se iam afastando dela. Procuram alargar o seu alcance através do cabo e da Internet, o que é um paliativo no que toca ao carácter dos conteúdos. A “televisão”, enquanto sinónimo de TV generalista, foi substituída, ainda sem a matar, pelas “televisões”, incluindo os conteúdos, alguns excelentes, feitos fora do enquadramento das generalistas e mesmo das de cabo. Não é que eu deseje a morte da generalista ou até das televisões, como não se deseja a morte de um parente. É apenas aceitar a realidade. O comboio a vapor é uma curiosa e nostálgica maravilha, mas só às vezes.
__________
Eduardo Cintra Torres
Televisão do Século XXI
Universidade Católica Portuguesa. 5€

Jorge Remondes | Marketing Highlights. O Presente e o Futuro

1 - Qual a ideia que esteve na origem deste livro “Marketing Highlights”?
R - A ideia deste novo livro de marketing em Portugal foi abordar não todas, mas 10 das áreas de aplicação do marketing mais relevantes no presente e com uma tendência crescente de importância no futuro. Tal ideia só poderia ser concretizada se desenvolvida com a colaboração de vários especialistas em cada uma das áreas, a saber, Ana Canavarro (Marketing de Retalho), António Paraíso (Marketing de Luxo), Carolina Afonso (Marketing Verde), Danuta Kondek (Marketing de Exportação), Isabel Marques (Marketing Turístico), Jorge Lopes (Marketing Cultural), Jorge Remondes (Marketing Interno), Leonor Reis (Marketing Pessoal), Paulo Madeira (Marketing Ético) e Sandra Alvarez (Marketing Digital).

2 - Como este livro comprova, o Marketing está mesmo a chegar a todas as áreas da actividade humana e das organizações. Mas, será que consegue manter um perfil ético de actuação?
R - O facto do marketing chegar a todas as áreas e organizações é uma evidência da sua importância para a gestão e profissionais. Por isso, só poderá e deverá ser ético.

3 - Que pistas lança este livro para o marketing do futuro?
R - Em cada uma das 10 áreas analisadas foram identificadas implicações para o futuro. Aqui seria demasiado extenso e moroso explanar todas as pistas, mas destaco o facto de o digital ser uma variável comum a todas as áreas de aplicação do marketing assim como a necessidade de olharmos para mercados cada vez mais vastos, sempre com uma estratégia de segmentação, branding e posicionamento adequada.
__________
Jorge Remondes (org.)
Marketing Highlights. O Presente e o Futuro
Chiado  17€

Teolinda Gersão: "Histórias de Ver e Andar" (2002)


É um impressionante fresco da actual sociedade portuguesa, este Histórias de Ver e Andar, o primeiro livro de contos que Teolinda Gersão escreve em duas décadas de vida literária. São catorze pequenas histórias, muito diferentes entre si, mas que se conjugam como retalhos impressionantes de um país em mudança.
Com uma fina ironia – e, sobretudo, com uma enorme acutilância –, a autora traça retratos fiéis dos portugueses: o executivo egoísta preocupado com a sua segurança; a velha senhora que engana a solidão a passear de eléctrico, ou as jovens colegiais arquitectando um plano para matar uma colega só para aparecerem na televisão e ficarem famosas são exemplos marcantes.
Depois de belos romances como Paisagem com Mulher e Mar ao Fundo (1982), Os Guarda-Chuvas Cintilantes (1984), O Cavalo de Sol (1989), A Casa da Cabeça de Cavalo (1995), A Árvore das Palavras (1997) ou Os Teclados (1999) – alguns deles distinguidos com vários prémios literários – Teolinda Gersão estreia-se no conto. De forma excelente.
_______________
Novos Livros - Quando, em Março de 2000, publicou «Os Anjos», já estava a escrever um livro de contos. É este?
Teolinda Gersão - Sim, este é o livro de contos que eu já estava a escrever em Março de 2000.
P – Em mais de duas décadas de vida literária, porquê só agora o primeiro livro de contos?
R – Só agora surgiu este livro porque me sinto muito vocacionada para escrever romances, que foi o que tive vontade de fazer até agora. No romance há tempo e espaço para desenvolver personagens e conflitos, criar ambientes, fazer a acção passar de uma situação a outra. Tudo isso me fascina, porque penso que tenho o sentido do espaço e da dinâmica das coisas. O romance é ‘musical’, como uma sinfonia (a minha ligação com a música é funda e antiga e surge tematizada na ficção por exemplo em «Os Teclados»). O conto é um mundo diferente, que requer outro modo de contar.
P – Referiu várias vezes que escrever contos é difícil. Em que reside essa dificuldade, para uma escritora habituada ao grande fôlego do romance?
R – A dificuldade do conto é antes de tudo a condensação. Não é fácil conseguir dizer muito em poucas páginas. Não pode haver divagações, deslizes ou erros. O conto tem uma dinâmica própria, que se aproxima muito de um instrumento de precisão.
P – «Histórias de Ver e Andar», título escolhido para o seu livro de contos, foi o nome dado pelos árabes às narrativas de viagem. Porquê este título num livro tão marcadamente português e actual?
R – É verdade que os temas são absolutamente actuais neste livro. O título fui buscá-lo a outra época, mas isso não invalida a actualidade do livro. Usei o título porque ele me agradou. Na verdade são histórias que me surgiram ao ver (a vida de todos os dias) e ao andar (deambulando por aí).
P – Qualquer dos 14 contos de «Histórias de Ver e Andar» é um quadro exemplar da sociedade portuguesa actual. Foi essa a intenção? O livro é assumido, também, como uma crónica de costumes?
R – Penso que sim, o livro é também uma crónica de costumes, um retrato da nossa sociedade, hoje.
P – «Big Brother Isn’t Watching You» reflecte uma sociedade totalmente alienada pela televisão, pelo desejo de aparecer na imagem. É uma situação que a preocupa?
R – Preocupa-me que tudo se transforme em espectáculo, que predomine o ‘vale tudo’, e que haja uma total ausência de valores.
P – «O Leitor» é a história de um homem apaixonado pela leitura. Acha que ainda há pessoas com esse intenso prazer?
R – Acho que ainda existem, e regozijo-me com isso.
P – Qual é o seu conto preferido? Porquê?
R – Não tenho um conto preferido. Mas interessou-me bastante por exemplo o conto «Noctário», porque é contado através de sonhos. Quando eu era muito jovem, e antes de ter alguma vez lido Freud, já os sonhos me fascinavam. Sempre me pareceram literatura em estado puro.
P – A sua produção literária aumentou consideravelmente desde que se reformou do ensino. A disponibilidade adquirida foi importante para esse salto?
R – Claro! Enquanto dei aulas na Universidade por vezes só escrevia no Verão e demorava cinco ou seis anos a terminar um livro.
P – Não sente a falta do contacto com as gerações mais novas proporcionado pela docência?
R – Sinto, e por isso hesitei muito em deixar o ensino. Até porque sempre tive uma óptima relação com os alunos e gostei de dar aulas. Tive, aliás, um número enorme de alunos excelentes, que hoje estão a fazer coisas extremamente interessantes e são figuras conhecidas. Conviver com eles foi para mim muito estimulante.
P – O que está a escrever agora? Vai voltar aos contos ou regressa ao romance?
R -Tenho um romance esboçado, e mais uma série de contos na cabeça.
P – E teatro, vai voltar a escrever?
R – Depois da adaptação de «Os Teclados» para teatro, tive a óptima surpresa de o grupo de teatro O Bando decidir encenar «Os Anjos», em 2003.
P – Que género gostaria de explorar e ainda não teve oportunidade? Já referiu a escrita para televisão: para quando a incursão nesse domínio?
R – Para televisão há um projecto de ser feito um vídeo com o espectáculo de «Os Teclados» que o Jorge Listopad encenou no Centro Cultural de Belém.
P – Tem algum projecto nessa área? O que gostaria de fazer?
R – Gostaria, além disso, de escrever para cinema.
P – Para quando o próximo livro?
R – Não faço planos nem marco datas. Os livros decidem quando estão prontos, não mando neles nem sou eu que decido quando o processo termina.
__________
Teolinda Gersão
Histórias de Ver e Andar
(Entrevista de Elsa Andrade publicada na "Novos Livros" em Dezembro de 2002)

Desde 2001, uma revista de leitores para leitores

Em Julho de 2001, é colocado online o nosso número 1.

A partir de agora, vamos começar a publicar entrevistas que não estão disponíveis mas que nos parecem merecer ser recordadas.