Sandro William Junqueira | Quando as Girafas Baixam o Pescoço

1-O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Quando as Girafas Baixam o Pescoço»?
R- Aqui não há heróis nem vidas extraordinárias. É um livro de gente banal que habita um edifício de paredes finas e vive à beira do abismo. São vidas que por circunstâncias diferentes encontram-se suspensas, num intervalo, numa pausa que contraria a voragem e a velocidade do mundo moderno; quase como se tivessem descoberto um erro no sistema: e que por isso foram obrigadas a parar, a ficar em suspensão, presas num intervalo; e com tempo para mergulhar no lado avesso, nas profundezas do ser, sofrem as investidas dos fantasmas, das perguntas, do enigma e da permanente insatisfação. Apesar de apresentar elementos de estranheza e temáticas já exploradas nos romances anteriores, este livro apresenta-se menos distópico. Mais urbano e próximo de uma realidade facilmente identificável.

2-Qua a ideia que esteve na origem deste livro?
R- Não terá sido apenas e só uma ideia, mas um acumular de experiências e observações. Sempre vivi em cidades e habitei uma boa dezena de apartamentos diferentes. Por isso aprendi a viver com gente por cima, em baixo, dos lados, sem que existisse qualquer género de comunicação ou proximidade. E isto é um problema do mundo moderno: apesar de sermos cada vez mais em termos de número e vivermos cada vez mais próximos uns dos outros em termos de centímetros vivemos cada vez mais isolados. Numa solidão que faz muito barulho. Numa solidão que grita.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Tenho terminado um novo livro infantojuvenil que julgo será publicado no primeiro semestre de 2018 e estou a trabalhar num novo romance.
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Sandro William Junqueira
Quando as Girafas Baixam o Pescoço
Editorial Caminho   14,90€
1-De que trata este seu livro «STOP-As 50 Estratégias para Mulheres sem Tempo»?
R- Trata-se de um guia para que pessoas com estilos de vida diversos e formas de pensar e agir diferentes, consigam utilizar soluções práticas para problemas do dia a dia, que tocam áreas importantes da vida das pessoas, que nem sempre são fáceis e podem tornar-se enormes ladrões de tempo.

2-Numa época como a nossa, um livro dirigido especialmente a mulheres poderá ser redutor: não andamos todos (homens e mulheres) a lutar contra a falta de tempo?
R- Homens e mulheres debatem-se com uma “sensação” de falta de tempo. Passamos o tempo a fazer cada vez mais coisas, mais depressa e esquecemo-nos de questões básicas como descansar, manter um estilo de vida saudável e reduzir o que se faz em quantidade (menos atividades) ou duração (faço uma caminhada de 10m em vez de 30m ou 45m). Pela minha experiência e de acordo com um estudo que realizei em 2017 sobre formas de as pessoas se organizarem e simplificarem a sua vida, a resposta que reuniu mais consenso foi: “as mulheres têm que trabalhar mais para mostrarem o que valem”. Quer por este resultado, quer pela minha experiência em mais de 100 empresas e com o contacto direto com pelo menos 2500 pessoas, o contexto de trabalho na maior parte das organizações e empresas em particular, não cria condições de igualdade de oportunidades para as mulheres. Por isso, do meu ponto de vista, o que é redutor é tratar realidades diferentes como sendo iguais. Há muitas semelhanças, mas há especificidades que justificam e requerem um livro que seja dedicado às mulheres.

3-Se tivesse que escolher apenas 3 estratégias, quais seriam as mais importantes?
R- Simplifique e faça o essencial. Pratique o toma lá dá cá. Durma e descontraia.
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Ana Tapia
STOP-As 50 Estratégias para Mulheres Sem Tempo
Esfera dos Livros  16€

Aida Chamiça | Break Heaven


1-De que trata este seu livro «Break Heaven»?
R- Trata-se de uma viagem de transformação equivalente à que acontece numa sessão de coaching executivo. Uma viagem em que o leitor contacta com o melhor de si, ativa o seu potencial e se vai transformando enquanto lê. A ambição do Break Heaven é em si mesma, transcender os paradigmas de leitura conhecidos e viver uma experiência nova, em que o protagonista é o leitor e o resultado da leitura, um grande sorriso, uma auto-confiança renovada e uma vontade imensa de ascender ao nível seguinte. Este não é um livro de auto-ajuda. É um livro de gestão. Gestão de si. Baseado em 15 anos de experiência a ativar o potencial de executivos de alta gestão, a estudar muito e anualmente nas melhores escolas e centros de formação do mundo nestas matérias, numa sabedoria que integra a informação académica, a investigação que outros fizeram, com a experiência prática de apoiar gestores de topo na superação de obstáculos para alcançar resultados. Uma experiência que promete transformar a leitura numa poderosa ferramenta de conhecimento que irá mudar para sempre a forma de gerir e liderar. Porque somos todos do tamanho dos nossos sonhos, o nosso cérebro responde às realidades que criamos e em que acreditamos. Os gestores de topo e líderes que fizeram programas de coaching executivo comigo tiveram oportunidade de ascender a muitos níveis seguintes.

2-Sendo um guia prático, de que forma pode ajudar os leitores a (como diz) «ascender ao seu próximo nível»?
R- Cada capítulo, para além do conteúdo central, tem um conjunto de secções: Conteúdo em que partilho os conhecimentos que tenho vindo a adquirir com base na minha formação e experiência profissional; Histórias inspiradas na minha atividade profissional, em que partilho o desafio inicial do cliente em coaching  executivo  e  a  forma  como  superou  a  adversidade  ou ativou  o  potencial para  alcançar  com  sucesso  as  suas  metas; Propostas de exercícios práticos de autoconhecimento e reflexão que permitirão identificar as áreas que precisa de desenvolver.  A tomada de consciência desencadeia por si só uma espécie de autorregulação do sistema que se torna ainda mais intensa quando desencadeia decisões estruturantes ou um plano de ação de implementação imediata. Contos ou histórias que ilustram de forma metafórica o conteúdo explícito, nos conectam com o pensamento mágico e o inconsciente e geram emoções e insights com um imenso poder transformador. Pode ler-se este livro sem tirar partido da sua componente de  aplicação  imediata ou  desafiar-se  a  começar  desde logo uma  viagem  de  transformação.

3-De tanto e em tantas ocasiões se falar de coaching, a palavra parece ter muitos significados: qual o âmbito em que é desenvolvido neste seu guia prático?
R-Este não é um livro sobre coaching. É um livro em que as histórias de coaching executivo que partilho, têm o propósito de ilustrar o conteúdo e inspirar o leitor. O contexto é aquele que conheço melhor: os desafios mais comuns para executivos, líderes e gestores de topo. O conceito de coaching que adoto é o da Federação Internacional de Coaching (ICF) que conta com, aproximadamente 30 mil membros em 140 países.
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Aida Chamiça
Break Heaven-Um livro para executivos que querem ascender ao seu próximo nível
RH Editora  18,50€

Cláudia Ninhos | Portugal e os Nazis

1-De que trata este seu livro «Portugal e os Nazis»?
R- O livro procura analisar as política cultural nazi em Portugal através de fontes alemãs. Embora o período sobre o qual me debruço corresponda aos anos em que o regime Nacional-Socialista esteve no poder, foi necessário recuar no tempo para compreender as continuidades e rupturas. Centramo-nos nos inúmeros intercâmbios promovidos pela Legação Alemã, pelo Grémio Luso-Alemão, pelas organizações nazis, em especial a Juventude Hitleriana, mas também pelos Institutos Portugueses criados no Reich e pelo Instituto Ibero-Americano de Berlim. Optámos por alargar o âmbito do estudo das relações luso-alemãs a um aspecto pouco estudado pelos investigadores, que é a diplomacia de cariz cultural e científico, campos que são, muitas vezes, incorrectamente entendidos como apolíticos. Como procuraremos demonstrar, a política cultural alemã em Portugal respondeu sempre a objectivos de natureza política e económica.

2-A investigação que desenvolveu revelou-lhe dados novos sobre este período da história de Portugal e da Europa?
R- Sim, a consulta da documentação do Arquivo Político do Ministério dos Negócios Estrangeiros Alemão permitiu-nos aceder a fontes primárias importantíssimas para compreender as relações luso-alemãs durante este período, que depois confrontei com fontes inglesas e portuguesas. A correspondência diplomática prova que a política cultural foi o instrumento privilegiado para promover a compreensão pela Alemanha e pelo novo regime, nomeadamente à medida que a sua política externa se radicalizava. Os diplomatas e as instituições alemãs procuravam criar um clima de simpatia e boa vontade face ao III Reich e às suas reivindicações através de filmes, revistas, exposições, digressões de orquestras e grupos de teatro, fomentando o ensino do alemão e o intercâmbio académico. Todas estas actividades promovidas, a par das visitas ao Reich, das conferências, do intercâmbio juvenil e académico, visavam promover a imagem do regime nacional-socialista junto das elites portuguesas e, por intermédio delas, influenciar a própria orientação diplomática do governo de Salazar e afastar Portugal da omnipresente «Aliança Inglesa», isto é, da forte influência económica inglesa, colocando o país sob a órbita alemã.

3-A neutralidade portuguesa (propalada pelo regime de António Salazar) foi a realidade ou uma construção?
R- A neutralidade foi uma construção, que resultou do esforço intransigente de Salazar em manter o país afastado do palco bélico, mas que beneficiou, e muito, da sorte. O ditador encarava a neutralidade como um campo que lhe permitia negociar com os dois lados e foi tentando contornar os obstáculos e resistir às pressões a que era sujeito. Tratou-se uma "neutralidade colaborante" quer com a Inglaterra, quer com a Alemanha Nazi. Salazar sempre desejou uma paz sem vencedores, nem vencidos, que se pautasse pela manutenção do status quo do período pré-guerra.
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Cláudia Ninhos
Portugal e os Nazis
Esfera dos Livros  15,90€

Hernâni Carvalho | O Índice da Maldade

     (Foto: Neusa Ayres)

1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu livro «O Índice da Maldade»?
R-A encomenda foi da SIC e da Editora Guerra e Paz. Pediram-me que escrevesse acerca dos temas que abordo diariamente no programa das manhãs da SIC. Em boa verdade, muito do que ali abordamos passa pela Maldade. Esta é provavelmente a característica humana menos conhecida. A Maldade inclui em si a delícia e o prazer da observação e participação no sofrimento e/ou na morte do outro. E portanto, numa abordagem diferente, procurei descrever factos, sem rodeios e sem pretensões. Como, porquê e de que forma é que a Maldade caminha e opera no cérebro de alguns, foi o que pretendi explicar no livro, de forma simples e acessível. Usar a Escala do Dr Michael Stone ajudou muito a sistematizar e a enquadrar a apresentação dos casos portugueses.

2-Será que estamos a deixar de ser o tal «país de brandos costumes»?
R-Talvez. Portugal ainda é um país seguro. As forças de segurança têm um contingente mais do que suficiente, mas muito mal distribuído, com funções espúrias e politicamente muito mal comandando. Não há maus exércitos, há maus generais…

3-De todos os casos investigados que aborda no livro, quais o que mais o impressionaram ou surpreenderam?
R-Todos os casos que envolvem crianças de tenra idade nos tocam. Mas saber que o Violador de Telheiras, já depois de preso, enviou notas de 20 euros às suas vítimas é preocupante. Mesmo depois de presos, os agressores têm acesso total aos dados e à vida das suas vítimas. Preocupante.
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Hernâni Carvalho
O Índice da Maldade
Guerra e Paz  15,50€

Luís Miguel Rosa | Nova Arte de Conceitos


1-O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Nova Arte de Conceitos»?
R- Sendo este o meu primeiro livro de ficção em prosa, é prematuro falar dele no contexto de uma obra ainda por fazer. Posso explicar o que significa para mim neste ponto concreto da minha vida. Esta publicação alentou-me a respeito do futuro. Em 2013 comecei a escrever um romance que, quando o terminei em 2015, enviei para várias editoras, recebendo ora recusas ora silêncio. Sem desânimo, comecei outro livro, este agora publicado, e enviei-o para editoras aí em princípios de 2016. Mais recusas, mais silêncio. Já andava embrenhado em pesquisa para o terceiro e o quarto quando Carlos Alberto Machado, da Companhia das Ilhas, entrou em contacto comigo para publicar Nova Arte de Conceitos. O apreço dele fortaleceu-me a auto-estima; pensei que afinal não estava a escrever para o vácuo, que a minha escrita pudesse interessar aos outros. Esta é uma dúvida que me assombra: o que escrevo interessa a alguém? O processo de publicação deste livro também me ensinou lições valiosas. Antes de mais, descobri a importância da paciência. O Carlos respondeu-me em Maio de 2016 e só em Setembro passado é que o livro saiu, quase um ano e meio depois; e ainda bem que demorou tanto, porque no entrementes andei a corrigi-lo e a revê-lo várias vezes, até quase à semana anterior ao livro ir para a prensa. Acabei com um livro bem melhor do que aquele que enviei para as editoras, e é isso que quero acima de tudo: criar o melhor livro possível de acordo com as minhas capacidades. Aprendi que não vale a pena haver pressa em publicar; no meu caso, pelo menos, isso vai de encontro ao meu objectivo, que é ir ao encontro da perfeição possível. Descobri ainda a utilidade de escutar um editor. O Carlos fez-me várias observações e recomendações com o fito de melhorar o livro; ponderei-as e concordei com algumas delas. Quando escrevo, escrevo só para mim, fazendo de mim próprio a medida das coisas; quanto a isso sou muito protagoriano. Depois, claro, fico curioso por saber o que os outros pensarão do livro. O Carlos apontou-me aspectos que lhe pareceram problemáticos; isso deu-me oportunidade de os reconsiderar de uma nova perspectiva, e concluí que em alguns casos tinha razão. Logo fiz certas mudanças que, no seu todo, tornaram o livro mais bem estruturado, mais elegante, sem com isso lhe trair o espírito inicial. Foram, portanto, essas as lições que colhi desta experiência: ter paciência e lidar com críticas construtivas.

2-Qual a ideia que esteve na origem deste livro de contos?
R- Escrevi-o para ser deleitoso: os contos são eclécticos e cómicos, indo do realismo à fantasia, da actualidade ao século XII, de Lisboa à Ilha dos Amores, e lidando com as questões perenes da literatura: amor, poder, ambição, fracasso. Nada une os ingredientes desta mixórdia salvo o gozo que tive em manipular a língua portuguesa para lhes dar forma e flama, o que sobressai em cada linha. O que é  me levou a enveredar por um livro de contos? Agora envergonho-me de o admitir, mas foi sobretudo falta de ambição e um certo desdém pelo conto como um género fácil, menor e despachado. Em 2015, quando terminei o meu primeiro romance, descobri com pavor que este tinha mais de 310 000 palavras. Os Maias, para efeitos de comparação, tem cerca de 210 000. Eu era, portanto, um noviço sem nome, sem público, sem créditos, sem cunhas, pensando mesmo que ia publicar um calhamaço que deverá dar umas 700 ou 800 páginas num país onde só publicam tais beemotes autores consagradíssimos como António Lobo Antunes, Maria Teresa Horta e Mário Cláudio. Pode calcular o quão bem a experiência correu quando o enviei para as editoras. É um facto que os romances portugueses, de Herculano aos nossos dias, e sobretudo as obras marcantes da sua história, foram curtos: Viagens na Minha Terra, Confissão de Lúcio, Húmus, Nome de Guerra, Esteiros e Gaibéus, Rumor Branco, O Delfim, são romances que mal chegam às 200 páginas. Sempre achei isso curioso, porque em outros países tendem a ser livros longos a iniciar ou a definir uma época: Gargântua e Pantagruel, Dom Quixote, Tom Jones, Crime e Castigo, Guerra e Paz, Em Busca do Tempo Perdido, Ulisses, The Recognitons, Grande Sertão: Veredas, The Sot-Weed Factor, La Saga/Fuga de J.B, Gravity’s Rainbow, etc. Não sei o porquê; só sabia na altura que eu era um zé-ninguém com um livro impublicável perante os padrões há muito vigentes no nosso meio literário. Assim virei-me para o conto; pensei que dava para despachar uma mancheia deles em poucos meses. Acreditava que, a um dia publicar este romance, só o faria depois de ter obra feita e um nome conhecido na praça pública, e mais valia trabalhar para isso o quanto antes. Conhece aquela citação de Lobo Antunes? “A mim enviam-me muitos manuscritos para que dê a minha opinião, e fico surpreendido porque estes jovens querem ser lidos na segunda-feira, ser publicados na terça, ter um êxito extraordinário na quarta e ser traduzidos em todo o mundo na quinta. Não são escritores porque têm um apetite de êxito imediato e essa atitude impede-os de crescer literariamente.” Eu fui esse cretino. Foi por isso que iniciei Nova Arte de Conceitos por volta de Maio de 2015 e aí em Janeiro de 2016 já o andava a prostituir junto das editoras. De início concebi o livro em parte como uma obra mais curta e menos assustadora para um editor. Felizmente, o Carlos disse-me que não o podia publicar de imediato, presumo que por causa de outros compromissos e as dificuldades inerentes a gerir uma pequena editora; e isso foi um bálsamo, porque aproveitei essa demora para acrisolar o livro. Aliás, quando ele me contactou eu já estava a meio de um novo rascunho. A verdade é que, embora eu tenha um certo desejo de ser acessível, a minha mente revolta-se contra mim se eu insisto nisso por muito tempo. A minha estética pende para o excesso, o exagero, a extravaância. Quando mostrei uns capítulos do meu romance a conhecidos, vários me disseram que eu era barroco. Como a palavra “barroco” suscitava associações muito vagas na minha mente, pus-me a estudar o nosso século XVII e os seus escritores para ver o que podia extrair deles que enriquecesse o meu próprio processo. Quando li Corte na Aldeia, de Francisco Rodrigues Lobo, encontrei a estrutura que me faltava ao livro. Há um capítulo maravilhoso em Corte na Aldeia onde os personagens discutem retórica, ou melhor, condenam a retórica barroca, e o que condenam é exactamente aquilo que eu já realizara em alguns contos. Então decidi usar citações como epígrafes de cada conto, num jogo de ponto e contraponto. Se ele condena o uso de arcaísmos, então dou-lhe um conto cheio de palavras desusadas; se condena o uso de estrangeirismos, então dou-lhe um conto cheio de brasileirismos, especialmente derivados do Tupi. E quando ele se queixa dos “mancebos” que fazem “na prosa acentos de música ou medidas de poesia,” tive por bem dar-lhe um conto todo escrito em prosa rimada. Recentemente tive a maravilha de descobrir que D. Francisco Manuel de Melo se antecipara a muitos dos meus jogos numa obra-prima negligenciada intitulada A Feira dos Anexins. Rodrigues Lobo, por quem tenho muita estima, deu-me um inimigo em quem eu me pudesse focar; o meu livro foi de ser um mero aglomerado de contos a ter uma coerência interna de capa a capa graças a ele. Também gosto de pensar que é uma espécie de homenagem ao Barroco português, sempre tão desprezado e incompreendido entre nós. O título do livro vem de um tratado de retórica do século XVIII de Francisco Leitão Ferreira, o qual não é reeditado desde 1722. Por incrível sincronicidade, dias depois do lançamento do meu livro descobri que o Nova Arte de Conceitos de Leitão Ferreira vai ser finalmente reeditado na colecção “Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa” da Círculo de Leitores. Apraz-me saber que em breve, quando o quiser folhear, não terei de ir à sala de microfilmes da Biblioteca Nacional. Dá-me esperança que um dia até A Feira dos Anexins esteja ao alcance de todos e não apenas de ratos de alfarrabistas como eu. De certo modo, Nova Arte de Conceitos, nascido sob a égide da simplicidade e da preguiça, acabou por me exigir tanto quanto o romance, e se calhar tornou-se um livro mais desafiante do que este.

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Fora da ficção, ando a ver se encontro casa para uma tradução do romance de um escritor americano que adoro: Three Wogs, de Alexander Theroux. Ademais, entretenho-me amiúde com ensaios literários. Mas a ficção fascina-me mais do que o resto. Quanto a ela, bem, antes de Nova Arte de Conceitos já contemplava um segundo romance; este seria do género histórico, passado no século XVII; começaria em Portugal e acabaria no Brasil, como as vidas de tantas pessoas desse século. Contudo, à medida que a pesquisa foi crescendo, percebi que este seria ainda mais longo e exigente do que o primeiro. Ademais, seria igualmente impublicável, e não vejo utilidade em ter dois livros impublicáveis terminados a acumular cotão digital num disco externo. Assim, vou trabalhando nele com vagar. De momento, ando mais ocupado com dois projectos em simultâneo: um é uma obra nascida do meu desejo de ir sempre além do que julgo ser capaz de realizar; é um livrito lipogramático de 100 páginas, cada página com um texto de 100 palavras, pelo que o livro terá 10 000 palavras. O desafio reside no facto de só usar palavras com a vogal A. Isto é mais claro se lhe mostrar um excerto: “Nata há nada, a malva Sandra, avalancha salgada, a aflar abalada, para a saga avança da racha nas ancas da mamã. Mamã ama-a. Mas, da mamã, zás, apartada. Vá lá, laça ar, lança ar! Batam nas nalgas! Zás-catrás! Ah, já brada, já arfa. Cá tás, cansada vassala da campa: nada dá para travar a valsa astral. Rapas cabalas, alastram as cãs, passa a chama, passas a pasta para anafar grama, dás a casca à Dama-da-Gadanha, a alma, às tantas, lá acampa na campa. Tragam dâmaras, sâmaras, tâmaras, câmaras pra captar a data! Papá, abra a garrafa da champanha. Papá ama-a.” A versão final será, decerto, diferente. Imaginei o projecto há anos, mas depois de tentativas sob a forma de poesia, aceitei que sou essencialmente um escritor de prosa narrativa. Além disso, percebi que num estágio anterior à escritura teria de fazer um levantamento lexical exaustivo, o que comecei a fazer há 2 anos e já vou para aí numas 2500 palavras. Agora, com lenteza, vou tentando extrair desse opressivo constrangimento clareza, enredo, sentido, personagens, humor, tragédia e acima de tudo beleza. É terrível: posso passar um dia inteiro à volta dum texto de 100 palavras. Mas quando corre bem, sinto-me feliz e justificado. Basicamente, isto é uma continuação dos constrangimentos que impus a mim próprio em Nova Arte de Conceitos; só que em vez de estar a escrever um conto inteiro cheio de neologismos, outro cheio de arcaísmos, outro de frases aliterantes, etc., decidi experimentar um lipograma. Era o próximo passo lógico. O outro projecto é mais normal, por assim dizer: é uma trilogia de novelas interligadas pelo tema da intolerância e do fanatismo ao longo da nossa história. Começo, portanto, no meu amado século XVII com um inquisidor, depois salto para a I República e acabo nos dias actuais com um terrorista islâmico. A escritura deste desenrola-se mais depressa, e é o que me tem consumido mais atenção. Também ajuda o facto de ser divertidíssimo ter um inquisidor a viver na minha cabeça há meses; o tipo é tão irresistível que não lhe consigo dizer não. O lipograma deixa-me exausto se trabalho nele durante mais do que 2 dias seguidos, e por isso uso este outro para recarregar as baterias antes de nova investida. É uma estafa, mas quem existe não desiste.
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Luís Miguel Rosa
Nova Arte de Conceitos
Companhia das Ilhas  14€

Sara Campos | Minuto Verde-Os Conselhos Ambientais da Quercus

1-Além deste interessante manual, qual o balanço que faz dos 10 anos do «Minuto Verde»?
R- Olhando para os mais de 10 anos de Minuto Verde (na verdade, a caminho dos 12), o balanço é muito positivo e gratificante. Em primeiro lugar, porque esta parceria entre a Quercus e a RTP é um caso raro, considerando que temos o privilégio de manter um espaço de antena desde 2006, todos os dias úteis, num canal generalista, e num horário/programa informativo que é visto por milhares de pessoas, tanto em Portugal como a nível internacional. Portanto, sempre tentámos fazer por merecer essa confiança e liberdade, apostando em conteúdos e temáticas que sirvam o propósito da educação ambiental, tendo sempre como linhas orientadores as principais áreas ambientais nas quais os cidadãos podem agir para reduzir a sua pegada ecológica e acompanhando a atualidade. De certo modo, o amadurecimento da rubrica Minuto Verde acompanhou a evolução dos temas ambientais na sociedade portuguesa ao longo destes 11 anos e foi também um reflexo do crescimento da própria Quercus no seu trabalho diário de defesa do ambiente. É com satisfação que continuamos a receber um bom feedback tanto por parte dos telespectadores, como de entidades que nos contactam numa perspectiva de parceria. O livro do Minuto Verde nasceu precisamente com o intuito de, por um lado, celebrar a longevidade e reconhecimento da rubrica e, por outro, de ser uma extensão da mesma, permitindo abranger mais pessoas.

2-Este livro da Quercus destina-se a que leitores: jovens, professores, activistas, cidadãos em geral?
R- Este livro destina-se ao público em geral, que tenha interesse em explorar os temas ambientais e agir no seu dia-a-dia para reduzir o impacte das suas escolhas no ambiente, no planeta. Esta foi sempre uma ideia muito clara desde a primeira reunião que tivemos com a Casa das Letras (Grupo LeYa): haver um paralelismo com a rubrica televisiva e respeitar a sua abrangência, de modo a ser o mais democrático possível. Por isso, a filosofia do livro é a mesma: combater a ideia de que as nossas ações individuais não  são suficientes para diferença, porque é exactamente o contrário. A construção de uma nova cultura ambiental, de uma sociedade ambientalmente consciente e sensibilizada começa pelas pequenas coisas que estão ao alcance de todos fazer ou mudar, muitas vezes com benefícios que extravasam o âmbito ambiental, mas que são também financeiros e ligados à melhoria da saúde e qualidade de vida. Este livro é, portanto, acessível a todos os públicos, nem é um livro técnico, nem é um livro infantil ou juvenil. Foi concebido para poder ser lido e percebido tanto por um adulto, como por um adolescente ou estudante; tanto por uma pessoa que já está mais sensibilizada ou que até pode ter algum conhecimento técnico em alguma área, como por alguém que só está a despertar agora para estas questões e não tem qualquer conhecimento específico sobre as mesmas. A seleção de temas, a linguagem utilizada, a dimensão dos textos, as frases destacadas e as ilustrações do livro foram pensados para encontrar esse ponto de equilíbrio, que torna o livro esteticamente atrativo e não muito pesado, mas sem deixar de fazer uma abordagem bem fundamentada dos conselhos transmitidos.

3-Como está organizado o livro: reproduz apenas os conteúdos do programa na RTP ou vai mais além?
R- O livro está organizado em 11 capítulos, cada um dedicado às principais áreas que são abordadas na rubrica Minuto Verde, tais como Energia, Água, Resíduos Mobilidade, Compras, Património Natural, Agricultura e Solos, Alterações Climáticas, entre outras. Dentro de cada capítulo, existem subcapítulos para facilitar a consulta do livro. No total são 200 conselhos, que foram selecionados com base no alinhamento da rubrica televisiva, mas que obviamente representam uma pequena amostra dos 3000 Minutos Verdes emitidos até hoje. Tentámos seleccionar as recomendações mais intemporais e que, a nosso ver, podem ser mais facilmente aplicadas na vida das pessoas. Foi, no entanto, necessário um intenso trabalho de pesquisa e revisão principalmente de dados estatísticos, fontes de informação e outras informação de suporte que foram evoluindo com o passar dos anos. Alguns temas, pela sua natureza, oferecem informação de caráter menos prático ou imediato, como é o caso das alterações climáticas, mas procurou-se ainda assim explicar de forma simples e recorrendo muito a números e cenários comparativos para que o leitor se sinta identificado com este e outros temas inevitáveis atualmente.
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Quercus
Minuto Verde-Os Conselhos Ambientais da Quercus
Casa das Letras  12,90€

Manuel S. Fonseca | Revolução Russa: Cronologia, Utopia e Crime

1-Como surgiu a ideia de escrever um livro sobre a Revolução de Outubro?
R- O factor essencial foi a comemoração dos 100 anos. Foi essa a primeira motivação do editor que sou. A motivação do autor, que também sou, foi a da percepção que hoje temos de que a Revolução de Outubro mudou completamente o mapa da Europa: a Rússia abandonou o seu processo de integração económica e política no espaço europeu, e a Revolução de Outubro é também responsável pela maior crispação social e política que dará origem na Alemanha à ascensão de Hitler e à II Guerra.

2-Na pesquisa realizada, identificou factos novos ou factos que agora ganham outro significado e importância?
R- O meu livro é confessadamente uma síntese do que os historiadores e as revelações que vieram da abertura dos arquivos soviéticos já disseram. A única vantagem que o meu livro apresenta é que é um livro de divulgação em português e que, nessa qualidade, é um livro que põe em causa a versão heróica que os comunistas continuaram a popularizar. No essencial, sublinho no meu livro que a Revolução de Outubro é um golpe de estado de um grupo minoritário e que é um golpe contra uma possível coligação de esquerda, eliminando os partidos de esquerda maioritários que visavam a criação de um sistema parlamentar e democrático.

3-Qual o papel que a Revolução de Outubro desempenhou na história do século XX europeu?
R – A Revolução de Outubro é, se quisermos, um Brexit avant la lettre. É o triunfo do populismo e forneceu a base a muita intelectualidade europeia para justificar, e pretensamente legitimar, as suas tendências antidemocráticas. No entanto, e como acontece a todos os populismos, milhões de seres humanos encontraram também na ideia de revolução comunista uma esperança de mudança e de realização de um mundo melhor. Dramático é que essas esperanças não tivessem substância e tenham sido amargamente defraudadas por um totalitarismo repressivo, um dos mais ferozes que a História guarda.
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Manuel S. Fonseca
Revolução Russa: Cronologia, Utopia e Crime
Guerra e Paz  27€

Magda Roma | O que Faz Bem e o que Faz Mal

1-De que trata este seu livro «O Que Faz Bem e o Que faz Mal»?
R- Este é um livro que, além de abordar os vários regimes alimentares que atualmente são mais discutidos, aborda ainda os alimentos de uma forma geral, os mais comuns nas casas dos portugueses e evidencia, através de estudos científicos e diretrizes de organizações idóneas, os benefícios ou malefícios para a nossa saúde. No penúltimo capitulo temos ainda informação sobre como equilibrar um prato, quais os alimentos a contemplar e as suas quantidades. Por fim, como tem vindo a ser habitual nas minhas publicações, apresento receitas saudáveis, saborosas e económicas.

2-Com tantas receitas milagrosas à venda, existe um risco enorme de confundir os consumidores: como pode o seu livro ajudar?
R- Nunca lancei um livro exclusivo de receitas, afinal de contas sou nutricionista e não cozinheira ou chefe. No entanto, por sentir que é necessário que os leitores entendam o porquê das minhas recomendações/receitas, o livro tem uma base cientifica comprovada de forma ao leitor seguir, caso assim o entenda, de forma confiante e informado.

3-A análise que fez de 7 regimes alimentares: existe uma solução universal e perfeita?
R- Na minha opinião, a mais saudável - respeitando o que a OMS e ONU recomendam - é a de base vegetal. Caberá a cada um decidir o que faz mais sentido para si. Se a pessoa entender comer carne porque gosta do sabor, está tudo certo, as decisões são individuais mas as consequências também o são no que respeita à nossa saúde. Mas, quando pensamos de forma UNA, ou seja, no bem estar de todos e do planeta, sem dúvida que a solução é a vegetariana estrita.
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Magda Roma
O Que Faz Bem e o Que faz Mal
Esfera dos Livros  14€

Novos Livros

Um problema técnico impediu-nos de estar online durante umas horas. Aos leitores, as nossas desculpas pelo sucedido. 

Cláudia Cruz Santos | Nenhuma Verdade se Escreve no Singular



1-«Nenhuma verdade se escreve no singular» é o seu primeiro romance: como espera olhar para ele daqui a 20 anos?
R-Espero, daqui a 20 anos, recordar este livro com carinho e pensar que correspondeu à concretização de um sonho. Um sonho que, estranhamente, só descobri que realmente tinha depois de se ter tornado realidade. É bom, a meio da vida, verificarmos que temos projectos novos e que há desafios que ainda nos entusiasmam.

2-Qual a ideia que esteve na origem desta obra?
R-Havia várias histórias que queria contar e que tinham como elemento comum envolverem pessoas que foram acusadas pela prática de crimes e que estão a ser julgadas. Queria procurar as pessoas que estão por trás das máscaras de arguido e de vítima afiveladas num julgamento penal, procurar a sua humanidade. E pensei que o elemento unificador podia estar na juíza, Amália, que vai ouvindo essas pessoas e que tem dúvidas sobre as respostas que encontra, quer no trabalho, quer na sua vida pessoal.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R-Comecei a escrever uma história muito diferente, cujo epicentro é um homem jovem e com uma vida confortável que a certo momento recebe um telefonema que muda o curso da sua existência. Quero tratar a questão das escolhas individuais e do acaso, indagando também o modo como vamos sendo cada vez mais determinados pelas coisas, pelos objectos que nos rodeiam e de que a cada dia dependemos mais, ainda que nem sempre de modo consciente. Mas estou longe do fim e a narrativa pode ainda evoluir de várias formas. Espero ainda ser surpreendida pela força da própria história.
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Cláudia Cruz Santos
Nenhuma Verdade se Escreve no Singular
Bertrand   16,60€

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