Diga não ao cruel comércio da morte.

| Homens do Mar

1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu livro «Homens do Mar»?
R- Depois da publicação de Grandes Batalhas Navais Portuguesas (2009/2013) e Grandes Naufrágios Portugueses (2013), a Esfera dos Livros desafiou-me a escrever sobre personalidades, Homens do Mar numa perspectiva alargada. 

2-O seu livro conta a história de 50 homens do mar desde o tempo de D. Afonso Henriques até à 1ª Grande Guerra Mundial: temos mesmo sido um país de marinheiros?
R- Dos 50 biografados há seis que se distinguiram depois do final da Grande Guerra (1914-1918), homens que viveram já na segunda metade do Século XX. Fomos efectivamente um país de marinheiros apesar de, a partir dos meados do Século XIX, termos deixado de ser uma potência marítima tornando-nos apenas num povo marítimo.

3-Ao escrever este livro, qual o homem do mar que se revelou mais surpreendente?
R- Julgo que a figura do Padre António Vieira nesta lista deve surpreender muita gente. Mas ele foi o estratega da Guerra da Restauração (1640-1668), nomeadamente quanto à necessidade do nosso reequipamento em navios (de comércio e de guerra). Também foi ele que planeou a retirada do monarca para o Brasil em caso de desastre militar na Península; depois de várias ameaças no reinados de D. João V e D. José I, esta acção viria a ser levada a cabo, em 1807 pelo Príncipe Regente, face à invasão de Portugal pelos exércitos napoleónicos.
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José António Rodrigues Pereira
Homens do Mar
Esfera dos Livros  23€

André Rodrigues | Números que Contam Histórias

Fotografia: FOTOLOOK
1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu livro «Números que Contam Histórias»?
R-O livro é, no fundo, a adaptação de uma parte dos mais de 400 episódios da rubrica “O Mundo em Três Dimensões”, que passa todos os dias na Renascença. O objetivo do programa é ajudar a compreender, em três minutos de rádio, os muitos números que fazem parte do nosso quotidiano. Esta ideia pode assustar à primeira vista, sobretudo aqueles que se acham um «zero à esquerda» em matéria de contas. Mas este não é um livro de matemática. É, essencialmente, um livro com factos e histórias curiosas, uma tentativa de prestar um serviço de cultura geral ao leitor.

2-Os números aparentam quase sempre rigor ou um esforço nesse sentido: mas, por vezes, os números podem mentir?
R-Os números não mentem, porque não merecem discussão. 2 + 2 = 4, ponto final. O problema são as pessoas e as intenções que se escondem atrás de um determinado resultado. Gostamos muito de dizer que as pessoas não são números. E, de facto não são. Mas precisamos dos números para nos organizarmos enquanto sociedade, para perceber quem somos, onde estamos e para onde é que o futuro nos leva. No fundo, precisamos deles para mitigar a nossa complexidade intrínseca de seres humanos. O problema está no risco da manipulação dos números. É aí que a intencionalidade interfere com a objetividade, procurando impor-nos uma determinada leitura dos factos. No limite, pode ser uma leitura enviesada da realidade, desde que sirva determinados objetivos. Sejam eles comerciais ou políticos. Num ano com três eleições, devemos estar particularmente atentos.

3-Dos números que apresenta no livro, qual o mais surpreendente?
R-É difícil identificar um número que seja o mais surpreendente de todos. Na verdade, sempre que me lanço à pesquisa para novos episódios, acabo por ser confrontado com elementos que me surpreendem: atualmente, o planeta tem aproximadamente 8.000 milhões de pessoas à volta do mundo. Todos os dias, em média, 19 milhões de pessoas celebram o seu dia de aniversário. A Rússia tem mais de 17 milhões de quilómetros quadrados, 11 fusos horários, faz fronteira com 14 países, da Noruega à Coreia do Norte. A Espanha tem mais cabeças de gado suíno (50 milhões) do que seres humanos (46,5 milhões). O Presidente da República português recebe um salário bruto inferior ao de qualquer estagiário de um dos gigantes tecnológicos de Silicon Valley, na Califórnia. Um simples par de calças de ganga que usamos diariamente consome 8.000 litros de água, desde o campo de algodão até aos acabamentos na fábrica. A União Europeia custa 0,48€ por dia aos contribuintes portugueses. E a lista de números surpreendentes podia continuar indefinidamente. Afinal, eles estão presentes em tudo.
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André Rodrigues
Números que Contam Histórias
Contraponto  15,50€

Paulo Drumond Braga | D. Filipa de Bragança

 
1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu livro «D. Filipa de Bragança»?
R-Em 2017 publiquei uma biografia de D. Duarte Nuno (1907-1976), duque de Bragança, e apercebi-me então da importância de uma de suas irmãs, a infanta D. Filipa (1905-1990). Mulher decidida, determinada, voluntariosa, empenhou-se na luta pela restauração da Monarquia e para isso aproximou-se de Salazar. Por isso considerei que seria interessante biografá-la.

2-Primeiro António Salazar e, depois, Marcelo Caetano: com o mesmo objectivo de restauração da monarquia, podemos dizer que a abordagem de D. Filipa de Bragança foi diferente?
R- D. Filipa visitava Salazar, escrevia-lhe e telefonava-lhe. Acreditou que se a Monarquia voltasse a Portugal seria pela mão do ditador. Com Marcelo Caetano tudo mudou: embora tenha escrito algumas cartas ao sucessor de Salazar, o contacto rapidamente cessou e D. Filipa passou a ver Marcelo Caetano como um traidor à obra de Salazar.

3-Na sua pesquisa, que factos novos (ou inesperados) encontrou e que podem conhecer melhor a história portuguesa do século XX?
R-Consegui sobretudo aperceber-me do papel desta mulher extraordinária junto do irmão, D. Duarte Nuno, dos monárquicos e de Salazar. Procurou que houvesse sempre união no campo monárquico e que nunca se pusesse em causa Salazar, pois considerou que só através do mesmo seria possível a restauração da monarquia. Tornou-se próxima do ditador e é possível que por ele tenha desenvolvido sentimentos que iam para além de uma grande amizade, os quais, muito provavelmente, não foram correspondidos.
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Paulo Drumond Braga
D. Filipa de Bragança: Lutar pela Restauração da Monarquia no Tempo e Salazar
Esfera dos Livros  20€

Jaime Bulhosa | Pedra de Afiar Livros

1-Qual a ideia que esteve na origem do livro «Pedra de Afiar Livros e Outras Histórias de um Livreiro»?
R- Este livro nasceu, em primeiro lugar, como bloco de notas de um livreiro. Onde eu ia registando pequenos episódios passados na livraria entre os livreiros e os clientes. Depois passou para o blogue da livraria Pó dos Livros e dez anos mais tarde tive a ideia de seleccionar os textos que de alguma maneira estivessem relacionados com os livros, a vida de um livreiro ou algo ligado aos livros e transformá-lo num livro. No entanto, o objectivo principal do livro sempre foi divulgar a leitura e ao mesmo tempo deixar um registo de memórias de uma profissão que parece, cada vez mais, estar em vias de extinção.

2-Em mais de 30 anos na profissão de livreiro, o que mais o surpreendeu no mundo dos livros?
R- O que mais me surpreendeu na profissão de livreiro foi verificar que os livros sempre foram e continuam a ser o bem de luxo para um pequeno número de pessoas. É claro que hoje se vendem mais livros do que há 30 anos. Porém, vendem-se em Portugal – e cada vez menos - um pouco mais de um livro por ano, por cada habitante. O que é muito pouco para um país que se deseja desenvolvido e com níveis de iliteracia baixos.

3-Começou a sua carreira em 1985. Pensando no futuro: consegue imaginar as livrarias em 2085?
R- Consigo imaginar o meu filho a passear, num dia de sol de primavera, no miradouro do Jardim de São Pedro de Alcântara, no ano de 2085. Com 91 anos de idade, cansado da caminhada, senta-se num banco de pedra que por ali ainda existem, para poder ganhar folgo e vislumbrar a cidade. O Castelo de São Jorge, a Sé de Lisboa e o casario contrastam com as águas ainda azuis do rio Tejo. Os lisboetas e os turistas gozam o fim-de-semana. A cidade está linda, como sempre. Muita gente nas ruas, nas esplanadas e nos jardins. Todos aproveitam a luz branca e brisa amena que vem do mar. O centro de Lisboa não mudou muito desde o ano de 2019. A minha neta (hipotética de cinquenta e cinco anos) está sentada ao lado dele. Aproveitando o descanso o meu filho tira do bolso do casaco um livro muito antigo. Abre-o e pega num postal que servia de marcador, também ele muito velho, com um carimbo datado do ano de 1985. Depois olha para o postal e suspira com a memória que a imagem lhe provoca. O postal mostra um jovem livreiro, à porta de uma livraria de onde se podia ler no letreiro as seguintes palavras: Livraria Bertrand, desde 1732. Uma pequena lágrima de saudade desce pela face enrugada. A minha neta ao vê-lo comovido, num impulso, pergunta-lhe: «Pai, e se fossemos visitar esse museu onde o avô trabalhou?» 
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Jaime Bulhosa
Pedra de Afiar Livros e Outras Histórias de um Livreiro
Oficina do Livro   14,40€

Leonor Xavier | Há Laranjeiras em Atenas

1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu livro «Há Laranjeiras em Atenas»?
R-O livro nasceu em Atenas, num dia de Maio, entre amigos. Eu nunca tinha estado na Grécia nessa altura do ano. Ia viajar pelo Peloponeso com amigas belgas. Passei dois dias em Atenas com amigos gregos. Descíamos as ruas de Kolonakis e eu exclamei: Ah, há laranjeiras em Atenas. Alguém disse: belo título. E assim ficou. A ideia foi sendo desenhada com a própria escrita. Começou pelo cenário balburdioso desse fim de tarde. E foi seguindo, sem linha pré determinada. A certa altura, senti que a narrativa é testemunho. Creio que escrever é dar testemunho. 

2-O que sentiu ao reler os papéis que ao longo dos anos foi guardando? 
R-Senti um certo espanto sobre o quanto que vivi e me apetecia contar. Há os papéis e os tempos passados, com os seus cenários e personagem. Há a memória, a partir de cada nome, de cada pessoa, de cada frase, de cada lugar. Como em teatro ou cinema, desfilam todas as impressões, a partir de um pormenor que ficou guardado num bocado de papel.

3-São muitos e variados os temas dos textos deste livro: consegue encontrar um fio condutor?
R-A certa altura, senti que a narrativa é testemunho. Creio que escrever é dar testemunho. Sou jornalista, sinto-me no dever de reportar o mundo que está à nossa volta. Pela palavra escrita, a cada dia cresço no meu entusiasmo pela língua portuguesa. Isso é um fio condutor. Surpreender os leitores, envolvê-los, seduzi-los, porque se escrever é bom, ler é melhor.
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Leonor Xavier
Há Laranjeiras em Atenas
Temas e Debates  16,60€
Leonor Xavier na "Novos Livros" | Entrevistas

Maria Judite de Carvalho: a flor discreta da literatura portuguesa | Obras Completas

Maria Judite de Carvalho (1921-1998) foi uma escritora portuguesa que está, hoje, um pouco esquecida mas que pode ser considerada uma das mais importantes da ficção portuguesa no século XX. Agustina Bessa-Luís considerou-a mesmo como a “flor discreta” da nossa literatura.A sua vasta obra, iniciada em 1959 com o livro de contos “Tanta Gente, Mariana”, inclui ainda novelas, crónicas, uma peça de teatro e um livro de poesia.
Maria Judite de Carvalho foi várias vezes galardoada, destacando-se: o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, o Prémio da Crítica da Associação Portuguesa de Críticos Literários, o Prémio P.E.N. Clube Português de Novelística e o Prémio Vergílio Ferreira.
Como jornalista escreveu no Diário de Lisboa, Diário Popular, Diário de Notícias e O Jornal.
A edição das Obras Completas está organizada em seis volumes dos quais já estão disponíveis os primeiros quatro:
-Volume 1 que inclui as duas primeiras coletâneas de contos: “Tanta Gente, Mariana” (1959) e “As Palavras Poupadas” (1961), obra que recebeu o Prémio Camilo Castelo Branco.
-Volume 2 que inclui duas coletâneas de contos “Paisagem sem Barcos” (1963) e “O seu Amor por Etel” (1967). E ainda uma novela: “Os Armários Vazios” (1966).
-Volume 3 que inclui as coletâneas de contos: “Flores ao Telefone” (1968), “Os Idólatras” (1969) e “Tempo de Mercês” (1973).
-Volume 4 que inclui dois livros de crónicas: “A Janela Fingida” (1975) e “O Homem no Arame” (1979). E ainda uma coletânea de contos: “Além do Quadro” (1983).
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Maria Judite de Carvalho
Obras Completas
Volumes 1, 2, 3 e 4
Minotauro  15,90€/Cada
Foto: Veríssimo Dias
1-Qual a ideia que esteve na origem deste livro "Depois da Queda"?
R-O que me motivou a escrever este livro foi a necessidade de partilhar com os leitores aquilo que me parece ser o aspecto essencial da crise europeia, e a chave de uma eventual solução para a longa crise em que o projecto europeu se arrasta. A tese central do livro consiste na ideia de que o projecto europeu estará condenado a agonizar e a fragmentar-se, mais tarde ou mais cedo, se os problemas matriciais da moeda comum não forem resolvidos. Os temas da União Europeia são complexos, mas não são opacos. Procuro explicar do modo mais lúcido e claro que me foi possível os detalhes principais de uma espécie de pacto aventureiro e profundamente irresponsável que foi assumido pelos construtores do euro no Tratado de Maastricht, em Fevereiro de 1992. Procuro demonstrar como estaremos condenados a perder tempo se tentarmos analisar os problemas do populismo, dos refugidos, da (ausência) de política de defesa, da deriva autoritária de países como a Hungria ou a Polónia, da corrupção e fuga ao fisco em larga escala, sem os relacionar com o coração da crise: a péssima estrutura de funcionamento e governação do euro, que é um travão ao desabrochar de uma verdadeira unidade europeia, democrática, funcional e efectiva. A chave do futuro da Europa reside na construção de um verdadeiro federalismo económico, monetário e político. Tudo o resto depende desta tarefa por realizar.

2-A Europa tem sido um dos seus focos de reflexão: em 2019, o que poderá ainda acontecer a nós, Portugueses, neste ambiente de absoluta incerteza?
R-O que acontecer a Portugal acontecerá, com variações não demasiado significativas, também aos outros povos da zona euro e da União Europeia. Se a implosão do euro ocorrer, não haverá santuários. Em 2019, é provável que o projecto europeu continue nas mãos de líderes que nunca acreditaram verdadeiramente na unidade europeia. A diferença é que até aqui, dominaram aqueles que poderemos designar como nacionalistas liberais, de que a chanceler Merkel é o “tipo-ideal”, que utilizaram a União Europeia como veículo para uma hegemonia moderada das suas economias e países (não é possível perceber o sucesso do mercantilismo exportador dos últimos 25 anos da economia alemã sem compreender que o euro foi estruturado como uma espécie de marco para a época da globalização). Contudo, depois de Maio, a tónica dominante no nacionalismo poderá mudar de tom. É provável que o papel dos nacionalistas iliberais tenda a ser ainda mais relevante. Personalidades como Salvini ou como Marine le Pen (com fortíssimas probabilidades de vir a substituir Macron, cujo percurso é no mínimo desastrado) encaram a União Europeia não como um veículo, mas como um obstáculo para as suas economias. A Itália, completamente, e a França, parcialmente, são perdedoras do euro. Quando tiverem poder, elas vão tentar “reformar” o euro. Mas, a mistura tóxica entre nacionalismo e incompetência que caracteriza estes nacionalistas iliberais, poderá dar a estocada mortal neste processo de agonia lenta, que tem tudo para se arrastar ainda durante muitos anos.

3-Apesar das dificuldades, contradições e obstáculos: a Europa tem futuro? 
R-A Europa tem condições materiais e culturais para ser a potência mais marcante no sistema mundial. Só a mediocridades de quem teve a ousadia de se meter na política, por vaidade e ambição, sem preparação adequada, nem ter nada a propor para um futuro melhor, é que explica o desastre para onde caminhamos. A União Europeia tinha condições para ser uma força hegemónica benigna global, capacidade para reconstruir um directório mundial pacífico com os EUA, a China, a Índia, o Japão, e o Brasil. Um directório para combater os riscos existenciais da crise ambiental e climática e da distopia tecnológica em que estamos mergulhados. Mas para isso, a Europa teria de apostar numa verdadeira revolução federal, que aumentaria, simultaneamente, a democracia e o poder europeus. Essa hipótese não está ainda excluída. Mas temos de confessar que, por inteira culpa nossa, estamos mais perto do cenário sombrio de uma Europa fragmentada e empobrecida, repartida por zonas de influência dos EUA, da Rússia e da China. 
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Viriato Soromenho-Marques
Depois da Queda. A União Europeia entre o Reerguer e a Fragmentação
Temas e Debates/Círculo de Leitores  14,40€

Sofia Miguens | Uma Leitura da Filosofia Contemporânea


1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu livro «Uma Leitura da Filosofia Contemporânea-Figuras e Movimentos»?
R-Foram na verdade as minhas aulas na Universidade do Porto (aulas de filosofia contemporânea, de epistemologia, de estética, de filosofia da mente e da linguagem e outras) que estiveram na origem deste livro. Tive vontade de replicar por escrito situações de discussão em aula, comparações de autores que aparecem como iluminadoras, ligações históricas mais ou menos inesperadas e que nos permitem subitamente compreender uma ideia. Por outro lado quis mostrar que o isolamento numa ou outra tradição da filosofia contemporânea, por exemplo a tradição analítica, ou a fenomenologia, resulta empobrecedor – há muito a ganhar quando se procura conhecer o lado de lá, o suposto adversário, a tradição estranha. Por outro lado ainda, foi importante o facto de conhecer pessoas pelo mundo fora, pessoas que admiro, que trabalham em filosofia, em vários países, na Europa e nos Estados Unidos, e que trabalham para lá desse isolamento das tradições. Elas inspiraram-me. Eu própria sempre procurei fazer isso nas minhas aulas e, como disse, era um desafio dar uma forma escrita a essa experiência. Devo dizer também que passei os últimos vinte a tentar pôr toda a gente que trabalha comigo, nomeadamente no meu grupo de investigação, o MLAG (https://mlag.up.pt/) a trabalhar e publicar em inglês. Continuo a achar que isso é essencial para um certo trabalho de investigação em filosofia feito directamente num contexto internacional (e nós estamos hoje, imensamente melhor, em Portugal, nesse aspecto) Mas ao mesmo tempo que fazia isso não deixei nunca de pensar que ler literatura filosófica em francês e alemão também é muito importante – a filosofia de língua alemã, nomeadamente, que é muito importante neste livro, é uma componente incontornável da filosofia europeia - a própria filosofia analítica, que hoje se pensa ser uma tradição de língua inglesa, nasceu no mundo germanófono. Em suma (e também aí me sinto acompanhada por colegas de vários países) por trás do livro está a ideia de filosofia europeia, que não é una em termos de tradições, e a exploração dos rumos vários filosofia europeia dos últimos dois séculos.

2-Sendo esta obra uma «leitura pessoal» da filosofia contemporânea, quais as figuras e movimentos mais relevantes que analisa?
R-Bom, Wittgenstein organiza todos os meus percursos em filosofia e certamente o capítulo do livro sobre Wittgenstein é muito importante para mim. Claro que o Wittgenstein que procuro retratar não se resume a teses alusivas mais ou menos poéticas (ou mais ou menos escolásticas) sobre jogos de linguagem – é um filósofo potente, que nos permite trabalhar em todas as áreas da filosofia e que representa teses bem específicas sobre a natureza do pensamento da linguagem, bem como ideias metodológicas acerca desse estranho empreendimento conceptual que é a filosofia e que eu penso que não se resume a análise de conceitos, a argumentação, e muito menos apenas a análise dos textos da tradição (embora isso seja, é claro, literária e culturalmente muito importante – mas ainda não é filosofia). No livro Kant faz o contraponto de Wittgenstein. À parte esses dois pontos de sustentação penso que todos os autores e movimentos que escolhi – desde Kierkegaard ou Marx até Cora Diamond e Stanley Cavell – são relevantes. Se não fossem não os teria escolhido, e a verdade é que deixei muita coisa de fora. Como digo a certo ponto no livro (quando entro pelo século XXI) interessa-me o futuro da filosofia – foi por isso que escolhi os autores e movimentos que escolhi. Penso que têm futuro.

3-A filosofia contemporânea ainda é capaz de inovar e de a surpreender?
R-Claro que sim, absolutamente. Vejo à minha volta muita filosofia escolástica, cheia de jargão, técnica demais, impenetrável – isto em todas as tradições. Essa forma mata, ou pelo menos perturba, o interesse mais imediato e genuíno que se pode ter pela filosofia e que não é menor agora do que no tempo de Platão, ou de Kant, ou de Nietzsche. Mas também vejo trabalho muitíssimo bom e esse surpreende sempre – faz-nos voltar ao puro desejo de compreender as coisas, o desejo que nos leva à filosofia como nos leva à ciência e à arte. Mas é à filosofia cabe perceber a natureza desse estranho desejo.
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Sofia Miguens
Uma Leitura da Filosofia Contemporânea: Figuras e Movimentos
Edições 70  18,90€

Cláudia Cruz Santos | A Vida Oculta das Coisas

1-O que representa, no contexto da sua obra, o livro «A Vida Oculta das Coisas»?
R-A possibilidade de um futuro na escrita de ficção, espero eu. É o meu segundo romance e foi publicado cerca de um ano e meio depois do primeiro, Nenhuma Verdade se Escreve no Singular. Comecei a sentir a necessidade de escrever histórias inventadas, sobretudo pela manhã, quando ainda estou vagamente imersa nos sonhos, porque depois, ao longo do dia, a realidade vai-se impondo e preciso de regressar à minha outra vida. Quis que este romance acontecesse, não só porque achava que podia ser uma boa história, mas também por querer confirmar se conseguia, se o primeiro livro não tinha sido só sorte de principiante.

2-Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R-Fiz uma conferência na Faculdade de Direito de Coimbra sobre as vítimas do tráfico de pessoas e a pesquisa que a antecedeu levou-me a descobrir um conjunto de episódios, tão terríveis como surpreendentes, sobre as pessoas que, no terceiro milénio, continuam a ser tratadas como coisas. A afirmação de que abolimos a escravatura é bastante questionável, se não no plano da lei, pelo menos no plano da vida. Na mesma época, a minha avó teve um acidente grave e precisei de a acompanhar na urgência de um hospital e depois no internamento. Essa experiência fez-me pensar que a idade também pode facilitar a nossa coisificação, não é só a pobreza, a exclusão social ou o género. E depois, estranhamente, deu-se uma mudança em mim, comecei a dar valor a objectos que me recordam momentos e que me contam histórias. Suponho que acabei por transportar esse conjunto de vivências e sentimentos para A Vida Oculta das Coisas.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Uma história policial. Começa com uma morte improvável, de uma mulher demasiado bem-sucedida para acabar a vida de uma forma tão ruidosa e pecaminosa. Estou muito entusiasmada com a ideia. Afinal, o que mais pode desejar uma voraz leitora de livros policiais do que ser ela, desta vez, a poder escolher o assassino? Mas é um estilo difícil, descubro-o agora, porque é preciso manter o suspense sem perder a coerência e sem resvalar para o absurdo.
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Cláudia Cruz Santos
A Vida Oculta das Coisas
Bertrand  16,60€
Cláudia Cruz Santos na "Novos Livros" | Entrevistas

Inês Lourenço | Últimas Regras

1-O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Últimas Regras»?
R- É uma segunda incursão no campo da micro-narrativa, que tinha iniciado em 2012, com o livro "Ephemeras", precisamente na mesma editora e que se encontra actualmente esgotado. A técnica da micro-narrativa, conforme a entendo, não difere muito da minha escrita de poesia, pois cultiva, na mesma, a elipse e uma espécie de surpresa final ou "turning point".

2-Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- Na origem de mais este livro está toda a mundividência e suas temáticas da minha escrita: a infância, a precaridade do ser, o desfazer de clichés culturais,a ironia, apogeus e declínios, etc.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Tenho projectos para novos livros de poemas, já iniciados. Uma antologia de textos escolhidos por um poeta brasileiro está próxima a entrar em provas para distribuição no Brasil.
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Inês Lourenço
Últimas Regras
Companhia das Ilhas  12

Inês Lourenço na “Novos Livros” | Entrevistas

Orfeu Negro recebe prémio internacional

A editora portuguesa Orfeu Negro participou na Feira do Livro Infantil de Bolonha e recebeu o Prémio BOP para Melhor Editora Europeia do Ano, distinguindo as suas obras para a infância.
A Orfeu negro começou a editar a sua colecção “Orfeu Mini” há já 11 anos. Esta colecção de álbuns ilustrados conta hoje com 101 livros e promete continuar.
Segundo a editora, desta aposta resultou “uma série feita de sonhos, tenacidade, desejo de inovar, de arriscar e abrir horizontes”
No percurso, a Orfeu Negro publicou interessantes trabalhos de ilustradores internacionais como Catarina Sobral, Manuel Marsol, Joan Negrescolor, Madalena Moniz, Carolina Celas e Oliver Jeffers.
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Paulo da Costa Domingues | CARMES

1-O que representa, no contexto da sua obra, o livro CARMES?
R-Reunir os versos que o autor dá por salvos da erosão no processo criativo, é lançar uma nova desordem no que, por preguiça, outros foram considerando arrumado em categorias e conforme. Reunir é quebrar a separação no espaço, no tempo e nos intuitos; é uma tomada de perspectiva e de escala sobre uma consciência que já lhe é anterior. É como – para um pintor ou um fotógrafo – ver pela primeira vez, junta dentro o mesmo plano de acção, uma escolha dos seus trabalhos. E é também, necessariamente, um exercício “muscular” preparatório do livro que se lhe seguirá.

2-Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R-Subjaz sempre a mesma ideia nos homens, ao manifestarem-se criativamente: trata-se de responder a um desafio particular perante a grande criação universal. Este livro antológico, ou os que antes deram origem a este, resultam da natural vaidade e competência humanas que diferenciam o homem do símio.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R-O meu exercício de escrita é diário, faz parte das minhas pequenas alegrias, não tendo à partida a perspectiva editorial. São dois momentos distintos: o da escrita e o da publicação. Mas se a pergunta pende para aquilo que irei tornar público, então existe já um livro completo a aguardar editor, e que anuncio na bibliografia nas páginas finais de CARMES. Tal como sugere a minha resposta à primeira pergunta, trata-se de um livro futuro em consequência com todo o meu passado.
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Paulo da Costa Domingues
CARMES
Companhia das Ilhas  20€

Alexandre Andrade | Todos Nós Temos Medo do Vermelho, Amarelo e Azul

1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro "Todos Nós Temos Medo do Vermelho, Amarelo e Azul"?
R- É mais um livro. Deixo para outros o trabalho de o integrar, ou dissociar, do contexto da minha obra. Gosto de pensar que cada livro é mais um bloco que se vai harmonizar e entrar em diálogo com os restantes de modo a formar um todo mais interessante do que as partes. Mesmo que isso não suceda, o que é no fundo o desfecho mais que provável, resta a esperança de que os esforços e estratagemas nesse sentido, conscientes ou não, apareçam aos olhos do leitor como um daqueles malogros instrutivos que quase equivalem a um pequeno sucesso. 

2- Qual a ideia que esteve na origem desta obra?
R- Quis escrever contos sobre as cores e a maneira como afectam a vida das pessoas, tentando tratar de forma equivalente as reacções mais viscerais e as mais intelectuais, o sensorial e o símbolo: em ambos os casos, quis mostrar personagens imensamente vulneráveis e envolvidas em combate desigual. Escrever uma série de contos sobre um único tema é um exercício que recomendo a toda a gente, porque incita à disciplina e contribui para que as ideias apareçam. Da próxima vez, talvez seja sobre dias de chuva ou sobre bolos de creme.

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Dois livros de ficção ainda em fase de planeamento. O futuro dirá se os escreverei em paralelo ou um a seguir ao outro. Um deles pega no motivo, já tão glosado, da rapariga que desce à Grande Cidade e fica maravilhada com tudo mas que depois começa a descobrir um lado mais sinistro que as fachadas e a ordem pública escondem. Uma narrativa tão inverosímil e rocambolesca tem tudo para correr mal e é isso que acontece: resta desconstruí-la, tentando perceber a origem de tamanha profusão de inconsistências, exageros poéticos, idealizações e golpes de teatro. A acção do segundo livro começa no Verão de 1975 e estende-se até aos nossos dias, mais década menos década, para desgosto das personagens, que achavam que deixar a História passar-lhes ao lado os protegeria dos efeitos da passagem do tempo.
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Alexandre Andrade
Todos Nós Temos Medo do Vermelho, Amarelo e Azul
Relógio d'Água  17€

Mário Augusto | Janela Indiscreta

Foto: António Guerreiro

1-O seu livro (“Janela Indiscreta”) tem a magia de sintetizar 30 anos de conversas: que critérios usou para escolher os seus convidados?
R-Essencialmente, as estrelas que mais me tocaram ao longo dos 30 anos de entrevistas e com quem falei mais vezes ao longo dos anos. Acabou por ser uma escolha difícil porque tive que deixar grandes estrelas de fora desta lista e, na verdade, falei com algumas delas várias vezes - umas oito, nove e dez vezes ao longo da carreira - e fui registando ideias muito curiosas e sábias sobre o cinema, a arte de representar e até mesmo a vida. Acabei por selecionar os 25 nomes que mais me tocam e que melhor interagiram comigo. Percebi, com o tempo, que todas elas têm em comum uma particularidade: as carreiras sólidas fazem-se numa equação triangular que tem que estar bem conjugada e no peso certo de talento, trabalho determinado e sorte. É esse o triângulo que faz as melhores carreiras, como se prova nas conversas que mantive com estas 25 estrelas. Sem sorte, determinação e talento, nenhuma delas tinha chegado onde chegou…

2-Depois de muitas entrevistas a dezenas de actores e realizadores, quem mais o surpreendeu ao longo destes 30 anos?
R-Diria que aprendi sempre com todos os que escolhi para o livro mas posso dizer que ainda me surpreende a simplicidade da Meryl Streep bem como o saber e a vontade de partilhar de nomes como Copolla e Scorsese. Fico muitas vezes a pensar sobre o que é realmente ser uma estrela e a solidão que esse estatuto pode acarretar. Por exemplo, quando estava a rever as entrevistas hilariantes do Robin Williams, tentei perceber a incompreensível forma como ele pôs fim à vida. Gosto de analisar vidas e atitudes e algumas destas estrelas deram-me essa possibilidade… e aprendo sempre com isso.

3-Para cada um dos 25 entrevistados escolhe os seus três melhores filmes: serão eles a videoteca ideal para quem gosta de cinema ou apenas uma escolha pessoal subjectiva?
R-É claro que há muito de pessoal na escolha mas tive sempre a preocupação de selecionar 3 filmes que dessem uma perspetiva ampla da carreira e variedade de géneros dessas estrelas. Diria que quem não conhece bem a carreira dos nomes selecionados fica a conhecer vendo aqueles filmes que seleciono e ganha um conhecimento mais sustentado de cada uma das carreiras. Mesmo que já conheçam o filme podem rever e ganham uma nova perspetiva de análise das carreiras dos nomes selecionados.
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Mário Augusto 
Janela Indiscreta
Bertrand  18,80€

Beja: Soror Mariana Alcoforado e Cartas Portuguesas

A Câmara Municipal de Beja vai organizar o FESTIVAL B 2019 dedicado à celebração de Mariana Alcoforado e comemoração dos 350 anos das Cartas Portuguesas.
O FESTIVAL B, decorrerá (27 a 30 de Junho de 2019) no Centro Histórico de Beja, unindo através de quatro palcos um roteiro que destaca também o património da cidade. Ao longo de 4 dias cerca de 40 artistas/grupos criarão propositadamente para o FESTIVAL B mais de 20 espectáculos de diferentes disciplinas artísticas e géneros, através de fusões entre si e de identificação com o universo de Mariana Alcoforado.
Um dos aspetos inovadores do FESTIVAL B é a realização de residências artísticas e de conceção de espectáculos próprios criando novas dimensões de promoção e valorização da figura histórica de Soror Mariana Alcoforado, a sua dimensão e reconhecimento internacionais.

Paulo Magalhães | O Condomínio da Terra

1-Qual a ideia que esteve na origem do seu livro «Condomínio da Terra: Das Alterações Climáticas a uma Nova Concepção Jurídica do Planeta»?
R-Em Novembro de 2002, o acidente do petroleiro Prestige na costa da Galiza, perto da fronteira portuguesa, provocou uma enorme maré negra, que se estendeu do norte de Portugal até Vendée, na França. Eu participei na operação de limpeza e reabilitação de aves oleadas nas praias portuguesas afetadas. Depois de um longo dia de trabalho voluntário, cheguei a casa e deparei-me com uma conta que atingia os milhares de euros, para obras de reabilitação do meu condomínio. Percebi que a maior parte desse valor era para a restauração de janelas que não faziam parte do meu apartamento. Totalmente confuso, comecei a estudar a estrutura jurídica de um condomínio. Quanto mais eu estudava, mais ficava evidente que as janelas em questão eram copropriedade de todos os meus vizinhos que habitam o condomínio. Todos nós tivemos uma conta semelhante e uma responsabilidade compartilhada. Este foi o momento em que tudo se tornou evidente: a perspetiva de construir um sistema global num contexto pessoal literalmente à minha porta. Lidar com os efeitos nacionais de uma maré negra transfronteiriça e minhas responsabilidades vivendo numa propriedade simultaneamente privada e compartilhada, trouxe clareza em perceber o Planeta Terra como o condomínio da humanidade. Foi o momento que redefiniu o conceito de propriedade privada, que pode coexistir com a propriedade comum de forma simbiótica e harmoniosa; a complexidade e as leis de viver num condomínio possuem um poderoso potencial para reenquadrar a compreensão da propriedade e da responsabilidade. Essa clareza poderia tornar possível, o diálogo ambiental global, ainda hoje um desafio considerável e quase "impossível". Este momento marcou o futuro nascimento da Casa Comum da Humanidade em 2018.

2-Em poucas palavras, quais os objectivos e quais os principais resultados já alcançados pelo Projecto Condomínio da Terra?
R- O Condómino da Terra é o modelo jurídico da Casa comum da Humanidade, que tem 2 objetivos estatutários, na sua missão: (1) Reconhecer juridicamente o "Espaço de Operação Segura para a Humanidade", como um novo objeto jurídico de direito internacional – um Património Comum da Humanidade. (2) Promover e apoiar a implementação de um novo sistema de contabilidade dos impactos positivos e negativos no estado do Sistema Terrestre, com vista à proteção do seu estado favorável e promoção da sua governação. O objetivo principal já alcançado, foi a construção de uma equipe multidisciplinar internacional, que junta alguns dos melhores cientistas do Sistema Terrestre a juristas e outros especialistas das ciências sociais.

3-Neste momento, quais são os principais eixos de acção do projecto e como podem os cidadãos portugueses participar e/ou apoiar?
R-No âmbito do reconhecimento do novo património da Humanidade, estamos a participar nas reuniões preparatória do Pacto Global do Ambiente, que estão neste momento a ter lugar em Nairobi na sede da UNEP. Quanto ao segundo objetivo, estamos a trabalhar para fazer um teste piloto do ESAF – Earth System Accouting Framework – em 4 países. A forma de os portugueses poderem participar é poderem tornar-se sócios e acompanharem este projeto em, http://www.commonhomeofhumanity.org/
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Paulo Magalhães
O Condomínio da Terra-Das Alterações Climáticas a uma Nova Concepção Jurídica do Planeta 
Almedina  13,90€

Prémio Livro do Ano | Bertrand


A Bertrand promove, pelo terceiro ano consecutivo, o Prémio “Livro do Ano”. Esta iniciativa tem a particularidade de ser o primeiro prémio literário português atribuído exclusivamente por livreiros e leitores.
Na edição de 2019,  estarão a concurso 149 obras repartidas por quatro categorias: Melhor livro de ficção lusófona; Melhor livro de ficção de autores estrangeiros, Melhor reedição de obras essenciais e Melhor Livro de Poesia (nova categoria que não estava presente nos anos anteriores).
Os 149 finalistas são o resultado da pré-selecção que “procurou distinguir os livros, em prosa e poesia, que marcaram o último ano editorial, e contou com o precioso contributo dos jornalistas Inês Fonseca Santos e Sérgio Almeida”, segundo os organizadores.
O Prémio está, agora, numa fase de decisão e leitores e livreiros poderão votar nos seus livros preferidos. A seguir, a lista dos vinte livros finalistas (sendo cinco em cada categoria), será anunciada ainda em Março. Finalmente, em abril, será divulgado o vencedor de cada categoria do “Prémio Livro do Ano”.
Em 2018, foram 119 as obras concorrentes e a votação mobilizou dezenas de milhares de leitores.
Os vencedores foram:
-Melhor Livro de Ficção Lusófona: Até Que As Pedras Se Tornem Mais Leves Que A Água (António Lobo Antunes, Dom Quixote)
-Melhor Livro de Ficção de Autores Estrangeiros: Homens sem Mulheres (Haruki Murakami, Casa das Letras)
-Melhor Reedição de Obras Essenciais. Os Miseráveis (Victor Hugo, Relógio D’Água) 
A lista das obras a concursos está disponível aqui AQUI

Pedro Castro Henriques | Diabruras

Caro editor de novoslivros.pt. Agradeço-lhe desde já a amabilidade de me interrogar sobre o Diabruras. Julgo que o ‘outro autor’ das mesmas está em condições de lhe responder salvo na questão de uma possível influência da Guidinha (Luís de Sttau Monteiro, de que sou leitor) que, creia-me, não existiu. Estive agora a relê-lo por força da sua segunda pergunta e concluo haver apenas um certo parentesco a nível da escrita, já que a temática mais ampla de Sttau Monteiro não se confunde com o ‘casa/escola’ do Diabruras.   
Abraço amigo do Pedro Castro Henriques
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1-O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Diabruras»?
R-pergunta número um
perguntei ao senhor que a setôra de ciências conhecia que faz textos parecidos com os meus e que escreveu o fim do diabruras se ele fazia outros livros e ele respondeu-me por e-mail que sim que já fez coisas muito diferentes mas que não sabe se aquilo que escreveu tem a ver com o princípio dos vasos comunicantes coisa que não percebo bem e perguntei à setôra de ciências que me respondeu que ela não era um arquimedes para inventar uma resposta para uma pergunta difícil como esta mas o que vale é que o senhor me mandou uma lista dos livros que fez e quem perceber de vasos junte os livros todos e veja se comunicam 

2-Ao lê-lo, é impossível não pensar nas «Redacções» da Guidinha, escritas por Luís Sttau Monteiro: foi essa uma das suas inspirações?
R-pergunta número dois
o senhor que escreveu o fim do diabruras lembrava-se de o ver ao perto e de longe do senhor luís de sttau monteiro que escreveu a guidinha mas eu nunca o li porque ainda não tinha nascido e a estante lá de casa só tem uns romances da minha mãe que ela diz que são cor-de-rosa mais uns livros de culinária e a enciclopédia que era do meu avô e que nunca ninguém leu mas o senhor que escreveu o fim do diabruras já não se lembrava bem da guidinha porque foi no século passado e disse que o senhor monteiro gostava de escrever como eu mas que talvez escrevesse um pouco melhor porque era escritor e eu não

3-O que pretendeu retratar nestas suas 150 histórias?
R-pergunta número três
não sei responder a esta pergunta porque escrevi as histórias só porque gosto de escrever sobre as coisas que me acontecem e por isso pedi ao senhor que escreveu o fim do diabruras que explicasse a coisa por mim e ele disse que sem o saber o autor dos textos que sou eu estava a falar das muitas contravoltas que o mundo deu de há uns tempos para cá e das contravoltas que as contravoltas do mundo provocaram na cabeça das pessoas que ficaram um pouco baralhadas no meio de tudo isto e é o que se passa lá em minha casa e na minha escola e por isso estou de acordo com o que o senhor escreveu no fim do meu livro
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Pedro Castro Henriques
Diabruras
By The Book  15€

Fernando Cavaleiro Ângelo | Os Falcões do Biafra

1-De que trata este seu livro «Os Falcões do Biafra»?
R-Durante o período de colonização, os britânicos deram a supremacia a um dos grupos étnicos contendores, os IGBO, promovendo-os a representantes da coroa britânica. Daqui surge uma elite IGBO que entra em confronto com uma aliança formada pelos outros dois grupos étnicos maioritários: os YORUBA e os HAUSA. Os condimentos para a explosão estavam reunidos, pelo que só foi necessário acender o rastilho. Depois da primeira tentativa falhada de secessão ocorrida no Catanga, na República Democrática do Congo, em 11 de Julho de 1960, a independência da República do Biafra poderia impor um processo irreversível de “balcanização” dos países africanos que a Conferência de Berlim de 1884 dividira a régua e esquadro. Os golpes militares de 14 de janeiro e de 29 de julho de 1966, o primeiro desencadeado por oficias IGBO para quebrar a influência HAUSA e o segundo para derrubar os IGBO do controlo militar, acabou por ser a espoleta para o barril de pólvora que era a República Federal da Nigéria. Daí até à guerra civil foi uma questão de dias. Dois oficiais do exército nigeriano, com formação académica e militar superior, passando ambos nas melhores escolas e academias militares na Grã-Bretanha, com percursos militares muito idênticos, despoletaram um conflito armado sangrento que envolveu grande parte da população e também muitos atores internacionais. O tenente-coronel Chukwuemeka Ojukwu rompeu com o domínio do governo federal alegando que os povos do Norte, os maioritariamente muçulmanos, dominavam com intuito de exterminar os povos cristãos do Leste. Por outro lado, o tenente-coronel Yakubu Gowon defendia o conceito de “One Nigeria”, lutando contra a independência unilateral do Biafra. A motivação dos apoiantes externos poderia enquadrar-se na manutenção ou criação de poder de influência, destacando-se aqui a Grã-Bretanha, a França e a União Soviética, e outros para mostrar ao mundo que os recém-independentes Estados africanos não dispunham das condições para se governarem sozinhos, tal como Portugal, África do Sul e Rodésia. Estes últimos países lutavam domesticamente com grupos independentistas que aclamavam a libertação dos colonizadores. Com a ofensiva das tropas federais, a 06 de julho de 1967, a recém-criada República do Biafra respondeu de forma decidida e com bravia, mesmo com uma enorme desvantagem em termos de contingente militar e de armamento. Mas rapidamente o comandante supremo das tropas federais percebeu que o centro de gravidade do Biafra, atendendo a sua localização geográfica, seria o apoio logístico da sua população e das operações militares de contenção que estavam em curso. As tropas federais possuíam uma vantagem considerável nas três dimensões: naval, terrestre e aérea. Tal como tinha aprendido na aula de arte da guerra na academia militar britânica, o embargo total era a única forma de asfixiar as ambições secessionistas do alegadamente megalómano e sequioso por poder tenente-coronel Ojukwu. Pelo que é a partir de aqui que surgem os falcões do Biafra para tentar inverter os efeitos asfixiantes do embargo. Através dos parcos meios aéreos adstritos à Força Aérea Biafrense, um conjunto de pilotos, contratados pelo tenente-coronel Ojukwu, começaram a voar de forma decidida e corajosa para anular as ofensivas terrestres das tropas federais, aniquilar a supremacia aérea nigeriana representada pelos temíveis caças-bombardeiros soviéticos MIG-17F, e permitir que a ajuda humanitária e fornecimento de armamento chegassem aos dois únicos aeroportos improvisados no Biafra: Uli e Uga. A aventura perpetrada pelos dois caças-bombardeiros T6-G, tripulados por dois antigos pilotos da Força Aérea Portuguesa, o Artur Alves Pereira e o José Pignatelli, ao serviço do Biafra, foi deveras fulcral para a sustentação do Biafra até ao seu último dia: 08 de Janeiro de 1970. As missões que estes dois jovens pilotos efetuaram, com resultados desastrosos para as forças armadas nigerianas, podiam roçar a loucura que só a irreverência de um jovem consegue proporcionar. Tinham adquirido a experiência e as perícias a tripular esta aeronave nas guerras de Angola e Guiné. Ao final do dia, a luta entre um jovem oficial sequioso de poder que utilizou a questão étnica e religiosa para inflamar a situação, e outro jovem oficial que foi investido pelos grupos étnicos rivais, o HAUSA e os YORUBA, para defender a união da Nigéria com a bênção das potências colonizadoras sequiosas por petróleo, resultou na morte de milhões de pessoas, na maioria crianças e idosos, e centenas de crianças que ficaram perdidas dos seus pais.

2-Como podemos interpretar os objectivos de Salazar para intervenção de Portugal na guerra civil da Nigéria? 
R-Em primeiro lugar, Portugal não se podia expor tendo em conta a perseguição que estava a ser alvo pela Comunidade Internacional face aos desenvolvimentos nas guerras de Angola, Moçambique e Guiné. Pelo que o envolvimento nos bastidores, de forma secreta, era essencial para as políticas do regime salazarista. A estratégia milenar de dividir para reinar, através da intensificação da confusão, acabava por mostrar ao mundo e às organizações internacionais, que na verdade a vida dos africanos sob a governação portuguesa não era assim tão ruim. Esta retórica política do regime servia, outrossim, para contrariar as vozes anticolonialistas. Por outro lado, a maioria das províncias ultramarinas portuguesas possuíam “pequenos Biafras”, como por exemplo Cabinda, que podia incorrer num quadro de conflitualidade semelhante ao que se estava a assistir na Nigéria. Pelo que Portugal tinha que se manter no anonimato para não despertar intenções secessionistas dentro das suas próprias fronteiras. O esforço no tabuleiro da diplomacia internacional em persuadir outros países a apoiar a causa do Biafra, para desta forma influenciar a ONU a decretar uma resolução para mediar o conflito e conseguir alguma forma de sufrágio para legitimar a independência biafrense, era uma ação que trazia muitos ganhos a Lisboa nas questões que estavam relacionados com os três campos de batalha: Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. E, finalmente, o facto de alegadamente a França requerer o apoio de Portugal, mesmo que de forma discreta através da cedência do seu espaço aéreo e aeroportuário para de forma livre os mercenários e os traficantes de armas poderem fazer escoar os abastecimentos às tropas biafrenses, a troco de fornecimento de armamento e munições às forças armadas portuguesas para “alimentar” o esforço de guerra nas suas três frentes de combate. Aparentemente toda as movimentações e esquemas clandestinos e encobertos eram efectuados através dos serviços secretos franceses, o SDECE, liderado pelo conde Alexandre de Marenches, que era muito amigo do subdiretor da PIDE, o Dr. Barbieri Cardoso. Múltiplos relatos fidedignos confirmam que a PIDE tinha um canal privilegiado com a SDECE, mormente para alguns assuntos que envolviam África. Portugal não conseguiu evitar a exposição mediática em termos de cumplicidade no transporte de armamento através dos entrepostos logísticos de Lisboa, Faro, Bissau e São Tomé. O apoio humanitário trazia a oportunidade de misturar o armamento no meio dos alimentos e medicamentos. O ruído nos órgãos de comunicação social por todo o mundo não se fez esperar; contudo, não havia provas concretas que as autoridades apoiavam efetivamente e formalmente a República do Biafra. Lisboa era o “nó” central em todas as atividades financeiras, militares, informacionais e de coordenação no que ao conflito do Biafra diz respeito.

3-Na investigação realizada para escrita deste livro, que novos factos relevantes (ou surpreendentes) encontrou?
R-A utilização dos serviços secretos permitia aos países envolvidos desenvolver as atividades encobertas e clandestinas, negando ou dissimulando desta forma todas as suas manobras, manipulações e conspirações. Esta atuação acabava por facilitar a estratégia de “dividir para reinar” em apoio a uma das partes, conservando, no entanto, a possibilidade de não ficar formalmente colado à parte apoiada, pois em caso de um revés, o seu Estado acaba por não ser prejudicado pelas autoridades vitoriosas. A utilização de “proxys” era essencial nesta atividade que se desenvolvia na clandestinidade, pois caso fossem expostos, os países naturalmente não assumiam qualquer responsabilidade, ficando sempre a dúvida de quem é que esteve por detrás de tal manobra maquiavélica. Este tipo de atuação desenvolve-se desta forma há muitos séculos, reconhecendo que as grandes potências possuem um tremendo know-how de como manipular, dissimular, enganar, conspirar e subtrair segredos fruto da sua larga experiência em conflitos de larga escala e intensidade por este mundo fora. Pese embora a guerra civil da Nigéria não ter uma ampla divulgação em Portugal, limitando-se só a alguns artigos de jornal e revistas, esta é a primeira obra no nosso país que investiga profundamente o nosso envolvimento secreto num conflito em África, ao mesmo tempo que conduzia uma guerra simultânea em Angola, Moçambique e Guiné, a par com a atuação secreta de uns pilotos portugueses ao serviço das autoridades do Biafra. As manobras arriscadas destes jovens pilotos, que acabaram por defender e acreditar na causa biafrense, eram dignas de um filme de Hollywood. A juventude, irreverência e espírito de aventura foram alguns dos factores que os impulsionaram a arriscar a vida por um país que não era o seu, acabando por ficar afectados pelo drama humano que aquele povo IGBO sofria. As manobras ardilosas das potências colonizadoras, as artimanhas e negócios clandestinos dos traficantes internacionais de armamento, a realpolitik do petróleo, são abordados com recurso a factos apurados em testemunhos na primeira pessoa e documentos secretos depositados em diversos arquivos nacionais. A fusão de todas estas fontes bibliográficas, seguindo uma metodologia assente de sobremaneira em testemunhos de fontes primárias, resulta numa obra consistente sob o ponto de vista histórico. O que é que esta obra não tem? Qualquer enviesamento provocado por ideias pré-concebidas sobre uma das facções, qualquer colagem a ideologias políticas de que natureza for, e nenhum posicionamento tendencioso sobre quem é que tinha a razão do seu lado. Em guerras não existe razão. As mortes provocadas ou colaterais nunca poderão sustentar o argumento da razão.
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Fernando Cavaleiro Ângelo
Os Falcões do Biafra
Casa das Letras  17,90€

Fernando Cavaleiro Ângelo na "Novos Livros" | ENTREVISTAS