Vergílio Alberto Ferreira | Nunca Direi Quem Sou


1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro “Nunca direi quem sou”?
R-Em tempos de “tanta guerra, tanto engano”, escrever já não é o verbo intransitivo fundador de utopias (e de outras eventualidades), próximas da vulgar retórica da sentimentalidade e da mediatização burlesca a que assistimos, mas parte dessa legitimação de todos os crimes que, de Pessoa a Genet, por exemplo, tenta contrariar a delapidação acelerada do que resta da ética do valor (moral, ou apenas mural) e estético a que a pornografia da insignificância steineriana roubou razão de ser. Ainda que alguma realidade crítica diga o contrário, eu não tenho “obra”; o que me proponho realizar é “ser obra”; vai daí, vou escrevendo (editando livros de poesia, ficção, teatro, diários, literatura de leitura infantil e juvenil) para evitar, como parodiava Fernando Assis Pacheco, o acidente vascular; se não cerebral, dizia ele; o literário, digo eu. Este livro (propõe-se/ propõe-me ser lido): é uma fuga (musicalmente falando) ao que sou; o que pretendo é falar ficcionalmente pelos outros - Chuang-tsu, Sapho, Epitecto, Borges, Pessoa, Vergílio Ferreira, Dinis Machado, Lispector, Cesariny, Herberto Helder - não para me procurar, mas para me encorajar a saber quem sou.

2- Qual a ideia que teve na origem deste livro?
R- Na sequência do que disse, fica a descoberto um bela lapalissade: como se tornou moeda corrente esquecer que: “Existe uma eterna repetição”, princípio nietzschiano filosoficamente caído em desgraça, a frivolidade actual não deixa margem para reflectir sobre cada acto (falhado) consentido, à luz das políticas torcionárias que governam o mundo, contribuindo para multiplicar a subida ao patíbulo da(s) sociedade(s) medíocre(s) ante o tribunal da memória. 
Esta série de retratações ficcionadas nasceu da inquietação que a idade (já provecta) foi acumulando, e para a qual não vislumbro resposta: “Que quer o homem, afinal, saber de si próprio?”

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R-Depois de preparar a edição da poesia anterior (1980-2015): Todo o trabalho toda a pena (2016), que inclui os inéditos: Halo y tangência e O inventor de rios), reescrevendo alguns livros (quase) na íntegra, dei-me a constatar que pouco mais tinha a dizer, e que, como nada se sabe sobre a imortalidade (de que serviria sabê-lo?), a ideia de futuro, à maneira da fúria da paixão na velhice, torna-se uma dança sem par (parecida com a do belo e da consolidação, que fingem que dançam).
Se a ideia de escrever se presta a entrar na roda, e dá largas à lógica de competição desenfreada que por aí grassa (festivais, prémios, & outras badalações artísticas), o escriba abisma-se nesse vórtice de que não há retorno, vindo a dar razão ao (insepulto) Heidegger, quando profetizou que: Quem não sabe pensar conta uma história.” Eu não tenho nada para contar. E não quero: pena minha, provavelmente, até só penso que penso. Por isso, vou escrevendo a pensar que a sabedoria popular é implacável: “Quem faz borrões que os leia.”
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Vergílio Alberto Vieira
Nunca Direi Quem Sou
Companhia das Ilhas

Arménio Rego | Jobs, Musk e Bezos: Génios Insanos?


1- De que trata este seu livro «Jobs, Musk, Bezos: Génios Insanos?»?
R- O livro discute a personalidade e as histórias de vida dos três líderes. E ajuda a compreender porque eles são génios, porque são insanos, e implicitamente pergunta se é preciso ser insano para ser génio.

2- Sendo personalidades brilhantes e tão diferentes, quais os pontos que unem estes três génios?
R- Os três são génios inventivos, cartas fora do baralho, paradoxais (por exemplo: narcisistas humildes), abrasivos no trato, determinados até ao tutano, inventores do futuro, amados e odiados pelos liderados. Entendem que as regras aplicáveis ao comum dos mortais não se lhes aplicam. Os três têm historias de vida familiar complexas e, em certa medida, problemáticas. Estiveram na corda bamba.

3- Para a actual geração de empreendedores, estas são certamente pessoas inspiradoras: que nos podem ensinar as suas histórias de vida?
R- Pode fazer-se de uma história de vida problemática uma fonte de energia para vencer o impossível. A fibra é crucial. O sucesso e o futuro também se fazem com a ajuda dos outros. É preciso ter coragem para contrariar o normal e o mais popular. Importa aprender com os erros e o fracasso. Foram bem-sucedidos apesar da abrasividade  - e não por causa dela. Poderia não ter dado certo!
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Arménio Rego/Miguel Pina e Cunha
Jobs, Musk, Bezos: Génios Insanos?
Edições Sílabo

Inês Lourenço | O Jogo das Comparações


1-O que representa, no contexto da sua obra o livro “O Jogo das Comparações”?
R- É uma sequência mais maturada, suponho, das temáticas da minha poesia, ao longo dos livros já publicados. Como digo num poema deste “Jogo”, “um poema é sempre uma pergunta/sem resposta”. Assim, quanto mais afastados são os sentidos das palavras, mais apetece conjugá-los. E andar de interrogação em interrogação. Alguém disse que “a poesia é a coincidência dos opostos”. Que talvez seja impossível no real, mas que é possível no texto poético. Assim estas minhas comparações quase sempre incomparáveis.

2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- Como acabei de afirmar, as comparações incomparáveis, que   em poesia se realizam através da metáfora, que é a rainha de todas as comparações, pois alia duas áreas semânticas muito diversas. O livro tem ainda mais dois ciclos de poemas sob o signo das “coisas mínimas”, como “teias” e “pequenas pátrias”.

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Sempre tenho o vício de andar a engendrar verbalizações fora do senso-comum. Há sempre projectos para um outro livro, seguindo ou não um roteiro prévio. Assim se passa, neste momento, com um livro em construção. Tenho igualmente o intuito de voltar às micro-ficções com uma nova edição revista e aumentada de “Ephemeras”, que saiu na Companhia das Ilhas em 2012, em pequena tiragem, já esgotada.
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Inês Lourenço
O Jogo das Comparações
Companhia das Ilhas, 12€

José Duarte Moleiro Martins | À Descoberta do Novo


1- De que trata este seu livro «À Descoberta do Novo-Empreendedorismo e Intra-Empreendorismo»?
R-  O livro trata (i) das variantes contextuais de empreendedorismo, (ii) da cultura organizacional de inovação, (iii) do intra-empreendedorismo, (iv) do empreendedorismo, (v) do processo empreendedor associado à criação de um produto ou de um negócio novo, (vi) da incubação de negócios novos, e (vii) do plano de negócios.

2- Empreendedorismo devia ser ensinado nas escolas para que fosse mais fácil e mais rapidamente absorvido e adoptado pelos mais jovens à entrada nas suas vidas profissionais?
R- O empreendedorismo devia ser ensinado e aplicado ao longo dos ciclos de ensino como um recurso individual e das empresas para que se criem mais oportunidades de emprego, de satisfação pessoal no trabalho realizado e na criação de riqueza para a sociedade. O empreendedorismo devia ser afirmado como um desígnio nacional de competitividade e de criação de oportunidades, de modo a atenuar a diferença crescente estre as classes abastadas e as remediadas, e retirar as pessoas de uma condição de pobreza que se tem arrastado ao longo dos anos.

3- Empreendedorismo é um conceito muito conhecido. Mas, de que falamos quando falamos de intra-empreendedorismo?
R-  O empreendedorismo é um conceito conhecido de nome, mas não de prática sistemática na sociedade portuguesa. Os portugueses e os alunos ainda são pouco proactivos. Subsiste ainda muito a mentalidade de «ser empregado por conta de outrem». O intra-empreendedorismo é o mesmo fenómeno que o empreendedorismo mas verificado no interior de uma empresa (ou organização) já existente no mercado, e que necessita do fomento de uma cultura de inovação e de empreendedorismo para que possa florescer e se desenvolver como uma prática organizacional instituída.
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José Duarte Moleiro Martins
À Descoberta do Novo-Empreendedorismo e Intra-Empreendorismo
Edições Sílabo, 12€

José Filipe Pinto | Populismo e Democracia


1- De que trata este seu livro «Populismo e Democracia: Dinâmicas Populistas na União Europeia»?
R- O livro é composto por duas partes. A primeira procura saber o que é o populismo. Para tal, faz uma viagem teórica pelo conceito e desmonta os mitos que lhe estão associados antes de avançar com uma definição própria de populismo. Uma definição assente na luta pela hegemonia. Uma luta que exige a criação de um antagonismo entre a elite e o povo, duas construções apresentadas como homogéneas, e a passagem de uma lógica diferencialista para uma lógica equivalencial. A segunda parte do livro recorre ao cruzamento do Índice de Democracia com o Índice de Populismo Autoritário para apresentar a realidade do populismo nos 28 membros da União Europeia e perceber se o populismo representa uma ameaça para a democracia ou, pelo contrário, se pode ou deve ser visto como uma oportunidade para um regime que não tem sabido corresponder aos anseios dos cidadãos.

2- Para os mais distraídos, o populismo começou a ganhar contornos de realidade com a eleição de Donald Trump mas é um fenómeno antigo: onde situa a sua origem?
R- O pai do populismo foi Herzen, inspirado na tentativa de trazer para a Rússia de Nicolau I as ideias dos socialistas utópicos ou idealistas franceses, como Proudhon, Saint-Simon ou Fourier. Uma tentativa de não ver repetida na Rússia a miséria gerada no Ocidente pela revolução industrial. No entanto, o berço do populismo varia consoante o populismo for visto como o irmão gémeo da democracia ou o seu filho bastardo. Na minha leitura, o populismo é tão antigo como a democracia e, por isso, também nasceu na Grécia Clássica. A existência de instrumentos para a preservação da democracia – de que a condenação ao ostracismo poderá representar um bom exemplo – evidencia que democracia e demagogia, uma possível designação para o populismo inicial, tiveram assento batismal na mesma altura.

3- Uma revelação do seu livro: em 2016, Portugal estava entre os países com maior Índice de Populismo Autoritário. Como se manifesta esta realidade e que poderá acontecer num futuro próximo?
R- Na União Europeia Portugal ocupa o 11.º posto no que concerne ao Índice de Populismo Autoritário, um índice da responsabilidade de Andreas Heinö e que toma em linha de conta o total de mandatos e a participação no governo. No nosso país a direita é responsável por 0,5% e a esquerda por 20%.  Este valor representa um acréscimo muito significativo relativamente a 2000, pois, nesse ano, o populismo em Portugal não passava de 12,2%. As forças populistas mais significativas em Portugal são o Bloco de Esquerda – populista autoritário – e o Partido Comunista Português – populista totalitário – sendo que a coligação do PCP com o PEV, a CDU, também é populista autoritária. De assinalar que estes três partidos assinaram acordos separados com o Partido Socialista no sentido da viabilização do atual governo do PS liderado por António Costa, mas essa situação ainda não é contemplada no Índice de Populismo Autoritário. No que concerne ao populismo, Portugal está longe das elevadas percentagens dos países onde partidos populistas lideram o governo – o FIDESZ na Húngria, o Pis na Polónia e o Syriza na Grécia – mas também está muito afastado de Estados da União Europeia onde não existe populismo ou onde o seu valor é residual: Malta, Luxemburgo, Eslovénia, República da Irlanda… Portugal fica próximo da Espanha, da República Checa e da França. Ora, ainda não se calaram os ecos do perigo que representava o populismo de Marine Le Pen e da sua Frente Nacional para a França e para a União Europeia na recente eleição presidencial francesa. Sendo certo que 20,5% de populismo não é suficiente para que Portugal deixe de ser considerado como uma democracia – o Índice de Democracia era 7,86 em 2016, bem na primeira metade das democracias imperfeitas – há que acompanhar com cuidado a evolução do populismo no nosso país. Porém, também aqui as posições divergem. Há cientistas, como Chantal Mouffe, a conselheira ideológica do PODEMOS e do Syriza, que defendem a necessidade de mais populismo de esquerda para combater o populismo de direita. Há outros estudiosos que continuam a ver o populismo, tanto de esquerda como de direita, como uma ameaça. Na minha opinião, há duas dimensões a contemplar no populismo: a existência e a intensidade.  A primeira não é questionável. A natureza impõe-se à condição humana. O nível alcançado pela segunda aconselha ao mea culpa por parte dos representantes eleitos. Uma condição necessária. O futuro dirá se suficiente.
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José Filipe Pinto
Populismo e Democracia: Dinâmicas Populistas na União Europeia
Edições Sílabo, 21,90€

Madalena de Castro Campos | La Mariée Mise à Nu


1- O que representa, no contexto da sua obra o livro “La Mariée Mise À Nu”?
R- Um livro é um livro que é só um livro. São palavras amalgamadas pela história, espartilhadas pela gramática e pelas convenções, mas que só vivem na história, na gramática e nas convenções. Este livro, com título tomado a Marchel Duchamp, é o espaço possível entre despir-me no meio da rua e morrer incógnita numa cama de hospital. Talvez seja as duas coisas.

2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- Fome, frio e solidão. Se eu confiasse suficientemente nas palavras, o livro teria sido prescindível, teriam bastado as três anteriores. Se confiasse suficientemente na carne, teria prescindido mesmo dessas três. Não confio nem nas palavras nem na carne. Escrevo sob ameaça. A primeira, que as palavras dos outros já tenham dito tudo. A segunda, que as palavras dos outros não tenham dito nada e que, por isso, nada haja a esperar delas. A terceira, que eu possa, a qualquer momento ser desmascarada como impostora da língua. Esforço-me por o ser.

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Nada. O mesmo que nos outros dias. Escrever à noite para apagar pela manhã, escrever pela manhã para vomitar à noite. Não é metafórico.
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Madalena Castro Campos
La Mariée Mise À Nu
Companhia das Ilhas

António Fernandes | Introdução à Economia


1- De que trata este livro «Introdução à Economia»?
R- Este livro apresenta os conceitos económicos de uma forma clara e sucinta, e está dividido em duas grandes partes, uma referente à Microeconomia e outra referente à Macroeconomia. No final de cada capítulo fornece exercícios resolvidos e exercícios propostos, com soluções, onde se poderão consolidar e confirmar os conhecimentos adquiridos. Fornece ainda um formulário sobre a parte de Macroeconomia, que pode ser útil como apoio à resolução de exercícios e de suporte prático a qualquer dúvida de terminologia.

2- Embora seja, na sua essência, um livro de apoio escolar a alunos do ensino superior, pensam que pode ambicionar a ser lido por um público mais vasto?
R- Sim. Em particular, o livro destina-se a estudantes de Economia ou de outros cursos em que se aborde o estudo da ciência económica, mas não deixará de ser útil para todos aqueles que pretendam adquirir conhecimento dos conceitos económicos, e de explorar de uma forma geral, os principais subtemas económicos relevantes da actualidade.
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António Fernandes/Elisabeth Pereira/João Paulo Bento/Margaita Robaina/Mara Madaleno
Introdução à Economia
Edições Sílabo, 26,40€

Miguel Soares de Albergaria | Rufina

1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro “Rufina”?
R- Reforça a concepção do ser humano como pessoa – isto é, como um ser que se constrói mediante as suas escolhas – não como absolutamente determinado por um factor inato e/ou outros adquiridos. Mas num processo que apenas se cumpre se respeitar um sentido (não subjectivo) da vida humana: o da dedicação de cada uma destas a alguma(s) obra(s) consistente(s) que ultrapasse(m) essa vida que se lhes vota. Teorias da relatividade, Capela Sistina, chefia do governo britânico durante a II G.M.... No caso da mulher real que foi M. Rufina Melo Tavares, na sua terrível circunstância familiar e económica, a obra foi a criação e educação do filho para que este viesse a constituir-se num homem autónomo e igualmente construtivo ou generoso. Este livro representa assim também um reconhecimento da extraordinariedade de todas essas pessoas anónimas que, sem qualquer expectativa de recompensa ou sequer consciência deste seu mérito, se votam a tais obras.

2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- A de que a nossa experiência íntima desse desenvolvimento pessoal se estrutura na mesma forma da narrativa. Pois, neste género de discurso, cada acção ou vivência concreta apresentada desenvolve algumas outras anteriores, ainda que às vezes por contraposição, mas sem que tivesse ficado absolutamente determinada por estas – por isso não era previsível – e é sucedida por outras ações ou vivências que igualmente a desenvolvem sem que ela as tivesse porém determinado. Numa narrativa bem resolvida, como numa vida que o seja, um caminho se vai assim progressivamente delineando sob a sequência da maioria dos passos, ou dos mais significativos – haverá sempre alguns dados ao lado… Até que aquele passo que enfim a culmina, à narrativa como à vida, não sendo claramente previsível até à iminência de ser dado, neste instante se revela afinal como necessário por a partir dele se iluminar a unidade e sentido do caminho que a ele levou. Para exemplificar (excelentemente!) essa resolubilidade típica da narrativa posso referir o vol. 500 da Colecção Vampiro, Quem Matou o Almirante?, de Agatha Christie, D.L. Sayers, et al. Quanto à mesma forma de resolução agora na vida humana, julgo que um bom exemplo foi a de Maria Rufina. A forma mais directa, mais significativa de tratar o que disse na pergunta anterior seria pois a narrativa, de ficção e não historiográfica (ainda que inspirada numa história real), de um caso como o desta mulher. E não tanto qualquer argumentação abstracta. Daí este livro.

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- De um lado, estou a rever um texto já publicado, e a preparar outros, de fundamentação e análise teórica de algumas ideias como essa que creio ter ficado sugerida em "Rufina". De outro lado, mantenho num jornal uma coluna de introdução crítica às relações entre ciência, tecnologia e sociedade; e participo noutro jornal numa coluna de intervenção política. De outro lado ainda, nas intermitências desses trabalhos, vou tomando notas para um regresso à narrativa de ficção, também histórica, e sobre um tema próximo ao deste livro: a perspectiva da vida a partir do facto da morte.
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Miguel Soares de Albergaria
Rufina
Companhia das Ilhas, 12€

Isabel Valadão | O Rio das Pérolas

1- O que representa, no contexto da sua obra o livro “O Rio das Pérolas”?
R - O Rio das Pérolas é um romance que nasce da minha passagem por Macau há muito tempo, durante alguns anos. Quis, sobretudo, sair por um instante de Angola, mas sem a esquecer. Fiz uma investigação por papelada antiga e encontrei aquilo que foi o suficiente para o escrever. É, portanto, um romance histórico porque retrata uma época, uma brevíssima passagem no tempo, um drama certamente mas, sobretudo, uma história que não é original naquelas paragens por onde a mulher está ainda longe, mesmo nos nossos dias, de atingir uma maioridade plena. Ao criar os personagens da minha história recordei-me de gente que conheci, famosa, notável – ou nem por isso. Nenhuma é real e, no entanto, existiram todas porque por toda a parte há gente com os mesmos problemas, as mesmas certezas e as mesmas dúvidas…

2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R - A ideia é sempre a de uma figura feminina que sobressai, que se projeta para além de si própria, que permanece na memória das pessoas para lá do seu tempo. Encaixar essa figura feminina nas coordenadas que resultam da minha vivência durante esses anos no Território sob administração portuguesa, em instituições, lugares e momentos foi o menos fácil mas proporcionou-me um enorme prazer, como escritora, criar personagens semelhantes nas ansiedades e nos afectos, nas dificuldades e na vida, de uma maneira geral, às da vida real, quase palpáveis, quase reais…

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R – Estou a preparar dois romances. Num deles voltarei a África, sempre a África dos meus amores. No outro, seguramente voltarei ao Oriente, uma sequela d’«O Rio das Pérolas». Muito ficou por dizer sobre Macau e os seus mistérios.
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Isabel Valadão
O Rio das Pérolas
Bertrand, 16,60€

Mário Cabral | O Mistério da Casa Indeterminada

1- O que representa, no contexto da sua obra o livro “O Mistério da Casa Indeterminada”?
R- Em muitos aspectos, representa a minha entrada na maturidade, enquanto artista, em geral.

2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- É um livro com muitas camadas, na medida em que foi escrito e reescrito ao longo de muitos anos. O ponto de partida foi a definição de obra de arte; mas, ao longo dos anos, o romance impôs-se a si próprio, como, aliás, costuma acontecer, e não está certo dizer que esta ideia original seja sequer a coluna dorsal da obra, embora permaneça uma das suas temáticas essenciais.

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Tenho sempre entre mãos muitas coisas, ao mesmo tempo. Mas aquela que me obceca mais é Casa das Tramóias, uma trilogia que tenho pela minha "opera omnia", uma espécie de sinfonia de longo curso, e basto, em forma espiral, onde treino o discurso da sabedoria, por assim dizer. Ou seja: onde quero que entre tudo e não me dispenso da liberdade criativa absoluta. Já vou no segundo volume.
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Mário Cabral
O Mistério da Casa Indeterminada
Companhia das Ilhas, 15€

Orlando Raimundo | O Último Salazarista

1- O que traz de novo o seu livro sobre a vida, a personalidade e o papel de Américo Thomaz no nosso país?
R- Tudo ou quase tudo, depende dos leitores. Os leitores com mais de 60 anos, que recordam Américo Thomaz como uma figura patética, o anedótico "corta-fitas", irão descobrir que estão enganados, que Thomaz teve poder e exerceu-o. Os outros, os mais jovens, irão perceber, através desta figura caricata, o que levou as gerações que os antecederam a rejeitar o regime autoritário do Estado Novo e por que são tão importantes a liberdade e a democracia.

2- Conhecendo bem a sua trajectória e influência, considera que Américo Thomaz foi apenas uma «figura patética» ou, pelo contrário, teve um peso e um papel significativos em momentos da história de Portugal?
R- Thomaz era um dissimulado, um oportunista, um videirinhas que se fazia de parvo, mas não era. O seu papel foi decisivo em 1961, quando traiu o general Botelho Moniz e fez abortar o Golpe de Estado contra Salazar, que poderia ter sido uma antecipação do 25 de Abril; e foi determinante em 1968, quando obrigou Marcello Caetano a não abrir mão das colónias e condenou a sua "primavera" ao fracasso.

3- O que mais o surpreendeu no ex-Chefe de Estado à medida que foi aprofundando a sua pesquisa para este livro?
R- A firmeza com que assumiu a herança de Salazar e amarrou Marcello Caetano ao mastro na nau imperial, o que não é pouca coisa para um homem com antecedentes de cobardia.
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Orlando Raimundo
O Último Salazarista. A Outra Face de Américo Thomaz
Publicações D. Quixote, 15,90€

Felipe Folgosi | Aurora

1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro de banda desenhada “Aurora”?
R- Trabalho como ator há mais de vinte anos, já havia escrito peças de teatro, colaborado com jornais e escrito vários guiões de cinema, mas o Aurora foi minha primeira banda desenhada publicada, o que para mim, como fã de BD, é uma grande realização pessoal. É um grande prazer poder dividir um sonho de tantos anos com o público e receber o retorno que tem sido muito positivo.

2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- Uma ex namorada um dia notou que tenho muitos sinais de nascença e de brincadeira peguei uma caneta e comecei a "ligar os pontos", que acabaram por formar padrões geométricos. Isso me deu a ideia de como seria se alguém fosse ao hospital fazer exames, como uma tomografia por exemplo, e o resultado mostrasse um padrão exatamente igual ao de uma constelação gravado em seu corpo. Essa foi a ideia inicial. A partir daí busquei criar uma teoria unindo astronomia, física, biologia e medicina que apesar de obviamente fictícia, fosse coerente e tivesse uma lógica interna que conduzisse o leitor através da história de um pescador português que em alto mar presencia um fenômeno astronômico que o transforma no próximo passo da evolução humana.

3- Pensando no futuro: o que está a preparar neste momento?
R- Entre junho e julho devo lançar minha segunda banda desenhada, chamada Comunhão, que é uma história de suspense com terror psicológico, sobre um time de corridas de aventura que se perde nas selvas brasileiras e tem que literalmente correr pelas próprias vidas, tudo com muita ação e algumas decapitações. Será em preto e branco, com 134 páginas desenhadas pelo JB Bastos, que já desenhou para títulos da Legendary Comics. Espero também poder lançar o Comunhão em Portugal, quem sabe até pessoalmente em alguma convenção de bandas desenhadas para ter um contato direto com o público português.
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Felipe Folgosi
Aurora 
Instituto dos Quadradinhos, 12,90€

Compreender e enquadrar o Islão

Compreender e enquadrar historicamente o Islão enquanto ideologia política, no seu seio e na relação com o resto do mundo. O autor dividiu este livro em seis lições para colocar me cima da mesa da discussão e da interpretação do fenómeno muito para além do tema do terrorismo.
Para o resto do mundo, num contexto de guerra mais ou menos e de terrorismo, o islamismo é um inimigo a abater.
Com a leitura deste livro somos, pelo menos, convidados a reflectir sobre um conjunto de acontecimentos (nem todos conhecidos ou valorizados) e de factos que nos permitem olhar para tudo isto com a espessura do tempo e as marcas da história.
E, naturalmente resulta muito claro que leituras a preto e branco serão, muitas vezes precipitadas e parcelares. 
John M. Owen faz uma abordagem séria e bem documentada. Numa questão tão delicada e complexa, não é possível uma postura se neutralidade. Mas o autor esforça-se por nos mostrar o Islamismo: o que é, como nasceu, como evoluiu, como lutou pela sua afirmação e influência.
Uma obra em que Owen apresenta as múltiplas facetas de uma "ideologia complexa e robusta" que "não pode ser entendida sem uma referência à mais ampla ideologia que ela constitui uma reacção: o sectarismo".
Finalmente, a visão de Owen sustenta que conhecer, compreender e relacionar-se com os povos e os estados do Islamismo obrigará a que o Ocidente também reflicta sobre si próprio, a sua diplomacia e a essência do seu modo de vida: a democracia, o respeito pela diferença, a tolerância, os princípios e os valores dos direitos humanos que são estruturantes e não negociáveis. Enfim, um desafio enorme.
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John M. Owen
O Islão Político. Ontem e Hoje
Bertrand, 18,80€

João Teixeira Lopes | As Classes Populares


1-De que trata este vosso livro "As Classes Populares"?
R-O livro aborda os modos de vida, as práticas sociais e os constrangimentos materiais do universo das classes populares, que representa cerca de 2/3 da população portuguesa, percorrendo domínios como a distribuição do rendimento, o emprego, a educação, a mobilidade, a cultura, a alimentação ou a exposição à pobreza.

2-Como podemos caracterizar o modo de produção e reprodução das desigualdades em Portugal?
R-Existe uma forte dualização social no nosso país, concentrando riqueza num grupo restrito e pauperizando 2/3 da população. A desigualdade produz-se nessa assimetria, que tem nos cortes salariais, na privatização dos serviços públicos, na precariedade e na desregulação laboral alguns dos seus principais pilares. Reproduz-se, por outro lado, através da criação de um pensamento e de um senso comum conservador, que apenas permite às classes populares um entretenimento mercantilizado e sem produção de novidade e resistência (fazemos, a esse respeito, uma análise de um exemplo: a música pimba), prolongando a subordinação às ideias hegemónicas.

3-Em que sentido apontam as conclusões da vossa pesquisa: é inevitável esta situação continuar no futuro ou há alternativa?
R-O livro não faz previsões nem profecias...Mas lança pistas. Uma delas é o capítulo sobre "os dias loucos" entre o 25 de abril e o 1º de maio, pelo olhar da imprensa de então. Na História, há momentos de polarização, encruzilhada e bifurcação que mudam a vida.
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João Teixeira Lopes/Francisco Louçã/Lígia Ferro
As Classes Populares
Bertrand, 17,70€

Frederico Lourenço | Bíblia


1-A sua tradução da Bíblia é um grande desafio em todos os sentidos: o que mais o motivou quando decidiu fazer este projecto?
R- A motivação principal foi conhecer melhor (e dar a conhecer melhor) as palavras da Bíblia sob uma perspectiva histórico-linguística. Senti que fazia falta no nosso meio uma tradução empreendida com esse objectivo.

2-Em relação às muitas edições já existentes, o que diferencia a sua?
R- A grande diferença parte do facto de eu não ser padre católico nem pastor protestante, mas sim um helenista que estuda o Novo Testamento enquanto literatura grega. Atenho-me ao texto em si, às suas características linguísticas e histórico-literárias. Interessa-me também a história do texto, sobretudo no que toca aos seus manuscritos mais antigos.

3-Consegue dar três boas razões que mobilizem um leitor comum para ler os seis volumes desta obra?
R- Num país como o nosso em que as pessoas não têm o hábito de ler a Bíblia, penso que este projecto em seis volumes oferece um itinerário de leitura, que permite às pessoas irem lendo a Bíblia por etapas, dando atenção a cada um dos 80 livros que compõem a versão grega. Penso que as pessoas encontrarão muitos elementos e informações que as vão surpreender.
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Frederico Lourenço (Tradução do grego, apresentação, notas e comentários)
Bíblia-I e Bíblia-II
Quetzal, 19,90€+22,20€
(Edição em seis volumes: 1 e 2 já disponíveis nas livrarias)

Francisco Moita Flores | O Mensageiro do Rei

1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro “O Mensageiro do Rei”?
R- É um romance sobre um tempo pouco conhecido, tal foi a rapidez com que passou o reinado de D. Manuel II. Porém, é um texto de evocação de memórias e de aventura pelos estranhos caminhos do amor. Do amor impossível de D. Manuel II, dos amores impossíveis quando se vive um tempo de tumulto e frenesim que teria o seu ponto alto com a implantação da República.

2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- Desvendar um pouco do Portugal desconhecido que, ainda hoje, nos habita, pese ter passado mais de um século. Aliás, ajuda a explicar aquilo que somos hoje. A mesma pobreza, o mesmo subdesenvolvimento, as mesmas lutas políticas inócuas e sem objectivos nacionais. Por outro lado, queria comemorar os meus trinta e cinco anos de carreira literária com uma história diferente, onde me partilhasse com os meus leitores. Daí o recurso ao cinema, a narrativas dramáticas muito teatrais ou televisivas, sem nunca abandonar o fio condutor da história que vos entrego n'O Mensageiro do Rei.

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Neste momento tenho projectos, mas não estou a escrever. Este romance foi lançado há cinco dias e ainda estou muito envolvido com os seus personagens e enredo. Preciso de tempo de para respirar. Depois se verá.
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Francisco Moita Flores
O Mensageiro do Rei
Casa das Letras, 16,90€

Gonçalo M. Tavares | A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado


1-A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado é o primeiro livro de um novo mundo, o das Mitologias. Em que consiste este mundo das Mitologias?
R-  Este é um universo que será bem largo. Em A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado surgem personagens que estarão também presentes nos livros seguintes. E várias outras personagens irão aparecer. É uma ficção que se passa num tempo mitológico. Um tempo que até pode tocar em acontecimentos da história que reconhecemos, mas que os recoloca numa energia narrativa completamente diferente – em que não interessam datas, nem o antes nem o depois. E há uma certa velocidade narrativa. A ideia de que o destino avança sem análises porque não há tempo; as personagens agem ou reagem ao que vai acontecendo. É um regresso ao Era uma Vez colocado num tempo mítico, que mistura datas e troca ordens narrativas, num espaço sem localização geográfica. Há uma suspensão das leis físicas normais. Há uma outra lógica, outras leis narrativas. É um espaço de liberdade.

2- O que pretende transmitir através das personagens do seu livro?
R- Este livro, cada um dos capítulos, pode ter diferentes interpretações. Mas as interpretações pertencem ao leitor. Eu apenas quis escrever o que escrevi. Não há simbolismos, nunca uso simbolismos. Uma coisa não quer significar outra. Os acontecimentos são o que são. Aqui estamos diante de uma narrativa pura, de um contar de acontecimentos. O centro destas mitologias é, em parte, a energia da narrativa tradicional que relata o que aconteceu sem análises. As repetições, as lengalengas, tudo isso me interessa aqui. Nestas mitologias, animais, humanos, natureza, objectos, máquinas e espaços estão ao mesmo nível. Podem ser personagens.Os nomes das personagens estão muitas vezes ligados às suas acções, à sua aparência física. Com excepção dos cinco meninos que têm nomes próprios e que talvez se constituam como uma resistência do humano naquele mundo mítico. Os Cinco-Meninos serão em livros seguintes personagens centrais destas Mitologias.

3- De que forma este livro se enquadra na sua obra?
R- Vejo estas Mitologias que agora começam como algo, talvez, paralelo ao Reino. Neste caso, estamos num espaço mitológico e do mundo do impossível, mas talvez A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado seja também um estudo sobre o mal, sobre a desordem, sobre as tentações do humano. Mas, claro, com uma lógica completamente diferente da lógica do mundo real. Há uma suspensão da História. As Mitologias são, de certa maneira, uma segunda História que mistura factos concretos, reais, com ficções puras, com impossibilidades. Mas é mesmo uma nova história, não quer interpretar nem explicar a outra. É uma nova narrativa colocada num lugar onde quase tudo é possível.
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Gonçalo M. Tavares
A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado 
Bertrand, 15,50€

Bruno Vieira Amaral | Hoje Estarás Comigo no Paraíso

1- Depois de (como no seu caso) o grande êxito de um primeiro romance, diz-se que o difícil é escrever um segundo. Confirma: foi complicado escrever este “Hoje Estarás Comigo no Paraíso”?
R- Foi complicado não por ser o segundo mas porque escrever um romance é complicado. Exige muito tempo e muita resistência à frustração.

2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro e como a desenvolveu?
R- Na origem deste livro estava uma pergunta: quem foi João Jorge? João Jorge era meu primo em segundo grau, quinze anos mais velho do que eu, e tudo o que eu sabia dele é que tinha sido assassinado há trinta anos nas hortas perto da minha casa. Pensei em escrever um livro de não-ficção, mas os factos que reuni trouxeram-me mais perguntas do que respostas e quando temos mais perguntas o melhor é escrevermos um romance.

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Estou a escrever um livro sobre os Transportes Colectivos do Barreiro, um livro sobre telenovelas e a lançar os alicerces de um livro sobre as formas de se matar em Portugal.
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Bruno Vieira Amaral
Hoje Estarás Comigo no Paraíso
Quetzal, 17,70€

J. Rentes de Carvalho: Melhor Livro de Ficção 2016

O prémio de Melhor Livro de Ficção/2016, da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), foi atribuído ao romance O Meças, de J. Rentes de Carvalho.
O romance O Meças conta uma história de violência e vingança, a de António Roque, homem atormentado, possuído pelo demónio das suas próprias memórias. As imagens do passado transformam-no num monstro capaz dos piores atos, maltratando a família e os mais próximos. Depois de anos emigrado na Alemanha, António Roque – o Meças – regressa à sua aldeia de origem. Com ele vivem o filho (que detesta) e a nora (a quem deseja, mas inferniza a vida), atemorizando, de resto, todos os que com ele se cruzam. Uma história de violência, em que a progressiva definição dos contornos da memória revelará novas e dolorosas verdades.
J. Rentes de Carvalho reagiu à atribuição do prémio de Melhor Livro de Ficção da Sociedade Portuguesa de Autores desta maneira:
«É muito o que se pode aprender na escola, e importante, se não essencial, o que se aprende no dia-a-dia. Esta afirmação faço-a eu sem autoridade nem experiência, antes por ouvir dizer. Na escola fui por vezes cábula e repontão, mas, sorte que me coube, entrei na vida e tenho andado neste mundo com passaporte de turista, alegremente e à ligeira. É assim que há quase nove décadas por cá passeio, interessado em ver, divertir-me e maravilhar-me, mas pouco hábil em participar, tendo apenas feito o indispensável para, sem grande embaraço meu ou irritação alheia, dar pouco nas vistas e manter uma aparência de funcionamento normal em sociedade.
Por conseguinte, espero que desculpem o meu laconismo, dado que, pelos motivos acima, é quase nula a experiência que tenho da recepção de prémios. Deram-me um em 1939, ao terminar a quarta classe – uma caderneta da Caixa com 50 escudos – e o segundo vim a recebê-lo em 2012, setenta e três anos depois.
Razão de sobra para agradecer à SPA o ter premiado O Meças, tanto mais que tenho ouvido dizer que é um mau livro, cheio de sombras e violência, mostrando um Portugal que não existe, e que nem um único dos seus personagens desperta uma ponta de simpatia.»
José Rentes de Carvalho nasceu em 1930, em Vila Nova de Gaia. Obrigado a abandonar o país por motivos políticos, viveu no Rio de Janeiro, em São Paulo, Nova Iorque e Paris, trabalhando para vários jornais.
Em 1956, passou a viver em Amesterdão, onde se licenciou e foi docente de Literatura Portuguesa, entre 1964 e 1988.
 Dedica-se, desde então, exclusivamente à escrita e a uma vasta colaboração em jornais portugueses, brasileiros, belgas e holandeses, além de várias revistas literárias. A sua extensa obra ficcional e cronista tem sido publicada na Holanda  – e finalmente em Portugal – e recebida com grande reconhecimento, quer por parte da crítica, quer por parte dos leitores em geral, tendo alguns títulos alcançado o estatuto de bestseller.
Os seus livros Com os Holandeses, Ernestina, A Amante Holandesa, Tempo Contado, La Coca, Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia, O Rebate, Mazagran, Mentiras e Diamantes, O Meças e A Ira de Deus Sobre a Europa foram todos editados pela Quetzal, que publicará em breve o novo romance A Sétima Onda.
J. Rentes de Carvalho foi distinguido, em 2012, com o Prémio APE – Associação Portuguesa de Escritores de Escrita Biográfica (com o livro Tempo Contado) e, em 2013, com o Prémio APE – Associação Portuguesa de para de Crónica, com Mazagran.
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J. Rentes de Carvalho na Novos Livros

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(C) Vieira da Silva

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