Carlos de Matos Gomes | Memória de uma Geração


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1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu livro “Geração D”?
R-Tenho a consciência de que pertenço a uma geração. Uma geração não se define apenas pela época do nascimento, mas pelo que o conjunto dos que nasceram e viveram num dado período viveu e pelo contributo que deu para a história da sua comunidade. A minha geração, a dos que nasceram nos anos do final da Segunda Guerra Mundial é uma geração de dilemas; o dilema da rutura com o salazarismo, com o país beato e fechado, que já nada nos dizia, o dilema da rutura com a ideia de império, a geração que é europeia, em que as mulheres rompem tradições de sujeição e começam a entrar em grande número paras as universidades, começam a ocupar posições que eram exclusivo dos homens. É a geração que defende o império e o encerra. E por ter vivido tantos dilemas, os dilemas da ida para a guerra, da vida e da morte, da separação, do conflito social entre os privilegiados e os obrigados, merecia uma crónica. Assumi ser o narrador e o protagonista.

 2-A geração que retrata no livro viveu intensamente a realidade e as contradições da segunda metade do século XX português: que balanço faz desse período desde o fim da segunda grande guerra mundial?
R-Pelo meu lado, pelo lado dos elementos da minha geração, julgo poder afirmar que valeu a pena termos feito as ruturas que fizemos, as ruturas políticas, sociais, de comportamentos. Portugal é hoje, graças a esta geração, um estado onde os portugueses, as gerações anteriores à nossa e as que se seguem à nossa, um país onde somos formalmente senhores do nosso destino, o que não acontecia. Pelo nosso lado vivemos uma extraordinária aventura coletiva com uma revolução e uma contrarrevolução, com a integração no espaço civilizacional da Europa, de que somos parte. Sinto-me como o adolescente que recebeu a chave de casa dos pais e que passou a ser responsável pelo que me acontece.

3-Agora que estamos a comemorar os 50 anos do 25 de Abril, que memória guarda da revolução e do seu impacto na vida das pessoas da sua geração?
R-A revolução que nós vivemos, uma situação revolucionária de tipo libertário, constituiu uma experiência e uma oportunidade única, um acontecimento histórico que marca uma vida. Eu, pessoalmente, vivi as várias fases desse período, a guerra, a conspiração, a revolução e a pós-revolução. Julgo que os elementos desta geração, tal como eu, tiveram de tomar opções mais ou menos difíceis que os acompanharam ao longo da vida. A geração D é a dos divórcios, a dos desejos, a do conflito entre o direito à felicidade individual e o dever do contributo social. Se me perguntar o que me parece ter falhado, diria que a tomada de consciência da relação entre Direitos e Deveres. A geração D começou por ser uma geração de deveres, o dever de obediência do salazarismo e de luta por direitos, talvez por isso não tenha deixado suficientemente claro que os deveres continuam a ser a garantia dos direitos. Sempre os D.
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Carlos de Matos Gomes
Geração D
Porto Editora  18,85€

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