Miguel Soares de Albergaria | Rufina

1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro “Rufina”?
R- Reforça a concepção do ser humano como pessoa – isto é, como um ser que se constrói mediante as suas escolhas – não como absolutamente determinado por um factor inato e/ou outros adquiridos. Mas num processo que apenas se cumpre se respeitar um sentido (não subjectivo) da vida humana: o da dedicação de cada uma destas a alguma(s) obra(s) consistente(s) que ultrapasse(m) essa vida que se lhes vota. Teorias da relatividade, Capela Sistina, chefia do governo britânico durante a II G.M.... No caso da mulher real que foi M. Rufina Melo Tavares, na sua terrível circunstância familiar e económica, a obra foi a criação e educação do filho para que este viesse a constituir-se num homem autónomo e igualmente construtivo ou generoso. Este livro representa assim também um reconhecimento da extraordinariedade de todas essas pessoas anónimas que, sem qualquer expectativa de recompensa ou sequer consciência deste seu mérito, se votam a tais obras.

2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- A de que a nossa experiência íntima desse desenvolvimento pessoal se estrutura na mesma forma da narrativa. Pois, neste género de discurso, cada acção ou vivência concreta apresentada desenvolve algumas outras anteriores, ainda que às vezes por contraposição, mas sem que tivesse ficado absolutamente determinada por estas – por isso não era previsível – e é sucedida por outras ações ou vivências que igualmente a desenvolvem sem que ela as tivesse porém determinado. Numa narrativa bem resolvida, como numa vida que o seja, um caminho se vai assim progressivamente delineando sob a sequência da maioria dos passos, ou dos mais significativos – haverá sempre alguns dados ao lado… Até que aquele passo que enfim a culmina, à narrativa como à vida, não sendo claramente previsível até à iminência de ser dado, neste instante se revela afinal como necessário por a partir dele se iluminar a unidade e sentido do caminho que a ele levou. Para exemplificar (excelentemente!) essa resolubilidade típica da narrativa posso referir o vol. 500 da Colecção Vampiro, Quem Matou o Almirante?, de Agatha Christie, D.L. Sayers, et al. Quanto à mesma forma de resolução agora na vida humana, julgo que um bom exemplo foi a de Maria Rufina. A forma mais directa, mais significativa de tratar o que disse na pergunta anterior seria pois a narrativa, de ficção e não historiográfica (ainda que inspirada numa história real), de um caso como o desta mulher. E não tanto qualquer argumentação abstracta. Daí este livro.

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- De um lado, estou a rever um texto já publicado, e a preparar outros, de fundamentação e análise teórica de algumas ideias como essa que creio ter ficado sugerida em "Rufina". De outro lado, mantenho num jornal uma coluna de introdução crítica às relações entre ciência, tecnologia e sociedade; e participo noutro jornal numa coluna de intervenção política. De outro lado ainda, nas intermitências desses trabalhos, vou tomando notas para um regresso à narrativa de ficção, também histórica, e sobre um tema próximo ao deste livro: a perspectiva da vida a partir do facto da morte.
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Miguel Soares de Albergaria
Rufina
Companhia das Ilhas, 12€

Isabel Valadão | O Rio das Pérolas

1- O que representa, no contexto da sua obra o livro “O Rio das Pérolas”?
R - O Rio das Pérolas é um romance que nasce da minha passagem por Macau há muito tempo, durante alguns anos. Quis, sobretudo, sair por um instante de Angola, mas sem a esquecer. Fiz uma investigação por papelada antiga e encontrei aquilo que foi o suficiente para o escrever. É, portanto, um romance histórico porque retrata uma época, uma brevíssima passagem no tempo, um drama certamente mas, sobretudo, uma história que não é original naquelas paragens por onde a mulher está ainda longe, mesmo nos nossos dias, de atingir uma maioridade plena. Ao criar os personagens da minha história recordei-me de gente que conheci, famosa, notável – ou nem por isso. Nenhuma é real e, no entanto, existiram todas porque por toda a parte há gente com os mesmos problemas, as mesmas certezas e as mesmas dúvidas…

2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R - A ideia é sempre a de uma figura feminina que sobressai, que se projeta para além de si própria, que permanece na memória das pessoas para lá do seu tempo. Encaixar essa figura feminina nas coordenadas que resultam da minha vivência durante esses anos no Território sob administração portuguesa, em instituições, lugares e momentos foi o menos fácil mas proporcionou-me um enorme prazer, como escritora, criar personagens semelhantes nas ansiedades e nos afectos, nas dificuldades e na vida, de uma maneira geral, às da vida real, quase palpáveis, quase reais…

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R – Estou a preparar dois romances. Num deles voltarei a África, sempre a África dos meus amores. No outro, seguramente voltarei ao Oriente, uma sequela d’«O Rio das Pérolas». Muito ficou por dizer sobre Macau e os seus mistérios.
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Isabel Valadão
O Rio das Pérolas
Bertrand, 16,60€

Mário Cabral | O Mistério da Casa Indeterminada

1- O que representa, no contexto da sua obra o livro “O Mistério da Casa Indeterminada”?
R- Em muitos aspectos, representa a minha entrada na maturidade, enquanto artista, em geral.

2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- É um livro com muitas camadas, na medida em que foi escrito e reescrito ao longo de muitos anos. O ponto de partida foi a definição de obra de arte; mas, ao longo dos anos, o romance impôs-se a si próprio, como, aliás, costuma acontecer, e não está certo dizer que esta ideia original seja sequer a coluna dorsal da obra, embora permaneça uma das suas temáticas essenciais.

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Tenho sempre entre mãos muitas coisas, ao mesmo tempo. Mas aquela que me obceca mais é Casa das Tramóias, uma trilogia que tenho pela minha "opera omnia", uma espécie de sinfonia de longo curso, e basto, em forma espiral, onde treino o discurso da sabedoria, por assim dizer. Ou seja: onde quero que entre tudo e não me dispenso da liberdade criativa absoluta. Já vou no segundo volume.
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Mário Cabral
O Mistério da Casa Indeterminada
Companhia das Ilhas, 15€

Orlando Raimundo | O Último Salazarista

1- O que traz de novo o seu livro sobre a vida, a personalidade e o papel de Américo Thomaz no nosso país?
R- Tudo ou quase tudo, depende dos leitores. Os leitores com mais de 60 anos, que recordam Américo Thomaz como uma figura patética, o anedótico "corta-fitas", irão descobrir que estão enganados, que Thomaz teve poder e exerceu-o. Os outros, os mais jovens, irão perceber, através desta figura caricata, o que levou as gerações que os antecederam a rejeitar o regime autoritário do Estado Novo e por que são tão importantes a liberdade e a democracia.

2- Conhecendo bem a sua trajectória e influência, considera que Américo Thomaz foi apenas uma «figura patética» ou, pelo contrário, teve um peso e um papel significativos em momentos da história de Portugal?
R- Thomaz era um dissimulado, um oportunista, um videirinhas que se fazia de parvo, mas não era. O seu papel foi decisivo em 1961, quando traiu o general Botelho Moniz e fez abortar o Golpe de Estado contra Salazar, que poderia ter sido uma antecipação do 25 de Abril; e foi determinante em 1968, quando obrigou Marcello Caetano a não abrir mão das colónias e condenou a sua "primavera" ao fracasso.

3- O que mais o surpreendeu no ex-Chefe de Estado à medida que foi aprofundando a sua pesquisa para este livro?
R- A firmeza com que assumiu a herança de Salazar e amarrou Marcello Caetano ao mastro na nau imperial, o que não é pouca coisa para um homem com antecedentes de cobardia.
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Orlando Raimundo
O Último Salazarista. A Outra Face de Américo Thomaz
Publicações D. Quixote, 15,90€

Felipe Folgosi | Aurora

1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro de banda desenhada “Aurora”?
R- Trabalho como ator há mais de vinte anos, já havia escrito peças de teatro, colaborado com jornais e escrito vários guiões de cinema, mas o Aurora foi minha primeira banda desenhada publicada, o que para mim, como fã de BD, é uma grande realização pessoal. É um grande prazer poder dividir um sonho de tantos anos com o público e receber o retorno que tem sido muito positivo.

2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- Uma ex namorada um dia notou que tenho muitos sinais de nascença e de brincadeira peguei uma caneta e comecei a "ligar os pontos", que acabaram por formar padrões geométricos. Isso me deu a ideia de como seria se alguém fosse ao hospital fazer exames, como uma tomografia por exemplo, e o resultado mostrasse um padrão exatamente igual ao de uma constelação gravado em seu corpo. Essa foi a ideia inicial. A partir daí busquei criar uma teoria unindo astronomia, física, biologia e medicina que apesar de obviamente fictícia, fosse coerente e tivesse uma lógica interna que conduzisse o leitor através da história de um pescador português que em alto mar presencia um fenômeno astronômico que o transforma no próximo passo da evolução humana.

3- Pensando no futuro: o que está a preparar neste momento?
R- Entre junho e julho devo lançar minha segunda banda desenhada, chamada Comunhão, que é uma história de suspense com terror psicológico, sobre um time de corridas de aventura que se perde nas selvas brasileiras e tem que literalmente correr pelas próprias vidas, tudo com muita ação e algumas decapitações. Será em preto e branco, com 134 páginas desenhadas pelo JB Bastos, que já desenhou para títulos da Legendary Comics. Espero também poder lançar o Comunhão em Portugal, quem sabe até pessoalmente em alguma convenção de bandas desenhadas para ter um contato direto com o público português.
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Felipe Folgosi
Aurora 
Instituto dos Quadradinhos, 12,90€

Compreender e enquadrar o Islão

Compreender e enquadrar historicamente o Islão enquanto ideologia política, no seu seio e na relação com o resto do mundo. O autor dividiu este livro em seis lições para colocar me cima da mesa da discussão e da interpretação do fenómeno muito para além do tema do terrorismo.
Para o resto do mundo, num contexto de guerra mais ou menos e de terrorismo, o islamismo é um inimigo a abater.
Com a leitura deste livro somos, pelo menos, convidados a reflectir sobre um conjunto de acontecimentos (nem todos conhecidos ou valorizados) e de factos que nos permitem olhar para tudo isto com a espessura do tempo e as marcas da história.
E, naturalmente resulta muito claro que leituras a preto e branco serão, muitas vezes precipitadas e parcelares. 
John M. Owen faz uma abordagem séria e bem documentada. Numa questão tão delicada e complexa, não é possível uma postura se neutralidade. Mas o autor esforça-se por nos mostrar o Islamismo: o que é, como nasceu, como evoluiu, como lutou pela sua afirmação e influência.
Uma obra em que Owen apresenta as múltiplas facetas de uma "ideologia complexa e robusta" que "não pode ser entendida sem uma referência à mais ampla ideologia que ela constitui uma reacção: o sectarismo".
Finalmente, a visão de Owen sustenta que conhecer, compreender e relacionar-se com os povos e os estados do Islamismo obrigará a que o Ocidente também reflicta sobre si próprio, a sua diplomacia e a essência do seu modo de vida: a democracia, o respeito pela diferença, a tolerância, os princípios e os valores dos direitos humanos que são estruturantes e não negociáveis. Enfim, um desafio enorme.
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John M. Owen
O Islão Político. Ontem e Hoje
Bertrand, 18,80€

João Teixeira Lopes | As Classes Populares


1-De que trata este vosso livro "As Classes Populares"?
R-O livro aborda os modos de vida, as práticas sociais e os constrangimentos materiais do universo das classes populares, que representa cerca de 2/3 da população portuguesa, percorrendo domínios como a distribuição do rendimento, o emprego, a educação, a mobilidade, a cultura, a alimentação ou a exposição à pobreza.

2-Como podemos caracterizar o modo de produção e reprodução das desigualdades em Portugal?
R-Existe uma forte dualização social no nosso país, concentrando riqueza num grupo restrito e pauperizando 2/3 da população. A desigualdade produz-se nessa assimetria, que tem nos cortes salariais, na privatização dos serviços públicos, na precariedade e na desregulação laboral alguns dos seus principais pilares. Reproduz-se, por outro lado, através da criação de um pensamento e de um senso comum conservador, que apenas permite às classes populares um entretenimento mercantilizado e sem produção de novidade e resistência (fazemos, a esse respeito, uma análise de um exemplo: a música pimba), prolongando a subordinação às ideias hegemónicas.

3-Em que sentido apontam as conclusões da vossa pesquisa: é inevitável esta situação continuar no futuro ou há alternativa?
R-O livro não faz previsões nem profecias...Mas lança pistas. Uma delas é o capítulo sobre "os dias loucos" entre o 25 de abril e o 1º de maio, pelo olhar da imprensa de então. Na História, há momentos de polarização, encruzilhada e bifurcação que mudam a vida.
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João Teixeira Lopes/Francisco Louçã/Lígia Ferro
As Classes Populares
Bertrand, 17,70€

Frederico Lourenço | Bíblia


1-A sua tradução da Bíblia é um grande desafio em todos os sentidos: o que mais o motivou quando decidiu fazer este projecto?
R- A motivação principal foi conhecer melhor (e dar a conhecer melhor) as palavras da Bíblia sob uma perspectiva histórico-linguística. Senti que fazia falta no nosso meio uma tradução empreendida com esse objectivo.

2-Em relação às muitas edições já existentes, o que diferencia a sua?
R- A grande diferença parte do facto de eu não ser padre católico nem pastor protestante, mas sim um helenista que estuda o Novo Testamento enquanto literatura grega. Atenho-me ao texto em si, às suas características linguísticas e histórico-literárias. Interessa-me também a história do texto, sobretudo no que toca aos seus manuscritos mais antigos.

3-Consegue dar três boas razões que mobilizem um leitor comum para ler os seis volumes desta obra?
R- Num país como o nosso em que as pessoas não têm o hábito de ler a Bíblia, penso que este projecto em seis volumes oferece um itinerário de leitura, que permite às pessoas irem lendo a Bíblia por etapas, dando atenção a cada um dos 80 livros que compõem a versão grega. Penso que as pessoas encontrarão muitos elementos e informações que as vão surpreender.
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Frederico Lourenço (Tradução do grego, apresentação, notas e comentários)
Bíblia-I e Bíblia-II
Quetzal, 19,90€+22,20€
(Edição em seis volumes: 1 e 2 já disponíveis nas livrarias)

Francisco Moita Flores | O Mensageiro do Rei

1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro “O Mensageiro do Rei”?
R- É um romance sobre um tempo pouco conhecido, tal foi a rapidez com que passou o reinado de D. Manuel II. Porém, é um texto de evocação de memórias e de aventura pelos estranhos caminhos do amor. Do amor impossível de D. Manuel II, dos amores impossíveis quando se vive um tempo de tumulto e frenesim que teria o seu ponto alto com a implantação da República.

2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- Desvendar um pouco do Portugal desconhecido que, ainda hoje, nos habita, pese ter passado mais de um século. Aliás, ajuda a explicar aquilo que somos hoje. A mesma pobreza, o mesmo subdesenvolvimento, as mesmas lutas políticas inócuas e sem objectivos nacionais. Por outro lado, queria comemorar os meus trinta e cinco anos de carreira literária com uma história diferente, onde me partilhasse com os meus leitores. Daí o recurso ao cinema, a narrativas dramáticas muito teatrais ou televisivas, sem nunca abandonar o fio condutor da história que vos entrego n'O Mensageiro do Rei.

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Neste momento tenho projectos, mas não estou a escrever. Este romance foi lançado há cinco dias e ainda estou muito envolvido com os seus personagens e enredo. Preciso de tempo de para respirar. Depois se verá.
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Francisco Moita Flores
O Mensageiro do Rei
Casa das Letras, 16,90€

Gonçalo M. Tavares | A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado


1-A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado é o primeiro livro de um novo mundo, o das Mitologias. Em que consiste este mundo das Mitologias?
R-  Este é um universo que será bem largo. Em A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado surgem personagens que estarão também presentes nos livros seguintes. E várias outras personagens irão aparecer. É uma ficção que se passa num tempo mitológico. Um tempo que até pode tocar em acontecimentos da história que reconhecemos, mas que os recoloca numa energia narrativa completamente diferente – em que não interessam datas, nem o antes nem o depois. E há uma certa velocidade narrativa. A ideia de que o destino avança sem análises porque não há tempo; as personagens agem ou reagem ao que vai acontecendo. É um regresso ao Era uma Vez colocado num tempo mítico, que mistura datas e troca ordens narrativas, num espaço sem localização geográfica. Há uma suspensão das leis físicas normais. Há uma outra lógica, outras leis narrativas. É um espaço de liberdade.

2- O que pretende transmitir através das personagens do seu livro?
R- Este livro, cada um dos capítulos, pode ter diferentes interpretações. Mas as interpretações pertencem ao leitor. Eu apenas quis escrever o que escrevi. Não há simbolismos, nunca uso simbolismos. Uma coisa não quer significar outra. Os acontecimentos são o que são. Aqui estamos diante de uma narrativa pura, de um contar de acontecimentos. O centro destas mitologias é, em parte, a energia da narrativa tradicional que relata o que aconteceu sem análises. As repetições, as lengalengas, tudo isso me interessa aqui. Nestas mitologias, animais, humanos, natureza, objectos, máquinas e espaços estão ao mesmo nível. Podem ser personagens.Os nomes das personagens estão muitas vezes ligados às suas acções, à sua aparência física. Com excepção dos cinco meninos que têm nomes próprios e que talvez se constituam como uma resistência do humano naquele mundo mítico. Os Cinco-Meninos serão em livros seguintes personagens centrais destas Mitologias.

3- De que forma este livro se enquadra na sua obra?
R- Vejo estas Mitologias que agora começam como algo, talvez, paralelo ao Reino. Neste caso, estamos num espaço mitológico e do mundo do impossível, mas talvez A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado seja também um estudo sobre o mal, sobre a desordem, sobre as tentações do humano. Mas, claro, com uma lógica completamente diferente da lógica do mundo real. Há uma suspensão da História. As Mitologias são, de certa maneira, uma segunda História que mistura factos concretos, reais, com ficções puras, com impossibilidades. Mas é mesmo uma nova história, não quer interpretar nem explicar a outra. É uma nova narrativa colocada num lugar onde quase tudo é possível.
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Gonçalo M. Tavares
A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado 
Bertrand, 15,50€

Bruno Vieira Amaral | Hoje Estarás Comigo no Paraíso

1- Depois de (como no seu caso) o grande êxito de um primeiro romance, diz-se que o difícil é escrever um segundo. Confirma: foi complicado escrever este “Hoje Estarás Comigo no Paraíso”?
R- Foi complicado não por ser o segundo mas porque escrever um romance é complicado. Exige muito tempo e muita resistência à frustração.

2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro e como a desenvolveu?
R- Na origem deste livro estava uma pergunta: quem foi João Jorge? João Jorge era meu primo em segundo grau, quinze anos mais velho do que eu, e tudo o que eu sabia dele é que tinha sido assassinado há trinta anos nas hortas perto da minha casa. Pensei em escrever um livro de não-ficção, mas os factos que reuni trouxeram-me mais perguntas do que respostas e quando temos mais perguntas o melhor é escrevermos um romance.

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Estou a escrever um livro sobre os Transportes Colectivos do Barreiro, um livro sobre telenovelas e a lançar os alicerces de um livro sobre as formas de se matar em Portugal.
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Bruno Vieira Amaral
Hoje Estarás Comigo no Paraíso
Quetzal, 17,70€

J. Rentes de Carvalho: Melhor Livro de Ficção 2016

O prémio de Melhor Livro de Ficção/2016, da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), foi atribuído ao romance O Meças, de J. Rentes de Carvalho.
O romance O Meças conta uma história de violência e vingança, a de António Roque, homem atormentado, possuído pelo demónio das suas próprias memórias. As imagens do passado transformam-no num monstro capaz dos piores atos, maltratando a família e os mais próximos. Depois de anos emigrado na Alemanha, António Roque – o Meças – regressa à sua aldeia de origem. Com ele vivem o filho (que detesta) e a nora (a quem deseja, mas inferniza a vida), atemorizando, de resto, todos os que com ele se cruzam. Uma história de violência, em que a progressiva definição dos contornos da memória revelará novas e dolorosas verdades.
J. Rentes de Carvalho reagiu à atribuição do prémio de Melhor Livro de Ficção da Sociedade Portuguesa de Autores desta maneira:
«É muito o que se pode aprender na escola, e importante, se não essencial, o que se aprende no dia-a-dia. Esta afirmação faço-a eu sem autoridade nem experiência, antes por ouvir dizer. Na escola fui por vezes cábula e repontão, mas, sorte que me coube, entrei na vida e tenho andado neste mundo com passaporte de turista, alegremente e à ligeira. É assim que há quase nove décadas por cá passeio, interessado em ver, divertir-me e maravilhar-me, mas pouco hábil em participar, tendo apenas feito o indispensável para, sem grande embaraço meu ou irritação alheia, dar pouco nas vistas e manter uma aparência de funcionamento normal em sociedade.
Por conseguinte, espero que desculpem o meu laconismo, dado que, pelos motivos acima, é quase nula a experiência que tenho da recepção de prémios. Deram-me um em 1939, ao terminar a quarta classe – uma caderneta da Caixa com 50 escudos – e o segundo vim a recebê-lo em 2012, setenta e três anos depois.
Razão de sobra para agradecer à SPA o ter premiado O Meças, tanto mais que tenho ouvido dizer que é um mau livro, cheio de sombras e violência, mostrando um Portugal que não existe, e que nem um único dos seus personagens desperta uma ponta de simpatia.»
José Rentes de Carvalho nasceu em 1930, em Vila Nova de Gaia. Obrigado a abandonar o país por motivos políticos, viveu no Rio de Janeiro, em São Paulo, Nova Iorque e Paris, trabalhando para vários jornais.
Em 1956, passou a viver em Amesterdão, onde se licenciou e foi docente de Literatura Portuguesa, entre 1964 e 1988.
 Dedica-se, desde então, exclusivamente à escrita e a uma vasta colaboração em jornais portugueses, brasileiros, belgas e holandeses, além de várias revistas literárias. A sua extensa obra ficcional e cronista tem sido publicada na Holanda  – e finalmente em Portugal – e recebida com grande reconhecimento, quer por parte da crítica, quer por parte dos leitores em geral, tendo alguns títulos alcançado o estatuto de bestseller.
Os seus livros Com os Holandeses, Ernestina, A Amante Holandesa, Tempo Contado, La Coca, Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia, O Rebate, Mazagran, Mentiras e Diamantes, O Meças e A Ira de Deus Sobre a Europa foram todos editados pela Quetzal, que publicará em breve o novo romance A Sétima Onda.
J. Rentes de Carvalho foi distinguido, em 2012, com o Prémio APE – Associação Portuguesa de Escritores de Escrita Biográfica (com o livro Tempo Contado) e, em 2013, com o Prémio APE – Associação Portuguesa de para de Crónica, com Mazagran.
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J. Rentes de Carvalho na Novos Livros

Livro do Ano 2016: Elena Ferrante

História da Menina Perdida, de Elena Ferrante, é o vencedor do Prémio Livro do Ano Bertrand. Lançado em Portugal, em 2016, pela editora Relógio d’Água, este é o quarto volume de uma colecção que conta a história das amigas Elena e Lila, acompanhando as suas vidas desde a infância, em Nápoles. A lista dos dez finalistas incluiu:
2-Vaticanum, de José Rodrigues dos Santos (Gradiva)
3-O Evangelho Segundo Lázaro, de Richard Zimler” (Porto Editora)
4-Nem Todas as Baleias Voam, de Afonso Cruz (Companhia das Letras)
5-Homens Imprudentemente Poéticos, de Valter Hugo Mãe (Porto Editora)
6-Uma Terra Chamada Liberdade, de Ken Follett (Editorial Presença)
7-Doutor Sono, de Stephen King (Bertrand Editora)
8-As Areias do Imperador, de Mia Couto (Editorial Caminho)
9-Prometo Perder, de Pedro Chagas Freitas (Marcador)
10-Como Vento Selvagem, de Sveva Casati Modignani (Porto Editora)

“Em Dezembro, a Livraria Bertrand lançou o primeiro prémio literário em Portugal atribuído pelos leitores e livreiros para distinguir uma obra em prosa editada em Portugal ao longo de 2016. Nesta primeira edição do Prémio do Livro do Ano Bertrand, contámos com cerca de 20.000 votos para aferir o livro preferido dos nossos leitores e livreiros, o que representa uma enorme vontade e interesse por parte de todos aqueles que lidam diariamente com livros e que ganharam voz para reconhecer publicamente os seus livros e autores preferidos”, afirma a representante da Livraria Bertrand.

Nuno Rogeiro | O Pacto Donald

1-De que trata este seu livro «O Pacto Donald»?
R- Donald Trump anunciou, em Gettysburgh (local histórico de um famoso discurso de Lincoln, no crepúsculo da Guerra Civil), o seu programa para «recuperar a América». O livro é sobre esse anunciado Pacto: trata-se realmente de um Novo Contrato com o Povo dos EUA, ou uma fraude? Por outro lado, trata-se de analisar a campanha eleitoral, as razões dos resultados, o problema das sondagens, do voto das minorias, a história do populismo nos EUA, uma reinterpretação da história política americana pelos olhos de um grande observador europeu do século XIX, Alexis de Tocqueville, a questão do colégio eleitoral e do federalismo perfeito, os erros e soluções certas das campanhas, nos estados decisivos, uma pequena história dos insultos em duelos presidenciais, a questão da «resistência» ao Trumpismo e, por fim, um ensaio de mais de 100 páginas sobre o que será a nova política externa e de defesa de Washington.

2-Endosso-lhe a pergunta que está na capa do livro: «Trump: 'Novo contrato com a América' ou Fraude»?
R- As promessas de Gettysburgh estão a ser cumpridas, sob a forma de ordens executivas. Mas ainda não vimos uma única lei a passar no Congresso. E a estrutura da política do estado só se consolida com leis. De qualquer modo, o livro explica o argumento de que há realmente um New Deal, e a arguição oposta, a de que se trata, sobretudo, de poeira eleitoral para os olhos do povo.

3-Por estes dias, a presença mediática de Trump é avassaladora. Podemos desde já afirmar que, nos livros de história do século XXI, vai haver uma era “antes" e uma era “depois” de Trump?
R- A era «antes» conhecemos. A «depois» só será avaliada pelo impacte desta presidência. Temos de esperar. Repare-se que ainda estamos divididos sobre o significado histórico de Barack Obama. Se Trump conseguir provar a sinceridade e eficácia das suas propostas, será celebrado por apoiantes e adversários. Se falhar no capítulo da sinceridade e da obra feita, só terá inimigos à sua volta. Inimigos que são a soma dos antigos adversários e dos antigos amigos.
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Nuno Rogeiro
O Pacto Donald - Trump: Novo Contrato com a América ou Fraude?
Pub. D. Quixote, 18,90€

André Freire | Para Lá da "Geringonça"

1-De que trata este seu livro "Para lá da 'Geringonça?"
R- Conforme documento abundantemente neste livro, as soluções governativas do tipo «governo de esquerdas», ou «governo de esquerda plural», como outros preferem chamar-lhe, tornaram-se relativamente comuns na Europa Ocidental depois da queda do Muro de Berlim, em 1989, e do colapso da União Soviética (URSS), em 1991. Em Portugal, porém, tal solução governativa (ao nível nacional) só chegou após as eleições legislativas de outubro de 2015, mais precisamente em 26 de novembro de 2015 (dia da tomada de posse do XXI Governo Constitucional), ou seja, cerca de vinte e seis anos depois da queda do Muro de Berlim. Portanto, a primeira questão se coloca, em Portugal, é a seguinte: porque é que, no nosso país, ao contrário de muitos outros países da Europa Ocidental, esta solução chegou tão tardiamente depois da queda do Muro de Berlim? E quais foram as causas desse atraso? E que fatores explicam a ocorrência desta solução governativa em finais de 2015? E, finalmente, que consequências terá para o funcionamento dos sistemas políticos democráticos a inclusão da esquerda radical na esfera governativa, quer em Portugal, quer na Europa? São estas as quatro questões fundamentais a que este livro procura dar resposta.

2- Somos mais conhecidos por importar ideias e modelos. Mas, com a "geringonça", estaremos a ser exportadores de um modelo?
R- Em certa medida, sim, há hoje um grande interesse dos mass media internacionais e da classe política europeia, sobretudo a mais alinhada à esquerda (socialistas/ sociais-democratas e esquerda radical) sobre a situação política portuguesa. Isso tem sido visível pela atenção que esses agentes têm dado à situação portuguesa, seja em artigos elogiosos e relevando bastante curiosidade, na imprensa internacional, seja em termos de visitas e de interesse geral de políticos europeus (de esquerdas) sobre o XXI governo constitucional português e a maioria que o suporta. Há três razões essenciais para isso. Por um lado, porque apesar de termos chegado atrasados à solução que eu chamo, e defino no livro, como «governo de esquerdas» (apesar de ser um governo minoritário do PS apoiado pelas esquerdas radicais no parlamento; o termo «esquerda radical» é aqui, e no livro, usado em sentido técnico, não pejorativo) somos hoje um caso pouco comum na europa ocidental. Segundo, porque por alianças de facto com a direita, ou por convergência ideológica e de políticas com o neoliberalismo, os socialistas/sociais-democratas vivem hoje uma grande e profunda crise na Europa, uma certa pasokização dos socialistas (em referência ao PASOK, Grego, que passou cerca de 40% do voto para cerca 4%-6%...), e uma nova política de alianças (com as esquerdas radicais) é vista como uma possível via de saída para tal crise… Finalmente, porque a solução portuguesa está funcionar relativamente bem, em termos económicos, em termos de cumprimentos das regras europeias, e em termos de satisfação dos cidadãos.

3- Como podemos enquadrar esta solução no quadro da ciência política e da realidade política nacional e europeia?
R- Como disse esta solução política era muito mais comum na Europa Ocidental nos anos que sucederam à queda do Muro de Berlim do que é hoje. Todavia, com a profunda crise dos partidos socialistas (explicada acima; em França, na Holanda, na Grécia, em Espanha, na Hungria, na Polónia, em Israel, etc.) e a ascensão dos populismos (no Ocidente), de direita e de esquerda, em boa medida devido à «neoliberalização dos socialistas», fruto da sua convergência ao centro, esta solução é vista como uma possível via de saída para superar o TINA (There Is No Alternative: «Não Há Alternativa», ao neoliberalismo…), e portanto para rumarmos a uma Europa mais social e mais democrática, e para ajudar a superar a profunda crise da social-democracia.
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André Freire
Para lá da “Geringonça”
Contraponto, 16,60€

José Magalhães | Políticos.pt


1-De que trata este seu novo livro?
R- Quis publicitar, preto no branco, quanto é que o Estado paga aos titulares dos mais importantes altos cargos da República. Cito leis e muitas outras fontes de informação (até indico a forma de as ler gratuitamente!), mas como o matagal jurídico é um labirinto confuso, o Guia ajuda a compreender coisas que surpreenderão muita gente. Exigem correcção e não silêncio.

2-Qual a principal ideia que gostava de transmitir aos seus leitores?
R- É preciso que haja justa paga pelo serviço público, mas o sistema remuneratório deve ser ajustado às possibilidades do país, cada cêntimo recebido deve ser publicitado num registo digital acessível a todos (como no Reino Unido) e as disfunções que inventariei corrigidas o mais depressa possível.

3-O afastamento da política, a má opinião que muitos cidadãos têm sobre os políticos tem a ver apenas com as remunerações ou há outros factores?
R- Há muitos outros. Os poderes nacionais perderam autoridade e competências. Zygmunt Bauman explica bem como essa perda a favor de mercados opacos e poderes incontrolados é perturbadora. Espera-se do deputado o que ele não pode dar. A crise de confiança supera-se reformando e não calando. Quis ajudar a quebrar esse silêncio perigoso.
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José Magalhães
Políticos.pt-Guia Prático das Remunerações de Altos Cargos da República
Aletheia, 14,90€


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Diga não ao cruel comércio da morte.