Filipa Fonseca Silva | Amanhece na Cidade

1 - Qual a sensação de ser a primeira autora portuguesa a entrar no Top 100 da Amazon?
R-É incrível. É ver o meu trabalho reconhecido a nível internacional, provando que há interesse nos autores portugueses um pouco por todo o mundo (nomeadamente nas autoras, que são sempre deixadas para segundo plano em Portugal). Foi também muito bom perceber que os temas que abordo nos meus livros não interessam apenas às pessoas de uma determinada região ou faixa etária. Tive excelentes críticas de leitores das mais diversas nacionalidades e idades, que se identificaram com as minhas personagens e com as histórias que conto.

2 - De que trata este seu livro «Amanhece na Cidade»?
R-Este quarto livro é um romance contemporâneo, que toca temas de sempre, como o amor e a redenção, e outros de agora, como a crise dos refugiados e a alienação da sociedade. É narrado por um táxi, que nos vai contanto as histórias de várias personagens que entram e saem pelas suas portas. Através dele, ficamos a conhecer a história de Manuel, o taxista que não sabe chorar, e das várias personagens que fazem parte dos seus dias: Olinda, a ama de duas crianças mal-educadas; Daisy, a stripper; João, o sem-abrigo, entre muitas outras. Foi desafiante escrever na perspectiva de um objecto e penso que essa particularidade torna este livro algo surpreendente.

3 - Que cidade é esta que amanhece no seu romance?
R- Lisboa. Nos meus livros anteriores nunca situei a acção numa cidade concreta, deixando propositadamente à imaginação dos leitores. Mas desta vez, quis prestar uma homenagem a Lisboa e às suas gentes.
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Filipa Fonseca Silva
Amanhece na Cidade
Bertrand   15,50€

(Primeiro livro de Filipa Fonseca Santos)

Tânia Reis Alves | A Minha Pátria é Moçambique

1-Como surgiu o seu interesse por Moçambique?
R- O meu interesse por Moçambique começou há cerca de dez anos quando, como jornalista, comecei a integrar as equipas de vários programas sobre História e cultura lusófonas transmitidos na RTP África. As imagens das paisagens que me iam chegando, as entrevistas que ia fazendo a moçambicanos e os livros do Mia Couto, que tão bem retratam as dores, as tradições e as pessoas daquele país alimentaram esse meu interesse. Acabei por conhecer Moçambique em 2013, altura em que viajei para Maputo como jornalista e produtora de uma série de documentários para a RTP África. Voltei no ano seguinte para fazer um programa sobre economia e outro sobre agricultura e em 2015 regressei mais uma vez para produzir um documentário acerca dos 40 anos da independência do país. Quanto mais conheço Moçambique, mais interesse o país me desperta.

2-Que ideia esteve na origem na recolha de testemunhos e entrevistas para este livro «A Minha Pátria é Moçambique"?
R- O "A Minha Pátria é Moçambique" nasce após regressar da minha última viagem a Maputo. O motivo dessa viagem foram dois episódios de uma série documental acerca dos 40 anos da independência, que o país comemorou em 2015. Para esses documentários entrevistei duas dezenas de personalidades moçambicanas de várias idades, diferentes sensibilidades e de diferentes quadrantes da sociedade moçambicana. A ideia era traçar o percurso de Moçambique não só ao longo destes 40 anos, mas também dos anos que antecederam à independência (o período da luta de libertação nacional). Mas fazê-lo através da visão das pessoas que escolhi entrevistar e das suas próprias vidas, mostrando como o rumo de um país de pode confundir com a vida de algumas personalidades, mas também como a acção individual de algumas delas pode influenciar a História de um povo. Os testemunhos que acabei por verter no livro foram os de Raimundo Pachinuapa, ex-guerrilheiro da FRELIMO, Mia Couto, o ex-Presidente Joaquim Chissano, Afonso Dhlakama, líder da RENAMO, o artista plástico Nagub Elias, a activista social Alice Mabota, o realizador Licínio Azevedo e o líder do mais recente partido moçambicano (o MDM) Lutero Simango.

3-De todos os seus interlocutores, quem a impressionou mais e porquê?
R- Terei de citar duas pessoas. Impressionou-me, obviamente, Afonso Dhlakama, líder da RENAMO,o movimento que fez eclodir um conflito que acabou por se transformar numa guerra civil. Impressionou-me pelo facto de Dhlakama ser por grande parte da população retratado como um vilão, como um dos principais culpados pelos 16 anos de guerra e pela instabilidade política que não deixa de existir em Moçambique, mas por ter respondido a todas as minhas questões, mesmo às mais delicadas, não tendo demonstrado qualquer constrangimento em fazê-lo. Impressionou-me conhecer uma pessoa a quem perguntei se tinha valido a pena o milhão de mortos que resultaram da guerra civil moçambicana. Impressionou-me também muito a entrevista com Lutero Simango, um dos filhos de Uria Simango, que foi em tempos vice-presidente da Frente de Libertação de Moçambique, tendo acabado anos depois por ser morto em circunstâncias que nunca foram totalmente esclarecidas. Impressionou-me a dor de um filho, que tantos anos depois não consegue esquecer a dor de um pai que lhe foi roubado.
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Tânia Reis Alves
A Minha Pátria é Moçambique
Guerra & Paz   14,90€

Marco Neves | A Baleia que Engoliu um Espanhol

1- «A Baleia que Engoliu um Espanhol» é um romance de estreia: como espera poder olhar para este livro daqui a 20 anos?
R- O livro é uma homenagem às histórias que ouvimos na nossa infância. É difícil, mas se, daqui a 20 anos, olhar para trás e tiver a mesma boa sensação que tenho ao lembrar-me das histórias dos meus avós, acho que seria muito bom. Para dizer a verdade, o que gostava mesmo é que os leitores se lembrassem do livro daqui a 20 anos. É uma leitura rápida para os dias de calor, mas que seja como os amores de Verão: fugazes, mas inesquecíveis.

2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- Já há algum tempo que me apetecia escrever um livro de aventuras. Há uns meses, publiquei uma história da nossa língua (A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa) que construí como um romance de aventuras. Ora, o presidente da Câmara de Peniche (a terra onde nasci) leu esse livro e desafiou-me a construir uma história nos cenários daquela terra cheia de grutas, naufrágios, piratas, labirintos… Deu-me até um nome para pôr a minha imaginação a funcionar: Lúcio Arvénio Rústico, um comerciante romano que viveu na Ilha de Peniche nos primeiros anos da nossa era e foi descoberto no final do século XX. A partir dessas pistas, construí este folhetim de aventuras, que percorre a história desde o Império Romano até à passagem de ano de 2016 para 2017, recheado de personagens que vão beber às histórias do nosso imaginário comum: piratas, princesas, assassinos, pilotos de guerra, mas também o Romeu e a Julieta, o Indiana Jones, James Bond e até a série 'Allo-'Allo (há uma personagem da série que aparece por lá bem disfarçada). Não esqueci ainda algumas personagens da nossa História, desde os nossos reis, até ao Prior do Crato e aos ingleses que vieram tentar recuperar Portugal aos espanhóis e não conseguiram. São personagens que vão contando histórias umas às outras, enquanto andam à procura dum certo tesouro escondido não vou dizer onde.

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Vou escrevendo artigos para o meu blogue Certas Palavras. No que toca a livros, tenho algumas ideias na cabeça, mas para já ainda só consigo pensar nesta baleia que engoliu um pobre castelhano.
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Marco Neves
A Baleia que Engoliu um Espanhol
Guerra & Paz  14,90€

Luís F. Rodrigues | Manual de Crimes Urbanísticos


1- De que trata este seu livro «Manual de Crimes Urbanísticos?
R- Apesar de ser uma área de vital importância para a qualidade de vida das pessoas, o urbanismo tem sido sempre visto como um assunto demasiado técnico para o cidadão comum – e como tal, negligenciado na comunicação social, no discurso político e na praça pública. Em 2011, pretendi contrariar essa tendência escrevendo um livro que, redigido numa linguagem acessível e enriquecido com dezenas de ilustrações práticas, esclarecesse o leitor acerca das causas que dão azo à violação das mais elementares regras de planeamento urbano e geram a degradação e insustentabilidade da vida citadina. Felizmente (ou infelizmente, depende do ponto de vista), esse livro esgotou. Assim, em 2017, estamos a reeditar uma versão revista e ampliada do “Manual de Crimes Urbanísticos”, esperando que esse convite à cidadania criado pela primeira edição, possa agora expandir, enriquecer e renovar-se através da leitura e divulgação desta segunda edição.

2- Na sua análise, as cidades ainda podem ter solução ou os crimes serão cada vez mais irreversíveis?
R – Se acreditasse na ausência de soluções para os problemas da cidade, não só não escreveria este livro, como nem sequer me dedicaria à actividade profissional de urbanista. Contudo, tem razão quando refere que alguns crimes são irreversíveis (destruição de património relevante para dar lugar a intervenções meramente especulativas, por exemplo), no entanto, parte da nossa missão enquanto técnicos, passa não só por impedir essas intervenções mais danosas e evidentes, mas também, elucidar o cidadão para a gravidade de outras situações que nem sequer fazem a manchete de jornais. O grau de sofisticação de alguns crimes urbanísticos é de tal ordem, que, para além da sua irreversibilidade, eles ocorrem de forma imperceptível e com total impunidade. Infelizmente, a nível de criminalidade urbanística chegámos mesmo ao ponto daquilo a que os psicólogos denominam de Síndrome de Estocolmo: por via de um intenso marketing corporativo, os cidadãos são de tal forma influenciados para criar empatias com intervenções urbanísticas medíocres e danosas, que eles próprios passam a encará-las com entusiasmo e apreço. O «Manual de Crimes Urbanísticos» pretende ser um contraponto crítico a esse cenário idílico que alguns promotores urbanísticos menos sinceros pretendem criar.

3- E o que podemos fazer nós, cidadãos, para evitar este problema?
R – Cultivar uma atitude crítica. E quando eu digo “crítica”, não digo “pessimista”, “destrutiva” ou “agressiva”: a atitude crítica rege-se por uma conduta que não se satisfaz com respostas estereotipadas dadas a uma determinada questão; ela pretende ir mais longe, investigando essa questão sob os mais diversos prismas e recorrendo às mais diversas fontes. Em suma, a atitude crítica não aceita passivamente algo que instintivamente nos parece errado – mesmo que sancionado por personalidades ou instituições creditadas para o efeito. Felizmente, essa emergência cívica crítica faz-se cada vez mais sentir em blogues e redes sociais portuguesas, por exemplo. Em certas autarquias, as acções e as reivindicações submetidas aos executivos municipais por plataformas e movimentos de cidadãos independentes, chega mesmo a ser mais dinâmica e empenhada do que certas oposições comprometidas, ineficazes e esclerosadas. Será que isto diz mais acerca da vitalidade dos movimentos cívicos ou da degradação das instituições políticas que deveriam zelar pelo interesse público? Em qualquer dos casos, um “Manual de Crimes Urbanísticos” pode ser um bom ponto de partida para uma participação cívica e política mais clarividente e efectiva.   
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Luís F. Rodrigues
Manual de Crimes Urbanísticos
Guerra & Paz   17€

Rui Lacerda | Exposição de Fotografia


Jonuel Gonçalves | Franco Atiradores

1-«Franco Atiradores» pode ser considerada uma história pessoal de Angola entre 1958 e 2017?
R- É mais que História pessoal. É a História vivida por uma corrente que se renovou ao longo das gerações abrangidas neste período e, ao mesmo tempo, continuidade em relação a gerações anteriores. A noção de independência ligada a ideais democráticos e/ou republicanos vem desde o século XIX. O livro pretende inserir essa corrente histórica – que viveu anos de chumbo grosso - no conjunto da História recente de Angola e estudar a ação clandestina e informal (fenómeno universal) tendo Angola como exemplo. Por isso referi – ainda que brevemente - acontecimentos continentais e internacionais que acompanharam ou até influíram no nosso processo e citei alguns outros autores ou teorias. Escrever na primeira pessoa foi opção para o livro ter também perfil de conversa com o leitor.

2- Da sua experiência vivida (e agora relatada), que conclusões consegue ter com exactidão dos últimos 60 anos?
R- Angola avançou politicamente e culturalmente.  Superou o colonialismo, as tropas estrangeiras saíram, as noções de partido único foram derrubadas (uso o plural porque vinham de várias forças), há um bloco de bons debates intelectuais e de criatividade a testemunharem existência da sociedade civil. Mas não avançamos em termos sócio-económicos. Novos antagonismos de classe surgiram com geração de desigualdades agravadas pela dependência económico-financeira do extrativismo, ainda por cima sob peso excessivo de um único produto. Tudo isto conduziu à corrupção, tanto na acumulação de capital como no dia a dia, estando a fraca política de recursos humanos e as insuficiências institucionais a favorecer este quadro. Recursos humanos e melhoria democrática das instituições são os dois grandes desafios imediatos e urgentes.  Um Estado cria-se no longo prazo mas há estímulos de curto prazo indispensáveis.

3- O seu envolvimento na vida política angolana permite-lhe ter uma visão muito clara do país. Que futuro prevê para Angola? 
R- Tudo vai girar em torno dum ponto: reforço de instituições democráticas porque delas vai depender a eliminação da corrupção sistémica, a valorização educativa da sociedade e a busca da diversificação económica. Se a nova maioria parlamentar e o novo Presidente tiverem essa visão, entraremos numa nova transição. Transição para o desenvolvimento democrático, finalmente. Se não acontecer e forem mantidos os desequilíbrios, Angola  passará por um periodo de forte agitação social, até porque no momento a capacidade de intervenção financeira do Estado e entidades bancárias está muito reduzida.  No fundo, o espírito franco atirador pode contribuir de novo, seja entre os governantes como na sociedade: direitos humanos como base de tudo, coragem e capacidade de iniciativa, traçar metas prioritárias sem  perder o rumo e saber usar a conjuntura internacional.
Acredito que relatar estas décadas , inclundo o momento presente (alguns  chamam-lhe história imediata) é uma contribuição de quem  atravessou riscos sob conjunturas diversas.
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Jonuel Gonçalves
Franco-Atiradores. Clandestinidade e Informalidade nos Combates Democráticos em Angola (Abril de 1958-Abril de 2017)
Guerra & Paz   15,90€

Fernando Cardoso/Ileana P. Monteiro | Liderança de Equipas na Resolução de Problemas Complexos



1-De que trata este vosso livro «Liderança de Equipas na Resolução de Problemas Complexos»?
R- Este livro tem como finalidade apresentar um caminho possível para potenciar a colaboração entre a gestão e os empregados, organizados em equipas de desenvolvimento de projetos de inovação, em empresas, instituições do Estado, ou organizações de caráter não lucrativo. Os conteúdos, dirigidos às organizações em geral, procuram aprofundar reflexões sobre a natureza da criatividade e da inovação; a liderança de grupos na perspetiva da facilitação; e a utilização do método Resolução Criativa de Problemas (RCP) como forma de trabalho em equipa.

2-Ao longo da obra, estabelecem uma ligação forte entre liderança e resultados na inovação: porquê? 
R- O método apresentado para a resolução de problemas está orientado para a execução e destina-se a canalizar a criatividade individual para projetos coletivos de inovação, rentáveis para a organização. A ação de liderança não é aqui apresentada sob a forma de teorias mas sim de comportamentos que, se adotados, podem ajudar a produzir melhores resultados pelas equipas de projeto. Este tipo de liderança, aqui designado por facilitação, não é mais que a descrição de formas de conseguir os melhores resultados possíveis a partir dos conhecimentos e da criatividade existentes. Facilitar grupos é conseguir decisões consensuais, que sejam obtidas por forma a que cada um as perceba como suas, levando-as a cabo com um grau de compromisso muito diferente do que aconteceria se essas decisões fossem da gestão, ou mesmo por maioria.  

3-De que forma a resolução criativa de problemas complexos pode acrescentar valor às organizações de pequena e média dimensão?
R-A inovação organizacional, em que se insere o método de resolução de problemas, tem por finalidade adicionar a reflexão às tarefas do dia a dia, tornando rotina aquilo que é exceção – o contributo de cada colaborador para além das funções que lhe estão cometidas – e tornar a inovação uma forma de estar na empresa. A intenção é que um número cada vez maior de colaboradores possa estar, direta ou indiretamente, ligado a um ou mais projetos, sem prejuízo do desempenho das suas funções normais e execução das tarefas diárias que lhe competem. Isto, claro está, sem aumento significativo do tempo de trabalho dedicado à empresa mas antes com a sua racionalização. É na manutenção do equilíbrio entre as rotinas da empresa, geradoras de formas automáticas de resolução de problemas, e a criação de novas capacidades, indutoras de mudança, que continuará a situar-se o primado das pessoas na evolução das organizações. E esse primado é ainda mais importante nas organizações de menor dimensão, que não têm possibilidades de dispor de centros de investigação, consultores especializados ou de recrutar talentos que já disponham do conhecimento necessário.
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Fernando Cardoso/Ileana P. Monteiro
Liderança de Equipas na Resolução de Problemas Complexos 
Edições Sílabo  16,90€

Leonel Fadigas | Território e Poder

1- De que trata este seu livro «Território e Poder: o Uso, as Políticas e o Ordenamento»?
R- O livro trata do território como resultado das ações humanas e da expressão dos poderes que o definem e organizam, em conjunto com as condições do meio que dão forma e sentido à sua apropriação e uso. Por isso os territórios que habitamos são, por isso, resultado e consequência da evolução tecnológico que acompanha a evolução social e económica, são também o resultado e a expressão da história física, social e política de quem os habitou e habita. O livro organiza-se em duas partes: a primeira, tratando da posse, uso e organização do território e da origem matricial das estruturas que dão forma aos modos como o território se foi organizando em diferentes tempos e circunstâncias sociais e políticas; a segunda parte, dedicada à apresentação de casos exemplares de políticas de incidência territorial e das suas consequências, mostra como, na prática, se revelam as relações e as interações entre poder e território e entre território e poder. Razão porque este livro se destina a todos quantos o ordenamento interessa por razões profissionais ou porque dele depende a sua qualidade de vida: arquitetos, urbanistas, geógrafos, economistas, políticos e, sobretudo, cidadãos interessados em participar na feitura de um território mais coeso, mais sustentável, onde a economia seja mais humana e mais social.

2 - A expressão «território» está cada vez mais presente no discurso a vários níveis: mas o que significa realmente a palavra?
R- O território é um espaço geográfico e cultural sobre o qual se exerce um qualquer tipo de poder e no qual se estabelecem redes que o formatam, consolidam, expandem, garantindo no tempo a persistência das marcas e valores simbólicos que o identificam. Mas é também, pela sua natureza, um produto humano que exprime os poderes que o definem e organizam e sendo tanto um suporte de vida e de atividades económicas como, a cada momento, a consequência e o registo dos modos de organização social, das relações de poder, dos níveis de desenvolvimento económico e das tecnologias disponíveis. Até porque é o poder que permite formatar e delimitar e alargar os territórios, estruturando-os e adaptando-os às necessidades das comunidades que os habitam ou que a eles chegam por descoberta, invasão ou conquista.

3- O território que mais nos interessa é o que nos envolve e onde vivemos. Fala-se agora muito no seu ordenamento como factor de qualidade de vida. Mas a gestão desse território não continua a ser (demasiadas vezes) um acto de poder e associado ao seu exercício?
R- O ordenamento do território é sempre a expressão de um exercício do poder que sobre ele se exerce, de forma pacífica ou não, por quem tem o poder de ocupar e organizar. Nos Estados modernos o exercício deste poder está cometido à adminitração pública, central, regional ou local que o ajusta e adapta às necessidades da sociedade, compatibilizando usos e funções e garantindo a sua utilização pelas sucessivas gerações atuias e futuras. Por estas razões, o ordenamento do território organiza e disciplina, como contrato social, nos Estados modernos e democráticos, o exercício do conjunto dos poderes, direitos liberdades e garantias que se exercem e atuam no território.
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Leonel Fadigas
Território e Poder: o Uso, as Políticas e o Ordenamento
Edições Sílabo  14,70€

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(C) Vieira da Silva

Diga não ao cruel comércio da morte.