José Vieira | Adágios


1- O que representa, no contexto da sua obra o livro "Adágios"?
R-Adágios é o continuar de um processo que nasceu em 2014 com o lançamento de Estranhas Coincidências. É a necessidade de contar estórias de pessoas de outros tempos e que são verdadeiros heróis, porque todos os dias eram dias de luta. De lutar pela vida, uma vida com dignidade. 

2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R-Adágios nasce das muitas histórias que escutei na infância da minha avó V. Ela foi a inspiração para este livro e por isso os cinco contos serem apenas sobre mulheres.

3- Já escreveu um romance, agora escreveu contos: para si,  o conto é uma arte menor ou uma arte maior?
R-Acho que não podemos dizer que é uma arte menor ou maior. São artes diferentes, cada qual com a sua beleza e dificuldade. Pessoalmente prefiro os contos daí ter mais trabalhos produzidos nesta vertente.
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José Vieira
Adágios
Chiado Editora  11€

Feira do Livro do Porto | 2 a 17/Setembro


Sophia de Mello Breyner Andresen é o tema central da edição de 2017 da Feira do Livro do Porto. Além da homenagem à escritora, estão previstos: debates e sessões de spoken word, um ciclo de cinema e uma exposição de arte contemporânea.
A Feira do livro do Porto, organizada pela Câmara Municipal, tem uma vasta programação, entre 1 e 17 de setembro, nos sempre convidativos Jardins do Palácio de Cristal.
Destaques: lançamentos e apresentações de livros, encontros com escritores e conversas com convidados nacionais e estrangeiros. paralelamente, haverá teatro, filmes, música, exposições, uma vasta oferta educativa e muita animação.

LER o Jornal da Feira do Livro do Porto
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Horário
Abertura: 
SEG-SEX 12H00 / SÁB-DOM 11H00
Encerramento: 
DOM-QUI 21H30 / SEX-SÁB 23H00

Leonor Figueiredo | O Fim da Extrema-Esquerda em Angola


1-De que trata este seu livro «O Fim da Extrema-Esquerda em Angola»?
R-Faz o retrato da uma esquerda angolana, radical, maoista, perseguida pelo MPLA. Em Angola, depois do 25 de Abril, nasceram e cresceram organizações de esquerda, com jovens de várias tendências políticas, tal como em Portugal. Essa liberdade durou pouco tempo. Logo depois do MPLA se apoderar do poder pela força das armas, em finais de 1975, começou a prender jovens de tendência maoísta, activistas nos bairros populares, seguindo-se-lhes estudantes da Universidade de Luanda e do Ensino Secundário, que continuaram a ser apanhados em ondas de prisões, a mando do regime do então presidente Agostinho Neto. Muitos destes presos políticos só foram libertados, em 1980, depois de várias e prolongadas greves de fome na prisão. Os maoístas encontraram-se nas prisões com outros jovens de esquerda, pró-soviéticos, acusados de envolvimento no alegado golpe de Estado de Nito Alves, a 27 de Maio de 1977. Muitos destes últimos foram barbaramente assassinados.

2-Que factos novos a sua pesquisa permitiu desvendar nesta obra?
R-Esta história nunca chegou verdadeiramente ao grande público. Houve referências do jornalista Claude Gabriel, em 1978 e do historiador Michel Cahen, em 1989, mas a investigação mais profunda sobre os Comités Amílcar Cabral e a Organização Comunista de Angola surgiu em 2001 com o doutoramento do historiador Jean-Michel Mabeko Tali, cujo livro, editado em Luanda, nem se encontra nos alfarrabistas. Diria, depois desta explicação, que a primeira mais valia do meu livro está na explicitação de todo o processo repressivo, qual filme de terror vivido nas cadeias do MPLA e, a segunda, podemos encontrá-la nas entrevistas a estes protagonistas dos anos 70, contextualizando-as com os principais acontecimentos políticos de então.

3-Como estudiosa da realidade angolana, como analisa a situação política actual em Angola?
R-Gosto de investigar períodos da História Contemporânea de Angola, faceta que iniciei quando deixei o jornalismo das redacções. Quis saber mais sobre o período controverso da «descolonização» de Angola – porque o vivi –  e fui levantando de arquivos e de entrevistas factos e razões desvalorizados ou não mencionados nos livros dos militares e dos políticos portugueses então intervenientes no processo. Também me influenciou o facto de ter sido contemporânea desta geração. Conheci e convivi em Luanda com alguns destes antigos militantes dos CAC e da OCA, de quem nunca desconfiei executarem intensas tarefas clandestinas em pleno movimento estudantil. Hoje, Angola vive tempos sensíveis. Muitos desejam a mudança, um país mais aberto a todos, democrático. Mas a verdade é que toda a máquina do poder está nas mãos dos mesmos. O importante é saber se vai haver, ou não, manipulação de votos nestas eleições de Agosto.
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Leonor Figueiredo
O Fim da Extrema-Esquerda em Angola
Guerra e Paz  16,90€

BEJA (22 a 27.Agosto): Festival de Contos do Mundo


O II CONTAR -  Festival de Contos do Mundo começa devagar, como convém a um festival que tem o Tempo como pano de fundo.
A 22 de Agosto encontro marcado com um dos primeiros Artífices do Tempo pelas 18h30. O Mestre Torrão – o homem do Cante como tantas vezes o ouvimos chamar -  vai estar à nossa espera para, em amena cavaqueira, falar sobre essa arte sem tempo.
Os contos e o Jantar Narrado (a decorrer no átrio da Biblioteca Municipal) convidam a ficar por ali e depois seguir em grupos para o Centro Histórico. É que dia 22 de Agosto, pelas 21h30, Há contos na Mouraria!
A 23 e 24 de Agosto, Jorge Serafim e Ana Sofia Paiva vão partilhar Histórias que se contam por aí, dando o pontapé de saída a duas residências que decorrerão até às Palavras Andarilhas de 2018.
Ao longo de todo o festival, as Histórias para brincar com o tempo assomam às manhãs e fins de tarde, dirigidas a pais e filhos, e os Contos para enganar o tempo percorrem algumas IPSSs do concelho, levando jogos de dizer e de contar.
No Antigo Hospital da Misericórdia, as noites frescas convidam a usar um abafo e a escutar as Histórias à margem do tempo, pelas das duplas de narradores que contando se completam: Nicolás Buenaventura, Maria Morais, Maurício Corrêa Leite, Ana Griot, Michèle Nguyen, Antonella Gilardi, Celso Sanmartín, Carles Garcia Domigo e  Clare Murphy.
São eles que, entre 25 e 27 de Agosto, nos levam pela mão numa viagem por Portugal, Espanha, Itália, Bélgica, Irlanda, Colômbia e Brasil.
Entre 25 e 27 de Agosto, O Mercadinho de Coisas Miúdas serve de pretexto para passar o tempo entretidos(as) com conversas dinamizadas à volta de objectos (livros e brinquedos), olhares e memórias. António Parrinha, Rogério Fialho, Armando Horta, Manuel Paula, José Barbieri, Rui Arimateia, Idalina Cacito, Mariana Bicho, Mariana Lopes, Mestre Pica e Joaquim Gonçalves são alguns dos Artífices do Tempo desta edição.
A reflexão sobre o papel da narração e das narrativas na construção e no entendimento do mundo e do outro volta a marcar presença com o programa Narrare Humanum Est, desta vez, oferecendo tertúlias entre narradores que vêm cruzar experiências, certezas e dúvidas sobre isto que nos torna humanos – a capacidade de nos narrarmos.
Se eu quiser falar com Deus e Histórias Bendictas serão o tema das sessões realizadas na capela, enquanto, no Museu da Farmácia, a conversa se faz Entre Mesinhas e Rezas.

ESPECTÁCULOS

Entretanto, no teatro Pax Julia, o festival propõe uma programação de espectáculos narrativos e poéticos que abarca todas as idades:
-Para os mais pequenos, com A Balada das 20 meninas friorentas, de Margarida Mestre. 
-Para os jovens, com Vy, de Michèle Nguyen. 
-E para os adultos, com Dar à Luz – A aventura do Pensamento. Já a torre de Menagem do Castelo de Beja será o palco do espectáculo The king of Lies, de Clare Murphy.

Mas não só de palavras se faz este festival! Nos jantares narrados confirma-se o lema: No comer e no “contar” o pior é começar, já que serão animados pelos narradores presentes no encontro. Para os dias 22 e 27 de Agosto, pode inscrever-se através do número de telefone 284311900. Para o dia 23, deverá fazer a sua inscrição diretamente no restaurante Henry Bar e D. Maria.
Entre 23 e 27 de Agosto, as noites são rematadas com pequenos concertos cantados e/ou dançados com Eduardo Ramos, que nos traz o som do alaúde e da herança árabe em Portugal, os Parapente 700, com músicas e danças europeias, as Moçoilas, com os cantares das serras algarvias, e os Samba sem Fronteira, cujo nome diz tudo.
Fora da cidade de Beja, as Noites d’ir ao fresco acontecerão nas freguesias rurais do concelho. Aqui uma praça, além uma escadaria, acolá um largo, dinamizadas por José Craveiro, Cláudia Fonseca, Ana Santos, Thomas Bakk, entre outros.
A segunda edição do Contar é uma parceria entre a Câmara Municipal de Beja e a Ouvir e Contar – Associação de Contadores de Histórias alarga-se ao Centro Unesco para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial e à Santa Casa da Misericórdia de Beja, que abre as portas da sua CASA - o Antigo Hospital da Misericórdia – para acolher todos os que gostam de ouvir e contar histórias.
O programa do festival dirige-se a público de todas as idades e é completamente gratuito (mas convém inscrever-se).
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Consulte o programa em www.contar-festivaldecontosdomundo.com
Inscreva-se através do telefone 284 311 900 ou do email contar.festival@cm-beja.pt

Paulo Vieira de Castro | A Civilização do Medo

1-De que trata este seu livro “A Civilização do Medo - o Mundo como nunca o imaginámos "?
R-O livro apresenta-nos o medo como o mais voraz dos afectos de uma mente indisciplinada. A mais imprudente de todas as paixões. O objectivo da obra é o de levar o leitor de volta à dimensão mais prática da existência humana face ao sofrimento e ao medo. A “Civilização do Medo”, apesar de ser uma obra da coleção “Gestão e Sucesso”, rapidamente se tornou num livro inqualificável. Por isso mesmo ele poderá ser encontrado nas prateleiras das livrarias em áreas tão estimulantes quanto a ideologia, a política, a história, a educação, o desenvolvimento pessoal,..., as ciências sociais, etc. Isso é extremamente reconfortante para um autor que pretendeu escrever sobre o medo em múltiplas perspectivas e cenários.

2- Como se manifesta, no dia a dia, esta civilização do medo?
R-Tem muitas faces e outros tantos nomes. De forma simplificada poderei referir o pânico, o insucesso, a solidão, a infelicidade, o desemprego, o divórcio, a pobreza,... Estes são conceitos que a todos amedrontam no mundo contemporâneo, levando-nos ao esquecimento do que realmente importa: ser inteiro. O livro alerta-nos para um tempo em que fomos expulsos da nossa própria casa. Casa é o local onde não se tem medo. Não me refiro a um ponto no espaço mas, apenas, á consciência de nós próprios. E esse é o momento em que percebemos a responsabilidade de cuidar. Se eu sou a minha casa então eu tenho cuidado com as coisas á minha volta e, consequentemente, com todos os seres sencientes. Nós não somos vitimas do mundo, apenas da forma como o percebemos. Assim sendo, apenas nos perdemos algures... Este livro servirá para esse reencontro, creio.

3-Como podemos resolver, evitar ou ultrapassar esta situação?
R-Lamentavelmente, porque passamos a viver na ignorância de nós próprios, carregamos toda a vida o medo da perda de coisas que nunca foram, ou serão, nossas. Daí surgem tantas vezes o ressentimento, a angustia, a infelicidade, etc. Por exemplo, nós viemos ao mundo de mãos vazias, partindo do mundo de mãos vazias. Assim, nada do que eu possa comprar será meu para sempre. Só a consciência será nossa desde e para a eternidade. Do mesmo modo, ao contrário do que se imagina, as revoluções nunca aconteceram pela fome ou pela miséria. Todas elas se deram pela mudança de consciência. Então, para me libertar do medo é aqui que tenho de investir todo o meu esforço. Para isso não dependemos de excepcionais condições económicas ou políticas. Infelizmente, a maior parte das pessoas vive amedrontada pela fome e pela sede dos outros. Existindo, agora, de joelhos. Porém o medo só termina quando deixarmos de andar de mãos dadas com a ignorância. Só assim seremos livres do medo. Eu acredito que todo o homem livre é a fronteira de um novo país. Certo é que tudo o que refere os seres humanos tem origem no amor ou no medo. Estes controlam e patrocinam os nossos pensamentos, palavras e ações. Contudo, eu tenho medo mas eu não sou o medo. Só acreditando nisso seremos devolvidos a nós próprios. Perante o medo é urgente resistir. Resisto logo existo...
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Paulo Vieira de Castro
A Civilização do Medo
4 Estações Editora  11,90€

Diogo Cavaleiro | Caixa Negra

1- De que trata este seu livro «Caixa Negra»?
R- O livro tenta fazer um relato do que de mais importante aconteceu em torno da Caixa Geral de Depósitos nos últimos anos. O objectivo foi, depois de uma capitalização que envolveu 3,9 mil milhões de euros estatais, perceber o que causou essa necessidade. Em que se distinguiu a instituição financeira em relação aos outros bancos foi outro dos aspectos pesquisados. A ideia foi perceber a especificidade da Caixa: como é que a questão da privatização influenciou a sua vida (é um tema que não afecta os outros bancos), e como foi a relação com a política, nomeadamente nas nomeações para a administração. Tentei olhar também para os negócios que foram polémicos e que obrigaram, em parte, a esta capitalização de grande dimensão. Além disso, quis perceber a influência que a CGD teve na vida de muitas empresas portuguesas e como aconteceu por ser determinante para o seu destino.

2- Que novidades podemos encontrar no livro resultantes da sua pesquisa?
R- Acho que a grande mais-valia deste livro é, precisamente, fazer uma compilação dos factos em torno da CGD. Acho que há aspectos importantes referidos no livro e que ganham força com o facto de estarem agregados. A forma como a CGD foi um instrumento para a estabilização financeira, através não só da gestão do nacionalizado BPN, mas também com a cedência de liquidez a outros bancos, é outra questão sublinhada no livro. Em suma, acho que o mais importante das páginas que escrevi passa pela ideia de que a CGD tem um caminho que se confunde, em muito, com a vida política e económica do país: e essa é uma conclusão que mais facilmente se tira com todo um relato conjunto do que apenas com factos parcelares que foram sendo noticiados nestes anos.

3- Do seu ponto de vista, Caixa é mais parte do problema ou parte da solução no sistema bancário português?
R- A Caixa exerce um papel importante na vida bancária nacional. É o banco público e, segundo me fui apercebendo, é um banco em que a população tem confiança pelo accionista Estado. O problema da CGD, parece-me, foi o facto de ter estado envolvida em muitas matérias que foram além do que é a actividade bancária central. A Caixa, mesmo sendo um banco público, envolveu-se em várias operações de banca de investimento que lhe causaram muitas perdas: são apostas que envolvem muito dinheiro e que, quando correm mal, colocam-no em risco. Foi o que aconteceu. A exposição da Caixa a tantas empresas, através das participações accionistas que aí detinha, foi outro dos problemas que a CGD foi tendo - além de perdas financeiras, foi igualmente uma perda de tempo - quanto mais tempo a pensar nessas empresas, menos tempo a pensar no banco. De qualquer forma, acho que a instituição financeira está agora a entrar numa nova fase em que muitos desses aspectos foram, obrigatoriamente (por imposições externas e internas), deixados para trás, o que permite assumir um papel diferente do anterior.
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Diogo Cavaleiro
Caixa Negra
Oficina do Livro  16,40€

Filipa Fonseca Silva | Amanhece na Cidade

1 - Qual a sensação de ser a primeira autora portuguesa a entrar no Top 100 da Amazon?
R-É incrível. É ver o meu trabalho reconhecido a nível internacional, provando que há interesse nos autores portugueses um pouco por todo o mundo (nomeadamente nas autoras, que são sempre deixadas para segundo plano em Portugal). Foi também muito bom perceber que os temas que abordo nos meus livros não interessam apenas às pessoas de uma determinada região ou faixa etária. Tive excelentes críticas de leitores das mais diversas nacionalidades e idades, que se identificaram com as minhas personagens e com as histórias que conto.

2 - De que trata este seu livro «Amanhece na Cidade»?
R-Este quarto livro é um romance contemporâneo, que toca temas de sempre, como o amor e a redenção, e outros de agora, como a crise dos refugiados e a alienação da sociedade. É narrado por um táxi, que nos vai contanto as histórias de várias personagens que entram e saem pelas suas portas. Através dele, ficamos a conhecer a história de Manuel, o taxista que não sabe chorar, e das várias personagens que fazem parte dos seus dias: Olinda, a ama de duas crianças mal-educadas; Daisy, a stripper; João, o sem-abrigo, entre muitas outras. Foi desafiante escrever na perspectiva de um objecto e penso que essa particularidade torna este livro algo surpreendente.

3 - Que cidade é esta que amanhece no seu romance?
R- Lisboa. Nos meus livros anteriores nunca situei a acção numa cidade concreta, deixando propositadamente à imaginação dos leitores. Mas desta vez, quis prestar uma homenagem a Lisboa e às suas gentes.
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Filipa Fonseca Silva
Amanhece na Cidade
Bertrand   15,50€

(Primeiro livro de Filipa Fonseca Santos)

Tânia Reis Alves | A Minha Pátria é Moçambique

1-Como surgiu o seu interesse por Moçambique?
R- O meu interesse por Moçambique começou há cerca de dez anos quando, como jornalista, comecei a integrar as equipas de vários programas sobre História e cultura lusófonas transmitidos na RTP África. As imagens das paisagens que me iam chegando, as entrevistas que ia fazendo a moçambicanos e os livros do Mia Couto, que tão bem retratam as dores, as tradições e as pessoas daquele país alimentaram esse meu interesse. Acabei por conhecer Moçambique em 2013, altura em que viajei para Maputo como jornalista e produtora de uma série de documentários para a RTP África. Voltei no ano seguinte para fazer um programa sobre economia e outro sobre agricultura e em 2015 regressei mais uma vez para produzir um documentário acerca dos 40 anos da independência do país. Quanto mais conheço Moçambique, mais interesse o país me desperta.

2-Que ideia esteve na origem na recolha de testemunhos e entrevistas para este livro «A Minha Pátria é Moçambique"?
R- O "A Minha Pátria é Moçambique" nasce após regressar da minha última viagem a Maputo. O motivo dessa viagem foram dois episódios de uma série documental acerca dos 40 anos da independência, que o país comemorou em 2015. Para esses documentários entrevistei duas dezenas de personalidades moçambicanas de várias idades, diferentes sensibilidades e de diferentes quadrantes da sociedade moçambicana. A ideia era traçar o percurso de Moçambique não só ao longo destes 40 anos, mas também dos anos que antecederam à independência (o período da luta de libertação nacional). Mas fazê-lo através da visão das pessoas que escolhi entrevistar e das suas próprias vidas, mostrando como o rumo de um país de pode confundir com a vida de algumas personalidades, mas também como a acção individual de algumas delas pode influenciar a História de um povo. Os testemunhos que acabei por verter no livro foram os de Raimundo Pachinuapa, ex-guerrilheiro da FRELIMO, Mia Couto, o ex-Presidente Joaquim Chissano, Afonso Dhlakama, líder da RENAMO, o artista plástico Nagub Elias, a activista social Alice Mabota, o realizador Licínio Azevedo e o líder do mais recente partido moçambicano (o MDM) Lutero Simango.

3-De todos os seus interlocutores, quem a impressionou mais e porquê?
R- Terei de citar duas pessoas. Impressionou-me, obviamente, Afonso Dhlakama, líder da RENAMO,o movimento que fez eclodir um conflito que acabou por se transformar numa guerra civil. Impressionou-me pelo facto de Dhlakama ser por grande parte da população retratado como um vilão, como um dos principais culpados pelos 16 anos de guerra e pela instabilidade política que não deixa de existir em Moçambique, mas por ter respondido a todas as minhas questões, mesmo às mais delicadas, não tendo demonstrado qualquer constrangimento em fazê-lo. Impressionou-me conhecer uma pessoa a quem perguntei se tinha valido a pena o milhão de mortos que resultaram da guerra civil moçambicana. Impressionou-me também muito a entrevista com Lutero Simango, um dos filhos de Uria Simango, que foi em tempos vice-presidente da Frente de Libertação de Moçambique, tendo acabado anos depois por ser morto em circunstâncias que nunca foram totalmente esclarecidas. Impressionou-me a dor de um filho, que tantos anos depois não consegue esquecer a dor de um pai que lhe foi roubado.
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Tânia Reis Alves
A Minha Pátria é Moçambique
Guerra & Paz   14,90€

Marco Neves | A Baleia que Engoliu um Espanhol

1- «A Baleia que Engoliu um Espanhol» é um romance de estreia: como espera poder olhar para este livro daqui a 20 anos?
R- O livro é uma homenagem às histórias que ouvimos na nossa infância. É difícil, mas se, daqui a 20 anos, olhar para trás e tiver a mesma boa sensação que tenho ao lembrar-me das histórias dos meus avós, acho que seria muito bom. Para dizer a verdade, o que gostava mesmo é que os leitores se lembrassem do livro daqui a 20 anos. É uma leitura rápida para os dias de calor, mas que seja como os amores de Verão: fugazes, mas inesquecíveis.

2- Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- Já há algum tempo que me apetecia escrever um livro de aventuras. Há uns meses, publiquei uma história da nossa língua (A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa) que construí como um romance de aventuras. Ora, o presidente da Câmara de Peniche (a terra onde nasci) leu esse livro e desafiou-me a construir uma história nos cenários daquela terra cheia de grutas, naufrágios, piratas, labirintos… Deu-me até um nome para pôr a minha imaginação a funcionar: Lúcio Arvénio Rústico, um comerciante romano que viveu na Ilha de Peniche nos primeiros anos da nossa era e foi descoberto no final do século XX. A partir dessas pistas, construí este folhetim de aventuras, que percorre a história desde o Império Romano até à passagem de ano de 2016 para 2017, recheado de personagens que vão beber às histórias do nosso imaginário comum: piratas, princesas, assassinos, pilotos de guerra, mas também o Romeu e a Julieta, o Indiana Jones, James Bond e até a série 'Allo-'Allo (há uma personagem da série que aparece por lá bem disfarçada). Não esqueci ainda algumas personagens da nossa História, desde os nossos reis, até ao Prior do Crato e aos ingleses que vieram tentar recuperar Portugal aos espanhóis e não conseguiram. São personagens que vão contando histórias umas às outras, enquanto andam à procura dum certo tesouro escondido não vou dizer onde.

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Vou escrevendo artigos para o meu blogue Certas Palavras. No que toca a livros, tenho algumas ideias na cabeça, mas para já ainda só consigo pensar nesta baleia que engoliu um pobre castelhano.
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Marco Neves
A Baleia que Engoliu um Espanhol
Guerra & Paz  14,90€

Luís F. Rodrigues | Manual de Crimes Urbanísticos


1- De que trata este seu livro «Manual de Crimes Urbanísticos?
R- Apesar de ser uma área de vital importância para a qualidade de vida das pessoas, o urbanismo tem sido sempre visto como um assunto demasiado técnico para o cidadão comum – e como tal, negligenciado na comunicação social, no discurso político e na praça pública. Em 2011, pretendi contrariar essa tendência escrevendo um livro que, redigido numa linguagem acessível e enriquecido com dezenas de ilustrações práticas, esclarecesse o leitor acerca das causas que dão azo à violação das mais elementares regras de planeamento urbano e geram a degradação e insustentabilidade da vida citadina. Felizmente (ou infelizmente, depende do ponto de vista), esse livro esgotou. Assim, em 2017, estamos a reeditar uma versão revista e ampliada do “Manual de Crimes Urbanísticos”, esperando que esse convite à cidadania criado pela primeira edição, possa agora expandir, enriquecer e renovar-se através da leitura e divulgação desta segunda edição.

2- Na sua análise, as cidades ainda podem ter solução ou os crimes serão cada vez mais irreversíveis?
R – Se acreditasse na ausência de soluções para os problemas da cidade, não só não escreveria este livro, como nem sequer me dedicaria à actividade profissional de urbanista. Contudo, tem razão quando refere que alguns crimes são irreversíveis (destruição de património relevante para dar lugar a intervenções meramente especulativas, por exemplo), no entanto, parte da nossa missão enquanto técnicos, passa não só por impedir essas intervenções mais danosas e evidentes, mas também, elucidar o cidadão para a gravidade de outras situações que nem sequer fazem a manchete de jornais. O grau de sofisticação de alguns crimes urbanísticos é de tal ordem, que, para além da sua irreversibilidade, eles ocorrem de forma imperceptível e com total impunidade. Infelizmente, a nível de criminalidade urbanística chegámos mesmo ao ponto daquilo a que os psicólogos denominam de Síndrome de Estocolmo: por via de um intenso marketing corporativo, os cidadãos são de tal forma influenciados para criar empatias com intervenções urbanísticas medíocres e danosas, que eles próprios passam a encará-las com entusiasmo e apreço. O «Manual de Crimes Urbanísticos» pretende ser um contraponto crítico a esse cenário idílico que alguns promotores urbanísticos menos sinceros pretendem criar.

3- E o que podemos fazer nós, cidadãos, para evitar este problema?
R – Cultivar uma atitude crítica. E quando eu digo “crítica”, não digo “pessimista”, “destrutiva” ou “agressiva”: a atitude crítica rege-se por uma conduta que não se satisfaz com respostas estereotipadas dadas a uma determinada questão; ela pretende ir mais longe, investigando essa questão sob os mais diversos prismas e recorrendo às mais diversas fontes. Em suma, a atitude crítica não aceita passivamente algo que instintivamente nos parece errado – mesmo que sancionado por personalidades ou instituições creditadas para o efeito. Felizmente, essa emergência cívica crítica faz-se cada vez mais sentir em blogues e redes sociais portuguesas, por exemplo. Em certas autarquias, as acções e as reivindicações submetidas aos executivos municipais por plataformas e movimentos de cidadãos independentes, chega mesmo a ser mais dinâmica e empenhada do que certas oposições comprometidas, ineficazes e esclerosadas. Será que isto diz mais acerca da vitalidade dos movimentos cívicos ou da degradação das instituições políticas que deveriam zelar pelo interesse público? Em qualquer dos casos, um “Manual de Crimes Urbanísticos” pode ser um bom ponto de partida para uma participação cívica e política mais clarividente e efectiva.   
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Luís F. Rodrigues
Manual de Crimes Urbanísticos
Guerra & Paz   17€

Rui Lacerda | Exposição de Fotografia


Jonuel Gonçalves | Franco Atiradores

1-«Franco Atiradores» pode ser considerada uma história pessoal de Angola entre 1958 e 2017?
R- É mais que História pessoal. É a História vivida por uma corrente que se renovou ao longo das gerações abrangidas neste período e, ao mesmo tempo, continuidade em relação a gerações anteriores. A noção de independência ligada a ideais democráticos e/ou republicanos vem desde o século XIX. O livro pretende inserir essa corrente histórica – que viveu anos de chumbo grosso - no conjunto da História recente de Angola e estudar a ação clandestina e informal (fenómeno universal) tendo Angola como exemplo. Por isso referi – ainda que brevemente - acontecimentos continentais e internacionais que acompanharam ou até influíram no nosso processo e citei alguns outros autores ou teorias. Escrever na primeira pessoa foi opção para o livro ter também perfil de conversa com o leitor.

2- Da sua experiência vivida (e agora relatada), que conclusões consegue ter com exactidão dos últimos 60 anos?
R- Angola avançou politicamente e culturalmente.  Superou o colonialismo, as tropas estrangeiras saíram, as noções de partido único foram derrubadas (uso o plural porque vinham de várias forças), há um bloco de bons debates intelectuais e de criatividade a testemunharem existência da sociedade civil. Mas não avançamos em termos sócio-económicos. Novos antagonismos de classe surgiram com geração de desigualdades agravadas pela dependência económico-financeira do extrativismo, ainda por cima sob peso excessivo de um único produto. Tudo isto conduziu à corrupção, tanto na acumulação de capital como no dia a dia, estando a fraca política de recursos humanos e as insuficiências institucionais a favorecer este quadro. Recursos humanos e melhoria democrática das instituições são os dois grandes desafios imediatos e urgentes.  Um Estado cria-se no longo prazo mas há estímulos de curto prazo indispensáveis.

3- O seu envolvimento na vida política angolana permite-lhe ter uma visão muito clara do país. Que futuro prevê para Angola? 
R- Tudo vai girar em torno dum ponto: reforço de instituições democráticas porque delas vai depender a eliminação da corrupção sistémica, a valorização educativa da sociedade e a busca da diversificação económica. Se a nova maioria parlamentar e o novo Presidente tiverem essa visão, entraremos numa nova transição. Transição para o desenvolvimento democrático, finalmente. Se não acontecer e forem mantidos os desequilíbrios, Angola  passará por um periodo de forte agitação social, até porque no momento a capacidade de intervenção financeira do Estado e entidades bancárias está muito reduzida.  No fundo, o espírito franco atirador pode contribuir de novo, seja entre os governantes como na sociedade: direitos humanos como base de tudo, coragem e capacidade de iniciativa, traçar metas prioritárias sem  perder o rumo e saber usar a conjuntura internacional.
Acredito que relatar estas décadas , inclundo o momento presente (alguns  chamam-lhe história imediata) é uma contribuição de quem  atravessou riscos sob conjunturas diversas.
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Jonuel Gonçalves
Franco-Atiradores. Clandestinidade e Informalidade nos Combates Democráticos em Angola (Abril de 1958-Abril de 2017)
Guerra & Paz   15,90€

Fernando Cardoso/Ileana P. Monteiro | Liderança de Equipas na Resolução de Problemas Complexos



1-De que trata este vosso livro «Liderança de Equipas na Resolução de Problemas Complexos»?
R- Este livro tem como finalidade apresentar um caminho possível para potenciar a colaboração entre a gestão e os empregados, organizados em equipas de desenvolvimento de projetos de inovação, em empresas, instituições do Estado, ou organizações de caráter não lucrativo. Os conteúdos, dirigidos às organizações em geral, procuram aprofundar reflexões sobre a natureza da criatividade e da inovação; a liderança de grupos na perspetiva da facilitação; e a utilização do método Resolução Criativa de Problemas (RCP) como forma de trabalho em equipa.

2-Ao longo da obra, estabelecem uma ligação forte entre liderança e resultados na inovação: porquê? 
R- O método apresentado para a resolução de problemas está orientado para a execução e destina-se a canalizar a criatividade individual para projetos coletivos de inovação, rentáveis para a organização. A ação de liderança não é aqui apresentada sob a forma de teorias mas sim de comportamentos que, se adotados, podem ajudar a produzir melhores resultados pelas equipas de projeto. Este tipo de liderança, aqui designado por facilitação, não é mais que a descrição de formas de conseguir os melhores resultados possíveis a partir dos conhecimentos e da criatividade existentes. Facilitar grupos é conseguir decisões consensuais, que sejam obtidas por forma a que cada um as perceba como suas, levando-as a cabo com um grau de compromisso muito diferente do que aconteceria se essas decisões fossem da gestão, ou mesmo por maioria.  

3-De que forma a resolução criativa de problemas complexos pode acrescentar valor às organizações de pequena e média dimensão?
R-A inovação organizacional, em que se insere o método de resolução de problemas, tem por finalidade adicionar a reflexão às tarefas do dia a dia, tornando rotina aquilo que é exceção – o contributo de cada colaborador para além das funções que lhe estão cometidas – e tornar a inovação uma forma de estar na empresa. A intenção é que um número cada vez maior de colaboradores possa estar, direta ou indiretamente, ligado a um ou mais projetos, sem prejuízo do desempenho das suas funções normais e execução das tarefas diárias que lhe competem. Isto, claro está, sem aumento significativo do tempo de trabalho dedicado à empresa mas antes com a sua racionalização. É na manutenção do equilíbrio entre as rotinas da empresa, geradoras de formas automáticas de resolução de problemas, e a criação de novas capacidades, indutoras de mudança, que continuará a situar-se o primado das pessoas na evolução das organizações. E esse primado é ainda mais importante nas organizações de menor dimensão, que não têm possibilidades de dispor de centros de investigação, consultores especializados ou de recrutar talentos que já disponham do conhecimento necessário.
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Fernando Cardoso/Ileana P. Monteiro
Liderança de Equipas na Resolução de Problemas Complexos 
Edições Sílabo  16,90€

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