João Maurício Brás | Ensaio

“Não somos atrasados, estamos atrasados”

1-Qual a ideia que esteve na origem deste livro «O atraso português. Modo de ser ou modo de estar»?
R-A ideia resultou das doses maciças de notícias a que somos sujeitos invariavelmente sobre Portugal que oscilam entre grandes triunfos, particularmente na bola, que são reais, e um ou outro caso isolado, e a constatação do nosso atraso em relação aos países com os quais legitimamente nos queremos comparar. A palavra “atraso” deve ser das mais utilizadas nos últimos 500 anos em Portugal, em todos os domínios, económico, político, social, etc. Aliás desde Camões a Sá de Miranda até ao presente, pensando em escritores, filósofos e intelectuais, até aos média, ao discurso dos políticos dos últimos 50 anos o tema do atraso está sempre presente. Digamos que se tornou quase um traço identitário. Progresso, desenvolvimento ou falta dele, Europa, recuperação/atraso são constantes nos discursos e nas nossas vidas. Ora, se o atraso é uma constante, quais são os seus factores e principalmente como o resolver? O livro resulta dessas duas questões e da constatação que tirando o país que passa nas televisões e o discurso necessariamente propagandístico dos sucessivos governos “rumo ao sucesso”, continuamos atrasados nas questões essenciais. Choca saber que somos na Europa dos que mais horas trabalhamos, menos ganhamos, e menos produzimos. Só a Bulgária paga menos por hora que Portugal. O que se passa? Como mudar? São questões obrigatórias para qualquer um de nós.

2-Antero de Quental, Fernando Pessoa e outros pensadores já abordaram este tema: de que forma as suas ideias permitem uma nova visão do tema?
R- As minhas ideias presentes no texto valem porque assentam numa necessária actualização de diagnósticos. Por exemplo, Antero é fundamental. O seu texto “As Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”, livro muito citado mas pouco lido, estabelece um conjunto de causas, mas não se limita a essa constatação, pois apresenta um plano filosófico-político de mudança. Nesse sentido é inovador, porque há uma visão pragmática, e não apenas uma constatação ou um conjunto de queixumes de bom recorte literário. É precisamente nas nossas estruturas de fundo que encontramos as verdadeiras razões do atraso, é também na necessidade de não confundir as estruturas com a conjuntura. Regra geral, políticos considerados reformistas agem apenas sobre a conjuntura. Um conjunto de leis não modifica estruturas que se sedimentam pelos séculos. A minha novidade é a readaptação das ideias de Antero e não só. O nosso problema não é de facto económico, a economia é um efeito, não uma causa, as causas são culturais e mentais. Pessoa, que também refiro no texto, tem uma análise assustadora pela actualidade, sobre as nossas elites medíocres, sobre a estratificação das classes e das suas características, que claro necessita também, ainda assim, de alguma actualização. Em relação a esse autor, há contudo diferenças, pois a visão filosófico-política de Pessoa, está presa a uma visão mitológica e simbólica de Portugal a refazer que é muito discutível, para não dizer outra coisa. Fundamental é também o presente e o futuro. A nossa identidade não e só encontrada no passado ou no presente, mas também na ideia daquilo que queremos ser, que queremos alcançar e o que fazemos para o alcançar. A nossa identidade individual e colectiva é também a ideia daquilo que queremos ser. E isso não existe. A nossa visão actual é apenas casuística.

3-A ideia de atraso é tão antiga que nos habituámos a viver com ela. Será que nos esquecemos de não só contribuir mas também exigir uma mudança que permita a recuperação?
R-Sem dúvida, destaco uma ideia do livro que considero fundamental, o nosso habitual “a culpa é deles” é um dos nossos principais erros psicológicos, “o eles”, somos “nós”. De que serve querer mudar o mundo senão conseguimos alterar as nossas próprias vidas? Isto aplica-se ao plano individual e colectivo. Temo que tenhamos chegado a um ponto em todos os planos da nossa vida, social económica, política, que será necessário um estoiro total para haver mudança. Quando tudo colapsa aparecem sempre propostas alternativas, algumas delas totalmente oportunistas e até extremistas, e esse é um perigo da mudança baseada no desespero. Mas manter este tipo de políticos, este PS e este PSD, sempre os mesmos a funcionarem do mesmo modo, a “venderem” um país que não coincide com o país real, que quando algo tem de funcionar, não funciona, não pode continuar. Batemos cada vez mais no fundo e parece que o fundo não tem fundo. Temos que desconstruir esta manipulação e subserviência permanente. Dois exemplos. O primeiro, a ideia que o SNS nos salvou na Covid, é falso, o SNS ruiu e não têm coragem de o assumir. Morreram mais pessoas sem Covid porque os hospitais não tinham resposta para consultas, acompanhamento, cirurgias, etc. que com a Covid. O segundo, que há grandes apoios sociais, a ideia de segmentos da população dependentes de subsídios e mais uns euros nas reformas, conquista de facto eleitores, mas não as prepara, no primeiro caso, para que saiam da situação de miséria, nem a vida dos reformados que necessitam de melhores condições de vida, melhora efectivamente, somos, palavra muito na moda hoje, um país fake, precisamos de verdade, honestidade e capacidade. E que cada um tome o seu destino nas próprias mãos, que participe, intervenha e se torne efectivamente exigente. Até na iniciativa privada. Temos Estado a mais, e ainda por cima, mau Estado. É necessário menos mas melhor Estado….E finalizando, não, não somos atrasados, estamos atrasados.
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João Maurício Brás
O Atraso Português. Modo de Ser ou Modo de Estar?
Guerra e Paz  16€

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Quando nós olhamos para o estado em que o mundo se encontra, damo-nos conta de que há milhares e milhares de seres humanos que fizeram da sua vida uma sistemática acção perniciosa contra o resto da humanidade. Nem é preciso dar-lhes nomes.

JOSÉ SARAMAGO

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1-Qual a ideia que esteve na origem deste livro «Ficheiros Secretos: Histórias nunca contadas da política e da sociedade portuguesas»? R-O livro surge por insistência do meu editor, Rui Couceiro. Apresentei-lhe algumas ideias e “Ficheiros Secretos” era a que acreditava…

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