Annie Ernaux e o uso da fotografia

CRÓNICA
| Célia Gomes

Já pensei muitas vezes que é possível contar toda uma vida apenas através de canções e fotografias” foi esta frase que me prendeu  ao livro após ter sido seduzida pelo seu  título. Uma obra escrita por Ernaux e Marc, a duas mãos. Mãos estas que em conjunto, para além de escreverem, fotografaram, despiram e ajudaram a despir, afagaram, percorreram com avidez o corpo do outro, cumprindo a sina que se esconde sempre  na palma de uma mão.
Um livro que podia ser erótico, mas é muito mais do que isso. Antes é uma ponte que une a margem do desejo à margem do sublime, moldando os momentos que antecipam a urgência do amor em esculturas. Esculturas, ou, usando a linguagem artística atual, em instalações. Instalações compostas por sapatos, lingerie, saias e casacos largados no chão, num abandono necessário. Instalações que são testemunhas oculares dos momentos de paixão carnal (pelo menos) vividos por estes dois escritores, que eternizaram a fugacidade do seu prazer através da fotografia. Capturando, pois, na lente da sua máquina estas obras artísticas, dando vida ao ato, que a elas se seguiu, ultrapassando a função reprodutora do mesmo e elevando-o ao erotismo. Ouso acrescentar, erotismo elevado o seu clímax.
«Em todas as fotos, as nossas roupas, espalham-se pelo chão. Na urgência do desejo, atirámos com elas, correndo o risco de as estragar. Cumpriram o seu estatuto de sedução» Um relato verdadeiro, apaixonante do “desejo e do acaso” que só a crua genialidade de Ernaux salva da rotina e do esquecimento.
Muitas vezes, depois do início da nossa relação, ficava fascinada ao descobrir, quando acordava, a mesa do jantar ainda posta, as nossas roupas misturadas, caídas no chão, na véspera à noite ao fazermos amor” e há assim, nesta simplicidade que a escritora justifica as fotografias espalhadas pelos vários capítulos do livro e desvenda a simplicidade contida no seu título. Explicação que  lança  o leitor  no caminho do voyeurismo, não só suscitando nele  a vontade de observar,  com pormenor, os objetos e vestuário contidos na imagem,  como também lançando-o a imaginar o que se seguiu ao desnudamento. Acresce que esta a leitura se torna mais interessante ao apercebermo-nos que as fotografias são «disparadas» tanto por Annie como por Marc , e que cada um deles as descreve com o pormenor de quem descreve uma paisagem. Paisagem que desperta todos os sentidos, mas também os circunscreve. Circunscreve-os a espaços. Espaços comuns como o são cidades, casas, quartos (entre os quais os hospitalares) como o são as memórias. Memórias da infância de ambos que  coabitam, nas respetivas casas parentais, com os móveis, com lembranças, com o aroma a “água-de-colónia”. Memórias das cidades por onde passaram e onde o seu amor foi urgente. Memórias de um tempo despojado de futuro, mas repleto de instante. O instante que pautou a vida dos dois amantes, no tempo em que usaram a fotografia como espaço cúmplice comum: instante que deveria pautar a vida de todos nós, por ser o único tempo eterno e que deixa rasto na sua passagem. Atrevo-me , aliás, a questionar  se a eternidade não será somente a soma de constelações de rastos de vidas e de estrelas. Instante idolatrado por Ernaux e Marc, por ser o guerreiro que contornava a morte. Morte que vigiava Ernaux de perto. Sim, a parte dolorosa desta leitura, é que todo o relato dito fotográfico e excitante, da roupa, das viagens dos preliminares do amor era vigiado por Átropos, co a sua tesoura na mão pronta a cortar o fio da vida. Vida ameaçada pelo cancro da mama que padecia a escritora. Vida ensombrada pela quimioterapia, pela peruca, por um corpo «que durante meses foi um teatro de operações violentas», com uma «mama e sulco mamário acastanhado», com um «cateter tapado com um penso». Contudo, nem estas descrições cortantes conseguem retirar a beleza do livro. Uma ode à urgência do amor que contrariando a tragédia grega e as óperas clássicas, foi mais forte do que a morte. E é  assim que gosto de pensar o amor, urgente e devassador. Um livro que Ernaux escreveu usando uma caneta de tinta permanente, pois só esta tinta prevalece sobre  a tinta vermelha do sofrimento.
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Annie Ernaux/Marc Marie
O Uso da Fotografia
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