Byung-Chul Han e a crise da narração

CRÓNICA
| Célia Gomes

Da «Sociedade do Cansaço» prossegui com a leitura do «Louvor da Terra» e deste  pulei para a «Vita Contemplativa» lida em simultâneo com a «A crise da narração», entrando Byung-Chul Han na minha vida, como um vício, um redentor, uma promessa. Rendi-me às suas profecias, ao seu brado de alerta, à sua visão destituída de qualquer poesia, de habitarmos  uma casa chamada Terra, em que os  números e algoritmos estão a destronar as histórias e os afetos. Uma sociedade em que vivemos num furacão informativo, sendo o verbo informar conjugado num presente do indicativo condenado ao vazio do esquecimento.  Informação que contrasta com a narração. As histórias contadas perduram Saltam do passado para o presente e lançam-se na corda do futuro e delas guardamos sempre uma mensagem, um perdão, uma fé ou uma sentença. Que seria de nós sem a leitura do «Principezinho» e do seu «essencial é invisível aos olhos só se vê bem com o coração. Coração este que palpita ao ritmo de uma boa narração, ao contrário da mente e da visão que sobrevivem com o “bater” da informação. Um batimento com arritmias «A sociedade da informação inaugura uma época de alta tensão mental, já que o efeito-surpresa é a essência da informação».
Enquanto na «Sociedade do Cansaço»  Byung Chul-Han confronta o leitor com as doenças  modernas de e epidémicas de foro neurológico e psíquico geradas pela produção, isolamento e  individualismo, na «crise da narração» o autor vai mais longe, confrontando o leitor com os perigos de informatizar a realidade  e  transformá-la em mero dado. Dado desprovido de história, de cor. «A informatização da realidade conduz ao atrofiamento da experiência presencial e imediata e torna a realidade rarefeita». Realidade rarefeita e onde se respira um ar rarefeito. Rarefeito em criação, em imaginação, em contemplação. Contemplação que anda de mãos dadas com o tédio do sentido «dolce fare niente», sem culpas, sem julgamento.
O mundo digital produz poluição. Poluição oriunda da poeira dos factos e da casualidade vazia. Talvez urja, por isso, defender um novo princípio filosófico, um «sinto logo vivo». Sentir a magia de uma história narrada, ouvida, recontada e transmitida. Regressar à nostalgia do «Era uma vez» dos contos de princesas e fadas, esperançosos e coloridos, necessários para atravessar os socalcos da vida. Este livro é uma ode às histórias e à narração.  Ode defendida  por  outros filósofos, psicólogos e romancistas  que Byung, cita ao longo da obra, nomeadamente Freud, Benjamin  Walter e  Proust.. Deixamos de narrar histórias às nossas crianças, entregando-lhes de mão beijada telemóveis, iPads e tecnologias visuais e a magia deixou assim de as fadar com as fadava a história contada ao deitar e  tão  necessária ao encantamento, à poesia e ao combate do raquitismo anímico. «Uma das manifestações do desencantamento do mundo é a perda da sua aura. A aura é o fulgor que eleva o mundo acima da mera facticidade, o véu misterioso que cobre as coisas do mundo. A aura é dotada de um cerne narrativo». Um livro em que o autor constantemente evoca os sismos informativos que nos abanam e que não «guardam em si nem o vento rápido nem o Sol brilhante». «Deixamos de contar histórias uns aos outros. Em contrapartida, comunicamos em excesso». Passamos o tempo a publicar, partilhar e a gostar (muitas vezes hipocritamente) das publicações. Iludimo-nos uns aos outros e deixamo-nos iludir. A realidade informativa é uma realidade pornográfica, aparece nua, despida de mistério e de curiosidade. Por sua vez a narrativa e todo o envolvente que ela cria é uma realidade erótica, lenta, envolvida num véu das «mil e uma noites» e nas histórias de Xerazade. Sortuda Xerazade que nunca soube o que eram likes, shares, posts e scrolling. Palavras novas que nunca fascinariam o rei Xariar por serem destituídas de encanto e criarem nós cegos no fio da  vida dos cibernautas que já somos todos nós.  Não queremos nós, necessitamos  é de laços. Precisamos  que se continue a «fiar e a tecer» tecer histórias, ensaios como estes de Byung-Chul Han e  tecer sorrisos que enlacem  nos corações memórias.
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Byung-Chul Han
A Crise da Narração
Relógio d’Água  17,50€

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