“É paradoxal a relação da sociologia com a comunicação”

1-Qual a ideia que esteve na origem deste livro “O pensamento Sociológico da Comunicação”?
R-O pensamento sociológico da comunicação, como demonstramos nesta publicação, tem um longo trajecto na Sociologia, remontando aos seus percursores, fundadores e aos pensadores iniciáticos da disciplina. Contributos que no nosso entender estão escassamente presentes no debate sociológico e são alheios ao público em geral. Reabilitar as valiosas reflexões dos pioneiros, que comportam fundamentos capazes de nos ajudarem a pensar as transformações actuais, achamos que poderia ser uma forma de aproximarmos estes autores aos estudantes de sociologia (e aos nossos distintos colegas) e de os popularizar junto dos interessados pelo fenómeno comunicativo.

2-Referem na introdução do livro que nem sempre a Comunicação está presente em manuais ou obras de referência. Sendo a comunicação omnipresente na sociedade contemporânea, a que se deve esta situação?
R-É paradoxal a relação da sociologia com a comunicação. Sendo este um fenómeno iminentemente sociológico foi dotado ao abandono institucional. Alguns indícios tendem a validar esta constatação. Olhando para os manuais canónicos da sociologia, a comunicação ou figura como nota de rodapé ou como não-tema. Se observarmos as estruturas curriculares dos ciclos de estudo em sociologia, a comunicação passou de saber troncal para disciplina optativa ou facultativa. A subalternização da comunicação dentro da sociologia parece decorrer de uma determinada hierarquização temática, que faz depender a compreensão do fenómeno comunicativo de questões políticas, económicas, tecnológicas. Por outro lado, a transversalidade do tema comunicativo dentro das ciências sociais e humanas, em concreto os aspectos ligados a digitalização do quotidiano, parece ter contribuído para uma diluição da sociologia da comunicação como área importante para o entendimento dos fenómenos comunicativos.  Em particular porque as outras áreas de saber trouxeram abordagens mais contundentes e sofisticadas, reflexo de um debate teórico/conceptual mais apurado, que se foi perdendo na sociologia por uma dada obsessão (micro)empírica que desnutriu uma certa reflexividade.

3-Na sociologia do século XXI, qual é o estado da arte sobre o tema da comunicação e quais os autores mais relevantes?
R-Desde o advento do conceito de sociedade em rede, cunhado em 1991 por Jan van Dijk e em 1996 aprofundado e popularizado por Manuel Castells, que a questão do digital se firmou como o grande tema que ocupa os sociólogos que se debruçam acerca do fenómeno comunicativo. A enorme produção de conhecimento que se foi constituindo acerca de uma sociedade permeada por relações mediadas por tecnológica, acabou por firmar uma área especializada designada por sociologia digital, que teve com principal impulsionadora Deborah Lupton. Os desafios trazidos pela Inteligências Artificial comportam as grandes questões do momento para os cientistas sociais, onde predominam lógicas de estudo multidisciplinares, sendo de enorme relevância os contributos dados pela filosofia e psicologia ao entendimento sociológico do fenómeno. Em particular as leituras que analisam de forma sistemática os mecanismos introduzidos pelas grandes corporações do digital para rentabilizarem os seus negócios, processos alicerçados em controlo social e manipulação. São de particular interesse os contributos de Zuboff, Han, Hao e Sadin.
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Bruno Carriço Reis/José Ricardo Carvalheiro (org.)
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