David Uclés: “A sobrevivência onde vale tudo para escapar à morte”

CRÓNICA
| agostinho sousa
Um livro de um jovem autor espanhol com inúmeros prémios, desde a sua publicação em 2024, que tem como enquadramento a Guerra Civil Espanhola.
Desde uma pacata e inventada aldeia andaluza, Jándula, retrata a saga de uma humilde e numerosa família nesse período conturbado e selvagem de lutas fratricidas.
Numa guerra a desumanização e a lei do mais forte tomam conta das relações (des)humanas. Mas uma guerra civil, entre irmãos, vizinhos e gente com a mesma língua e cultura, agudiza ainda mais atos vis e inqualificáveis que, impunemente, vão surgindo.
Este livro apresenta a desagregação de uma humilde família, como símbolo de um país, pelo infortúnio de uma guerra civil onde se é obrigado a tomar uma posição entre «os uns e os outros»: ter de obedecer as leis sem lei, que se vão alternando, entre os vencedores de cada momento até à imposição do triunfador final (neste caso um ditador).
«O mais perigoso de uma guerra, muitas vezes, não é a luta armada contra o inimigo político, mas sim o ajuste de contas com os que te rodeiam. Tudo é permitido! E se alguém te desfere um tiro no meio da rua, ninguém vai ser julgado. Esse é o maior medo de uma guerra, a sensação de total de desamparo.»
Uma família «que não era de direita ou de esquerda, que era da árvore que dava mais sombra», mas que, mesmo assim, pagará um preço elevado porque numa guerra civil não há meio-termo!
Há muitas mortes, em ambas as fações, e muito cruéis como é conhecido. Os exemplos são inúmeros. Mas, apesar disso, no livro há momentos de rara beleza, de poesia. É uma escrita muita onírica, com algo de mágico, onde se respiram vivências que poderiam ter sido redigidas por Gabriel Garcia Marques.
Curiosamente, o território desta guerra, que o autor denomina de Ibéria, por incluir Portugal como sua região, chamando-lhe Lusitânia, enquadrando-o no seu regime fascista do Salazar, como se de mais uma região de Espanha se tratasse; mas com independência política, linguística, e administrativa, não tendo sido afetada pela guerra, dado o seu apoio à fação nacionalista e vencedora de Franco.
Pelo meio há um entrecruzar da história detalhada dos principais momentos desta guerra com a vida de personagens conhecidas que a viveram intensamente, desde: Alberti, Lorca, Unamuno, Zambrano, Hemingway, Orwell, Capra entre outros, para além de políticos e militares que estiveram envolvidos neste conflito, de que destaco um particular o narrador, enquanto personagem, quando relata momentos de descoberta antecipada dos acontecimentos ou outros detalhes que aguçam a leitura. Tomo como exemplo o caso de praças que serão, após a guerra, renomeadas com nomes de sanguinários; ou quando estabelece um diálogo com Franco, em Toledo, em frente ao quadro «O Conde de Orgaz» do pintor El Greco.
O próprio título tem o seu lado poético, como menciona, a páginas tantas, «ao que parece [em Bilbao] todas as sua casas ficaram órfãs.» O que me recorda a premissa do arquiteto suíço Peter Zumthor, utilizada para explicar que a arquitetura está enraizada nas necessidades existenciais mais básicas e na memória coletiva humana: «Todos nós viemos de casas».
O livro começa: «Em metade do céu, uma nuvem deixa de mover-se», como se o tempo de convivência fizesse uma pausa antevendo o surgimento, durante essa pausa, de: combates, fugas, fuzilamentos, desaparecimentos sem rasto, fratricidas, fome, desespero, mudanças de posições, traição, desconfiança, desumanização, caos, etc. Enfim: a sobrevivência onde vale tudo para escapar à morte.
E termina com uma frase que, dita por soldados nacionalistas, significa o caminho para o fuzilamento:
«- Caballero, vamos a dar un paseo.»
São quase 700 páginas de puro prazer.
Espinho, 11/08/2026
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David Uclés
A Península das Casas Vazias
D. Quixote 29,90€

