Ricardo Franco: “A condescendência é um bem com muito má fama”

Ricardo Franco acaba de receber o Prémio Literário Orlando Gonçalves pelo seu primeiro romance Inspector Chavarino: A Caixa do Cisne. Estudou Filosofia (e Ensino da Filosofia) e Cinema com especialização em Dramaturgia e Realização. Formou-se ainda em Teatro. Desenvolve projectos independentes de cinema desde 2015, com várias obras realizadas até à actualidade. É professor de Filosofia no ensino secundário e adora porque “tento ser um professor quantas horas do meu dia conseguir, até ao limite da minha resistência”. Também  leccionou Filosofia para Crianças. Paralelamente, encenou diversas peças de teatro.
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O que é para si a felicidade absoluta?
O momento de queda no sono. Não há coisa melhor que sentir a pulsão do sono e que sentir que podemos deixar-nos ir nesse terreno inclinado, rumo ao descanso, que podemos baixar a guarda e não estar em jogo na vida, durante um tanto. Adormecer liberta-nos da totalidade da existência, liberta-nos de todas as afeções da alma, passadas, presentes e futuras. É a forma mais absoluta de descanso.

Qual considera ser o seu maior feito?
Que a minha escrita tenha entusiasmado gente de tão reconhecido valor. Deu luz a um sentimento muito meigo o facto de ter sido considerado por quem respeito tanto, como o aclamado escritor Afonso Cruz, como a notável editora Rita Fazenda, como os ilustres membros do Júri do Prémio Literário Orlando Gonçalves, em particular, o escritor António da Costa Neves.

Qual a sua maior extravagância?
Quando era miúdo, o meu pai utilizava uma pulseira de prata, muito grossa. Aquilo, para mim, era a marca de um homem digno, de um pai de família, que se apresentava à sociedade sem embaraço. Quando recebi o meu primeiro ordenado, entrei numa ourivesaria e não estava interessado em saber o valor, interessava-me sair dali com aquela imagem da maioridade, tão semelhante ao meu pai quanto possível.

Que palavra ou frase mais utiliza?
“Que maravilha”.

Qual o traço principal do seu carácter?
Professor. É mesmo assim. Tento ser um professor quantas horas do meu dia conseguir, até ao limite da minha resistência. Ser professor significa encorajar, animar o horizonte, o futuro, dos outros, e colocar o tempo e as ideias ao serviço de quem nos procura. 

O seu pior defeito?
Na dúvida, perguntei à minha mulher, que, por sorte, é especialista na matéria. Ela disse: “a tua falta de humildade, Ricardo, porque tens muita dificuldade em ouvir”. Eu respondi-lhe: “Não, não há de ser isso”. Ela riu. Enquanto rir, estaremos bem.

Qual a sua maior mágoa?
A morte, em todas as suas aceções. Que a vida me tenha roubado o Pedro, o Tiago e o Pratas. Senti-me inimigo da vida, durante muito tempo. É uma sensação terrível. Fazer as pazes com a existência foi, precisamente, o que me motivou a escrever o “Inspector Chavarino”.

Qual o seu maior sonho?
Conhecer a Michelle Pfeiffer e ter de lhe dizer que nos conhecemos demasiado tarde, que sou casado e que sou fiel. Depois, consolá-la-ia com um abraço. Dois, se o primeiro não bastasse para estancar o seu choro.

Qual o dia mais feliz da sua vida?
Em Dezembro nascerá a Olívia. Nem imagino que vida será essa que vai nascer com ela.
Quando era novo, não conseguia lacrimejar, chorar, sim, é claro, mas sem essa manifestação no rosto. Um dia, vi um episódio do Dr. House em que havia um caso raro de alguém que não conseguia produzir lágrimas e fui pesquisar imenso sobre isso, a achar que me poderia dizer respeito. Bem, isto para dizer o seguinte. No regresso da ecografia do primeiro trimestre, calhou ouvirmos Rio Grande, no carro. Quando, no tema de abertura, se ouve o pai dizer que vai enviar uma merenda pelo correio para o filho emigrado, porque não conseguia fazer outra coisa para cuidar dele, à distância, eu desato a chorar que nem um desalmado. Ou melhor, como alguém que sente a alma a insuflar. Será muito amada.

Qual a sua máxima preferida?
Ocorrem-me duas, uma de Reis: “Põe quanto és no mínimo que fazes”, outra de Torga: “De nenhum fruto queiras só metade”.

Onde (e como) gostaria de viver?
Em Avis, sem dúvida alguma. Vim viver para o Alentejo, há um ano. Que segredo é este que o interior tem guardado tão bem, o de uma vida sem derrames, que guarda o néctar todo no pote.

Qual a sua cor preferida?
As cores não são desligadas das coisas. O vermelho não é anónimo, é o do sangue do joelho esfolado de uma amante, de minissaia, no paredão, dos lábios saturados de beijar, na despedida de um romance de verão, no cais de embarque, da melancia ao final do dia, em família, na varanda, etc. Nesse sentido, a minha cor preferida é a do olhar de desejo da minha mulher. Não sei que cor é, mas sei que é essa a cor. Nenhuma outra me faz tão feliz.

Qual a sua flor preferida?
Margarida. Nasce democraticamente, em qualquer lado, oferece-se de barato ao toque, sem medo do dano. É uma erva daninha, fura qualquer arquitetura humana, qualquer construção mental justaposta à natureza, para desferir um golpe de alegria e de ternura à vista.

O animal que mais simpatia lhe merece?
O cão comove-me como nenhum outro animal. O afeto das minhas duas cadelas não tem par na natureza. As cadelinhas têm na sua cabeça que nós somos o início e o fim das suas vidas. É tremendo que estes lobinhos nos procurem para meiguices e que tudo façam para nos agradar, sem duplicidade, sem contradições, sem conceitos.

Que compositores prefere?
Bob Dylan, Bruce Springsteen, Chet Baker, Ornatos Violeta, Jorge Palma, Carlos Paredes.

Pintores de eleição?
Van Gogh, Domingos Sequeira, Botticelli, Da Vinci, Dali, Bosch.

Quais são os seus escritores favoritos?
Al Berto, Mário de Sá-Carneiro, Afonso Cruz, António da Costa Neves, Murakami, Ana Teresa Pereira, Ricardo Fonseca Mota.

Quais os poetas da sua eleição?
Fernando Pessoa, Carlos Poças Falcão, Wilfred Owen, Dante, Auden, Ron Padgett.

O que mais aprecia nos seus amigos?
A incansável violência de derrubar muros de intimidade, com o intuito de promover o meu melhoramento pessoal e o meu futuro. A violência é semelhante à do escultor com uma picareta, a querer encontrar o cavalo na pedra. É extenuante, porque a pedra resiste e reclama e fica com mau feitio.

Quais são os seus heróis?
Dois homens: Jorge Manuel Morais do Valle Franco, o meu pai; Manuel José Monteiro Luíz Jerónimo, o meu melhor amigo. Duas mulheres: Joana Maria de Araújo Antunes Franco, a minha mulher; Ana Paula Henriques Pinheiro Franco, a minha mãe.

Quais são os seus heróis predilectos na ficção?
Álvaro de Campos; Tio Vânia; Ivan Iliitch; Inspector Javert; Humphrey Bogart; John Wayne; Charles Chaplin; Bruce Willis.

Qual a sua personagem histórica favorita?
Cristo.

E qual é a sua personagem favorita na vida real?
Robin Williams; Ricardo Sá Pinto; Ricardo Araújo Pereira; os meus professores: Vítor Gonçalves, Nuno Ferro, Henrique Chaves.

Que qualidade(s) mais aprecia num homem?
O humor.

E numa mulher?
A ironia.

Que dom da natureza gostaria de possuir?
Ser forte o bastante para proteger a minha família, em caso de perigo. Da natureza não me interessaria muito mais.

O que é para si o cúmulo da miséria?
Não sermos capazes de apreender a nossa própria menoridade. Sermos alheios à hipótese de ser a nossa forma de ser a responsável pelo nosso mal-estar, pela nossa queda, pela nossa frustração. Vejo muita gente com armas apontadas, sem olhar a quem, gente que só quer ficar por cima numa contabilidade lá delas, que só piora a sua situação. É um círculo vicioso de azedume. As boas emoções e a abertura aos outros são condições necessárias (infelizmente, não suficientes) para o respeito, para a amizade e para o sucesso.

Quais as falhas para que tem maior indulgência?
Tabaco.

Qual é para si a maior virtude?
Amabilidade. A condescendência é um bem com muito má fama, porque é a condescendência que nos permite relevar as ações dos outros, ao invés de lhes atribuir uma valoração imediata. É a condescendência que permite aceitar as falhas do outro como manifestações de que não está no seu melhor, sem guardar rancor. É da condescendência que vem o impulso de tratar os outros com uma dignidade que eles ainda não sabem que têm.

Como gostaria de morrer?
Com um beijo. Gostaria de morrer com um rosto pleno, sem feridas, para oferecer ao mundo uma imagem de despedida serena.

Se pudesse escolher como regressar, quem gostaria de ser?
Regressar seria uma traição a tudo quanto amo. Os meus pais, os meus amigos e os meus amores não são um passatempo, um horizonte que se trocasse por outro, como papel de parede. Não haveria qualquer sentido em mais do mesmo, sem um fim à vista. É o fim que dá sentido a uma narrativa e assim é na vida, também. Em todo o caso, se tivesse de escolher, escolheria ter sido o meu amigo Pedro Sousa. O Pedro era a pessoa mais fascinante, mais charmosa, mais talentosa, mais adorada. Valeria ter vivido a vida dele, apesar das dores que lhe esperaram no fim. Na verdade, essa ideia é muito bela, muito redentora, muito apaziguadora: a vida dele foi uma alegria, uma bênção, uma coisa muito valiosa, independentemente do fim.

Qual é o seu lema de vida?
Que ninguém fique pior por me ter procurado. Que eu saiba sempre sinalizar qualquer coisa de animadora na alma de quem se cruze comigo.
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Ricardo Franco na “Novos Livros” | Entrevistas

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