Martim Mariano: “Não ter medo de arriscar. Escrever do fundo da alma”

1- Qual a ideia que esteve na origem deste seu livro “Escrita 2.0”?
R-A ideia foi dar continuidade à missão de ajudar o país a comunicar melhor e a expressar-se da forma que melhor traduz aquilo que sentem e que pensam sobre as coisas. Quero, acima de tudo, que as pessoas que tiverem a coragem de ler o livro e de fazer os exercícios percebam que há, de facto, a possibilidade real de melhorar a forma como comunicamos e como expressamos o que nos vai na alma de uma forma mais eficaz e mais fiel ao que efetivamente queremos dizer e ao que sentimos. Mais fiel a nós próprios. E que isso se consegue com a força da única forma possível de melhorar em qualquer área desta vida: treinando.
2-Afirma que escrever bem é uma arte. Mas, os erros, a pressa e a simplificação excessiva que ocorrem diariamente nos textos que circulam, por exemplo, nas redes sociais (mas não só) poderão pôr em causa a própria língua e a nossa capacidade de escrevermos e comunicarmos bem?
R-A língua é um “órgão” evolutivo. Muda, ajusta, adapta-se, renova-se. Há fenómenos linguísticos que muita gente considera serem causadores de problemas, mas que eu vejo como um processo natural. As pessoas falam como falam e escrevem como escrevem. Não são melhores nem piores seres humanos por causa disso. Temos muita gente que domina perfeitamente as regras da gramática e da linguagem e são perfeitos anormais, monstros, seres humanos vis e com más intenções, racistas, xenófobos, idiologicamente periogosos e que desrespeitam diariamente a vida em sociedade. Alguns deles estão sentados na casa da democracia. São melhores em alguma coisa que um homem do campo, que ajuda a família, que não tem mais do que a 4ª classe, tirada a muito custo porque começou a trabalhar aos 10 anos, mas que sempre fez o bem, ajudou toda a gente que lhe pediu ajuda, mas que diz: “O que é o comer? Tu fizestes isto desta maneira… As chaves? Puzias em cima da mesa onde a gente costuma a comer”? Não. Não são. A língua sobrevive enquanto os livros sobreviverem e enquanto as pessoas a falarem. Camões terá tido as mesmas preocupações com a língua. Os reis dos séculos XV e XVI também. Mas o puritanismo da língua foi, quanto a mim, também um causador de tanto afastamento entre as pessoas e os livros. Ninguém lê aquilo que não percebe. Acham que os livros de auto-ajuda têm tanto sucesso… porquê? Porque são fáceis de ler. Ninguém se aproxima daquilo que não entende. Eu preciso de entender o que estou a ler para poder sentir. Se nos lembrarmos que há 50 anos tínhamos perto de 70% de analfabetos no país, podemos perceber de que forma é que a literatura também tem um papel a desempenhar na aproximação das pessoas aos livros. Não basta falar mal das pessoas e acusá-las de estarem sempre em frente aos telefones. Se não criamos, nós, os autores, formas de as aproximar dos livros, estamos à espera de milagres?
3- Do seu ponto de vista, quais os 5 principais conselhos que propõe a quem quiser escrever bem?
R-Vamos ver se sou capaz de enfiar tudo isto em 5 conselhos:
Então, diria que o 1º é precisamente o 1º ponto com que abro o livro: ler os mestres disto tudo. Os autores que o mundo consagrou e que entusiasmaram e fascinaram milhões de pessoas pelo planeta fora ao longo de diferentes gerações. Há razões objetivas para que isso tenha acontecido. São boas histórias. E histórias que são simples de seguir e de acompanhar.
A seguir, é preciso perceber que isto não pode ser apenas algo que se faz apenas de vez em quando, quando calha, ou quando sobra tempo. Não. É preciso haver disciplina. É preciso perceber que o treino, a prática, a insistência e a repetição são a única forma de melhorar. É assim para tudo. Escrever e ler são partes indissociáveis do processo. Por isso, é preciso ler muito e escrever muito.
Em terceiro lugar, é preciso estar disposto a errar e a aceitar que o processo de aprendizagem é duro e, em muitos momentos, penoso.
Mas é para lá desse muro que está o crescimento e o aperfeiçoar da técnica e das capacidades de fazer isto bem. Ninguém se torna bom nisto da noite para o dia.
Se amanhã me der na cabeça e me apetecer começar a trabalhar com madeira e tornar-me carpinteiro, tenho a noção que não me basta comprar uma conjunto de ferramentas e agarrar numa tábua. Nem tão pouco posso abrir a porta de casa e começar a vender os meus serviços de carpintaria. Porquê? Porque não sei nada. E tenho de ter a noção de que é preciso passar por essa fase de imberbe em que não pode haver medo de fazer figura de parvo. Porque é isso que acontece. Se começar a dançar, igual. Se quiser tornar-me chef de alta cozinha, ladrilhador, eletrecista ou canalizador… tenho sempre de passar pelo período de aprendizagem e que, só se acelera, se eu der mais e mais horas a esse processo.
Quanto mais preguiçoso eu for, mais tempo vou demorar. É tão simples como isto.
O quarto conselho é, talvez, experimentar. Não ter medo de arriscar. Escrever do fundo da alma. Só assim conseguimos encontrar a nossa própria voz enquanto escritores e comunicadores. Sem ela, estamos eternamente condenados a não saber o que dizemos e porque é que o fazemos desta forma. É uma das grandes descobertas de quem escreve: encontrar a sua voz na escrita.
E, por último, talvez diga que é fundamental ler o que escrevemos em voz alta. Sempre. Para percebermos como é que as nossas palavras vão soar a quem as vai ler. Haveria muito mais a dizer, mas não há espaço nem tempo suficiente para o fazer. Pode ser que isto, por si só, já ajude alguém.
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Martim Mariano
Escrita 2.0 – 52 Ideias e Técnicas essenciais para a Era Digital
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