Rui Couceiro sobre a bela maldição

CRÓNICA
| Rui Miguel Rocha
Um livro de quem gosta de livros para quem gosta de livros. Não há como falhar. Rui Couceiro viaja pelo mundo numa espécie de caçada por personagens míticas, quase irreais, algumas surreais, mas todas com o mesmo amor ou obsessão ou maldição: os livros. De aventuras, poesia, divulgação científica, mapas, guias, manuscritos perdidos, relatos de náufragos, revistas, grande e pequena literatura, banda-desenhada, manuais, policiais, fantasia, livros sobre tudo e livros sobre nada, livros malditos ou amaldiçoados ou proscritos ou amados e odiados.
Oito países percorridos, Portugal (duas vezes) com o açoriano leitor de nobelizados Ângelo Melo e o poveiro ex-pescador e poeta José Alberto Postiga, Itália (também duas vezes) com a mecenas Beatrice Monti della Corte e a livreira de uma aldeia no meio do nada Alba Donati, passando por Marrocos com o mundialmente famoso Aziz, pela Alemanha onde Martin Weskott salva livros de serem destruídos, por São Tomé e Príncipe onde um francês insiste na edição, chegando ao brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho com uma história de vida extraordinária e louco por Pessoa e acabando em José Alberto Gutiérrez, o homem do lixo (ou da limpeza como gosto de dizer) que salvou milhares de livros do lixo, fechando com o meu preferido Reginald Dwayne Betts, o ex-recluso que encheu as prisões de livros nos Estados Unidos.
Este é também um livro de viagens, de pessoas, de entrevistas, de procura e de diálogo, traz dentro algumas poses que nos assombram, paisagens deslumbrantes, frases inesquecíveis como esta de Aziz “As mulheres conhecem bem a cultura,… ao passo que os homens procuram diplomas”, olhares perdidos no espaço mas reencontrados no tempo, histórias de histórias e algumas de maldições ou de místicas desventuras “Aqui, acredita-se na feitiçaria e os gatos funcionam como um filtro que absorve o mau-olhado dirigido às pessoas”, e ainda as verdades ditas por quem sabe, “Ali, garante Ângelo Melo, enquanto atira o olhar sobre o casario, praticamente ninguém cantava riqueza”, o mesmo Ângelo que meteu uma figurinha de Antero de Quental num nicho de uma casa de uma velhinha destinado a nada menos do que uma figura de santo canónico.
Ainda espaço para muito assombro, com a charmosa Beatriz a definir o aborrecimento como uma maldição (ai de mim) ou a contar histórias de antigos convidados literários como Chatwin, Ernaux, Tokarczuc, Carrère ou Ondaatje; também tempo para o meu preferido, o ex-recluso que distribui livros e estantes pelas prisões americanas e para as palavras de José Gutiérrez contadas pelo Rui Couceiro “Já perdeu a conta aos livros e às bibliotecas que salvou. É cansativo, garante, mas os que gostam de ler incentivam-no: é o teu projeto de vida, mas não podes deixar de o fazer. E ele continua. Diz que é a mais bela maldição.”
E é mesmo.
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Rui Couceiro
A Mais Bela Maldição
Porto Editora 17,75€

